20 Janeiro 2007

Emissão #35 - 20 Janeiro 2006

A 35ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 20 de Janeiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira,22 de Janeiro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (10 e 14 de Fevereiro) já nos novos horários (sábados, entre as 17 e as 18 horas, e quartas-feiras, entre as 21 e as 22 horas).

"Westindie", Schäl Sick Brass Band
(Alemanha) - brass band, jazz, folk
Os Schäl Sick Brass Band a abrirem a emissão com o tema "Westindie", um hipnótico instrumental indiano extraído do álbum “Tschupun”, editado em 1999. O grupo surgiu em Colónia, capital cultural da província da Renânia e fortaleza mediterrânica da Alemanha. Um dos muito emigrantes e visitantes de todo o mundo que a encheram de sons coloridos foi Raimund Kroboth, que em 1977 se instalou na margem direita do Reno. No dialecto local, aquela parte da cidade é conhecida precisamente por "Schäl Sick" (lado errado). Isto porque está do lado contrário à catedral e ao centro de Colónia, e porque é um enclave protestante na católica Renânia. Partindo de uma secção de ritmo que tem por base a tuba, a cítara popular e as percussões, os Schäl Sick Brass Band utilizam o som das fanfarras da região alemã da Bavaria e da Boémia checa para explorarem com inovação e versatilidade a música de outras culturas. Eles combinam elementos de jazz com o rock, o funk, o hip-hop o rap ou a folk. Um universo sonoro influenciado pela Europa central e de Leste e pelo norte de África, onde convivem ritmos cubanos, gregos, latinos, africanos e orientais, e instrumentos de todo o mundo - tavil, kanjira, dhol, dolki, omele, sekere, gangan, thereminvox, entre muitos outros. Um ambiente festivo em que se celebra a música de todo o planeta e onde o lema é "pensar global, soprar local"...

"Teu Nome, Amarante", Luar Na Lubre
(Espanha) - celtic folk
A jornada musical prossegue com os embaixadores da folk celta contemporânea. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trazem-nos o tema “Teu Nome, Amarante”, extraído do álbum “Saudade”, editado no ano passado. Amarante é o nome de várias aldeias galegas, muitas delas abandonadas por causa do envelhecimento e da emigração. Uma música onde este nome representa também o idioma galego, uma das ligações mais importantes da Galiza a Portugal e ao Brasil. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo aposta agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há cerca de dois anos, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Um disco onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto deixar de parte as suas raízes celtas.

"Terra de Ninguém",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo continuam com os Gaiteiros de Lisboa, que nos trazem o tema “Terra de Ninguém”, retirado do álbum “Macaréu”, compilação editada em 2000. Uma música escrita e cantada por Carlos Guerreiro, a quem se junta Pacman, dos Da Weasel, fundindo o hip-hop com a folk. Neste álbum, o grupo traz-nos ladaínhas populares ou os poemas de Fernando Pessoa, Alexandre O'Neill e Amélia Muge. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Criando um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares, os Gaiteiros de Lisboa ressuscitaram o gosto por uma certa música portuguesa de raiz tradicional, arrastando para os seus concertos verdadeiras multidões de pessoas a quem estas músicas pouco ou nada diziam.

"Justice", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
De regresso, mais uma vez, ao programa, Tiken Jah Fakoly apresenta-nos agora o tema "Justice", extraído do álbum “Françafrique”, gravado em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002. Trabalho em que se destacam as colaborações de Anthony B, U-Roy (cuja voz acompanha Fakoly neste tema) e Yaniss Odua, e onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a situação sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste africano, Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no norte da Costa do Marfim, Guiné, Mali e Burkina Faso.

"Riongere", Oliver 'Tuku' Mtukudzi (Zimbabué) - tuku
A viagem prossegue com Oliver 'Tuku' Mtukudzi e o tema "Riongere", retirado do álbum "Tuku Music", lançado em 1999. Figura emblemática da música urbana africana e uma das maiores estrelas do Zimbabué, o cantautor e guitarrista Oliver Mtukudzi criou um género único chamado tuku. Uma aliança dos ritmos da África austral, com influências da mbira, do mbaqanga sul-africano, da zimbabueana jit music, do katekwe, do urban zulu, das percussões dos Korekore, o seu clã, e dos temas tradicionais shona, etnia que corresponde a três quartos da população do Zimbabué. Oliver Mtukudzi começou a sua carreira em 1977 ao juntar-se aos Wagon Wheels, grupo lendário de que também fazia parte o poeta revolucionário Thomas Mapfumo. Foi com músicos desta banda que ele formaria os Black Spirits. Com a independência do seu país, Oliver torna-se produtor e consegue editar dois álbuns por ano – a lista já vai nos 35 trabalhos de originais. Pelo seu carácter inovador e pela voz generosa, a música de Oliver Mtukudzi distingue-se facilmente dos outros estilos do Zimbabué. Um artista popular pela capacidade de abordar os problemas económicos e sociais do seu povo, e de seduzir o público com um humor contagioso e optimista.

"Jhullay Lal", Sajjad Ali
(Paquistão) - sufi music, ethno pop
Seguimos agora até ao Paquistão, país cuja herança musical é partilhada com o norte da Índia. Sajjad Ali traz-nos então o tema “Jhullay Lal”, retirado do álbum “Aik Aur Love Story”, lançado em 1998. Um hino sufi de exaltação, a que foram adicionadas as batidas pop e os ritmos de dança. Uma música incluída no álbum produzido pelo cantor e actor, trabalho que foi também a banda sonora do filme do mesmo nome, o primeiro realizado por Sajjad Ali. Pioneiro da música pop no Paquistão, Sajjad Ali alcançou a fama no final da década de 80, destacando-se como um dos poucos cantores do género com um passado ligado ao canto clássico, uma experiência que dá às suas canções populares uma inconfundível profundidade e textura. Na sua aprendizagem, Sajjad tocou músicas de lendários artistas clássicos como Ustad Bade Ghulam Ali Khan e Ustaad Barkat Husain, familiarizando-se com instrumentos e estilos musicais como a raga, o que lhe permitiu construir uma carreira sólida e ser hoje um cantor aclamado. Para além do cinema, este tem vindo a participar em séries dramáticas. Uma ligação à indústria que já vem da família, isto porque o seu pai era um reconhecido actor e os irmãos Lucky Ali e Waqar Ali também têm carreiras musicais. Numa altura em que os ritmos da bhangra estavam na ordem do dia na música pop paquistanesa, Sajjad Ali teve a ousadia de se aventurar na criação de baladas e temas menos ritmados. Hoje retorna mais ao ambiente clássico, fazendo-se no entanto acompanhar de amostras de jazz e de batidas sufi.

"Khalouni", Cheb Mami
(Argélia) - pop-raï, hip-hop, rock, funk
Cheb Mami traz-nos uma versão do tema “Khalouni” (Deixa-me), retirada do álbum “Dellali” (A Amada), o qual foi editado em 2001. Trabalho onde este mistura uma série de linguagens e influências sonoras, que vão da música africana ao house, flamenco e reggae, e em que são convidados, entre outros, Charles Aznavour, Ziggy (filho de Bob Marley), o famoso guitarrista Chet Atkins ou o London Community Gospel Choir. Um álbum sofisticado e expansivo, onde os registos vocais de Cheb Mami e dos restantes músicos são acompanhados por instrumentos como o acordeão, as guitarras acústica e eléctrica, o baixo, o violino, o violoncelo, o alaúde ou a debourka. Paralelamente às origens de géneros ocidentais como o rock & roll, o punk e o hip-hop, o raï surgiu na Argélia como uma forma de arte recreativa e minoritária. No entanto, depressa ganhou contornos políticos, destacando-se cada vez mais não só pela popularidade, ma sobretudo pela sua controvérsia. Um dos renovadores deste estilo musical, marcado pela atitude provocativa e pela expressão rebeliosa da juventude argelina, foi precisamente Cheb Mami. Refugiado em Paris durante duas décadas, foi aí que este foi construindo a sua carreira, misturando o raï com a dança, o hip-hop, o funk e o rock. Conhecido em grande parte devido à colaboração de Sting no seu tema “Desert Rose”, que se tornou um sucesso em todo o mundo, Cheb Mami pretende então universalizar este género tradicional, abrindo-o às influências ocidentais, sem no entanto perder a suas raízes argelinas.

"Saudade",
Elisete (Brasil) - world electro, bossa nova, samba, forró, baião
A fechar o programa, despedimo-nos com Elisete e o tema “Saudade”, remisturado por Alon Ohana e extraído do álbum “Elisete – Remixes”, editado no passado mês de Dezembro. A compositora, que diz cantar para alegrar as pessoas do mundo, nasceu no Brasil mas desde 1991 que vive em Israel. Enquanto que no primeiro disco enveredava pela bossa nova, samba, forró, baião e por outros ritmos ecléticos, no seu segundo trabalho as suas raízes brasileiras abriram-se finalmente ao mundo. Dois temas seus foram mesmo incluídos na banda sonora do filme israelita “Há Bua” (A Bolha). Agora é a vez das canções em português, acompanhadas por sons electrónicos. Neste seu terceiro álbum, ela apresenta-nos uma colectânea das canções presentes em “Luar e Café” e “Saudade”, desta feita remisturadas por DJ’s e produtores de música electrónica israelitas. Apesar da maioria das suas letras serem em hebraico, o ritmo brasileiro está sempre presente, razão pela qual a música de Elisete tem uma grande aceitação. Nas canções, grande parte da sua autoria, Elisete tenta conciliar o espírito alegre e descontraído do Brasil com a difícil e dura realidade de Israel.

Jorge Costa

19 Janeiro 2007

Multipistas altera horário de emissão

Devido a alterações na grelha de programação da Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), até agora a única estação responsável pela transmissão hertziana do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, será necessário proceder a algumas modificações nos horários de emissão do formato, as quais entram em vigor a partir de Fevereiro.

Esta é também uma forma de assegurar a difusão integral das repetições do programa, que por vezes têm surgido com cortes graças aos incontornáveis compromissos informativos ou publicitários daquela rádio.

Enquanto que o horário normal do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO se mantém nos sábados, entre as 17 e as 18 horas, a repetição do programa passa de segunda para quarta-feira, entre as 21 e as 22 horas. Quanto às restransmissões, cada edição do programa continuará a ser reposta três semanas após a primeira difusão, desta feita já no novo horário.

Jorge Costa

15 Janeiro 2007

A minha amiga rádio...

A marcar a estreia da cooperação com os programas de músicas do mundo existentes nas restantes rádios locais e regionais portuguesas, no próximo dia 18 de Janeiro o MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO irá marcar presença, a convite do realizador, na segunda hora do Canto Nómada, o programa de música tradicional portuguesa e do mundo que André Moutinho apresenta às quintas-feiras, entre as 22 horas e a meia-noite, na Torres Novas FM (100.8 FM). Em alternativa, a emissão poderá ser escutada a partir de sexta-feira no podcast oficial.

Eis o texto da crónica:

"Esta semana, no âmbito de um trabalho de introspecção pessoal, uma estudante minha conhecida procurava descobrir alguns objectos que tivessem influenciado a sua vida. Na lista figuravam nomes como a banda desenhada ou o caderno de apontamentos, mas para ajudar a jovem a encontrar outras referências, decidi então juntar-me à reflexão.

Em meia dúzia de segundos dei conta de que uma das coisas que me acompanha desde sempre é a minha amiga rádio. De acesso universal, funcionamento simples e linguagem clara, a rádio é tão versátil e dinâmica como um livro que se abre. Pegando algures no fino espectro electromagnético, e num pequeno virar de frequência, com ela conseguimos atravessar meio mundo, criando cenários tridimensionais imaginários que, apesar de efémeros, não deixam de aspirar à ordem do onírico e do intemporal. Uma obra esboçada pela pena leve da estática, onde cada um pode escrever a sua história recorrendo sobretudo ao vocabulário da acústica.

Esta minha paixão platónica foi materializada no rádio, aliás, num dos muitos rádios que nas duas últimas décadas me foram passando pelas mãos. A pilhas ou eléctricos, com ou sem onda curta, saída estereofónica ou entrada para microfone, a interminável linhagem de receptores foi quase toda ela sacrificada em nome da oitava arte. O motivo era bom – procurar a alma deste dispositivo capaz de transformar electricidade em sons passíveis de significância –, mas o resultado foi apenas um retorcido emaranhado de circuitos integrados, teclas órfãs e fios descarnados, já sem vida.

Na minha infância, o iPod era uma caixa de sapatos onde guardava as cassetes quando ia de férias para o campo, algumas delas meros registos de conversas disparatadas com os primos, outras compilatórios dos sucessos que iam passando no éter. À noite, quando os sons ganhavam autonomia perante a natureza e o pequeno rádio se escondia por debaixo do lençol, deixando acesso unicamente um led vermelho, era a vez dos novos acordes e cacofonias sonoras em modulação de frequência, e das vozes distantes do entendimento em amplitudes imaginárias, tantas quanto os rostos encobertos por elas.

Terminado o breve exercício de introspecção, entre todos os transistorizados que conheço escolhi o leitor de cassetes, hoje desmaterializado no vulgar mas muito prático reprodutor de MP3. A magia que se reproduzia diariamente à minha frente saía reforçada por aquele ronronar de fita e pelo clique mecânico que se ouvia no final da cassete, quando as cabeças de leitura e gravação subiam.

Agora que o audiovisual se desmaterializou numa infinidade de suportes virtuais, discorrer acerca das virtudes da centenária rádio pode parecer puro saudosismo. Mas a saudade aqui é apenas a do futuro da radiodifusão, daquilo a que técnica e arte algum dia hão-de dar lugar. Para além da palavra, âncora da personalidade inclassificável da telefonia, a salvação da rádio será o cruzamento de conteúdos com outros meios e plataformas.

