Emissão #35 - 20 Janeiro 2006
A 35ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO
MUNDO, difundida no sábado,
20 de Janeiro, entre as 17 e as 18
horas, na Rádio Urbana
(Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo
para o ar na segunda-feira,22 de Janeiro, entre as 19 e
as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (10 e 14 de Fevereiro)
já nos novos horários (sábados, entre as 17 e as 18 horas, e quartas-feiras,
entre as 21 e as 22 horas).
"Westindie", Schäl Sick Brass
Band (Alemanha)
- brass band, jazz, folk
Os Schäl Sick Brass Band a abrirem a emissão com o tema
"Westindie", um hipnótico instrumental indiano extraído do álbum “Tschupun”,
editado em 1999. O grupo surgiu em Colónia, capital cultural da província da
Renânia e fortaleza mediterrânica da Alemanha. Um dos muito emigrantes e
visitantes de todo o mundo que a encheram de sons coloridos foi Raimund Kroboth,
que em 1977 se instalou na margem direita do Reno. No dialecto local, aquela
parte da cidade é conhecida precisamente por "Schäl Sick" (lado errado). Isto
porque está do lado contrário à catedral e ao centro de Colónia, e porque é um
enclave protestante na católica Renânia. Partindo de uma secção de ritmo que tem
por base a tuba, a cítara popular e as percussões, os Schäl Sick Brass Band
utilizam o som das fanfarras da região alemã da Bavaria e da Boémia checa para
explorarem com inovação e versatilidade a música de outras culturas. Eles
combinam elementos de jazz com o rock, o funk, o
hip-hop o rap ou a folk. Um universo sonoro
influenciado pela Europa central e de Leste e pelo norte de África, onde
convivem ritmos cubanos, gregos, latinos, africanos e orientais, e instrumentos
de todo o mundo - tavil, kanjira, dhol,
dolki, omele, sekere, gangan,
thereminvox, entre muitos outros. Um ambiente festivo em que se celebra
a música de todo o planeta e onde o lema é "pensar global, soprar
local"...
"Teu Nome, Amarante", Luar Na
Lubre (Espanha)
- celtic folk
A
jornada musical prossegue com os embaixadores da folk celta
contemporânea. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trazem-nos o tema “Teu
Nome, Amarante”, extraído do álbum “Saudade”, editado no ano passado. Amarante é
o nome de várias aldeias galegas, muitas delas abandonadas por causa do
envelhecimento e da emigração. Uma música onde este nome representa também o
idioma galego, uma das ligações mais importantes da Galiza a Portugal e ao
Brasil. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a
tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O
grupo aposta agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu
último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os
quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos
depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike
Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre apresentam a
vocalista que os acompanha há cerca de dois anos, a portuguesa Sara Vidal (que
já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Um
disco onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de
García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam
de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à
América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto
deixar de parte as suas raízes celtas.
"Terra de Ninguém",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese
folk
As
músicas do mundo continuam com os Gaiteiros de Lisboa, que nos trazem o tema
“Terra de Ninguém”, retirado do álbum “Macaréu”, compilação editada em 2000. Uma
música escrita e cantada por Carlos Guerreiro, a quem se junta Pacman, dos Da
Weasel, fundindo o hip-hop com a folk. Neste álbum, o grupo
traz-nos ladaínhas populares ou os poemas de Fernando Pessoa, Alexandre O'Neill
e Amélia Muge. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora
música tradicional portuguesa, baseando-se nas tradições vocais, nos ritmos do
tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar
medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a
tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de
rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho,
Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O
seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como
os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a
“cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado”
(aerofone de palheta simples). Juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões
(aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Criando um
ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares, os
Gaiteiros de Lisboa ressuscitaram o gosto por uma certa música portuguesa de
raiz tradicional, arrastando para os seus concertos verdadeiras multidões de
pessoas a quem estas músicas pouco ou nada diziam.
"Justice", Tiken Jah
Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo,
soukous, african reggae
De regresso, mais uma vez, ao programa, Tiken Jah Fakoly
apresenta-nos agora o tema "Justice", extraído do álbum “Françafrique”, gravado
em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002. Trabalho em que se destacam as
colaborações de Anthony B, U-Roy (cuja voz acompanha Fakoly neste tema) e Yaniss
Odua, e onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a
situação sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste
africano, Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição
mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De
etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba
Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos
como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a
viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim
ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a
corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly
canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no
norte da Costa do Marfim, Guiné, Mali e Burkina Faso.
"Riongere",
Oliver 'Tuku'
Mtukudzi (Zimbabué) - tuku
A
viagem prossegue com Oliver 'Tuku' Mtukudzi e o tema "Riongere", retirado do
álbum "Tuku Music", lançado em 1999. Figura emblemática da música urbana
africana e uma das maiores estrelas do Zimbabué, o cantautor e guitarrista
Oliver Mtukudzi criou um género único chamado tuku. Uma aliança dos
ritmos da África austral, com influências da mbira, do
mbaqanga sul-africano, da zimbabueana jit music, do
katekwe, do urban zulu, das percussões dos Korekore, o seu
clã, e dos temas tradicionais shona, etnia que corresponde a três
quartos da população do Zimbabué. Oliver Mtukudzi começou a sua carreira em 1977
ao juntar-se aos Wagon Wheels, grupo lendário de que também fazia parte o poeta
revolucionário Thomas Mapfumo. Foi com músicos desta banda que ele formaria os
Black Spirits. Com a independência do seu país, Oliver torna-se produtor e
consegue editar dois álbuns por ano – a lista já vai nos 35 trabalhos de
originais. Pelo seu carácter inovador e pela voz generosa, a música de Oliver
Mtukudzi distingue-se facilmente dos outros estilos do Zimbabué. Um artista
popular pela capacidade de abordar os problemas económicos e sociais do seu
povo, e de seduzir o público com um humor contagioso e
optimista.
"Jhullay Lal", Sajjad Ali (Paquistão) - sufi music, ethno
pop
Seguimos agora
até ao Paquistão, país cuja herança musical é partilhada com o norte da Índia.
Sajjad Ali traz-nos então o tema “Jhullay Lal”, retirado do álbum “Aik Aur Love
Story”, lançado em 1998. Um hino sufi de exaltação, a que foram
adicionadas as batidas pop e os ritmos de dança. Uma música incluída no
álbum produzido pelo cantor e actor, trabalho que foi também a banda sonora do
filme do mesmo nome, o primeiro realizado por Sajjad Ali. Pioneiro da música
pop no Paquistão, Sajjad Ali alcançou a fama no final da década de 80,
destacando-se como um dos poucos cantores do género com um passado ligado ao
canto clássico, uma experiência que dá às suas canções populares uma
inconfundível profundidade e textura. Na sua aprendizagem, Sajjad tocou músicas
de lendários artistas clássicos como Ustad Bade Ghulam Ali Khan e Ustaad Barkat
Husain, familiarizando-se com instrumentos e estilos musicais como a
raga, o que lhe permitiu construir uma carreira sólida e ser hoje um
cantor aclamado. Para além do cinema, este tem vindo a participar em séries
dramáticas. Uma ligação à indústria que já vem da família, isto porque o seu pai
era um reconhecido actor e os irmãos Lucky Ali e Waqar Ali também têm carreiras
musicais. Numa altura em que os ritmos da bhangra estavam na ordem do dia na
música pop paquistanesa, Sajjad Ali teve a ousadia de se aventurar na
criação de baladas e temas menos ritmados. Hoje retorna mais ao ambiente
clássico, fazendo-se no entanto acompanhar de amostras de jazz e de batidas
sufi.
"Khalouni", Cheb
Mami (Argélia) -
pop-raï, hip-hop, rock, funk
Cheb
Mami traz-nos uma versão do tema “Khalouni” (Deixa-me), retirada do álbum
“Dellali” (A Amada), o qual foi editado em 2001. Trabalho onde este mistura uma
série de linguagens e influências sonoras, que vão da música africana ao
house, flamenco e reggae, e em que são convidados,
entre outros, Charles Aznavour, Ziggy (filho de Bob Marley), o famoso
guitarrista Chet Atkins ou o London Community Gospel Choir. Um álbum sofisticado
e expansivo, onde os registos vocais de Cheb Mami e dos restantes músicos são
acompanhados por instrumentos como o acordeão, as guitarras acústica e
eléctrica, o baixo, o violino, o violoncelo, o alaúde ou a debourka.