Se no que toca à técnica o podcast se destaca na lista das potencialidades emergentes, já em relação aos conteúdos 2006 foi mesmo o ano dos programas de música do mundo nas rádios locais e regionais portuguesas, género infelizmente ainda raro nas emissoras de cobertura nacional. Apesar da escassez de meios técnicos e de recursos com que todos os obreiros radiofónicos da world music se deparam, é preciso continuar a apostar em conteúdos que extravasem a leviandade musical vingente. Esta é uma oportunidade de ouro para que se criem novos formatos, novos músicos e novos públicos. Analógica por tradição ou revestida pelo cristalino som digital, a minha e a sua amiga rádio continuará então a ser uma construtora de consensos e ponte privilegiada de aproximação entre culturas e saberes."


Jorge Costa

05 Janeiro 2007

Emissão #34 - 6 Janeiro 2006

A 34ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 6 de Janeiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 8 de Janeiro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (27 e 29 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

"Natural Fractals", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os sevilhanos Rarefolk a inaugurarem a emissão com o tema “Natural Fractals”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2006. Quarto e último trabalho dos pioneiros do freestyle folk, uma mistura criativa de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do funk e da electrónica. O resultado é um raro estilo folk, carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta, oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial da violinista Elo Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e começaram a ter uma formação estável.

"Ataun", Kepa Junkera
(Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com Kepa Junkera que nos traz “Ataun”, tema retirado do seu último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais intimista e elaborado, Kepa Junkera leva-nos numa viagem por algumas das cidades e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo, das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile & I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali, Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck, Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses Júlio Pereira e Dulce Pontes.

"Homer's Reel", Capercaillie
(Reino Unido) - celtic folk
Os escoceses Capercaillie de novo no programa, desta feita com o tema “Homer's Reel”, extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael McGoldrick.

"Semena-Wrock", Gigi
(Etiópia) - world fusion, afrofunk
Avançamos agora até à Etiópia com o tema “Semena-Wrock”, extraído do álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura. São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes. Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota, Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.

"Le Pays Va Mal", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
Tiken Jah Fakoly trouxe-nos o tema "Le Pays Va Mal", extraído do álbum “Françafrique”, gravado em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002. Trabalho em que se destacam as colaborações de Anthony B, U-Roy e Yaniss Odua, e onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a situação sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste africano, Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no norte da Costa do Marfim, Guiné, Mali e Burkina Faso.

"Shubra", Natacha Atlas
(Bélgica) - ethno pop, electro, chaâbi
A jornada musical prossegue com Natacha Atlas, que nos apresenta o tema “Shubra”, retirado do álbum “Ayeshteni” (Tu Dás-me Vida), editado em 2001. Trabalho produzido e gravado na cidade do Cairo, no Egipto, e em que também participou o anglo-indiano Nitin Sawhney. A diva do ethno pop mistura as sonoridades tradicionais do Médio Oriente e do norte de África com a pop e a música electrónica. São sons onde não falta a influência do clássico chaâbi mas, como ela própria diz, menos entediante e mais mal comportado. Dona de uma voz poderosa e sedutora, Natacha Atlas cria um sinuoso e hipnótico canto, acompanhado por batidas trip hop e incursões pelo house ou o drum ‘n’ bass. A maior parte do seu repertório é interpretado em árabe, mas ela também canta em inglês, francês e castelhano. Filha de mãe inglesa e pai egípcio, Natacha Atlas nasceu na capital belga, mas as suas raízes estendem-se ainda à Palestina e a Marrocos. Até aos oito anos, ela viveu no bairro muçulmano de Bruxelas, altura em que a sua mãe, depois de se ter divorciado, decidiu mudar-se com os filhos para Northampton, na Inglaterra. A partir dos dezasseis anos, Natacha começa a envolver-se em pequenos projectos musicais e a viajar pela Turquia e Grécia, países onde trabalharia como dançarina do ventre. No início dos anos 90 integra como solista os Transglobal Underground, grupo inglês pioneiro em fundir elementos da música tradicional árabe, africana e hindu com elementos da música electrónica, ocupando o lugar de vocalista e dançarina. Da sua carreira faz também parte a passagem pelos Invaders of the Earth, grupo de Jah Wobble. Em 2001, Natacha Atlas foi nomeada pelas Nações Unidas Embaixadora para a Boa Vontade no âmbito da Conferência Internacional contra o Racismo. O público brasileiro e português certamente se lembrará da sua participação num capítulo da novela da Globo "O Clone", em que a cantora se interpreta a si mesma, cantando e dançando.

"Khalouni", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
De regresso ao programa, Souad Massi apresenta-nos “Khalouni" (Deixa-me), uma mistura ibérica e norte-africana onde se evocam as raízes do raï e onde a jovem canta lado a lado com Rabah Kaifa. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado em 2005. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"Tuva Rock",
Yat-Kha (Rússia) - tuva rock, punk-folk
A fechar o programa, despedimo-nos com os Yat-Kha, que nos trazem o tema "Amdy Bayp", extraído do álbum "Tuva Rock", editado em 2005. Esta banda originária da república russa de Tuva (região situada a sudoeste da Sibéria) foi fundada em Moscovo em 1991 pelo vocalista e guitarrista Albert Kuvezin e pelo compositor electrónico russo Ivan Sokolovsky. Farto de cantar temas xamânicos em grupos típicos como os Huun-Huur-Tu, Kuvezin decidiu então juntar a música moderna do Ocidente com a tradicional do seu país. O duo adoptou o nome de Yat-Kha (lê-se iát-rá), em alusão a uma espécie de pequena cítara da Ásia central semelhante à guzheng chinesa. Aos instrumentos tradicionais juntam-se então as guitarras eléctricas, os instrumentos electrónicos e outros inventados pelo grupo. Com a energia do rock, a banda rejuvenesceu uma das mais extraordinárias tradições vocais do mundo, criando distorções e dissonâncias que se aproximam do punk e do metal. As melodias e ritmos são acompanhados pelas três vocalizações básicas do canto polifónico da Tuva: o khoomei, o kargyraa e o sygyt. Técnica outrora muito utilizada pelos povos da Ásia central para imitar os sons da natureza, e em que uma única voz consegue emitir várias notas em simultâneo.

Jorge Costa

28 Dezembro 2006

World Music Charts Europe - Janeiro 2007

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Janeiro dos 184 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, a inversão nos dois lugares cimeiros e as oito novas entradas no topo do painel: duas em estreia absoluta no WMCE e cinco a subirem para os primeiros vinte lugares:

1º- HIRI, Kepa Junkera (Espanha) - Elkar
mês passado: 2ºlugar


2º- ELECTRIC GYPSYLAND 2, vários (Roménia) - Crammed
mês passado: 1ºlugar

3º- ELECTRIC GRIOT LAND, Ba Cissoko (Guiné) - Totolo
mês passado: 5ºlugar

4º- THE IDAN RAICHEL PROJECT, The Idan Raichel Project (Israel) - Cumbancha
mês passado: 13ºlugar

5º- DIWAN 2, Rachid Taha (França, Argélia) - Barclay/Wrasse
mês passado: 4ºlugar

6º- KETUKUBA, Africando (Senegal, vários) - Stern's
mês passado: 3ºlugar
7º- MA YELA, Akli D (Argélia) - Because
mês passado: 17ºlugar
8º- NEFTAKHIR, Maghrebika (Marrocos) - Barraka
mês passado: 15ºlugar
9º- M'BEM DI FORA, Lura (Cabo Verde) - Lusafrica

mês passado: 27ºlugar
10º- DEDICATION, DAM (Palestina) - Red Circle Music
mês passado: 14ºlugar

11º- INTRODUCING, Bela Lakatos & The Gypsy Youth Project (Hungria) - World Music Network
mês passado: 32ºlugar
12º- WE ARE THE SHEPHERDS, OMFO (Ucrânia) - Essay Recordings
mês passado: 19ºlugar

13º- BURLESQUE, Bellowhead (Reino Unido) - Westpark
mês passado: 6ºlugar

14º- DIALOGUE, Sondre Bratland & Javed Bashir (Noruega) - Kirkelig Kultur Verksted
mês passado: 16ºlugar

15º- ÄLVDALENS ELEKTRISKA, Lena Willemark (Suécia) - Amigo
mês passado: 39ºlugar
16º- KECE KURDAN, Aynur (Turquia) - Kalan
mês passado: 29ºlugar
17º- DZUMBUS, Slonovski Bal (Sérvia) - Bal Bazar
estreia na tabela
18º- EFFFECTO, Faltriqueira (Espanha) - Resistencia
mês passado: 48ºlugar
19º- MASCARAS, Sergent García (Espanha) - EMI
mês passado: 10ºlugar

20º- MARFUL, Marful (Espanha) - Galileo
estreia na tabela

20 Dezembro 2006

Emissão #33 - 23 Dezembro 2006

A 33ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, um programa especial que conta com entrevistas exclusivas aos Comcordas e Mu, bandas que em Outubro estiveram no Festival Entrelaços, em Castelo Branco, é difundida no sábado, 23 de Dezembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), e vai de novo para o ar na segunda-feira, 25 de Dezembro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (13 e 15 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

"Devoiche Belo, Tsurveno/Povdigni Si Milo Libe/Vasilke, Mlada Nevesto", Angelite (Bulgária)
- bulgarian folk
As vozes búlgaras das Angelite estreiam esta emissão especial com três canções de amor – “Devoiche Belo, Tsurveno”, “Povdigni Si Milo Libe” e “Vasilke, Mlada Nevesto” –, um medley que faz parte do álbum “Balkan Passions”, editado em 2001. À semelhança dos restantes países dos Balcãs, a Bulgária é um território habitado por turcos, ciganos, macedónios, judeus, arménios e romenos, grupos étnicos que ao longo do tempo foram moldando a música desta região. Prova dessa convivência cultural é a lista de músicos que participam neste trabalho: Orchestre Pirin, da Bulgária; Okay Temiz e Sezen Aksu, da Turquia; Fanfare Ciocărlia, da Roménia; e Maria Farantouri, da Grécia. Fundadas em 1952, as Angelite são um grupo de canto vocal composto por duas dezenas de mulheres, e que combina elementos tradicionais da folk búlgara com intervalos microtonais e a justaposição de escalas. São melodias seculares que fazem alusão a elementos da vida diária, incorporando muitas das vezes participações instrumentais e arranjos de compositores clássicos contemporâneos. Dirigido pelo compositor búlgaro Georgy Petkov, o coro colaborou, entre outros, com o saxofonista Jan Gabarek e com o Moscow Arts Trio. O canto vocal é uma importante tradição búlgara, particularmente no Natal, em que se destacam as melodias sacras ortodoxas, outrora cantadas apenas pelos homens, ou os cânticos alusivos à quadra. Um estilo único, de grande riqueza melódica e rítmica, possível graças a um desenvolvido controlo da respiração, e que terá surgido no Médio Oriente na era pré-cristã.

"Rumba Para Susi", Susana Seivane
(Espanha) - galician folk, celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Susana Seivane, que nos traz “Rumba Para Susi”, um tema tradicional que aqui se apresenta numa versão adaptada para gaita e pequena orquestra. Esta gaiteira é neta de Xosé Manuel Seivane, um dos mais conceituados artesãos galegos. Diz a tradição que a madeira de buxo ou buxeiro, utilizada na construção das gaitas de foles galegas, deve ficar mais de cem anos à espera de um artesão que lhe consiga descobrir a alma e transformá-la no instrumento musical. O buxo com que os Seivane fazem gaitas desde 1939 serviu precisamente de inspiração para o nome deste disco "Alma de Buxo". No seu segundo álbum, editado em 2002, a jovem segue a tradição musical da Galiza com várias xotas, muiñeiras, marchas e outras composições típicas daquela região, adicionando-lhes no entanto a bateria, o baixo e algumas amostras de música pop. E não é de espantar a sua mestria no manejo da gaita-de-foles, até porque começou a tocar este instrumento aos quatro anos. Neste álbum, Susana Seivane é acompanhada pela sua banda e por músicos como o ex-Milladoiro Rodrígo Romani, Kepa Junkera, Uxía Senlle, Guadi Galego dos Berrogüetto ou Uxía Pedreira dos Chouteira. Um trabalho em que esta presta homenagem aos gaiteiros da sua terra, como é o caso de Pepe Vaamonde e do próprio avô, que gravou duas composições do seu repertório. São duas gerações reunidas num só disco.

"Pandeirada do Che", Luar Na Lubre
(Espanha) - celtic folk
Regresso à Galiza com os embaixadores da folk celta contemporânea. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trouxeram-nos o tema “Pandeirada do Che”, extraído do álbum “Saudade”, editado este ano. Uma música recheada de alusões a Che Guevara, e onde Celso Emilio Ferreiro toca o pandeiro lado a lado com os viguenses Xulio Formoso e Farruco Sesto. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo aposta agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há cerca de dois anos, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Está assim consolidada a intenção do grupo em sublinhar a influência portuguesa para melhor definir a sua identidade galega, neste Portugal além-Minho. Um disco onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto deixar de parte as suas raízes celtas.

"Vinavata", Mu
(Portugal) - folk
Os portuenses Mu, uma jovem banda folk cuja alegria não deixa ninguém indiferente, com “Vinavata”, um dos temas gravados em Espanha no Festival Danzas Sin Fronteras, e que faz parte do seu primeiro álbum “Mundanças”, editado no ano passado. O título deste trabalho, em que também participam os Dazkarieh, mais não é do que um trocadilho de palavras que descreve na perfeição o mundo em mutação e recheado de dança em que os Mu estão mergulhados. Eles nasceram no Porto em 2003 e foram procurar inspiração nas culturas europeias e nos instrumentos de todo o mundo. Os ritmos e vozes tradicionais servem então de referência a este grupo que reinventa sobretudo danças balcânicas e eslavas, mas em cuja palete sonora não faltam também os sons ciganos, bretões, irlandeses ou mesmo africanos. Uma banda jovial, de estilo "roufenho, nómada e circense", conforme já lhes chamaram, que tem feito sucesso em festivais como o Andanças, em S. Pedro do Sul, o Intercéltico de Sendim, ou o Danzas sin Fronteras, em Espanha. Na sua quarta formação, os Mu integram os músicos Hugo Osga, Nuno Encarnação, Diana Azevedo, Sophie Kaliasz, Sérgio Calisto e Sara Barbosa.

"Diamantta Spaillit", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues
Avançamos agora até ao norte da Europa com a norueguesa Mari Boine Persen, que nos traz o tema “Diamantta Spaillit” (Rena de Diamantes), extraído do álbum do mesmo nome, lançado em Abril deste ano. Com mais de vinte anos de carreira, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, povo que habita a chamada Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, o rock e mesmo a música electrónica. São sons mais entoados que cantados, onde se evoca a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.

"Kokko", Värttinä
(Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
A viagem prossegue com as Värttinä e o tema “Kokko”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1996. De regresso ao programa, a mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa trouxe-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica, naquele que foi o primeiro trabalho onde o grupo tentou juntar a música tradicional com sons modernos. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia – reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida em que se mantém o vigor e o calor vocal de sempre.


"Ma Betty Boop À Moi", Opa Tsupa (França) - jazz manouche
A fechar o programa, despedimo-nos com os Opa Tsupa, que nos trazem o tema "Ma Betty Boop À Moi", extraído do álbum "Bastringue", editado este ano. Este quinteto acústico de jazz manouche, nascido em 2000, mistura o som de Django Reinhardt, um dos mais importantes guitarristas de jazz de todos os tempos, com o gypsy swing, a musette, o rock, o funk, a bossa nova e a chanson française. O seu repertório é composto por criações originais, inspiradas em géneros como o swing dos anos 30, a música judaica e as músicas tradicionais ciganas, e em artistas tão diversos como Jacques Higelin, Paris Combo ou Latcho Drom. Para isso, os Opa Tsupa utilizam diversos instrumentos acústicos de corda – bandolim, contrabaixo, violino, guitarra, banjo, oukoulélé – aliando o swing e o humor a uma sonoridade que se aproxima à da dos Bratsch, dos Primitifs du Futur ou dos Sansévérino.


Jorge Costa

08 Dezembro 2006

Emissão #32 - 9 Dezembro 2006

A 32ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 9 de Dezembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 11 de Dezembro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (30 de Dezembro e 1 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

"Are You Gyspifiled? (megamix)", Olaf Hund (França) & Koçani Orkestar (Macedónia), Taraf de Haïdouks (Roménia) e Ursari de Clejani (Roménia)
- gypsy brass band, gypsy oriental music
A abrir a emissão, o compositor francês e produtor de música electrónica Olaf Hund com a remistura “Are You Gypsified?”, extraída da colectânea “Electric Gypsyland”, editada no ano passado. Uma série de reinterpretações e de reinvenções poéticas de músicos europeus e americanos, em que o ponto de partida é a música cigana. Neste megamix, Olaf Hund mistura temas de três das mais conhecidas bandas dos Balcãs: os Koçani Orkestar, os Taraf de Haïdouks e os Ursari de Clejani. Originários da cidade macedónia do mesmo nome e liderados pelo trompetista Naat Veliov, os Koçani Orkestar combinam o som das fanfarras com ritmos de dança turcos e búlgaros e melodias ciganas dos Balcãs. O resultado é uma frenética festa sonora, localmente apelidada de Romska Orientalna Musika (música cigana oriental). Já os Taraf de Haïdouks ("banda de bandidos") são originários da cidade romena de Clejani, situada a sudoeste de Bucareste. Uma dezena de instrumentistas e cantores, com idades entre os 20 e os 78 anos, descobertos em 1990 por dois jovens músicos belgas que se apaixonaram pela sua sonoridade e decidiram levá-los até à Bélgica para os darem a conhecer ao mundo. A sua música, que varia entre as baladas e as danças, é uma mistura de estilos locais, representando na perfeição a riqueza das folk romena. Finalmente, e ainda na mesma cidade, encontramos os Ursari de Clejani, representantes do estilo vocal ursari e descendentes de uma família de domadores de ursos, e que no passado colaboraram num dos álbuns dos Taraf de Haïdouks.

"Urrutiko Polkak", Alboka
(Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com os Alboka e o tema “Urrutiko Polkak”, extraído do álbum “Lau Anaiak” (Os Quatro Irmãos), lançado em 2004. Quarto trabalho do grupo que, para além das danças e melodias populares, retiradas dos cancioneiros bascos, integra temas instrumentais – então uma novidade no folk basco, mais habituado a trabalhos vocais – e novas canções, compostas por Allan Grifing e traduzidas para euskera pelo escritor basco Juan Garcia. O agora duo, formado pelo acordeonista Joxan Goikoetxea e pelo multi-instrumentista irlandês Alan Griffin (que há mais de vinte anos vive no País Basco), foi criado em 1994 juntamente com mais dois músicos daquela região autónoma espanhola: Txomin Artola e Josean Martín Zarko. Da sua história fazem também parte as vozes de Benito Lertxundi e Xabi San Sebastián, o violinista Juan Arriola e a cantora húngara Marta Sebestyén, que colaborou num dos álbuns do grupo. Um ensemble cujo objectivo é o de interpretar música tradicional exclusivamente de forma acústica, sua imagem de marca, e que foi buscar o nome à alboka, um aerofone pastoril basco, construído com dois chifres de vaca, e cuja sonoridade, parecida com a da gaita, se situa entre a sanfona e a bombarda francesa. Juntam-se-lhe o acordeão, o bouzuki, o bandolim, o ttun-ttun (tamboril basco, da família do saltério), a guitarra acústica, o violino, a harpa, a gaita, a flauta e as percussões. Uma ponte entre a música tradicional e a folk contemporânea, em que a energia basca se une à pureza irlandesa.

"Sort of Slides: Choice Language/Bring Out the Wilf/Come Ahead Charlie", Capercaillie
(Reino Unido) - celtic folk
Os escoceses Capercaillie regressam ao programa, desta feita com o medley “Sort of Slides: Choice Language/Bring Out the Wilf/Come Ahead Charlie”, extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael McGoldrick.

"Yehlisan'Umoya Ma-Afrika", Busi Mhlongo
(África do Sul) - afro pop, maskanda, mbaqanda
Avançamos agora até à África do Sul com Busi Mhlongo, que nos traz o tema "Yehlisan'Umoya Ma-Afrika", extraído do álbum "Urbanzulu", lançado em 2000. Disco em que colaboraram vários músicos, entre eles, dois da banda Phuzekhemisi, que com ela compuseram este álbum simultaneamente africano e ocidental. A diva da afropop foi a primeira mulher a internacionalizar a maskanda, género tradicional zulu que expressa a alegria e o lamento presentes na moderna vida da urbana África do Sul, e outrora característico dos trabalhadores e migrantes rurais. No entanto, Busi Mhlongo percorre outros estilos sul-africanos, fundindo-os com o jazz, o funk, o rock, o gospel, o rap e o reggae, e usando coros e instrumentos não tradicionais. Ao longo da sua carreira, actuou com alguns dos melhores nomes do jazz e estrelas da mbaqanga (género vocal, desenvolvido a partir de um estilo negro urbano, em que se destacam as vozes graves masculinas, e que se transformou no mqashiyo, um popular género de dança). Impedida de regressar à África do Sul, o que só aconteceria nos anos 90, Busi Mhlongo passou vários anos em Portugal, cantando temas populares e canções africanas em casinos. Durante o exílio, ela viveu ainda em Londres, no Canadá e em Amesterdão, cidade onde trabalhou com músicos africanos e desenvolveu o seu estilo único. Não é por acaso que, nas suas letras, Busi Mhlongo fala da necessária reconciliação entre sul-africanos com diferentes aspirações políticas.

"Les Temps On Changé", Amadou & Mariam
(Mali) - afropop blues
A dupla Amadou & Mariam de volta ao programa, desta feita com o tema “Les Temps Ont Changé”, extraído do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara), editado em 2002. Uma música onde o casal critica o individualismo das novas gerações, utilizando a mais roqueira pop africana. Um afropop blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. E como é habitual, não faltam as alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs, banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se inseparáveis na vida e na carreira. Cantando em francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando universal a música daquele país.

"Kadife", Richard Hagopian
(EUA) & Omar Faruk Tekbilek (Turquia) - bellydance
A viagem prossegue com Richard Hagopian e Omar Faruk Tekbilek, que nos trazem "Kadife", tema extraído do álbum "Gypsy Fire", lançado em 1995. Uma recriação do ambiente underground multiétnico da Oitava Avenida em Nova Iorque na década de 1950, onde ciganos, arménios, turcos, judeus, gregos e árabes tocavam juntos. Álbum que reúne alguns dos melhores músicos do Médio Oriente, Europa de Leste e Estados Unidos da América, e em que participam ainda o lendário saxofonista turco Yuri Yunakov; Hasan Iskut, tocador de kanun, o "piano" da música turca; o violinista Harold Hagopian, filho de Richard Hagopian; o percussionista Arto Tunçboyaciyan; o guitarrista Ara Dinkjian e o baixista Chris Marashlian. Considerado um dos melhores tocadores de alaúde do planeta, Richard Hagopian é também um dos mais reconhecidos músicos e etnomusicologistas de ascendência arménia. Ele nasceu na Califórnia, nos Estados Unidos, e aprendeu a tocar violino e clarinete aos oito anos. Mais tarde, estudou com o famoso artista arménio Garbis Bakirgian. Hoje diz tocar mais de cinquenta instrumentos. Omar Faruk Tekbilek é também um virtuoso multinstrumentista. Ele iniciou a sua carreira musical aos oito anos com a kaval (uma pequena flauta diatónica), tendo aprendido a tocar instrumentos como a ney (flauta de bambú), a zurna (tipo de oboé), a baglama (alaúde de braço comprido) ou o oud (alaúde árabe). A sua música, enraizada na tradição turca, foi influenciada por múltiplos estilos e instrumentações árabes e orientais, emanando misticismo, romance e imaginação. Radicado em Nova Iorque, ele colabora sobretudo com o produtor e guitarrista norte-americano Brian Keane, a cujas bases electrónicas acrescenta os sons da flauta e da percussão.

"Sidi H’Bidi", Les Boukakes (França) - raï n'rock
Os Les Boukakes apresentam-se com o tema "Sidi H’Bidi", extraído do seu último álbum "Bledi", editado em 2004. Um trabalho onde o raï argelino e o gnawa marroquino surgem à mistura com o rock e a música electrónica, provando ser possível e agradável a combinação entre ocidente e oriente. Esta banda masculina de sete elementos, formada em 1998, é liderada pelo cantor argelino Bachir Mokhtare e inclui músicos tunisinos e franceses. Os Boukakes, que no passado mês de Novembro foram nomeados para os BBC Radio 3 Music Awards, foram buscar o seu nome à mistura fonética de dois típicos insultos racistas. Uma reacção - pouco chocante, no entender deles - às referências menos abonatórias que costumavam receber quando se estrearam nas ruas. Sem fazerem comentários políticos ostensivos nas suas canções, os Boukakes apelam deliberadamente à resistência ao status quo e à ignorância generalizada. Letras que são combinadas com melodias orientais e instrumentos diversos, como o karkabou/qarqabou (grandes castanholas metálicas marroquinas), a derbouka (instrumento de percussão magrebino), o bendir (outro instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), o duf (espécie de pandeireta), a tabla, o banjo, a guitarra ou o baixo. Anos depois, eles passaram das ruas para os bares e dos pequenos concertos para os festivais, encontrando finalmente o seu público. Desde então, têm partilhado o palco com músicos e bandas famosas como os Zebda, The Wailers, Manu Chao, Natacha Atlas, Taraf De Haïdouks, Cheikha Rimitti e Rachi Taha. Em 2004, o seu raï n'rock conquistou finalmente grande projecção, ao ganharem diversos prémios profissionais.

"Le Mec Aux Tics", Opa Tsupa (França) - jazz manouche
Os sons deste planeta musical continuam com os Opa Tsupa, que nos trazem o tema "Le Mec Aux Tics", extraído do álbum "Bastringue", editado este ano. Os Opa Tsupa são uma formação de jazz manouche, nascida em 2000. Este quinteto acústico mistura o som de Django Reinhardt, um dos mais importantes guitarristas de jazz de todos os tempos, com o gypsy swing, a musette, o rock, o funk, a bossa nova e a chanson française. O seu repertório é composto por criações originais, inspiradas em géneros como o swing dos anos 30, a música judaica e as músicas tradicionais ciganas, e em artistas tão diversos como Jacques Higelin, Paris Combo ou Latcho Drom. Para isso, os Opa Tsupa utilizam diversos instrumentos acústicos de corda - bandolim, contrabaixo, violino, guitarra, banjo, oukoulélé - aliando o swing e o humor a uma sonoridade que se aproxima à da dos Bratsch, dos Primitifs du Futur ou dos Sansévérino.

"Rumelàj", Djamo (França) - gypsy music
Seguem-se os Djamo, que mais uma vez regressam ao programa, trazendo-nos agora o tema "Rumelàj", extraído do álbum "Chants Tziganes Métissés". Um ensemble françês que tem como repertório principal os cantos e a música cigana mestiça. Este jovem grupo originário da região de Poitou-Charentes, localizada no centro-oeste de França, leva-nos à descoberta das músicas ciganas e magrebinas. Neste álbum, eles são acompanhados por outros embaixadores dos sons mestiços, entre eles os Dikès e, precisamente, os Opa Tsupa.