Paralelamente às origens de géneros ocidentais como o rock & roll,
o punk e o hip-hop, o raï surgiu na Argélia como uma
forma de arte recreativa e minoritária. No entanto, depressa ganhou contornos
políticos, destacando-se cada vez mais não só pela popularidade, ma sobretudo
pela sua controvérsia. Um dos renovadores deste estilo musical, marcado pela
atitude provocativa e pela expressão rebeliosa da juventude argelina, foi
precisamente Cheb Mami. Refugiado em Paris durante duas décadas, foi aí que este
foi construindo a sua carreira, misturando o raï com a dança, o
hip-hop, o funk e o rock. Conhecido em grande parte
devido à colaboração de Sting no seu tema “Desert Rose”, que se tornou um
sucesso em todo o mundo, Cheb Mami pretende então universalizar este género
tradicional, abrindo-o às influências ocidentais, sem no entanto perder a suas
raízes argelinas.
"Saudade", Elisete (Brasil)
- world electro, bossa nova, samba, forró,
baião
A fechar o programa, despedimo-nos com Elisete e o tema
“Saudade”, remisturado por Alon Ohana e extraído do álbum “Elisete – Remixes”,
editado no passado mês de Dezembro. A compositora, que diz cantar para alegrar
as pessoas do mundo, nasceu no Brasil mas desde 1991 que vive em Israel.
Enquanto que no primeiro disco enveredava pela bossa nova,
samba, forró, baião e por outros ritmos ecléticos, no
seu segundo trabalho as suas raízes brasileiras abriram-se finalmente ao mundo.
Dois temas seus foram mesmo incluídos na banda sonora do filme israelita “Há
Bua” (A Bolha). Agora é a vez das canções em português, acompanhadas por sons
electrónicos. Neste seu terceiro álbum, ela apresenta-nos uma colectânea das
canções presentes em “Luar e Café” e “Saudade”, desta feita remisturadas por
DJ’s e produtores de música electrónica israelitas. Apesar da maioria das suas
letras serem em hebraico, o ritmo brasileiro está sempre presente, razão pela
qual a música de Elisete tem uma grande aceitação. Nas canções, grande parte da
sua autoria, Elisete tenta conciliar o espírito alegre e descontraído do Brasil
com a difícil e dura realidade de Israel.
Jorge
Costa
Multipistas altera horário de emissão
Devido a alterações
na grelha de programação da Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão,
Covilhã e Guarda - 100.8 FM), até agora a única estação responsável pela
transmissão hertziana do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, será
necessário proceder a algumas modificações nos horários de emissão do formato,
as quais entram em vigor a partir de Fevereiro. Esta é também uma
forma de assegurar a difusão integral das repetições do programa, que por vezes
têm surgido com cortes graças aos incontornáveis compromissos informativos ou
publicitários daquela rádio.Enquanto que o
horário normal do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO se mantém nos
sábados, entre as 17 e as 18 horas, a repetição do programa
passa de segunda para quarta-feira, entre as 21 e as 22 horas.
Quanto às restransmissões, cada edição do programa continuará a ser reposta três
semanas após a primeira difusão, desta feita já no novo horário.Jorge
Costa
A minha amiga rádio...
A marcar a estreia
da cooperação com os programas de músicas do mundo existentes nas restantes
rádios locais e regionais portuguesas, no próximo dia 18 de Janeiro o
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO irá marcar presença, a convite
do realizador, na segunda hora do Canto Nómada, o programa de música tradicional portuguesa e do mundo
que André Moutinho apresenta às quintas-feiras, entre
as 22 horas e a meia-noite, na Torres Novas FM (100.8 FM). Em alternativa, a emissão poderá ser
escutada a partir de sexta-feira no podcast oficial.
Eis o texto da crónica: "Esta semana, no
âmbito de um trabalho de introspecção pessoal, uma estudante minha conhecida
procurava descobrir alguns objectos que tivessem influenciado a sua vida. Na
lista figuravam nomes como a banda desenhada ou o caderno de apontamentos, mas
para ajudar a jovem a encontrar outras referências, decidi então juntar-me à
reflexão.
Em meia dúzia de segundos dei conta de que uma das coisas que
me acompanha desde sempre é a minha amiga rádio. De acesso universal,
funcionamento simples e linguagem clara, a rádio é tão versátil e dinâmica como
um livro que se abre. Pegando algures no fino espectro electromagnético, e num
pequeno virar de frequência, com ela conseguimos atravessar meio mundo, criando
cenários tridimensionais imaginários que, apesar de efémeros, não deixam de
aspirar à ordem do onírico e do intemporal. Uma obra esboçada pela pena leve da
estática, onde cada um pode escrever a sua história recorrendo sobretudo ao
vocabulário da acústica.
Esta minha paixão platónica foi materializada no
rádio, aliás, num dos muitos rádios que nas duas últimas décadas me foram
passando pelas mãos. A pilhas ou eléctricos, com ou sem onda curta, saída
estereofónica ou entrada para microfone, a interminável linhagem de receptores
foi quase toda ela sacrificada em nome da oitava arte. O motivo era bom –
procurar a alma deste dispositivo capaz de transformar electricidade em sons
passíveis de significância –, mas o resultado foi apenas um retorcido emaranhado
de circuitos integrados, teclas órfãs e fios descarnados, já sem vida.
Na
minha infância, o iPod era uma caixa de sapatos onde guardava as cassetes quando
ia de férias para o campo, algumas delas meros registos de conversas
disparatadas com os primos, outras compilatórios dos sucessos que iam passando
no éter. À noite, quando os sons ganhavam autonomia perante a natureza e o
pequeno rádio se escondia por debaixo do lençol, deixando acesso unicamente um
led vermelho, era a vez dos novos acordes e cacofonias sonoras em
modulação de frequência, e das vozes distantes do entendimento em amplitudes
imaginárias, tantas quanto os rostos encobertos por elas.
Terminado o
breve exercício de introspecção, entre todos os transistorizados que conheço
escolhi o leitor de cassetes, hoje desmaterializado no vulgar mas muito prático
reprodutor de MP3. A magia que se reproduzia diariamente à minha frente saía
reforçada por aquele ronronar de fita e pelo clique mecânico que se ouvia no
final da cassete, quando as cabeças de leitura e gravação subiam.
Agora
que o audiovisual se desmaterializou numa infinidade de suportes virtuais,
discorrer acerca das virtudes da centenária rádio pode parecer puro saudosismo.
Mas a saudade aqui é apenas a do futuro da radiodifusão, daquilo a que técnica e
arte algum dia hão-de dar lugar. Para além da palavra, âncora da personalidade
inclassificável da telefonia, a salvação da rádio será o cruzamento de conteúdos
com outros meios e plataformas.
Se no que toca à técnica o
podcast se destaca na lista das potencialidades emergentes, já em
relação aos conteúdos 2006 foi mesmo o ano dos programas de música do mundo nas
rádios locais e regionais portuguesas, género infelizmente ainda raro nas
emissoras de cobertura nacional. Apesar da escassez de meios técnicos e de
recursos com que todos os obreiros radiofónicos da world music se
deparam, é preciso continuar a apostar em conteúdos que extravasem a leviandade
musical vingente. Esta é uma oportunidade de ouro para que se criem novos
formatos, novos músicos e novos públicos. Analógica por tradição ou revestida
pelo cristalino som digital, a minha e a sua amiga rádio continuará então a ser
uma construtora de consensos e ponte privilegiada de aproximação entre culturas
e saberes."Jorge
Costa
Emissão #34 - 6 Janeiro 2006
A 34ª emissão do
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 6
de Janeiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco
- 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na
segunda-feira, 8 de Janeiro, entre as 19 e as 20
horas, sendo reposta três semanas depois (27 e 29 de Janeiro) nos
horários atrás indicados.
"Natural Fractals", Rarefolk
(Espanha) - freestyle
folk/folk-rock
Os sevilhanos Rarefolk a inaugurarem a emissão com o tema
“Natural Fractals”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2006. Quarto e
último trabalho dos pioneiros do freestyle folk, uma mistura criativa
de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do
funk e da electrónica. O resultado é um raro estilo folk,
carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta,
oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação
original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e
Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial da violinista Elo
Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata
Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos
acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a
breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os
Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e
começaram a ter uma formação estável.
"Ataun", Kepa
Junkera
(Espanha) - basque folk
As músicas do
mundo prosseguem com Kepa Junkera que nos traz “Ataun”, tema retirado do seu
último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais
intimista e elaborado, Kepa Junkera leva-nos numa viagem por algumas das cidades
e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da
trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é
conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento
de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone
tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa
Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a
folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma
palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à
folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo,
das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de
Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon
Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o
Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy
Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile
& I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri
Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas
se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar
ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris
Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali,
Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck,
Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses
Júlio Pereira e Dulce Pontes.
"Homer's Reel", Capercaillie (Reino Unido) - celtic
folk
Os escoceses
Capercaillie de novo no programa, desta feita com o tema “Homer's Reel”,
extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais
popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo
com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o
violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os
Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida
reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands.
Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que
mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes
poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às
composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande
parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald
Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson,
Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael
McGoldrick.
"Semena-Wrock", Gigi (Etiópia) - world fusion,
afrofunk
Avançamos agora até à Etiópia com o tema “Semena-Wrock”, extraído do
álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é
uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as
formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos
acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina
melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o
jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente
nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill
Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram
introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o
célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas
com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e
moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura.
São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes.
Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do
sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista
Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota,
Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.
"Le Pays Va Mal", Tiken Jah
Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo,
soukous, african reggae
Tiken Jah Fakoly trouxe-nos o tema "Le Pays Va Mal", extraído
do álbum “Françafrique”, gravado em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002.
Trabalho em que se destacam as colaborações de Anthony B, U-Roy e Yaniss Odua, e
onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a situação
sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste africano,
Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição
mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De
etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba
Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos
como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a
viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim
ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a
corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly
canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no
norte da Costa do Marfim, Guiné, Mali e Burkina Faso.
"Shubra",
Natacha Atlas (Bélgica) - ethno pop, electro, chaâbi
A jornada musical prossegue com Natacha Atlas, que nos apresenta o tema
“Shubra”, retirado do álbum “Ayeshteni” (Tu Dás-me Vida), editado em 2001.
Trabalho produzido e gravado na cidade do Cairo, no Egipto, e em que também
participou o anglo-indiano Nitin Sawhney. A diva do ethno pop mistura
as sonoridades tradicionais do Médio Oriente e do norte de África com a
pop e a música electrónica. São sons onde não falta a influência do
clássico chaâbi mas, como ela própria diz, menos entediante e mais mal
comportado. Dona de uma voz poderosa e sedutora, Natacha Atlas cria um sinuoso e
hipnótico canto, acompanhado por batidas trip hop e incursões pelo
house ou o drum ‘n’ bass. A maior parte do seu repertório é
interpretado em árabe, mas ela também canta em inglês, francês e castelhano.
Filha de mãe inglesa e pai egípcio, Natacha Atlas nasceu na capital belga, mas
as suas raízes estendem-se ainda à Palestina e a Marrocos. Até aos oito anos,
ela viveu no bairro muçulmano de Bruxelas, altura em que a sua mãe, depois de se
ter divorciado, decidiu mudar-se com os filhos para Northampton, na Inglaterra.
A partir dos dezasseis anos, Natacha começa a envolver-se em pequenos projectos
musicais e a viajar pela Turquia e Grécia, países onde trabalharia como
dançarina do ventre. No início dos anos 90 integra como solista os Transglobal
Underground, grupo inglês pioneiro em fundir elementos da música tradicional
árabe, africana e hindu com elementos da música electrónica, ocupando o lugar de
vocalista e dançarina. Da sua carreira faz também parte a passagem pelos
Invaders of the Earth, grupo de Jah Wobble. Em 2001, Natacha Atlas foi nomeada
pelas Nações Unidas Embaixadora para a Boa Vontade no âmbito da Conferência
Internacional contra o Racismo. O público brasileiro e português certamente se
lembrará da sua participação num capítulo da novela da Globo "O Clone", em que a
cantora se interpreta a si mesma, cantando e
dançando.
"Khalouni", Souad Massi (Argélia) -
argelian folk, chaâbi
De
regresso ao programa, Souad Massi apresenta-nos “Khalouni" (Deixa-me), uma
mistura ibérica e norte-africana onde se evocam as raízes do raï e onde
a jovem canta lado a lado com Rabah Kaifa. Considerada a Tracy Chapman do
Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina.
Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma
activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto,
mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música
andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os
temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado em 2005.
Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar
mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez
lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na
adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco
Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a
vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música
country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os
tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do
Ocidente.
"Tuva Rock", Yat-Kha (Rússia)
- tuva rock, punk-folk
A
fechar o programa, despedimo-nos com os Yat-Kha, que nos trazem o tema "Amdy
Bayp", extraído do álbum "Tuva Rock", editado em 2005. Esta banda originária da
república russa de Tuva (região situada a sudoeste da Sibéria) foi fundada em
Moscovo em 1991 pelo vocalista e guitarrista Albert Kuvezin e pelo compositor
electrónico russo Ivan Sokolovsky. Farto de cantar temas xamânicos em grupos
típicos como os Huun-Huur-Tu, Kuvezin decidiu então juntar a música moderna do
Ocidente com a tradicional do seu país. O duo adoptou o nome de Yat-Kha (lê-se
iát-rá), em alusão a uma espécie de pequena cítara da Ásia central semelhante à
guzheng chinesa. Aos instrumentos tradicionais juntam-se então as
guitarras eléctricas, os instrumentos electrónicos e outros inventados pelo
grupo. Com a energia do rock, a banda rejuvenesceu uma das mais
extraordinárias tradições vocais do mundo, criando distorções e dissonâncias que
se aproximam do punk e do metal. As melodias e ritmos são
acompanhados pelas três vocalizações básicas do canto polifónico da Tuva: o
khoomei, o kargyraa e o sygyt. Técnica outrora muito
utilizada pelos povos da Ásia central para imitar os sons da natureza, e em que
uma única voz consegue emitir várias notas em simultâneo.
Jorge
Costa
World Music Charts Europe - Janeiro 2007
Eis o TOP 20
relativo ao mês de Janeiro dos 184 discos nomeados para a tabela europeia de
música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, a inversão nos dois lugares cimeiros e as
oito novas entradas no topo do painel: duas em estreia absoluta no WMCE e cinco
a subirem para os primeiros vinte lugares:
1º- HIRI, Kepa Junkera
(Espanha) - Elkar
mês passado: 2ºlugar 2º- ELECTRIC GYPSYLAND 2, vários (Roménia) -
Crammed
mês passado: 1ºlugar 3º-
ELECTRIC GRIOT LAND, Ba Cissoko (Guiné) - Totolo
mês passado: 5ºlugar
4º- THE IDAN RAICHEL PROJECT, The Idan
Raichel Project (Israel) - Cumbancha
mês passado: 13ºlugar5º- DIWAN 2, Rachid Taha (França, Argélia) -
Barclay/Wrasse
mês passado: 4ºlugar 6º- KETUKUBA, Africando (Senegal, vários) -
Stern's
mês passado: 3ºlugar
7º- MA YELA, Akli D (Argélia) -
Because
mês passado: 17ºlugar
8º- NEFTAKHIR, Maghrebika (Marrocos) -
Barraka
mês passado: 15ºlugar
9º- M'BEM DI FORA, Lura (Cabo Verde) -
Lusafrica mês passado: 27ºlugar
10º- DEDICATION, DAM (Palestina) - Red
Circle Music
mês passado: 14ºlugar11º- INTRODUCING, Bela Lakatos & The Gypsy Youth
Project (Hungria) - World Music Network mês passado: 32ºlugar12º- WE ARE THE SHEPHERDS, OMFO (Ucrânia) - Essay
Recordings
mês passado: 19ºlugar 13º-
BURLESQUE, Bellowhead (Reino Unido) - Westpark
mês passado: 6ºlugar
14º- DIALOGUE, Sondre Bratland &
Javed Bashir (Noruega) - Kirkelig Kultur Verksted
mês passado: 16ºlugar
15º- ÄLVDALENS ELEKTRISKA, Lena
Willemark (Suécia) - Amigo mês passado:
39ºlugar16º- KECE KURDAN, Aynur
(Turquia) - Kalan mês passado:
29ºlugar17º- DZUMBUS, Slonovski
Bal (Sérvia) - Bal Bazar estreia na tabela18º- EFFFECTO, Faltriqueira (Espanha) - Resistencia
mês passado: 48ºlugar19º- MASCARAS, Sergent García (Espanha) - EMI
mês
passado: 10ºlugar 20º- MARFUL,
Marful (Espanha) - Galileoestreia na tabela
Emissão #33 - 23 Dezembro 2006
A 33ª emissão do
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, um programa especial que conta
com entrevistas exclusivas aos Comcordas e
Mu, bandas que em Outubro estiveram no Festival Entrelaços, em
Castelo Branco, é difundida no sábado, 23 de Dezembro, entre as 17 e as
18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e
Guarda - 100.8 FM), e vai de novo para o ar na segunda-feira, 25
de Dezembro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta
três semanas depois (13 e 15 de Janeiro) nos horários atrás
indicados.