"1000 Mirrors", Badi Assad
(Brasil) - brazilian music
A fechar o programa, despedimo-nos com Badi Assad e o tema "1000 Mirrors", extraído do seu último trabalho "Wonderland", editado este ano. Este foi produzido por Jacques Morenlenbaum, e conta com a participação especial de Seu Jorge, entre outros músicos. Um álbum onde Badi Assad desmonta uma série de espelhos humanos, falando com a voz e com a percussão do próprio corpo sobre a violência doméstica, o alcoolismo ou a prostituição. Badi, cujo verdadeiro nome é Mariângela, foi baptizada em pequena pela mãe com parte do apelido
libanês do pai, o qual em árabe significa Leão Milagroso. A cantora e compositora brasileira, nascida em São João da Boa Vista, no estado de São Paulo, começou como violinista clássica e aperfeiçoou a sua técnica instrumental, deixando para trás a formação académica e o universo da música erudita, que trocou pelo ritmo das canções da música popular. Tal como os irmãos violinistas Sérgio e Odair, que hoje formam o duo Assad, Badi começou a carreira como instrumentista, primeiro ao piano e depois à guitarra (conhecida no Brasil por violão). Em 1998, um problema na mão obrigou-a a ficar dois anos sem tocar, até que acabou pode descobrir outra forma sublime de expressão: o canto.

Jorge Costa

01 Dezembro 2006

World Music Charts Europe - Dezembro 2006

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Dezembro dos 188 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, a nova liderança e as oito novas entradas no topo do painel: cinco em estreia absoluta no WMCE e três a subirem para os primeiros vinte lugares:

1º- ELECTRIC GYPSYLAND 2, vários (Roménia) - Crammed
mês passado: 4ºlugar


2º- HIRI, Kepa Junkera (Espanha) - Elkar
mês passado: 2ºlugar

3º- KETUKUBA, Africando (Senegal, vários) - Stern's
mês passado: 56ºlugar
4º- DIWAN 2, Rachid Taha (França, Argélia) - Barclay/Wrasse
mês passado: 159ºlugar
5º- ELECTRIC GRIOT LAND, Ba Cissoko (Guiné) - Totolo
mês passado: 18ºlugar

6º- BURLESQUE, Bellowhead (Reino Unido) - Westpark
mês passado: 13ºlugar

7º- IDJAGIEĐAS, Mari Boine (Noruega) - Emarcy (Universal)
mês passado: 11ºlugar

8º- PASJA LEGENDA, Brina (Eslovénia) - DruGod
mês passado: 3ºlugar

9º- ABACABOK, Tartit (Mali) - Crammed
mês passado: 17ºlugar

10º- MASCARAS, Sergent García (Espanha) - EMI
mês passado: 19ºlugar

11º- GOLDEN AFRIQUE VOL. 3, vários - Network Medien
mês passado: 7ºlugar

12º- EOLH, Almasala (Espanha) - Ventilador
mês passado: 12ºlugar

13º- THE IDAN RAICHEL PROJECT, The Idan Raichel Project (Israel) - Cumbancha
estreia na tabela
14º- DEDICATION, DAM (Palestina) - Red Circle Music
estreia na tabela
15º- NEFTAKHIR, Maghrebika (Marrocos) - Barraka
estreia na tabela
16º- DIALOGUE, Sondre Bratland & Javed Bashir (Noruega) - Kirkelig Kultur Verksted
mês passado: 22ºlugar
17º- KABYLE MENTAL, Akli D (Argélia) - Because
estreia na tabela
18º- SAVANE, Ali Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 1ºlugar
19º- WE ARE THE SHEPHERDS, OMFO (Ucrânia) - Essay Recordings

estreia na tabela
20º- ALMINARES MEDITERRANEOS, Caravasar (Espanha) - Resistencia
mês passado: 9ºlugar

22 Novembro 2006

Emissão #31 - 25 Novembro 2006

A 31ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 25 de Novembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 27 de Novembro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (16 e 18 de Dezembro) nos horários atrás indicados.

Uma edição em que se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas últimas dez emissões deste programa. Eis a listagem do melhor dos melhores temas do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Ghole Pamtschal", Schäl Sick Brass Band (Alemanha) - brass band, jazz, folk

"Iddjagieđas", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues

"Kekko", Kimmo Pohjonen (Finlândia) - folk-rock, electronic folk

"Olhos de Maré", Dazkarieh (Portugal) - folk rock, world fusion

"Per la Boca", L'Ham de Foc (Espanha) - traditional folk

"Todii", Oliver 'Tuku' Mtukudzi (Zimbabué) - tuku

"Françafrique",Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae

"Ghali Ya Bouy", Smadar Levi (Israel, EUA) - bellydance

"El Wejda", Mariem Hassan & Leyoad (Saara Ocidental) - haul, sahrawi music

"The Beat Of Love", Trilok Gurtu (Índia) - world, jazz, khylal

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

11 Novembro 2006

Emissão #30 - 11 Novembro 2006

A 30ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 11 de Novembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 13 de Novembro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (2 e 4 de Dezembro) nos horários atrás indicados.

"Mile Marbshaisg Air A Ghaol", Capercaillie
(Reino Unido) - celtic folk
Os escoceses Capercaillie a inaugurarem a emissão com o tema “Mile Marbhaisg Air A Ghaol” (Mil Feitiços no Amor), extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael McGoldrick.

"Tristos Ulls", L'Ham de Foc
(Espanha) - traditional folk
Os valencianos L’Ham de Foc (Anzol de Fogo) regressam mais uma vez ao programa, desta feita com “Tristos Ulls”, tema extraído do seu terceiro e último álbum “Cor de Porc” (Coração de Porco), editado no ano passado. Desde 1998 que os L’Ham de Foc se servem de mais de trinta instrumentos acústicos mediterrânicos – darbuka, bendir, gaitas galega e búlgara, violino, sanfona, saltério, bouzouki, alaúde e cítara são alguns deles – para criarem atmosferas intensas e mágicas. Utilizando uma orquestração tradicional, mas socorrendo-se de uma linguagem actualizada, os L’Ham de Foc entrelaçam a música medieval ocidental, do Médio Oriente ou do Mediterrâneo oriental, num universo de sons africanos, europeus e orientais, criando um conglomerado sonoro que se concentra em redor do Mediterrâneo. As percussões são a base para os textos e melodias modais tecidas pela voz de Mara Aranda, que é acompanhada por instrumentos de corda e sopro, tocados por Efrén López. Contrariando a tendência crescente da folk actual pelos ritmos electrónicos, os L’Ham de Foc confiam na simplicidade do som acústico e na pureza da música medieval. Algo que os tornou uma referência em todo o mundo no que toca à música tradicional.

"Eixe Elástico",
Xosé Manuel Budiño (Espanha) - folk, celtic music
O galego Xosé Manuel Budiño com "Eixe Elástico", mais um tema extraído do seu segundo álbum "Arredor", lançado em 2000. Um trabalho eclético e vanguardista, em que este jovem de Moaña - localidade com grande tradição gaiteira, situada junto a Pontevedra - pretendeu dar um salto definitivo na sua carreira artística. O álbum aproxima-se de géneros como o funky, o drum'n'bass, o rock, a new age e a folk, numa panóplia de ritmos e timbres que fazem dele um dos mais ousados tendo como protagonista um instrumento tradicional. Xosé Manuel Budiño procura então adaptar a gaita-de-foles à era da música electrónica, servindo-se da técnica para extrair dela e de outros instrumentos um universo infinito de harmonias, melodias e ritmos. Outro objectivo de Budiño é o de dar a conhecer a música criada na Galiza, numa viagem em redor de territórios físicos e sonoros. Entre outros instrumentos, nos doze temas deste disco fazem-se ouvir as gaitas galega e irlandesa, o low whistle, o bouzouki, o baixo, o acordeão e o clarinete. Um trabalho onde participam os músicos Leandro Deltell, Xan Hernández, Pedro Pascual, Xavier Díaz e Pablo Alonso, e em que são convidados especiais José Climent, o bretão Jacky Molard, as galegas Leilía e Mercedes Peón, os escoceses Donald Shaw e Tony McManus, bem como Ove Larsson, Paco Ibáñez e William Gibbs.

"Yekanini", Shiyani Ngocobo
(África do Sul) - maskanda
Avançamos agora até à África do Sul com o tema "Yekanini" (Tudo Está Perdido), extraído do álbum "Introducing Shiyani Ngcobo", lançado em 2004. O mestre da maskanda nasceu em Umzinto, na costa sul de KwaZulu-Natal, região marcada pela pobreza e pelo êxodo urbano. Na infância, foi com o irmão mais velho que Shiyani Ngcobo construiu a sua primeira igogogo, uma guitarra feita a partir de uma lata de óleo. Fiel à estética inicial da maskanda, há mais de três décadas que o músico se dedica a este género, associando-lhe no entanto uma variedade de ritmos provenientes de outros estilos musicais. Com uma precisão elástica e um repertório diversificado, Shiyani Ngcobo dá voz aos dilemas e sonhos de uma geração de sul-africanos dos tempos do apartheid, sem no entanto cair nos seus estereótipos. A maskanda é um estilo tradicional zulu, surgido no início do século XX e associado aos trabalhadores e migrantes rurais, os quais cantavam sobre a sua nova vida na cidade e lembravam com nostalgia o passado no campo. Originalmente consistia numa técnica musical, conhecida por ukupika, que mais não era senão uma forma de adaptar ritmos tradicionais à guitarra acústica. Um género identificável pelas secções rápidas faladas ao estilo da izibongo, a poesia religiosa zulu. Na maskanda, em que subsistem reminescências dos tempos pré-coloniais, cada variante surge associada a uma comunidade regional sul-africana, diferenciando-se de acordo com os ritmos ou diferentes padrões de dança.

"Saye Mogo Bana",
Issa Bagayogo (Mali) - mandig, wassoulou, afro-electro
Uma viagem até ao Mali com Issa Bagayogo e o tema “Saye Mogo Bana”, extraído do álbum “Timbuktu”, o segundo deste cantautor e editado em 2002. Issa Bagayogo cresceu numa pequena aldeia isolada, tendo então aprendido a tocar a kamele n’goni (uma harpa de caçador, equipada com seis cordas). Nos anos 90 foi até à capital, Bamako, onde conheceu o produtor Yves Wernert e o guitarrista Moussa Kone. Juntos decidiram fundir dois géneros tradicionais da música do Mali – o mandig e o wassoulou – com o techno (no seu país, Bagayogo é mesmo conhecido por “Techno-Issa”). O resultado é um género chamado de afro-electro. As sonoridades griot e as velhas melodias do deserto cruzam-se então com a dub e com a música electrónica de dança. Um híbrido entre sons tradicionais e electrónicos que abre novas fronteiras às centenárias raízes Wassulu do sudoeste do Mali. O nome escolhido para este trabalho presta homenagem à cidade maliana que outrora integrou a rota de caravanas que atravessava o Saára e que foi um importante centro de expansão do Islão. Nas letras deste disco, Issa Bagayogo deixa mesmo clara a esperança de que Timbuktu, capital intelectual e espiritual no final da dinastia Mandingo Askia (século XVI) seja uma cidade multi-étnica, onde muçulmanos, cristãos e vários grupos étnicos do Mali consigam viver em tranquilidade. Acompanhado por um coro feminino, Issa Bagayogo aborda assuntos como a comunidade, o casamento, a tolerância racial, a globalização e a toxicodependência. No tema que escutámos, a morte é a principal referência. Uma canção antiga, à mistura com percussão e cordas eléctricas, onde se recorda que "a morte leva-nos a carne mas não o nome”…

"Sahara Neb Gija", Mariem Hassan & Leyoad (Saara Ocidental) - haul, sahrawi music
Os sons deste planeta musical continuam com o tema “El Wedja”, extraído do álbum “Mariem Hassan com Leyoad”, editado em 2002. Mariem Hassan é uma das figuras máximas da música sarauí e símbolo da luta deste povo pela independência. Compositora, letrista e dona de uma voz excepcional, Mariem canta com uma intensidade dilacerante o amor, a fé e o sofrimento da população do Saara Ocidental, antiga colónia espanhola que em 1975 Marrocos e a Mauritânia dividiram entre si. À semelhança de dezenas de milhares de sarauís, a jovem Mariem Hassan foi então obrigada ao exílio, refugiando-se com a família durante 27 anos na parte mais inóspita do deserto do Saara, no sul da Argélia. A criação de grupos musicais foi uma forma encontrada por muitos para amenizar a vida dura dos acampamentos. Mariem Hassan, que actualmente vive em Sabadell (Barcelona), colabora há quase três décadas com diversos grupos de música sarauí, cantando na Europa, América e África. Tudo para que o mundo conheça a situação de um povo exilado e de uma artista que anseia poder regressar algum dia em liberdade a Smara, a cidade em que nasceu. Evocando os exilados e os mártires da guerra contra Marrocos, Mariem Hassan canta o haul, um blues do deserto, carregado de electricidade e hipnotismo, acompanhada pela percurssão seca do tebal (tambor grande, tocado com as mãos pelas mulheres) e pelo tidinit (um alaúde rústico de quatro cordas, gradualmente substituído pela guitarra eléctrica), e esculpido pelas guitarras eléctricas.

"Maname Diname", Cheb I Sabbah (Argélia, EUA) - hindustani music
A viagem prossegue com Cheb I Sabbah, que nos traz "Maname Diname", tema extraído do álbum "Krishna Lila", lançado em 2002. Terceiro trabalho deste DJ argelino de ascendência judaica, que deixou o seu país na década de 60 e actualmente vive em São Francisco, nos Estados Unidos. Chebijii, nome pelo qual Cheb I Sabbah gosta de ser tratado, passou várias décadas a reunir sons nativos de Marraquexe, Nova Iorque e Nova Deli, sendo um grande apreciador e estudioso da música clássica hindu. Tal como acontece noutras religiões, no hinduísmo o canto é considerado uma prática de fé que permite uma aproximação com Deus. "Krishna Lila" é precisamente uma recolha de nove bhajans (canções de devoção) que para além de serem acompanhadas por instrumentos tradicionais hindus como a tabla, são misturados com ritmos de dança e batidas electrónicas. Neste álbum mais introspectivo, gravado em cinco dialectos hindus, Chebijii conta com a participação de Karsh Kale e Bill Laswell. Grande parte do disco baseia-se nas tradições da folk clássica indiana, com predominância da cítara de Ravi Shankar ou Ashwin Batish, e nos ritmos da tabla do Médio Oriente, em que têm especial influência percussionistas como Zakir Hussain. Mesmo não sendo indiano, Cheb I Sabbah é um dos maiores representantes do chamado asian underground, um movimento de artistas com origem étnica na Índia e Paquistão que vivem em grandes cidades do ocidente como Londres, Paris, Nova Iorque e São Francisco, e que fundem a sua cultura original com influências ocidentais e elementos electrónicos.

"l'Orient Est Rouge", Koçani Orkestar
(Macedónia) & Lightning Head (Reino Unido) - gypsy brass band, gypsy oriental music
A fechar o programa, despedimo-nos com a Koçani Orkestar, que nos traz o tema "L'Orient Est Rouge". Uma versão remisturada por Lightning Head e extraída da colectânea "Electric Gypsyland", editada no ano passado. Originários da cidade macedónia do mesmo nome, os Koçani Orkestar são uma das mais conhecidas fanfarras ciganas daquele país (na Macedónia estes agrupamentos são conhecidos por duvaçki orkestar), bandas criadas originalmente século XIX para imitar as fanfarras militares turcas, e que acabariam por substituir os tradicionais ensembles. Liderada pelo trompetista Naat Veliov e com um repertório simultaneamente tradicional e contemporâneo, a Koçani Orkestar mistura o som das fanfarras com ritmos de dança turcos e búlgaros e melodias ciganas dos Balcãs. O resultado é uma frenética festa sonora, bem ao estilo de um género descrito localmente como romska orientalna musika (música cigana oriental), e composta por uma poderosa secção rítmica, encabeçada por quatro tubas e acompanhada pelo saxofone, pela trompete, pelo clarinete e pelo acordeão. Com a sua crescente projecção mundial, o ritmo da música cigana dos Balcãs acabou por chamar a atenção de produtores de música electrónica como Lightning Head, nome artístico do inglês Glyn "Bigga" Bush. Tornar a música sensual é o objectivo deste DJ, habituado a misturar ritmos da música brasileira, como o samba e a batucada, com géneros jamaicanos como o reggae, a dub, o ska, o rocksteady e a ragga, ou mesmo o boogaloo e a salsa. Energia e sensualidade estão assim combinadas neste “oriente vestido de vermelho”…

Jorge Costa

31 Outubro 2006

World Music Charts Europe - Novembro 2006

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Novembro dos 171 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, a manutenção da liderança pelo segundo mês consecutivo e as onze novas entradas no topo do painel: oito em estreia absoluta no WMCE e três a subirem para os primeiros vinte lugares:

1º- SAVANE, Ali Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 1ºlugar

2º- HIRI, Kepa Junkera (Espanha) - Elkar
mês passado: 27ºlugar
3º- PASJA LEGENDA, Brina (Eslovénia) - DruGod
mês passado: 6ºlugar
4º- ELECTRIC GYPSYLAND 2, vários (Roménia) - Crammed
mês passado: 42ºlugar
5º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 4ºlugar
6º- BOOM PAM, Boom Pam (Israel) - Essay Recordings
mês passado: 10ºlugar
7º- GOLDEN AFRIQUE VOL. 3, vários - Network Medien
mês passado: 2ºlugar

8º- SHTETL SUPERSTARS, vários - Trikont
estreia na tabela
9º- ALMINARES MEDITERRANEOS, Caravasar (Espanha) - Resistencia
estreia na tabela
10º- MUSIQUES METISSES, vários - Marabi
mês passado: 3ºlugar

11º- IDJAGIEĐAS, Mari Boine (Noruega) - Emarcy (Universal)
mês passado: 5ºlugar

12º- EOLH, Almasala (Espanha) - Ventilador
estreia na tabela
13º- BURLESQUE, Bellowhead (Reino Unido) - Westpark
estreia na tabela
14º- M'BEM DI FORA, Lura (Cabo Verde) - Lusafrica
estreia na tabela
15º- DA QUESTA PARTE DEL MARE, Gianmaria Testa (Itália) - Harmonia Mundi
estreia na tabela
16º- RIMFAXE, Gjallarhorn (Finlândia, Suécia) - Vindauga/Westpark
mês passado: 11ºlugar
17º- ABACABOK, Tartit (Mali) - Crammed

mês passado: 107ºlugar
18º- ELECTRIC GRIOT LAND, Ba Cissoko (Guiné) - Totolo
estreia na tabela

19º- MASCARAS, Sergent García (Espanha) - EMI
mês passado: 15ºlugar

20º- EL EVANGELIO SEGUN MI JARDINERO, Martin Buscaglia (Uruguai) - Love Monk
estreia na tabela

23 Outubro 2006

Emissão #29 - 28 Outubro 2006

A 29ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 28 de Outubro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 30 de Outubro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (18 e 20 de Novembro) nos horários atrás indicados.

"Breaking The Ethers/Serengeti", Tuatara
(EUA) - funky, jazz, rock, lounge
A abrir a emissão os Tuatara com o tema "Breaking The Ethers/Serengeti", extraído do seu primeiro álbum "Breaking The Ethers", lançado em 1997. Um trabalho instrumental que foi bem acolhido pela crítica devido à sua originalidade e expressão musical. Nele são reunidas várias jam sessions em que o quarteto utiliza instrumentos exóticos como o didgeridoo, os tambores de aço, as percussões africanas, o bandolim e o alaúde. O disco abre com sons étnicos que rapidamente ganham ritmo e percussão. Esta banda experimental mistura referências como o rock, o bebop, o jazz, o funky ou o lounge, criando um som em que extravasa a diversão e que se tornou conhecido sobretudo pela sua utilização em bandas sonoras para cinema e televisão. Entretanto os Tuatara têm vindo a cruzar a instrumentação ao vivo com as misturas electrónicas de vários DJ's. Este colectivo de compositores norte-americanos nasceu em Seatle, em 1997. Integram o grupo Barrett Martin (ex-percussionista dos Screaming Trees), Mad Season, Steve Berlin (dos Los Lobos), Justin Harwood (antigo baixista dos Luna), Scott McCaugghey, Peter Buck (ambos dos REM) e Skerik (lendário saxofonista de Seatle). A título de curiosidade, a tuatara - nome que em maori significa "dorso espinhoso" - é um réptil da Nova Zelândia, praticamente extinto, e que pouco mudou nos últimos 220 milhões de anos.

"Baline",
Urban Trad (Bélgica) - techno folk
As músicas do mundo prosseguem com os belgas Urban Trad e o tema "Baline", extraído do seu trabalho de estreia "One O Four", editado em 2001. Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk urbana, influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. O momento alto da carreira da banda aconteceria no Festival Eurovisão da Canção de 2003, na Letónia. Os oito elementos do grupo conquistaram então um segundo lugar e o grande público com uma canção interpretada num idioma imaginário e que levou pela primeira vez o timbre da gaita-de-foles para a Eurovisão. Volvidos três álbuns, o repertório dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a França, a Espanha e os países de Leste. Um grupo de inspiração tradicional, mas ancorado no presente, já que acompanha instrumentos acústicos como o acordeão, o violino e a flauta com o canto e uma secção rítmica cheia de energia e musicalidade.

"Fume de Lume", Xosé Manuel Budiño
(Espanha) - folk, celtic music
O galego Xosé Manuel Budiño com "Fume de Lume", tema extraído do seu segundo álbum "Arredor", lançado em 2000. Um trabalho eclético e vanguardista, em que este jovem de Moaña - localidade com grande tradição gaiteira, situada junto a Pontevedra - pretendeu dar um salto definitivo na sua carreira artística. O álbum aproxima-se de géneros como o funky, o drum'n'bass, o rock, a new age e a folk, numa panóplia de ritmos e timbres que fazem dele um dos mais ousados tendo como protagonista um instrumento tradicional. Xosé Manuel Budiño procura então adaptar a gaita-de-foles à era da música electrónica, servindo-se da técnica para extrair dela e de outros instrumentos um universo infinito de harmonias, melodias e ritmos. Outro objectivo de Budiño é o de dar a conhecer a música criada na Galiza, numa viagem em redor de territórios físicos e sonoros. Entre outros instrumentos, nos doze temas deste disco fazem-se ouvir as gaitas galega e irlandesa, o low whistle, o bouzouki, o baixo, o acordeão e o clarinete. Um trabalho onde participam os músicos Leandro Deltell, Xan Hernández, Pedro Pascual, Xavier Díaz e Pablo Alonso, e em que são convidados especiais José Climent, o bretão Jacky Molard, as galegas Leilía e Mercedes Peón, os escoceses Donald Shaw e Tony McManus, bem como Ove Larsson, Paco Ibáñez e William Gibbs.

"Kova", Kimmo Pohjonen (Finlândia) - folk-rock, electronic folk
A viagem prossegue com o finlandês Kimmo Pohjonen e o tema “Kova”, retirado do álbum “Kielo”, lançado em 1999. Uma série de peças a solo, algumas delas acústicas, outras manipuladas, que estabeleceram um novo parâmetro para a nova avant garde. Com uma carreira de vinte anos, repartida entre a folk, a música clássica e o rock, o músico e compositor Kimmo Pohjonen mistura de forma única o acordeão com amostras de som e percussões, levando-o para universos como a dança contemporânea ou o teatro musical. Pohjonen, que nasceu na aldeia de Viiala, começou a tocar acordeão aos oito anos por influência do pai. Na Academia Sibelius, em Helsínquia, foi encorajado a absorver a folk e a misturá-la com outros estilos. Para expandir a sonoridade do fole diatónico, em 1996 Kimmo apresentou-se em palco com um acordeão cromático e com composições originais que integravam samples e loops do islandês Samuli Kosminen, com quem viria a formar o duo Kluster. Mais tarde, a eles juntaram-se Pat Mastrelotto e Trey Jun, dando lugar ao quarteto Kluster TU. Entretanto, Pohjonen tem vindo a colaborar com músicos finlandeses como Heikki Leitinen, Maria Kalaniemi, Alanko Saatio ou Arto Järvellä, integrando ainda os grupos de new folk Pinnin Pojat e Ottopasuuna. Apesar dos mais de 13 quilos do acordeão, em palco Pohjonen movimenta-se de forma enérgica, extraindo de forma electrónica camadas de som a que por vezes adiciona a própria voz. Actualmente mais voltado para o formato acústico, Kimmo Pohjonen mantém no entanto como base as raízes e os cantos populares da Finlândia, tocando com primazia outros tipos de acordeão, harmónica e ainda a marimba. Tradição e improviso estão assim unidos, numa busca de novos sons através da música experimental e electrónica.

"Halla",Värttinä
(Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
A jornada musical continua com as Värttinä e o tema “Halla”, extraído do seu sexto álbum “Kokko”, editado em 1996. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebrou o seu 23ºaniversário, trouxe-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia – reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida em que se mantém o vigor e o calor vocal de sempre.

"M'Bifo",Rokia Traoré (Mali) - malian contemporary music
Segue-se Rokia Traoré com o tema “M’Bifo”, extraído do álbum “Bowmboï”, editado em 2003. Neste seu terceiro álbum, a mais jovem diva do Mali dá uma expressão moderna aos instrumentos tradicionais africanos que habitualmente não surgem juntos, combinando o n’goni com a balaba (grande balafon da região de Beledougou, a terra natal de Rokia) e inovando nas estruturas rítmicas e melódicas da música de raízes étnicas da África Ocidental. Filha de um diplomata maliano, Rokia Traoré construiu a sua carreira em França antes de regressar ao seu país. Mesmo não sendo uma griot – ela pertence ao grupo étnico Bamana, a maioria dos Bambara – ela decidiu escolher o canto como carreira. Durante a adolescência integraria várias bandas, até que em 1996, aos 22 anos, resolveu encarar a música de forma profissional. A voz de Rokia Traoré não possui a força de Oumou Sangare ou a profundidade de Kandia Kouyate, mas é delicada e intensa, apresentando-se cheia de nostalgia e de esperança. Co-produzido por Rokia e Thomas Weill, este disco escapa aos estereótipos com que por vezes o ocidente olha para a música africana. Os dez temas foram compostos em bamana, a língua nativa de Rokia Traoré. Nas músicas, onde esta canta a solo ou lado a lado com Ousmane Sacko e Charlotte Dipanda, Rokia Traoré fala sobre a infância, as fragilidades dos relacionamentos, os direitos das mulheres, a pobreza, a discriminação racial ou a vida diária no Mali. Grande parte do trabalho foi gravado naquele país, à excepção dos dois temas em que participa o grupo de cordas Kronos Quartet, os quais foram registados em São Francisco.

"Dery", Salif Keita
(Mali) - afropop, mandingo
A jornada prossegue com Salif Keita e o tema “Dery”, extraído do álbum “M’Bemba”, editado no ano passado. Exímio guitarrista, Salif Keita começou a sua carreira nos anos 60 na Rail Band e nos Ambassadeurs. Um longo percurso que teve como pontos altos a passagem por Abdijan, Nova Iorque e Paris. Mas foram precisos trinta e cinco anos até que Salif Keita pudesse gravar um disco no seu país, o Mali. No álbum “M’Bemba” (Antepassado), este conta com a colaboração de músicos como Mama Sissoko na luth n’goni, ou Toumani Diabaté na kora, duas guitarras tradicionais do Mali. Um trabalho onde Salif Keita invoca a memória do seu glorioso antecessor, o imperador Soundiata Keita, fundador do império Mandingue no século XII. Neste disco, Salif Keita abandona um estilo orientado para a pop, antecipando o renascimento da música tradicional mandingo e dos seus principais instrumentos, como a n’goni (espécie de guitarra mourisca), o balafon (xilofone ancestral) ou o calabash (instrumento de percussão). A voz de ouro do Mali cruza então sonoridades como o rock, o jazz, a soul, a chanson française ou os ritmos afro-cubanos, influências acústicas com que o músico inaugurou o conceito de afropop.