"Devoiche Belo, Tsurveno/Povdigni Si Milo
Libe/Vasilke, Mlada Nevesto", Angelite (Bulgária) - bulgarian
folk
As vozes búlgaras das Angelite estreiam esta emissão especial
com três canções de amor – “Devoiche Belo, Tsurveno”, “Povdigni Si Milo Libe” e
“Vasilke, Mlada Nevesto” –, um medley que faz parte do álbum “Balkan
Passions”, editado em 2001. À semelhança dos restantes países dos Balcãs, a
Bulgária é um território habitado por turcos, ciganos, macedónios, judeus,
arménios e romenos, grupos étnicos que ao longo do tempo foram moldando a música
desta região. Prova dessa convivência cultural é a lista de músicos que
participam neste trabalho: Orchestre Pirin, da Bulgária; Okay Temiz e Sezen
Aksu, da Turquia; Fanfare Ciocărlia, da Roménia; e Maria Farantouri, da Grécia.
Fundadas em 1952, as Angelite são um grupo de canto vocal composto por duas
dezenas de mulheres, e que combina elementos tradicionais da folk
búlgara com intervalos microtonais e a justaposição de escalas. São melodias
seculares que fazem alusão a elementos da vida diária, incorporando muitas das
vezes participações instrumentais e arranjos de compositores clássicos
contemporâneos. Dirigido pelo compositor búlgaro Georgy Petkov, o coro
colaborou, entre outros, com o saxofonista Jan Gabarek e com o Moscow Arts Trio.
O canto vocal é uma importante tradição búlgara, particularmente no Natal, em
que se destacam as melodias sacras ortodoxas, outrora cantadas apenas pelos
homens, ou os cânticos alusivos à quadra. Um estilo único, de grande riqueza
melódica e rítmica, possível graças a um desenvolvido controlo da respiração, e
que terá surgido no Médio Oriente na era pré-cristã.
"Rumba Para
Susi", Susana Seivane (Espanha) - galician folk, celtic
music
As
músicas do mundo prosseguem com Susana Seivane, que nos traz “Rumba Para Susi”,
um tema tradicional que aqui se apresenta numa versão adaptada para gaita e
pequena orquestra. Esta gaiteira é neta de Xosé Manuel Seivane, um dos mais
conceituados artesãos galegos. Diz a tradição que a madeira de buxo ou buxeiro,
utilizada na construção das gaitas de foles galegas, deve ficar mais de cem anos
à espera de um artesão que lhe consiga descobrir a alma e transformá-la no
instrumento musical. O buxo com que os Seivane fazem gaitas desde 1939 serviu
precisamente de inspiração para o nome deste disco "Alma de Buxo". No seu
segundo álbum, editado em 2002, a jovem segue a tradição musical da Galiza com
várias xotas, muiñeiras, marchas e outras composições
típicas daquela região, adicionando-lhes no entanto a bateria, o baixo e algumas
amostras de música pop. E não é de espantar a sua mestria no manejo da
gaita-de-foles, até porque começou a tocar este instrumento aos quatro anos.
Neste álbum, Susana Seivane é acompanhada pela sua banda e por músicos como o
ex-Milladoiro Rodrígo Romani, Kepa Junkera, Uxía Senlle, Guadi Galego dos
Berrogüetto ou Uxía Pedreira dos Chouteira. Um trabalho em que esta presta
homenagem aos gaiteiros da sua terra, como é o caso de Pepe Vaamonde e do
próprio avô, que gravou duas composições do seu repertório. São duas gerações
reunidas num só disco.
"Pandeirada do Che", Luar Na
Lubre (Espanha)
- celtic folk
Regresso à Galiza com
os embaixadores da folk celta contemporânea. Naturais da Corunha, os
Luar Na Lubre trouxeram-nos o tema “Pandeirada do Che”, extraído do álbum
“Saudade”, editado este ano. Uma música recheada de alusões a Che Guevara, e
onde Celso Emilio Ferreiro toca o pandeiro lado a lado com os viguenses Xulio
Formoso e Farruco Sesto. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem
a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências
externas. O grupo aposta agora na América do Sul, de onde emana a música que
integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan
Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e
que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de
Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre apresentam
a vocalista que os acompanha há cerca de dois anos, a portuguesa Sara Vidal (que
já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Está
assim consolidada a intenção do grupo em sublinhar a influência portuguesa para
melhor definir a sua identidade galega, neste Portugal além-Minho. Um disco onde
resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García
Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de
nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à
América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto
deixar de parte as suas raízes celtas.
"Vinavata", Mu (Portugal) - folk
Os
portuenses Mu, uma jovem banda folk cuja alegria não deixa ninguém
indiferente, com “Vinavata”, um dos temas gravados em Espanha no Festival Danzas
Sin Fronteras, e que faz parte do seu primeiro álbum “Mundanças”, editado no ano
passado. O título deste trabalho, em que também participam os Dazkarieh, mais
não é do que um trocadilho de palavras que descreve na perfeição o mundo em
mutação e recheado de dança em que os Mu estão mergulhados. Eles nasceram no
Porto em 2003 e foram procurar inspiração nas culturas europeias e nos
instrumentos de todo o mundo. Os ritmos e vozes tradicionais servem então de
referência a este grupo que reinventa sobretudo danças balcânicas e eslavas, mas
em cuja palete sonora não faltam também os sons ciganos, bretões, irlandeses ou
mesmo africanos. Uma banda jovial, de estilo "roufenho, nómada e circense",
conforme já lhes chamaram, que tem feito sucesso em festivais como o Andanças,
em S. Pedro do Sul, o Intercéltico de Sendim, ou o Danzas sin Fronteras, em
Espanha. Na sua quarta formação, os Mu integram os músicos Hugo Osga, Nuno
Encarnação, Diana Azevedo, Sophie Kaliasz, Sérgio Calisto e Sara
Barbosa.
"Diamantta Spaillit", Mari Boine Persen (Noruega) -
joik, jazz, blues
Avançamos agora até ao norte da Europa com a norueguesa Mari
Boine Persen, que nos traz o tema “Diamantta Spaillit” (Rena de Diamantes),
extraído do álbum do mesmo nome, lançado em Abril deste ano. Com mais de vinte
anos de carreira, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo
reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, povo que habita
a chamada Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine
cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas
escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada
herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi
durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica da qual Mari
Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo e a espiritualidade, lembrando os tempos
em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos
sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os
blues, o jazz, o rock e mesmo a música electrónica. São sons
mais entoados que cantados, onde se evoca a beleza da terra e das montanhas, o
sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições
pré-cristãs.
"Kokko", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish
folk/suomirock
A
viagem prossegue com as Värttinä e o tema “Kokko”, extraído do álbum do mesmo
nome, editado em 1996. De regresso ao programa, a mais conhecida banda da
folk contemporânea finlandesa trouxe-nos uma apelativa mistura de
pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica,
naquele que foi o primeiro trabalho onde o grupo tentou juntar a música
tradicional com sons modernos. As Värttinä são conhecidas por terem inventado
uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da
Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia –
reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do
finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa.
Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas
folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither,
instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram
o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer
arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente
fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes
enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a
instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino,
acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base
rítmica sólida em que se mantém o vigor e o calor vocal de
sempre."Ma Betty Boop À
Moi", Opa Tsupa (França) - jazz manouche 
A fechar o programa, despedimo-nos com os Opa Tsupa, que
nos trazem o tema "Ma Betty Boop À Moi", extraído do álbum "Bastringue", editado
este ano. Este quinteto acústico de jazz manouche, nascido em 2000,
mistura o som de Django Reinhardt, um dos mais importantes guitarristas de jazz
de todos os tempos, com o gypsy swing, a musette, o
rock, o funk, a bossa nova e a chanson
française. O seu repertório é composto por criações originais, inspiradas
em géneros como o swing dos anos 30, a música judaica e as músicas
tradicionais ciganas, e em artistas tão diversos como Jacques Higelin, Paris
Combo ou Latcho Drom. Para isso, os Opa Tsupa utilizam diversos instrumentos
acústicos de corda – bandolim, contrabaixo, violino, guitarra, banjo,
oukoulélé – aliando o swing e o humor a uma sonoridade que se
aproxima à da dos Bratsch, dos Primitifs du Futur ou dos
Sansévérino.Jorge Costa
Emissão #32 - 9 Dezembro 2006
A 32ª emissão do
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 9
de Dezembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco
- 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na
segunda-feira, 11 de Dezembro, entre as 19 e as 20
horas, sendo reposta três semanas depois (30 de Dezembro e 1 de
Janeiro) nos horários atrás indicados.
"Are You Gyspifiled?