"No Agreement", Fela Kuti (Nigéria) - afrobeat
A fechar o programa, despedimo-nos com Res, Tony Allen, Ray Lema, Baaba Maa, Positive Black Soul e Archie Shepp. Todos eles se juntam no tema “No Agreement”, parte integrante do álbum "Red Hot +: The Music and Spirit of Fela Kuti”, um tributo gravado em 2002 pela Red Hot com o objectivo de angariar dinheiro para os 25 milhões de africanos infectados com o HIV. São novas versões das músicas de Fela Kuti, aqui interpretadas por quase quarenta grupos e artistas, que as resgataram do passado e remisturaram de acordo com o seu estilo. Praticamente irreconhecíveis em relação aos originais, estes temas cobrem um vasto especto musical que passa pelo hip-hop, jazz, soul, afrobeat, world music, electronic e rock. Percursor da afrobeat e considerado o maior nome da música africana, Fela Kuti transformou-se num ícone da luta contra a sida em África ao ter morrido em 1997 devido a complicações relacionadas com a doença. Algo irónico tendo em conta que o músico nigeriano acreditara durante muito tempo que a sida não existia.


Jorge Costa

13 Outubro 2006

Emissão #28 -14 Outubro 2006

A 28ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 14 de Outubro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 16 de Outubro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (4 e 6 de Novembro) nos horários atrás indicados.

"Iddjagieđas", Mari Boine
Persen (Noruega) - joik, jazz, blues
A abrir a emissão a norueguesa Mari Boine Persen com o tema “Iddjagieđas” (Na Mão da Noite), extraído do álbum do mesmo nome, lançado em Abril deste ano. Com mais de vinte anos de carreira, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, povo que habita a chamada Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, o rock e mesmo a música electrónica. São sons mais entoados que cantados, onde se evoca a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.

"Nós Daqui Vós Dali",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo continuam com os Gaiteiros de Lisboa, que nos trazem o tema "Nós Daqui Vós Dali", extraído do álbum "Dança Chamas", gravado ao vivo em Outubro de 2000 no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém. São novos arranjos das versões registadas em estúdio, numa viagem pelo romanceiro tradicional e pela história da música popular portuguesa que tem por convidados José Mário Branco, Danças Ocultas, Vozes da Rádio e Tocá Rufar. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. O experimentalismo deste grupo, que utiliza ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, leva-o a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Criando um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares, os Gaiteiros de Lisboa ressuscitaram o gosto por uma certa música portuguesa de raiz tradicional, arrastando para os seus concertos verdadeiras multidões de pessoas a quem estas músicas pouco ou nada diziam.

"Olhos de Maré",
Dazkarieh (Portugal) - folk rock, world fusion
Os portugueses Dazkarieh trazem-nos "Olhos de Maré", tema extraído do seu último álbum "Incógnita Alquimia". Neste trabalho, apresentado no final de Setembro no Mosteiro dos Jerónimos, o grupo demonstra uma sonoridade mais coesa, mantendo no entanto a busca incessante de sons acústicos que se fundam na música tradicional. Conhecida por navegar entre os sons da Irlanda, Índia, África, Andes, Espanha e Balcãs, esta banda lisboeta propõe-nos uma viagem pela diversidade musical do planeta. Um projecto que procura a sua alma sonora nas culturas mais díspares. Os instrumentistas dos Dazkarieh, cuja formação vai da música tradicional, experimental e erudita ao rock, servem-se, entre outros, do bouzouki e da flauta transversal, da nyckelharpa (harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas) e do cavaquinho, da gaita transmontana e do bandolim. Formados em 1999 por Filipe Duarte, José Oliveira e Vasco Ribeiro Casais, os Dazkarieh começaram por ser conotados com o som celta e a folk gótica. Mais tarde, com a fusão de materiais musicais tão diferenciados, e já assumidamente ligados à chamada world music, o grupo integrou então cinco novos elementos, passando a conceber canções em língua portuguesa. Recorde-se que até então o "dazkariano" era a base linguística de todas as suas músicas.


"Todii", Oliver 'Tuku' Mtukudzi (Zimbabué) - tuku
A viagem prossegue com Oliver 'Tuku' Mtukudzi e o tema "Todii", retirado do álbum "Tuku Music", lançado em 1999. Figura emblemática da música urbana africana e uma das maiores estrelas do Zimbabué, o cantautor e guitarrista Oliver Mtukudzi criou um género único chamado tuku. Uma aliança dos ritmos da África austral, com influências da mbira, do mbaqanga sul-africano, da zimbabueana jit music, do katekwe, do urban zulu, das percussões dos Korekore, o seu clã, e dos temas tradicionais shona, etnia que corresponde a três quartos da população do Zimbabué. Oliver Mtukudzi começou a sua carreira em 1977 ao juntar-se aos Wagon Wheels, grupo lendário de que também fazia parte o poeta revolucionário Thomas Mapfumo. Foi com músicos desta banda que ele formaria os Black Spirits. Com a independência do seu país, Oliver torna-se produtor e consegue editar dois álbuns por ano – a lista já vai nos 35 trabalhos de originais. Pelo seu carácter inovador e pela voz generosa, a música de Oliver Mtukudzi distingue-se facilmente dos outros estilos do Zimbabué. Um artista popular pela capacidade de abordar os problemas económicos e sociais do seu povo, e de seduzir o público com um humor contagioso e optimista.

"Françafrique",
Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
A jornada musical continua com Tiken Jah Fakoly e o tema "Françafrique", extraído do álbum do mesmo nome, gravado em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002. Trabalho em que se destacam as colaborações de Anthony B, U-Roy e Yaniss Odua, e onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a situação sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste africano, Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no norte da Costa do Marfim, Guiné, Mali e Burkina Faso.

"Tuhe", Trilok Gurtu
(Índia) - world, jazz, khylal
A jornada prossegue com Trilok Gurtu e o tema “Tuhe”, extraído do álbum "The Beat of Love", editado em 2001. Gurtu, cujo avô era um conhecido tocador de cítara e a mãe uma estrela do canto clássico, tornou-se conhecido como membro dos Oregon, uma banda de fusão world/jazz. Cinco vezes eleito o melhor percussionista do planeta pela revista “Downbeat”, título ganho pela ponte que criou entre a música do Oriente e Ocidente, Trilok Gurtu mistura ritmos indianos, executados com a tabla, com elementos do jazz, da música de dança, do rock, da música clássica e da música étnica de todo o planeta. Este ano, ele regressou à tradição indiana, apoiado pelos cantores Rajan e Sajan Misra, e apresentando o khylal, espécie de cântico hipnótico. O virtuosismo deste indiano, natural de Bombaim, transformou-o num dos grandes vultos do post-jazz, do jazz de fusão e do avant-garde. Ele tem colaborado com génios da música como Jan Garbarek, Ravi Shankar ou David Gilmour, destacando-se na comunidade jazzística por surgir ao lado de nomes como Don Cherry, John McLaughlin, Joe Zawinul ou Pat Metheny.

"Amdy Bayp",Yat-Kha (Rússia) - tuva rock, punk-folk
Seguem-se os Yat-Kha, que nos trazem o tema "Amdy Bayp", extraído do álbum "Tuva Rock", editado no ano passado. Esta banda originária da república russa de Tuva (região situada a sudoeste da Sibéria) foi fundada em Moscovo em 1991 pelo vocalista e guitarrista Albert Kuvezin e pelo compositor electrónico russo Ivan Sokolovsky. Farto de cantar temas xamânicos em grupos típicos como os Huun-Huur-Tu, Kuvezin decidiu então juntar a música moderna do Ocidente com a tradicional do seu país. O duo adoptou o nome de Yat-Kha (lê-se iát-rá), em alusão a uma espécie de pequena cítara da Ásia central semelhante à guzheng chinesa. Aos instrumentos tradicionais juntam-se então as guitarras eléctricas, os instrumentos electrónicos e outros inventados pelo grupo. Com a energia do rock, a banda rejuvenesceu uma das mais extraordinárias tradições vocais do mundo, criando distorções e dissonâncias que se aproximam do punk e do metal. As melodias e ritmos são acompanhados pelas três vocalizações básicas do canto polifónico da Tuva: o khoomei, o kargyraa e o sygyt. Técnica outrora muito utilizada pelos povos da Ásia central para imitar os sons da natureza, e em que uma única voz consegue emitir várias notas em simultâneo.

"Peregrino", Zuco 103
(Brasil, Holanda, Alemanha) - electronic, nu-jazz
A fechar o programa os Zuco 103 e o tema "Peregrino", numa remistura de David Walters, artista e produtor estabelecido em Marselha e que fez parte do colectivo Zimpala. Um tema recheado de breakbeat e extraído do álbum "One Down, One Up", duplo CD editado em 2003 e que se divide entre temas acústicos, actuações ao vivo e remisturas. Os Zuco 103 misturam house com maracatu e drum'n'bass com samba, entre outros ritmos brasileiros e electrónicos. Pioneiros na fusão de ritmos de dança naquele país, eles são formados pela vocalista brasileira Lilian Vieira, pelo baterista holandês Stefan Kruger e pelo teclista alemão Stefan Schmid. Os dois músicos, que formavam já um dueto de jazz, decidiram dar alguma frescura à banda, convidando uma cantora do Rio de Janeiro que haviam conhecido no Conservatório de Roterdão.

Jorge Costa

02 Outubro 2006

World Music Charts Europe - Outubro 2006

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Outubro dos 193 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, a manutenção da liderança, as quatro novas entradas para o WMCE e as ligeiras alterações no painel dos dez álbuns que em Setembro lideravam a tabela:

1º- SAVANE, Ali Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 1ºlugar

2º- GOLDEN AFRIQUE VOL. 3, vários - Network Medien

estreia na tabela
3º- MUSIQUES METISSES, vários - Marabi
mês passado: 8ºlugar

4º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 3ºlugar

5º- IDJAGIEĐAS, Mari Boine (Noruega) - Emarcy (Universal)
mês passado: 6ºlugar

6º- PASJA LEGENDA, Brina (Eslovénia) - DruGod
estreia na tabela
7º- THE ROUGH GUIDE TO WEST AFRICAN GOLD, vários - World Music Network
mês passado: 4ºlugar

8º- GRAND BAZAAR, Istambul Oriental Ensemble (Turquia) - Network Medien
mês passado. 9ºlugar

9º- EL VIAJE, Gabriela (Argentina) - Intuition
mês passado: 11ºlugar

10º- BOOM PAM, Boom Pam (Israel) - Essay Recordings
estreia na tabela
11º- RIMFAXE, Gjallarhorn (Finlândia, Suécia) - Vindauga/Westpark
mês passado: 104ºlugar
12º- GOLD & WAX, Gigi (Etiópia, EUA) - Palm Pictures
mês passado: 2ºlugar
13º- TRAGARE, Druzina (Eslováquia) - Indies
mês passado: 12ºlugar
14º- DOG DAZE, Csokolom (Holanda) - Arhoolie

mês passado: 21ºlugar
15º- MASCARAS, Sergent García (Espanha) - EMI
mês passado: 91ºlugar
16º- ELYSIUM FOR THE BRAVE, Azam Ali (EUA, Irão) - Six Degrees
mês passado: 15ºlugar

17º- AFTER THE FACT, Orient Expressions (Turquia) - Doublemoon
mês passado: 44ºlugar
18º- STUDIO CAMEROON
Sally Nyolo and the Original Bands of Yaombe (Camarões) - Riverboat
estreia na tabela
19º- POPLOR, Thomas Kocko & Orchestr (República Checa) - Indies
mês passado: 13ºlugar

20º- SONGS OF ICON, Lekan Babalola (Nigéria, Reino Unido) - Mr Bongo
mês passado: 40ºlugar

27 Setembro 2006

Emissão #27 - 30 Setembro 2006

A 27ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 30 de Setembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 2 de Outubro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (21 e 23 de Outubro) nos horários atrás indicados.

"Ghole Pamtschal", Schäl Sick Brass Band
(Alemanha) - brass band, jazz, folk
Os Schäl Sick Brass Band a abrirem a emissão com o tema "Ghole Pamtschal", extraído do álbum "Tschupun", editado em 1999. O grupo surgiu em Colónia, capital cultural da província da Renânia e fortaleza mediterrânica da Alemanha. Um dos muito emigrantes e visitantes de todo o mundo que a encheram de sons coloridos foi Raimund Kroboth, que em 1977 se instalou na margem direita do Reno. No dialecto local, aquela parte da cidade é conhecida precisamente por "Schäl Sick" (lado errado). Isto porque está do lado contrário à catedral e ao centro de Colónia, e porque é um enclave protestante na católica Renânia. Partindo de uma secção de ritmo que tem por base a tuba, a cítara popular e as percussões, os Schäl Sick Brass Band utilizam o som das fanfarras da região alemã da Bavaria e da Boémia checa para explorarem com inovação e versatilidade a música de outras culturas. Eles combinam elementos de jazz com o rock, o funk, o hip-hop o rap ou a folk. Um universo sonoro influenciado pela Europa central e de Leste e pelo norte de África, onde convivem ritmos cubanos, gregos, latinos, africanos e orientais, e instrumentos de todo o mundo - tavil, kanjira, dhol, dolki, omele, sekere, gangan, thereminvox, entre muitos outros. Um ambiente festivo em que se celebra a música de todo o planeta e onde o lema é "pensar global, soprar local"...