(megamix)", Olaf
Hund (França) & Koçani Orkestar (Macedónia),
Taraf de Haïdouks (Roménia) e Ursari de Clejani (Roménia)
- gypsy brass band,
gypsy oriental music
A abrir a emissão, o compositor francês e produtor de música
electrónica Olaf Hund com a remistura “Are You Gypsified?”, extraída da
colectânea “Electric Gypsyland”, editada no ano passado. Uma série de
reinterpretações e de reinvenções poéticas de músicos europeus e americanos, em
que o ponto de partida é a música cigana. Neste megamix, Olaf Hund
mistura temas de três das mais conhecidas bandas dos Balcãs: os Koçani Orkestar,
os Taraf de Haïdouks e os Ursari de Clejani. Originários da cidade macedónia do
mesmo nome e liderados pelo trompetista Naat Veliov, os Koçani Orkestar combinam
o som das fanfarras com ritmos de dança turcos e búlgaros e melodias ciganas dos
Balcãs. O resultado é uma frenética festa sonora, localmente apelidada de
Romska Orientalna Musika (música cigana oriental). Já os Taraf de
Haïdouks ("banda de bandidos") são originários da cidade romena de Clejani,
situada a sudoeste de Bucareste. Uma dezena de instrumentistas e cantores, com
idades entre os 20 e os 78 anos, descobertos em 1990 por dois jovens músicos
belgas que se apaixonaram pela sua sonoridade e decidiram levá-los até à Bélgica
para os darem a conhecer ao mundo. A sua música, que varia entre as baladas e as
danças, é uma mistura de estilos locais, representando na perfeição a riqueza
das folk romena. Finalmente, e ainda na mesma cidade, encontramos os
Ursari de Clejani, representantes do estilo vocal ursari e descendentes
de uma família de domadores de ursos, e que no passado colaboraram num dos
álbuns dos Taraf de Haïdouks.
"Urrutiko Polkak",
Alboka (Espanha) -
basque folk
As
músicas do mundo prosseguem com os Alboka e o tema “Urrutiko Polkak”, extraído
do álbum “Lau Anaiak” (Os Quatro Irmãos), lançado em 2004. Quarto trabalho do
grupo que, para além das danças e melodias populares, retiradas dos cancioneiros
bascos, integra temas instrumentais – então uma novidade no folk basco,
mais habituado a trabalhos vocais – e novas canções, compostas por Allan Grifing
e traduzidas para euskera pelo escritor basco Juan Garcia. O agora duo,
formado pelo acordeonista Joxan Goikoetxea e pelo multi-instrumentista irlandês
Alan Griffin (que há mais de vinte anos vive no País Basco), foi criado em 1994
juntamente com mais dois músicos daquela região autónoma espanhola: Txomin
Artola e Josean Martín Zarko. Da sua história fazem também parte as vozes de
Benito Lertxundi e Xabi San Sebastián, o violinista Juan Arriola e a cantora
húngara Marta Sebestyén, que colaborou num dos álbuns do grupo. Um ensemble cujo
objectivo é o de interpretar música tradicional exclusivamente de forma
acústica, sua imagem de marca, e que foi buscar o nome à alboka, um
aerofone pastoril basco, construído com dois chifres de vaca, e cuja sonoridade,
parecida com a da gaita, se situa entre a sanfona e a bombarda francesa.
Juntam-se-lhe o acordeão, o bouzuki, o bandolim, o ttun-ttun
(tamboril basco, da família do saltério), a guitarra acústica, o violino, a
harpa, a gaita, a flauta e as percussões. Uma ponte entre a música tradicional e
a folk contemporânea, em que a energia basca se une à pureza
irlandesa.
"Sort of Slides: Choice Language/Bring Out the
Wilf/Come Ahead Charlie", Capercaillie (Reino Unido) - celtic
folk
Os escoceses
Capercaillie regressam ao programa, desta feita com o medley “Sort of
Slides: Choice Language/Bring Out the Wilf/Come Ahead Charlie”, extraído do
álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda
da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com
instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o
violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os
Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida
reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands.
Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que
mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes
poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às
composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande
parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald
Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson,
Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael
McGoldrick.
"Yehlisan'Umoya Ma-Afrika", Busi Mhlongo (África do Sul) - afro pop, maskanda,
mbaqanda
Avançamos agora até à África do Sul com Busi Mhlongo, que nos traz o
tema "Yehlisan'Umoya Ma-Afrika", extraído do álbum "Urbanzulu", lançado em 2000.
Disco em que colaboraram vários músicos, entre eles, dois da banda Phuzekhemisi,
que com ela compuseram este álbum simultaneamente africano e ocidental. A diva
da afropop foi a primeira mulher a internacionalizar a
maskanda, género tradicional zulu que expressa a alegria e o
lamento presentes na moderna vida da urbana África do Sul, e outrora
característico dos trabalhadores e migrantes rurais. No entanto, Busi Mhlongo
percorre outros estilos sul-africanos, fundindo-os com o jazz, o funk,
o rock, o gospel, o rap e o reggae, e usando
coros e instrumentos não tradicionais. Ao longo da sua carreira, actuou com
alguns dos melhores nomes do jazz e estrelas da mbaqanga (género vocal,
desenvolvido a partir de um estilo negro urbano, em que se destacam as vozes
graves masculinas, e que se transformou no mqashiyo, um popular género
de dança). Impedida de regressar à África do Sul, o que só aconteceria nos anos
90, Busi Mhlongo passou vários anos em Portugal, cantando temas populares e
canções africanas em casinos. Durante o exílio, ela viveu ainda em Londres, no
Canadá e em Amesterdão, cidade onde trabalhou com músicos africanos e
desenvolveu o seu estilo único. Não é por acaso que, nas suas letras, Busi
Mhlongo fala da necessária reconciliação entre sul-africanos com diferentes
aspirações políticas.
"Les Temps On Changé", Amadou &
Mariam (Mali) -
afropop blues
A
dupla Amadou & Mariam de volta ao programa, desta feita com o tema “Les
Temps Ont Changé”, extraído do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara),
editado em 2002. Uma música onde o casal critica o individualismo das novas
gerações, utilizando a mais roqueira pop africana. Um afropop
blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e
riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas
como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. E como é habitual, não
faltam as alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao
amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música
tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por
convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o
marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e
Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais
tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs,
banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e
conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A
partir de então tornaram-se inseparáveis na vida e na carreira. Cantando em
francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia
maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a
pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o
funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual
recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis
que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando
universal a música daquele país.
"Kadife",
Richard Hagopian (EUA) & Omar Faruk
Tekbilek (Turquia) -
bellydance
A viagem
prossegue com Richard Hagopian e Omar Faruk Tekbilek, que nos trazem "Kadife",
tema extraído do álbum "Gypsy Fire", lançado em 1995. Uma recriação do ambiente
underground multiétnico da Oitava Avenida em Nova Iorque na década de
1950, onde ciganos, arménios, turcos, judeus, gregos e árabes tocavam juntos.
Álbum que reúne alguns dos melhores músicos do Médio Oriente, Europa de Leste e
Estados Unidos da América, e em que participam ainda o lendário saxofonista
turco Yuri Yunakov; Hasan Iskut, tocador de kanun, o "piano" da música
turca; o violinista Harold Hagopian, filho de Richard Hagopian; o percussionista
Arto Tunçboyaciyan; o guitarrista Ara Dinkjian e o baixista Chris Marashlian.
Considerado um dos melhores tocadores de alaúde do planeta, Richard Hagopian é
também um dos mais reconhecidos músicos e etnomusicologistas de ascendência
arménia. Ele nasceu na Califórnia, nos Estados Unidos, e aprendeu a tocar
violino e clarinete aos oito anos. Mais tarde, estudou com o famoso artista
arménio Garbis Bakirgian. Hoje diz tocar mais de cinquenta instrumentos. Omar
Faruk Tekbilek é também um virtuoso multinstrumentista. Ele iniciou a sua
carreira musical aos oito anos com a kaval (uma pequena flauta
diatónica), tendo aprendido a tocar instrumentos como a ney (flauta de
bambú), a zurna (tipo de oboé), a baglama (alaúde de braço
comprido) ou o oud (alaúde árabe). A sua música, enraizada na tradição
turca, foi influenciada por múltiplos estilos e instrumentações árabes e
orientais, emanando misticismo, romance e imaginação. Radicado em Nova Iorque,
ele colabora sobretudo com o produtor e guitarrista norte-americano Brian Keane,
a cujas bases electrónicas acrescenta os sons da flauta e da
percussão.
"Sidi H’Bidi", Les Boukakes (França) -
raï n'rock
Os
Les Boukakes apresentam-se com o tema "Sidi H’Bidi", extraído do seu último
álbum "Bledi", editado em 2004. Um trabalho onde o raï argelino e o
gnawa marroquino surgem à mistura com o rock e a música
electrónica, provando ser possível e agradável a combinação entre ocidente e
oriente. Esta banda masculina de sete elementos, formada em 1998, é liderada
pelo cantor argelino Bachir Mokhtare e inclui músicos tunisinos e franceses. Os
Boukakes, que no passado mês de Novembro foram nomeados para os BBC Radio 3
Music Awards, foram buscar o seu nome à mistura fonética de dois típicos
insultos racistas. Uma reacção - pouco chocante, no entender deles - às
referências menos abonatórias que costumavam receber quando se estrearam nas
ruas. Sem fazerem comentários políticos ostensivos nas suas canções, os Boukakes
apelam deliberadamente à resistência ao status quo e à ignorância
generalizada. Letras que são combinadas com melodias orientais e instrumentos
diversos, como o karkabou/qarqabou (grandes castanholas metálicas
marroquinas), a derbouka (instrumento de percussão magrebino), o
bendir (outro instrumento de percussão), o tar (alaúde
iraniano), o duf (espécie de pandeireta), a tabla, o
banjo, a guitarra ou o baixo. Anos depois, eles passaram das ruas para
os bares e dos pequenos concertos para os festivais, encontrando finalmente o
seu público. Desde então, têm partilhado o palco com músicos e bandas famosas
como os Zebda, The Wailers, Manu Chao, Natacha Atlas, Taraf De Haïdouks, Cheikha
Rimitti e Rachi Taha. Em 2004, o seu raï n'rock conquistou finalmente
grande projecção, ao ganharem diversos prémios
profissionais.
"Le Mec Aux
Tics", Opa Tsupa (França) - jazz manouche 
Os sons deste planeta musical continuam com os Opa Tsupa,
que nos trazem o tema "Le Mec Aux Tics", extraído do álbum "Bastringue", editado
este ano. Os Opa Tsupa são uma formação de jazz manouche, nascida em
2000. Este quinteto acústico mistura o som de
Django Reinhardt, um dos mais importantes guitarristas de jazz de todos os
tempos, com o gypsy swing, a musette, o rock, o
funk, a bossa nova e a chanson française. O seu
repertório é composto por criações originais, inspiradas em géneros como o swing
dos anos 30, a música judaica e as músicas tradicionais ciganas, e em artistas
tão diversos como Jacques Higelin, Paris Combo ou Latcho Drom. Para isso, os Opa
Tsupa utilizam diversos instrumentos acústicos de corda - bandolim, contrabaixo,
violino, guitarra, banjo, oukoulélé - aliando o swing e o
humor a uma sonoridade que se aproxima à da dos Bratsch, dos Primitifs du Futur
ou dos Sansévérino.
"Rumelàj", Djamo (França) - gypsy
music
Seguem-se os Djamo, que mais uma vez regressam ao programa,
trazendo-nos agora o tema "Rumelàj", extraído do álbum "Chants Tziganes
Métissés". Um ensemble françês que tem como repertório principal os cantos e a
música cigana mestiça. Este jovem grupo originário da região de
Poitou-Charentes, localizada no centro-oeste de França, leva-nos à descoberta
das músicas ciganas e magrebinas. Neste álbum, eles são acompanhados por outros
embaixadores dos sons mestiços, entre eles os Dikès e, precisamente, os Opa
Tsupa.
"1000 Mirrors", Badi
Assad (Brasil) - brazilian
music
A fechar o programa, despedimo-nos com Badi Assad e o tema
"1000 Mirrors", extraído do seu último trabalho "Wonderland", editado este ano.
Este foi produzido por Jacques Morenlenbaum, e conta com a participação especial
de Seu Jorge, entre outros músicos. Um álbum onde Badi Assad desmonta uma série
de espelhos humanos, falando com a voz e com a percussão do próprio corpo sobre
a violência doméstica, o alcoolismo ou a prostituição. Badi, cujo verdadeiro
nome é Mariângela, foi baptizada em pequena pela mãe com parte do apelido
libanês do pai, o qual em árabe significa Leão Milagroso. A cantora e
compositora brasileira, nascida em São João da Boa Vista, no estado de São
Paulo, começou como violinista clássica e aperfeiçoou a sua técnica
instrumental, deixando para trás a formação académica e o universo da música
erudita, que trocou pelo ritmo das canções da música popular. Tal como os irmãos
violinistas Sérgio e Odair, que hoje formam o duo Assad, Badi começou a carreira
como instrumentista, primeiro ao piano e depois à guitarra (conhecida no Brasil
por violão). Em 1998, um problema na mão obrigou-a a ficar dois anos sem tocar,
até que acabou pode descobrir outra forma sublime de expressão: o
canto.
Jorge Costa
World Music Charts Europe - Dezembro 2006
Eis o TOP 20
relativo ao mês de Dezembro dos 188 discos nomeados para a tabela europeia de
música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, a nova liderança e as oito novas entradas
no topo do painel: cinco em estreia absoluta no WMCE e três a subirem para os
primeiros vinte lugares:
1º-
ELECTRIC GYPSYLAND 2, vários (Roménia) - Crammed
mês passado:
4ºlugar
2º-
HIRI, Kepa Junkera (Espanha) - Elkar
mês passado: 2ºlugar
3º- KETUKUBA, Africando
(Senegal, vários) - Stern'smês passado:
56ºlugar4º- DIWAN 2, Rachid Taha
(França, Argélia) - Barclay/Wrasse mês
passado: 159ºlugar5º- ELECTRIC GRIOT
LAND, Ba Cissoko (Guiné) - Totolo
mês passado: 18ºlugar6º- BURLESQUE, Bellowhead (Reino Unido) - Westpark
mês
passado: 13ºlugar 7º- IDJAGIEĐAS, Mari
Boine (Noruega) - Emarcy (Universal)
mês passado: 11ºlugar 8º- PASJA LEGENDA, Brina (Eslovénia) - DruGod
mês
passado: 3ºlugar 9º- ABACABOK, Tartit
(Mali) - Crammed
mês passado: 17ºlugar 10º- MASCARAS, Sergent García (Espanha) - EMI
mês
passado: 19ºlugar11º- GOLDEN AFRIQUE
VOL. 3, vários - Network Medien
mês passado: 7ºlugar 12º- EOLH, Almasala (Espanha) - Ventilador
mês
passado: 12ºlugar13º- THE IDAN
RAICHEL PROJECT, The Idan Raichel Project (Israel) -
Cumbanchaestreia na
tabela14º- DEDICATION,
DAM (Palestina) - Red Circle Musicestreia na tabela15º- NEFTAKHIR, Maghrebika (Marrocos) -
Barrakaestreia na
tabela16º- DIALOGUE, Sondre
Bratland & Javed Bashir (Noruega) - Kirkelig Kultur Verkstedmês passado: 22ºlugar17º- KABYLE MENTAL, Akli D (Argélia) -
Becauseestreia na
tabela18º- SAVANE, Ali Farka
Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 1ºlugar
19º- WE ARE THE
SHEPHERDS, OMFO (Ucrânia) - Essay Recordingsestreia na tabela
20º- ALMINARES
MEDITERRANEOS, Caravasar (Espanha) - Resistencia
mês passado: 9ºlugar
Emissão #31 - 25 Novembro 2006
A 31ª emissão do
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 25
de Novembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco
- 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na
segunda-feira, 27 de Novembro, entre as 19 e as 20
horas, sendo reposta três semanas
depois (16 e 18 de Dezembro) nos horários atrás indicados.
Uma edição em que se destaca a rubrica Caixa de
Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente
dedicada aos melhores temas que passaram nas últimas dez emissões deste
programa. Eis a listagem do melhor dos melhores temas do
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO
MUNDO:
"Ghole Pamtschal", Schäl Sick Brass
Band (Alemanha) - brass band, jazz,
folk"Iddjagieđas", Mari Boine Persen (Noruega)
- joik, jazz, blues"Kekko", Kimmo
Pohjonen (Finlândia) -
folk-rock, electronic folk"Olhos de Maré", Dazkarieh
(Portugal) - folk rock, world
fusion"Per la Boca",
L'Ham de Foc (Espanha) - traditional
folk"Todii", Oliver
'Tuku' Mtukudzi
(Zimbabué) - tuku"Françafrique",Tiken Jah
Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african
reggae
"Ghali Ya Bouy", Smadar
Levi (Israel, EUA) -
bellydance"El Wejda", Mariem Hassan & Leyoad (Saara Ocidental) - haul, sahrawi music
"The Beat Of Love", Trilok
Gurtu (Índia) -
world, jazz, khylal (os dados sobre estes
temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram
emitidos)Jorge
Costa
Emissão #30 - 11 Novembro 2006
A 30ª emissão do
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 11
de Novembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco
- 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na
segunda-feira, 13 de Novembro, entre as 19 e as 20
horas, sendo reposta três semanas depois (2 e 4 de Dezembro) nos
horários atrás indicados.