"Morning Nightcap",
Lúnasa (Irlanda) - celtic
As músicas do mundo prosseguem com os Lúnasa e o tema "Morning Nightcap", extraído do álbum "The Merry Sisters of Fate", lançado em 2001. Na Irlanda, ainda hoje o mês de Agosto é conhecido por Lúnasa - o termo original era Lughnasadh -, uma alusão ao antigo festival celta outrora realizado no primeiro dia de Outono em honra do deus irlandês Lugh, patrono das artes. Este quinteto instrumental, criado em 1997, contraria a tendência de fundir a música tradicional com o rock, a pop ou a música electrónica. No enteder dos Lúnasa, a renovação da música celta passa pela tradição, embora eles não fechem portas a novas sonoridades. O grupo transporta a música acústica do seu país para novos territórios, acudindo directamente ao coração dos ritmos. Inspirados pela The Bothy Band, referência dos anos de 1970, os novos deuses da música irlandesa juntam de maneira singular o violino, a flauta, o whistle, o baixo e a guitarra acústica, explorando também as raízes bretãs e galegas. Ao baixista Trevor Hutchinson (ex-Waterboys) e ao guitarrista Paul Meehan (que veio substituir Donogh Hennessy, antigo membro da Sharon Shannon Band) juntam-se então o violinista Seán Smyth e as flautas e gaitas irlandesas de Kevin Krawford e Cillian Vallely. Graças aos seus arranjos inventivos e ao som enérgico com influências do jazz, blues, rock, country e outras formas de improviso, os Lúnasa definiram um novo standard para a música irlandesa de raízes tradicionais.

"Per la Boca", L'Ham de Foc
(Espanha) - traditional folk
Os valencianos L’Ham de Foc (Anzol de Fogo) regressam ao programa, desta feita com “Per la Boca”, tema extraído do seu terceiro e último álbum “Cor de Porc” (Coração de Porco), editado no ano passado. Desde 1998 que os L’Ham de Foc se servem de mais de trinta instrumentos acústicos mediterrânicos – darbuka, bendir, gaitas galega e búlgara, violino, sanfona, saltério, bouzouki, alaúde e cítara são alguns deles – para criarem atmosferas intensas e mágicas. Utilizando uma orquestração tradicional, mas socorrendo-se de uma linguagem actualizada, os L’Ham de Foc entrelaçam a música medieval ocidental, do Médio Oriente ou do Mediterrâneo oriental, num universo de sons africanos, europeus e orientais, criando um conglomerado sonoro que se concentra em redor do Mediterrâneo. As percussões são a base para os textos e melodias modais tecidas pela voz de Mara Aranda, que é acompanhada por instrumentos de corda e sopro, tocados por Efrén López. Contrariando a tendência crescente da folk actual pelos ritmos electrónicos, os L’Ham de Foc confiam na simplicidade do som acústico e na pureza da música medieval. Algo que os tornou uma referência em todo o mundo no que toca à música tradicional.

"Khululuma", African Rhythm Travellers
(África do Sul) - african dance
A viagem prossegue com os African Rhythm Travellers e o tema "Khululuma", extraído do album "Putumayo Presents African Groove", editado em 2003. Os African Rythm Travellers nasceram em Joanesburgo, na África do Sul, em 2001, fruto da colaboração entre os membros dos Colorfields, uma banda performativa da Cidade do Cabo, e os The Branch, um grupo local de afro-reggae. Eles juntam o kwaito com o funk, o reggae, a dub, a house e a música electrónica, criando uma mistura única de ritmos e melodias africanas a que chamaram de african dance. São sons tribais que se cruzam com géneros urbanos. Os African Rhythm Travellers são formados por Ben Amato (teclados, guitarra, saxofone e flauta), Eric Michot (baixo), Ash Read (tambores), Lennox Olivier (percussões), Danial "Dials" Gous (guitarra), Judah (vozes) e Kirsten Olivier (teclados), incorporando no seu repertório a sonoridade do bongo, do saxofone e mesmo da flauta. As letras são apimentadas com comentários sociais e espiritualidade rastafari. O objectivo da sua música é dar algo positivo ao mundo e abrir o seu universo musical a toda a gente, numa mensagem que apela à consciencialização.

"Let Them Talk", Geraldo Pino & The Heartbeats (Serra Leoa) - afro soul funk
Seguimos até à Serra Leoa com Geraldo Pino e os The Heartbeats. Eles trouxeram-nos o tema “Let Them Talk”, extraído da antologia "Afro Soco Soul Live". Um CD editado no ano passado para resgatar do desconhecimento o álbum “Heavy Heavy Heavy”, gravado entre 1962 e 1967. Cantor, guitarrista e líder dos The Heartbeats, Geraldo Pino, cujo verdadeiro nome é Gerald Pine, foi o herói do afro soul funk e um dos pioneiros da afrobeat na África Ocidental nas décadas de 60 e 70. Em 1961, com a explosão do rock'n'roll, ele e a sua banda começam por interpretar sucessos da soul e da pop inglesa e americana, tornando-se a primeira orquestra do género na região. Quatro anos depois partem para Monróvia, capital da Libéria, o primeiro país africano em se popularizaram os discos de James Brown, Ray Charles, Otis Redding e Wilson Pickett. Marcas que a banda levaria consigo nas tournées pelo Gana e Nigéria. Com a crescente influência do funk latino, a música de Gerald Pino e dos The Heartbeats africaniza-se, ganhando energia, ritmo e slogans políticos. Na sua primeira actuação em Lagos, na Nigéria, o estilo inovador de Geraldo Pino influenciou de tal forma Fela Kuti, então dedicado ao jazz e ao highlife, que este evitou actuar em locais onde ele já tivesse passado. Isto porque acreditava que nada poderia superar o James Brown africano.

"Hakmet Lakdar", Hasna El Becharia
(Argélia) - gnawa music
A jornada musical prossegue com Hasna El Becharia e o tema “Hakmet Lakdar”, extraído do álbum “Djazaïr Johara”, editado em 2001. Os ritmos e melodias dos escravos negros africanos e dos imigrantes e seus descendentes são parte da cultura musical do norte de África. Uma herança que em Marrocos tem o nome de gnawa, e na Argélia é chamada de diwan de Bechar. É precisamente em Bechar, cidade situada no sul da Argélia, junto ao deserto do Sáara, que vive Hasna El Becharia, a rainha do diwan e da vibrante música de casamentos. Em 1972 ela formou um grupo com três amigos, começando por tocar na guitarra acústica os ritmos tradicionais do deserto. O sucesso nas festas não se faz esperar, e para se destacar das vozes do público, que cantava em coro as suas canções, Hasna El Becharia decide enveredar pela guitarra eléctrica. A fama estende-se então a todo o sul da Argélia. Apesar de dominar a utilização de instrumentos afro-magrebinos como o gumbri (baixo de três cordas do Sáara) ou a krakesh (espécie de castanholas de metal), e de tocar também oud, derbouka, bendir e banjo, a guitarra é a sua vida. Em mais de cinquenta anos de carreira, Hasna El Becharia gravou apenas um trabalho. Tudo porque os produtores argelinos nunca lhe inspiraram confiança. Neste disco, em que participam músicos da Argélia, Marrocos, Tunísia e Níger, Hasna El Becharia explora o som das guitarras e dos timbres vocais, deixando transparecer o seu profundo sentido de improviso e composição.

"Sahra Saidi", Gamal Goma (Egipto) - bellydance
O percusionista Gamal Goma traz-nos o tema “Sahra Saidi”, extraído do álbum “Shake Me Ya Gamal”, lançado em 2003. Gamal Goma nasceu em Giza, no Egipto, e graduou-se na Academia de Música do Cairo, acumulando duas décadas de experiência com os mais famosos ensembles do Médio Oriente e América. Na capa deste disco, uma colecção de solos de percussão, cada um baseado num ritmo particular – saidi, malfoof, maqsum, ayyoub, khaliji ou fallahi –, ele surge ao lado da dançarina Fifi Abdou. Especialista na tabla (tambor indiano), Gamal Goma toca também doholla (tabla grave), mazhar (pandeireta gigante), riqq (pandeireta árabe), sagat (timbales de dedo) e dufs (espécie de pandeireta). Neste trabalho podemos conhecer algumas composições para raqs sharki, termo árabe para dança do ventre, e que traduzido literalmente equivale a “dança do Oriente”. Um género enraizado numa dança levada a cabo em celebrações comunitárias e dançada por todos os membros da comunidade. Com o crescimento do Islão veio a segregação entre homens e mulheres, mas no século XX o desenvolvimento dos media precipitou a sua dissolução. Com a introdução da dança do ventre nos Estados Unidos pelo vaudeville e pelos espectáculos burlescos, esta popularizou-se em todo o mundo. Se no Egipto e Líbano a dança do ventre é acompanhada pelo oud (alaúde), a kanoun (cítara arménia), o kaman (violino árabe), a nay (flauta egípcia de bambu), a rababa (cordofone de arco, principal instrumento da música afegã), o mizmar (clarinete árabe), o dumbek (tambor egípcio), a tabla ou a riqq, nas danças turcas têm lugar o saz (instrumento de cordas), o azoukie (alaúde comprido), a kanoun, o dumbek e a zurna (flauta de montanha).

"Min Man", Garmarna (Suécia) - folk-rock
Os suecos Garmarna trazem-nos o tema "Min Man" (O Meu Marido), extraído do álbum “Live”, editado em 2002. Esta banda de rock, formada em 1990, canta velhas lendas da música tradicional do seu país, falando de bruxas más, madrastas tenebrosas e de princesas indefesas. Convém explicar que na mitologia sueca os Garmarna eram os cães que guardavam a porta do inferno. Uma imagem metafórica que se transpõe facilmente para os cenários sonoros criados por este quinteto, que oscila entre as estéticas anglo-saxónicas e os ambientes da música tradicional sueca. No entanto, os Garmarna não fazem questão de perpetuar tradições. O que eles querem é tocar com a vontade do momento, com tudo o que isso tenha de eterno ou de efémero. Um som único, influenciado pelo rock, e que remistura a instrumentação antiga com amostras de batidas, harpas, violinos e guitarras distorcidas.

"Lovelight", Stereo Action Unlimited (França, Suiça) - acid jazz, latin lounge
A fechar a emissão os Stereo Action Unlimited com o tema "Lovelight", extraído do LP do mesmo nome e parteintegrante da colectânea"Paris Lounge", lançada em 2001. Os Stereo Action Unlimited são formados pelo francês Philippe Cohen Solal e pelo suíço Christophe Müeller, uma dupla que partilha outras experiências musicais como os The Boyz From Brazil, ligada às pistas de dança, e a mais popular delas todas, os Gotan Project, a qual envolve também o guitarrista Eduardo Makaroff e cria uma síntese entre o tango e a música electrónica. Desde 1997 que estes escultores do vinil e artesãos dos sons trabalham conjuntamente em projectos que combinam música e imagem, explorando paixões como a música sul-americana e os novos territórios electrónicos.

Jorge Costa

16 Setembro 2006

Multipistas adopta emissão quinzenal

Devido ao incontornável número de compromissos profissionais que se têm vindo a acumular nos últimos tempos, e dado ter a meu cargo a produção e realização integral do MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO, vai-se tornando cada vez mais difícil assegurar a produção do programa, tarefa que me ocupa largas horas em pesquisa, gravação e edição, e que por isso mesmo me tem roubado muitas horas de sono.

Dadas as cada vez maiores limitações de tempo que tenho, não me será possível manter o programa com a habitual regularidade. Nesse sentido, e para evitar que este se viesse a tornar uma mera fórmula musical ou simplesmente desaparecesse, decidi reduzir-lhe a peridiocidade, passando de semanal a quinzenal. Foi a única forma viável que encontrei para manter a qualidade em termos de conteúdos e o grau de exigência que inicialmente propus aos ouvintes, única razão de ser do MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO.

Sendo assim, na versão podcast as emissões passarão a ser actualizadas de 15 em 15 dias, não havendo nenhuma outra alteração na estrutura do blogue. Já na versão radiofónica mantém-se o horário de sempre, com a transmissão a ser feita na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM) aos sábados, entre as 17 e as 18 horas, e às segundas-feiras, entre as 19 e as 20 horas. A única diferença é que as edições serão intercaladas, pelo que para além do horário habitual de repetição, cada programa será reposto três semanas depois da sua primeira emissão. Desta forma, cada programa poderá ser ouvido um total de quatro vezes, o que permitirá aos ouvintes uma maior familiariedade com os temas e os autores analisados. Eis o novo esquema de difusão:


Semana A – programa 2
Semana B – programa 1
Semana C – programa 3
Semana D – programa 2
Semana E – programa 4
Semana F – programa 3
...

Por fim, agradeço o encorajamento dado nestes primeiros seis meses por muitos dos ouvintes que o programa conquistou em diversas partes do globo. É por eles que o MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO continuará a ter a cor e o ritmo de sempre. Um bem-haja a todos.

Jorge Costa

15 Setembro 2006

Emissão #26 - 16 Setembro 2006

A 26ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 16 de Setembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira,18 de Setembro, entre as 19 e as 20 horas.

"Jaga Ode [dubtronik]", Alpendub
& The Man Cable (Alemanha, Canadá) - yodel, dub
Os Alpendub e o produtor The Man Caple a abrirem a emissão com uma nova remistura do tema “Jaga Ode”, extraída do álbum “The Rough Guide to Yodel”, trabalho que será lançado em todo o mundo a 25 de Setembro. Para recuperarem a magia da música alpina alemã, eles misturam o yodelling com a dub, cruzamento raro a que chamaram precisamente Alpendub. O yodel, que começou por ser uma espécie de código morse das montanhas, é uma vocalização quase sem texto que se distingue pela quebra acentuada entre duas notas. Ele existe não só na Suiça, Áustria e Alemanha, mas também em certas regiões da Europa, África, Ásia, América e Oceânia, misturando-se hoje com géneros como o hip-hop, o rock, a pop, o reggae, a house e o techno. Tons mágicos que são combinados com a mística de palavras, por tradição nomes pessoais atribuídos a vacas. Os Alpen Dub arrancaram em Berlim, em 2001, com o canadiano The Man Cable, produtor do projecto de cinco músicos, entre eles a actriz Kutzkelina, que começou a cantar yodel aos seis anos. Eles complementam a instrumentação típica com percussões e instrumentos como o banjo alpino e a dulcimer (cordofone índio norte-americano).