"Mile Marbshaisg Air A Ghaol", Capercaillie (Reino Unido) - celtic
folk
Os
escoceses Capercaillie a inaugurarem a emissão com o tema “Mile Marbhaisg Air A
Ghaol” (Mil Feitiços no Amor), extraído do álbum “Choice Language”. Neste
trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde
amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o
bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados
em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta
e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música
tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de
um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos
contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos.
Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com
mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo
fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen
Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James
Mackintosh e Michael McGoldrick.
"Tristos Ulls", L'Ham de
Foc (Espanha) -
traditional folk
Os
valencianos L’Ham de Foc (Anzol de Fogo) regressam mais uma vez ao programa,
desta feita com “Tristos Ulls”, tema extraído do seu terceiro e último álbum
“Cor de Porc” (Coração de Porco), editado no ano passado. Desde 1998 que os
L’Ham de Foc se servem de mais de trinta instrumentos acústicos mediterrânicos –
darbuka, bendir, gaitas galega e búlgara, violino, sanfona,
saltério, bouzouki, alaúde e cítara são alguns deles – para criarem
atmosferas intensas e mágicas. Utilizando uma orquestração tradicional, mas
socorrendo-se de uma linguagem actualizada, os L’Ham de Foc entrelaçam a música
medieval ocidental, do Médio Oriente ou do Mediterrâneo oriental, num universo
de sons africanos, europeus e orientais, criando um conglomerado sonoro que se
concentra em redor do Mediterrâneo. As percussões são a base para os textos e
melodias modais tecidas pela voz de Mara Aranda, que é acompanhada por
instrumentos de corda e sopro, tocados por Efrén López. Contrariando a tendência
crescente da folk actual pelos ritmos electrónicos, os L’Ham de Foc
confiam na simplicidade do som acústico e na pureza da música medieval. Algo que
os tornou uma referência em todo o mundo no que toca à música
tradicional.
"Eixe Elástico", Xosé Manuel Budiño (Espanha) - folk, celtic music
O galego Xosé Manuel Budiño com "Eixe Elástico", mais um tema
extraído do seu segundo álbum "Arredor", lançado em 2000. Um trabalho eclético e
vanguardista, em que este jovem de Moaña - localidade com grande tradição
gaiteira, situada junto a Pontevedra - pretendeu dar um salto definitivo na sua
carreira artística. O álbum aproxima-se de géneros como o funky, o
drum'n'bass, o rock, a new age e a folk,
numa panóplia de ritmos e timbres que fazem dele um dos mais ousados tendo como
protagonista um instrumento tradicional. Xosé Manuel Budiño procura então
adaptar a gaita-de-foles à era da música electrónica, servindo-se da técnica
para extrair dela e de outros instrumentos um universo infinito de harmonias,
melodias e ritmos. Outro objectivo de Budiño é o de dar a conhecer a música
criada na Galiza, numa viagem em redor de territórios físicos e sonoros. Entre
outros instrumentos, nos doze temas deste disco fazem-se ouvir as gaitas galega
e irlandesa, o low whistle, o bouzouki, o baixo, o acordeão e
o clarinete. Um trabalho onde participam os músicos Leandro Deltell, Xan
Hernández, Pedro Pascual, Xavier Díaz e Pablo Alonso, e em que são convidados
especiais José Climent, o bretão Jacky Molard, as galegas Leilía e Mercedes
Peón, os escoceses Donald Shaw e Tony McManus, bem como Ove Larsson, Paco Ibáñez
e William Gibbs.
"Yekanini", Shiyani Ngocobo (África do Sul) -
maskanda
Avançamos agora até à África do Sul com o tema "Yekanini" (Tudo Está
Perdido), extraído do álbum "Introducing Shiyani Ngcobo", lançado em 2004. O
mestre da maskanda nasceu em Umzinto, na costa sul de KwaZulu-Natal,
região marcada pela pobreza e pelo êxodo urbano. Na infância, foi com o irmão
mais velho que Shiyani Ngcobo construiu a sua primeira igogogo, uma
guitarra feita a partir de uma lata de óleo. Fiel à estética inicial da
maskanda, há mais de três décadas que o músico se dedica a este género,
associando-lhe no entanto uma variedade de ritmos provenientes de outros estilos
musicais. Com uma precisão elástica e um repertório diversificado, Shiyani
Ngcobo dá voz aos dilemas e sonhos de uma geração de sul-africanos dos tempos do
apartheid, sem no entanto cair nos seus estereótipos. A
maskanda é um estilo tradicional zulu, surgido no início do
século XX e associado aos trabalhadores e migrantes rurais, os quais cantavam
sobre a sua nova vida na cidade e lembravam com nostalgia o passado no campo.
Originalmente consistia numa técnica musical, conhecida por ukupika,
que mais não era senão uma forma de adaptar ritmos tradicionais à guitarra
acústica. Um género identificável pelas secções rápidas faladas ao estilo da
izibongo, a poesia religiosa zulu. Na maskanda, em
que subsistem reminescências dos tempos pré-coloniais, cada variante surge
associada a uma comunidade regional sul-africana, diferenciando-se de acordo com
os ritmos ou diferentes padrões de dança.
"Saye Mogo Bana",
Issa Bagayogo (Mali) - mandig, wassoulou,
afro-electro
Uma viagem até ao Mali com Issa Bagayogo e o tema “Saye Mogo Bana”,
extraído do álbum “Timbuktu”, o segundo deste cantautor e editado em 2002. Issa
Bagayogo cresceu numa pequena aldeia isolada, tendo então aprendido a tocar a
kamele n’goni (uma harpa de caçador, equipada com seis cordas). Nos
anos 90 foi até à capital, Bamako, onde conheceu o produtor Yves Wernert e o
guitarrista Moussa Kone. Juntos decidiram fundir dois géneros tradicionais da
música do Mali – o mandig e o wassoulou – com o
techno (no seu país, Bagayogo é mesmo conhecido por “Techno-Issa”). O
resultado é um género chamado de afro-electro. As sonoridades
griot e as velhas melodias do deserto cruzam-se então com a
dub e com a música electrónica de dança. Um híbrido entre sons
tradicionais e electrónicos que abre novas fronteiras às centenárias raízes
Wassulu do sudoeste do Mali. O nome escolhido para este trabalho presta
homenagem à cidade maliana que outrora integrou a rota de caravanas que
atravessava o Saára e que foi um importante centro de expansão do Islão. Nas
letras deste disco, Issa Bagayogo deixa mesmo clara a esperança de que Timbuktu,
capital intelectual e espiritual no final da dinastia Mandingo Askia (século
XVI) seja uma cidade multi-étnica, onde muçulmanos, cristãos e vários grupos
étnicos do Mali consigam viver em tranquilidade. Acompanhado por um coro
feminino, Issa Bagayogo aborda assuntos como a comunidade, o casamento, a
tolerância racial, a globalização e a toxicodependência. No tema que escutámos,
a morte é a principal referência. Uma canção antiga, à mistura com percussão e
cordas eléctricas, onde se recorda que "a morte leva-nos a carne mas não o
nome”…
"Sahara Neb Gija",
Mariem Hassan & Leyoad (Saara Ocidental) - haul, sahrawi music 
Os sons deste planeta
musical continuam com o tema “El Wedja”, extraído do álbum “Mariem Hassan com
Leyoad”, editado em 2002. Mariem Hassan é uma das figuras máximas da música
sarauí e símbolo da luta deste povo pela independência. Compositora,
letrista e dona de uma voz excepcional, Mariem canta com uma intensidade
dilacerante o amor, a fé e o sofrimento da população do Saara Ocidental, antiga
colónia espanhola que em 1975 Marrocos e a Mauritânia dividiram entre si. À
semelhança de dezenas de milhares de sarauís, a jovem Mariem Hassan foi então
obrigada ao exílio, refugiando-se com a família durante 27 anos na parte mais
inóspita do deserto do Saara, no sul da Argélia. A criação de grupos musicais
foi uma forma encontrada por muitos para amenizar a vida dura dos acampamentos.
Mariem Hassan, que actualmente vive em Sabadell (Barcelona), colabora há quase
três décadas com diversos grupos de música sarauí, cantando na Europa,
América e África. Tudo para que o mundo conheça a situação de um povo exilado e
de uma artista que anseia poder regressar algum dia em liberdade a Smara, a
cidade em que nasceu. Evocando os exilados e os mártires da guerra contra
Marrocos, Mariem Hassan canta o haul, um blues do deserto,
carregado de electricidade e hipnotismo, acompanhada pela percurssão seca do
tebal (tambor grande, tocado com as mãos pelas mulheres) e pelo
tidinit (um alaúde rústico de quatro cordas, gradualmente substituído pela guitarra eléctrica), e esculpido
pelas guitarras eléctricas.
"Maname Diname", Cheb I
Sabbah (Argélia, EUA) -
hindustani music
A viagem prossegue com Cheb I Sabbah,
que nos traz "Maname Diname", tema extraído do álbum "Krishna Lila", lançado em
2002. Terceiro trabalho deste DJ argelino de ascendência judaica, que deixou o
seu país na década de 60 e actualmente vive em São Francisco, nos Estados
Unidos. Chebijii, nome pelo qual Cheb I Sabbah gosta de ser tratado, passou
várias décadas a reunir sons nativos de Marraquexe, Nova Iorque e Nova Deli,
sendo um grande apreciador e estudioso da música clássica hindu. Tal como
acontece noutras religiões, no hinduísmo o canto é considerado uma prática de fé
que permite uma aproximação com Deus. "Krishna Lila" é precisamente uma recolha
de nove bhajans (canções de devoção) que para além de serem acompanhadas por
instrumentos tradicionais hindus como a tabla, são misturados com
ritmos de dança e batidas electrónicas. Neste álbum mais introspectivo, gravado
em cinco dialectos hindus, Chebijii conta com a participação de Karsh Kale e
Bill Laswell. Grande parte do disco baseia-se nas tradições da folk
clássica indiana, com predominância da cítara de Ravi Shankar ou Ashwin Batish,
e nos ritmos da tabla do Médio Oriente, em que têm especial influência
percussionistas como Zakir Hussain. Mesmo não sendo indiano, Cheb I Sabbah é um
dos maiores representantes do chamado asian underground, um movimento
de artistas com origem étnica na Índia e Paquistão que vivem em grandes cidades
do ocidente como Londres, Paris, Nova Iorque e São Francisco, e que fundem a sua
cultura original com influências ocidentais e elementos
electrónicos.
"l'Orient Est Rouge", Koçani Orkestar (Macedónia) & Lightning
Head (Reino Unido) - gypsy brass
band, gypsy oriental music
A fechar o programa, despedimo-nos com a Koçani Orkestar, que
nos traz o tema "L'Orient Est Rouge". Uma versão remisturada por Lightning Head
e extraída da colectânea "Electric Gypsyland", editada no ano passado.
Originários da cidade macedónia do mesmo nome, os Koçani Orkestar são uma das
mais conhecidas fanfarras ciganas daquele país (na Macedónia estes agrupamentos
são conhecidos por duvaçki orkestar), bandas criadas originalmente
século XIX para imitar as fanfarras militares turcas, e que acabariam por
substituir os tradicionais ensembles. Liderada pelo trompetista Naat Veliov e
com um repertório simultaneamente tradicional e contemporâneo, a Koçani Orkestar
mistura o som das fanfarras com ritmos de dança turcos e búlgaros e melodias
ciganas dos Balcãs. O resultado é uma frenética festa sonora, bem ao estilo de
um género descrito localmente como romska orientalna musika (música
cigana oriental), e composta por uma poderosa secção rítmica, encabeçada por
quatro tubas e acompanhada pelo saxofone, pela trompete, pelo clarinete e pelo
acordeão. Com a sua crescente projecção mundial, o ritmo da música cigana dos
Balcãs acabou por chamar a atenção de produtores de música electrónica como
Lightning Head, nome artístico do inglês Glyn "Bigga" Bush. Tornar a música
sensual é o objectivo deste DJ, habituado a misturar ritmos da música
brasileira, como o samba e a batucada, com géneros jamaicanos
como o reggae, a dub, o ska, o rocksteady e
a ragga, ou mesmo o boogaloo e a salsa. Energia e
sensualidade estão assim combinadas neste “oriente vestido de
vermelho”…
Jorge Costa
World Music Charts Europe - Novembro 2006
Eis o TOP 20
relativo ao mês de Novembro dos 171 discos nomeados para a tabela europeia de
música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, a manutenção da liderança pelo segundo
mês consecutivo e as onze novas entradas no topo do painel: oito em estreia
absoluta no WMCE e três a subirem para os primeiros vinte
lugares:
1º- SAVANE, Ali
Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 1ºlugar
2º-
HIRI, Kepa Junkera (Espanha) - Elkar
mês passado: 27ºlugar
3º- PASJA LEGENDA, Brina (Eslovénia) - DruGod
mês passado:
6ºlugar
4º- ELECTRIC GYPSYLAND 2, vários (Roménia) - Crammed
mês passado:
42ºlugar
5º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês
passado: 4ºlugar
6º- BOOM PAM, Boom Pam (Israel) - Essay Recordings
mês
passado: 10ºlugar
7º- GOLDEN AFRIQUE VOL. 3, vários - Network Medien
mês
passado: 2ºlugar 8º- SHTETL
SUPERSTARS, vários - Trikontestreia na tabela9º- ALMINARES MEDITERRANEOS, Caravasar (Espanha) -
Resistenciaestreia na
tabela10º- MUSIQUES METISSES,
vários - Marabi
mês passado: 3ºlugar11º- IDJAGIEĐAS, Mari Boine (Noruega) - Emarcy
(Universal)
mês passado: 5ºlugar12º- EOLH, Almasala (Espanha) -
Ventiladorestreia na
tabela13º- BURLESQUE,
Bellowhead (Reino Unido) - Westparkestreia na tabela14º- M'BEM DI FORA, Lura (Cabo Verde) -
Lusafricaestreia na
tabela15º- DA QUESTA
PARTE DEL MARE, Gianmaria Testa (Itália) - Harmonia Mundi
estreia na
tabela16º- RIMFAXE, Gjallarhorn
(Finlândia, Suécia) - Vindauga/Westpark
mês passado: 11ºlugar
17º-
ABACABOK, Tartit (Mali) - Crammed mês
passado: 107ºlugar18º- ELECTRIC
GRIOT LAND, Ba Cissoko (Guiné) - Totolo
estreia na
tabela19º- MASCARAS, Sergent
García (Espanha) - EMI
mês passado: 15ºlugar 20º- EL EVANGELIO SEGUN MI JARDINERO, Martin Buscaglia
(Uruguai) - Love Monkestreia na tabela
Emissão #29 - 28 Outubro 2006
A 29ª emissão do
MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 28
de Outubro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco
- 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na
segunda-feira, 30 de Outubro, entre as 19 e as 20
horas, sendo reposta três semanas depois (18 e 20 de Novembro) nos
horários atrás indicados.
"Breaking The Ethers/Serengeti", Tuatara (EUA) - funky, jazz, rock,
lounge
A
abrir a emissão os Tuatara com o tema "Breaking The Ethers/Serengeti", extraído
do seu primeiro álbum "Breaking The Ethers", lançado em 1997. Um trabalho
instrumental que foi bem acolhido pela crítica devido à sua originalidade e
expressão musical. Nele são reunidas várias jam sessions em que o
quarteto utiliza instrumentos exóticos como o didgeridoo, os tambores
de aço, as percussões africanas, o bandolim e o alaúde. O disco abre com sons
étnicos que rapidamente ganham ritmo e percussão. Esta banda experimental
mistura referências como o rock, o bebop, o jazz, o
funky ou o lounge, criando um som em que extravasa a diversão
e que se tornou conhecido sobretudo pela sua utilização em bandas sonoras para
cinema e televisão. Entretanto os Tuatara têm vindo a cruzar a instrumentação ao
vivo com as misturas electrónicas de vários DJ's. Este colectivo de compositores
norte-americanos nasceu em Seatle, em 1997. Integram o grupo Barrett Martin
(ex-percussionista dos Screaming Trees), Mad Season, Steve Berlin (dos Los
Lobos), Justin Harwood (antigo baixista dos Luna), Scott McCaugghey, Peter Buck
(ambos dos REM) e Skerik (lendário saxofonista de Seatle). A título de
curiosidade, a tuatara - nome que em maori significa "dorso espinhoso"
- é um réptil da Nova Zelândia, praticamente extinto, e que pouco mudou nos
últimos 220 milhões de anos.
"Baline",
Urban Trad (Bélgica) - techno
folk
As músicas do mundo prosseguem com os belgas Urban Trad e o tema
"Baline", extraído do seu trabalho de estreia "One O Four", editado em 2001.
Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional
com ritmos modernos, criando uma folk urbana, influenciada por um
ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux,
compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena
tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente
se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a
juntar outros músicos aos Urban Trad. O momento alto da carreira da banda
aconteceria no Festival Eurovisão da Canção de 2003, na Letónia. Os oito
elementos do grupo conquistaram então um segundo lugar e o grande público com
uma canção interpretada num idioma imaginário e que levou pela primeira vez o
timbre da gaita-de-foles para a Eurovisão. Volvidos três álbuns, o repertório
dos Urban Trad passo