"Sátiro",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo prosseguem com os Gaiteiros de Lisboa, que nos trazem “Sátiro”, tema que dá nome ao seu último álbum, editado em Junho. Cada vez mais voltados para o Mediterrâneo, neste seu quarto trabalho de originais os Gaiteiros de Lisboa abarcam desde os sons de Trás-os-Montes às polifonias alentejanas, passando pelo fado. Nele são convidados Mafalda Arnauth e o violinista Manuel Rocha, da Brigada Vítor Jara. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. O experimentalismo deste grupo, que utiliza ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, leva-o a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Neste trabalho juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares.

"Pandero", L'Ham de Foc
(Espanha) - traditional folk
Os valencianos L’Ham de Foc (Anzol de Fogo) apresentam-nos “Pandero”, tema extraído do seu terceiro e último álbum “Cor de Porc” (Coração de Porco), editado no ano passado. Desde 1998 que os L’Ham de Foc se servem de mais de trinta instrumentos acústicos mediterrânicos – darbuka, bendir, gaitas galega e búlgara, violino, sanfona, saltério, bouzouki, alaúde e cítara são alguns deles – para criarem atmosferas intensas e mágicas. Utilizando uma orquestração tradicional, mas socorrendo-se de uma linguagem actualizada, os L’Ham de Foc entrelaçam a música medieval ocidental, do Médio Oriente ou do Mediterrâneo oriental, num universo de sons africanos, europeus e orientais, criando um conglomerado sonoro que se concentra em redor do Mediterrâneo. As percussões são a base para os textos e melodias modais tecidas pela voz de Mara Aranda, que é acompanhada por instrumentos de corda e sopro, tocados por Efrén López. Contrariando a tendência crescente da folk actual pelos ritmos electrónicos, os L’Ham de Foc confiam na simplicidade do som acústico e na pureza da música medieval. Algo que os tornou uma referência em todo o mundo no que toca à música tradicional.

"Ndima Ndapedza", Oliver 'Tuku' Mtukudzi (Zimbabué) - tuku
A viagem prossegue com “Oliver ‘Tuku’ Mtukudzi e o tema “Ndima Ndapedza”, extraído do álbum “Tuku Music”, editado em 1999. Figura emblemática da música urbana africana e uma das maiores estrelas do Zimbabué, o cantautor e guitarrista Oliver Mtukudzi criou um género único chamado tuku. Uma aliança dos ritmos da África austral, com influências da mbira, do mbaqanga sul-africano, da zimbabueana jit music, do katekwe, do urban zulu, das percussões dos Korekore, o seu clã, e dos temas tradicionais shona, etnia que corresponde a três quartos da população do Zimbabué. Oliver Mtukudzi começou a sua carreira em 1977 ao juntar-se aos Wagon Wheels, grupo lendário de que também fazia parte o poeta revolucionário Thomas Mapfumo. Foi com músicos desta banda que ele formaria os Black Spirits. Com a independência do seu país, Oliver torna-se produtor e consegue editar dois álbuns por ano – a lista já vai nos 35 trabalhos de originais. Pelo seu carácter inovador e pela voz generosa, a música de Oliver Mtukudzi distingue-se facilmente dos outros estilos do Zimbabué. Um artista popular pela capacidade de abordar os problemas económicos e sociais do seu povo, e de seduzir o público com um humor contagioso e optimista.

"Thandaza", The Soul Brothers (África do Sul) - mbaqanga, soul
Seguem-se os The Soul Brothers e o tema “Thandaza”, extraído do álbum “Amanikiniki”, lançado em 1999. Grupo que é o exemplo supremo das típicas harmonias mbaqanga, próximas do gospel, que durante três décadas dominaram a música urbana sul-africana. Na luta dos jovens africanos contra o Apartheid, a pop tradicional e o mbaqanga deram espaço à música modelada pela soul americana e mais tarde pela disco. O som dos Soul Brothers, banda que melhor encarnou o conceito da soul sul-africana, cativou sobretudo os trabalhadores que então foram obrigados a deixar o campo para procurar trabalho na cidade. Desde a sua formação, em 1974, que eles já gravaram mais de trinta álbuns. A banda foi construída com o baixista Zenzele "Zakes" Mchunu, o percusionista David Masondo e o guitarrista Tuza Mthethwa, que tocaram pela primeira vez juntos nos Groovy Boys em Kwazulu Natal, e mais tarde nos Young Brothers. Em Joanesburgo junta-se-lhes o teclista Moses Ngwenya, enquanto que David Masondo troca as percussões pela voz, surgindo então os Soul Brothers. Da formação original restam apenas Masondo e Ngwenya. Hoje são cinco cantores e três saxofones liderados por Thomas Phale, sendo os Soul Brothers a única banda jive que sobreviveu ao nascimento da disco, a antiga bubblegum que hoje se designa por música kwaito.

"Huo", Mercan Dede (Turquia) - sufi music, electronic
A jornada musical prossegue com Mercan Dede, um dos mais importantes artistas turcos, e o tema “Huo”, extraído do álbum “Nefes”, editado em Junho. Radicado em Montreal, no Canadá, Mercan Dede mistura a música tradicional com batidas electrónicas. Ele desenvolve duas carreiras paralelas: como Arkin Allen é um DJ especializado em hard techno; como Mercan Dele mistura a tradição do sufismo com estilos contemporâneos. Com o seu ensemble de músicos turcos e canadianos, fundado em 1998 e formado pelos músicos Mohammad, Farokh Shams e Ben Grossman e pela dançarina Isaiah Sala, Mercan Dede funde as tradições espirituais da música sufi com sons actuais, criando uma mistura única entre o Oriente e o Ocidente. Nas suas actuações, ele utiliza instrumentos de origem turca como a ney (flauta de cana) e a kanun (cítara), e mistura as percussões do Médio Oriente com sons electrónicos, tudo isso enquanto que um dervish dança em palco. No álbum “Nefes” (Respiração), o terceiro de uma série de quatro que começou com Nar (Fogo) e continuou com Su (Água), Mercan Dede cria uma fusão que captura a magia do Oriente, os elementos místicos, a instrumentação tradicional e os sons electrónicos.

"Ghali Ya Bouy", Smadar Levi (Israel, EUA) - bellydance
Smadar Levi traz-nos “Ghali Ya Bouy”, tema extraído do álbum “Smadar”, editado em 2004. Uma visão diferente da raqs sharki, tradução literal do termo árabe para dança do ventre, que quer dizer “dança do Oriente”. Um género que se popularizou em todo o mundo depois da sua introdução nos Estados Unidos pelas mãos do vaudeville e dos espectáculos burlescos. Filha de pais marroquinos, Smadar Levi cresceu em Israel a ouvir música egípcia e tunisina. A sua música, que combina temas originais e tradicionais, reflecte a diversidade do povo judaico, incorporando tradições israelitas, espanholas, africanas e gregas. Ela canta em hebreu, árabe, grego e ladino, a língua medieval dos judeus em Espanha. Entretanto, depois de ter tocado com músicos ciganos na Roménia, Espanha e Turquia, ela decidiu também misturar a sua música com sons ciganos. Foi em 2000, depois de se ter mudado para os Estados Unidos, que Smadar Levi conheceu o cantor e violinista marroquino Rashid Halihal, com quem formaria um trio. Quatro anos depois formava a sua própria banda, juntando músicos de Israel, Líbano, Turquia, Marrocos e Palestina. Actualmente, Smadar Levi vive em Nova Iorque, onde trabalha com músicos como Uri Sharlin, Emmanuel Mann, um dos melhores baixistas israelitas, e o português Pedro da Silva, que a acompanha com a cítara e a guitarra clássica.

"The Beat Of Love", Trilok Gurtu (Índia) - world, jazz, khylal
A jornada prossegue com Trilok Gurtu e “The Beat of Love”, tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2001. Gurtu, cujo avô era um conhecido tocador de cítara e a mãe uma estrela do canto clássico, tornou-se conhecido como membro dos Oregon, uma banda de fusão world/jazz. Cinco vezes eleito o melhor percussionista do planeta pela revista “Downbeat”, título ganho pela ponte que criou entre a música do Oriente e Ocidente, Trilok Gurtu mistura ritmos indianos, executados com a tabla, com elementos do jazz, da música de dança, do rock, da música clássica e da música étnica de todo o planeta. Este ano, ele regressou à tradição indiana, apoiado pelos cantores Rajan e Sajan Misra, e apresentando o khylal, espécie de cântico hipnótico. O virtuosismo deste indiano, natural de Bombaim, transformou-o num dos grandes vultos do post-jazz, do jazz de fusão e do avant-garde. Ele tem colaborado com génios da música como Jan Garbarek, Ravi Shankar ou David Gilmour, destacando-se na comunidade jazzística por surgir ao lado de nomes como Don Cherry, John McLaughlin, Joe Zawinul ou Pat Metheny.

"Natacha", Gregori Czerkinsky (França) - french pop, rock
A fechar a emissão o francês Gregori Czerkinsky e o célebre “Natacha”, tema extraído do álbum “Czerkinsky”, editado em 1998. O cantor, nascido em Oran em 1954, foi compositor no grupo Mikado com Pascale Borel, tendo mais tarde enveredado por uma carreira a solo. Um fundamentalista do amor, até porque não é de extranhar que nos seus concertos se abalance sobre alguma rapariga do público, fazendo prova do seu dom de amante infinito e de gigoló, e transpondo para a realidade as palavras que se podem ouvir numa das suas músicas: "Para ser amado é necessário ser amável”. E as suas canções falam precisamente de amabilidade e de amor, sobre diferentes perspectivas, desde a do triunfador à do desgraçado. Um romanticismo radical e algo cínico, num ambiente sonoro que se cruza entre Jay-Jay Johanson e Serge Gainsbourg. São temas recheados de frescura e bom humor, que vão da música clássica, à pop e ao rock, e trazem muitos sonhos à mistura.

Jorge Costa

05 Setembro 2006

Emissão #25 - 9 Setembro 2006

A 25ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, que marca o início de uma nova temporada do programa, é difundida no sábado, 9 de Setembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), indo de novo para o ar na segunda-feira,11 de Setembro, entre as 19 e as 20 horas.

"Kekko", Kimmo Pohjonen
(Finlândia) - folk-rock, electronic folk
O finlandês Kimmo Pohjonen a abrir a emissão com o tema “Keko”, extraído do álbum “Kluster”, editado em 2002. Com uma carreira de vinte anos, repartida entre a folk, a música clássica e o rock, Kimmo Pohjonen mistura de forma única o acordeão com amostras de som e percussões, levando-o para universos como a dança contemporânea ou o teatro musical. Pohjonen, que nasceu na aldeia de Viiala, começou a tocar acordeão aos oito anos por influência do pai. Na Academia Sibelius, em Helsínquia, foi encorajado a absorver a folk e a misturá-la com outros estilos. Para expandir a sonoridade do fole diatónico, em 1996 Kimmo apresentou-se em palco com um acordeão cromático e com composições originais que integravam samples e loops do islandês Samuli Kosminen, com quem formou o duo Kluster. Mais tarde, a eles juntaram-se Pat Mastrelotto e Trey Jun, dando lugar ao quarteto Kluster TU. Entretanto, Pohjonen tem vindo a colaborar com músicos finlandeses como Heikki Leitinen, Maria Kalaniemi, Pinnin Pojat, Alanko Saatio ou Arto Järvellä. Os sons que este extrai do acordeão, a sua voz, misturam harmonia e ruído. Actualmente mais voltado para o formato acústico, Kimmo Pohjonen mantém no entanto como base as raízes e os cantos populares da Finlândia. Tradição e improviso estão assim unidos, numa busca de novos sons através da música experimental e electrónica.

"Feunteun Wenn", Jacques
Pellen & Celtic Procession (França) - jazz rock, celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Jacques Pellen, um dos melhores guitarristas bretões e um talentoso músico de jazz, e o colectivo Celtic Procession. Eles trazem-nos o tema “Feunteun Wenn”, extraído do álbum “Celtic Procession Live – Les Tombées de la Nuit”. Um trabalho gravado em Rennes por doze músicos a propósito do décimo aniversário daquela big band de geometria variável, criada em 1988. Um colectivo que reúne uma dezena de músicos tradicionais bretões e de jazz com a mesma paixão de Jacques Pellen pelo improviso. Com referências tão diferentes quanto o pianista de jazz Keith Jarrett, o compositor clássico Schönberg ou o o guitarrista bretão Dan Ar Braz, eles tentam misturar o jazz com temas e instrumentações de inspiração celta bretã, adicionando-lhes mesmo o rock e sons africanos.

"Hebden Bridge", Kíla (Irlanda) - celtic music, world fusion
Os irlandeses Kíla trazem-nos “Hebden Bridge”, tema extraído do seu sexto álbum “Luna Park”, editado em 2003. O nome deste trabalho refere-se a um parque de diversões que outrora existiu em Coney Island, em Nova Iorque, península onde eles tocaram uma vez. Um exemplo da forma como esta banda, criada em Dublin em 1987, ousou aventurar-se em novos territórios sem no entanto deixar de preservar o essencial da sua identidade e de homenagear os seus antepassados. Ao fundirem ritmos da música tradicional irlandesa e do sul da Europa com sonoridades provenientes de outras paragens, os Kíla conquistaram um lugar próprio no panorama cultural anglo-saxónico, revigorando assim as tradições musicais do seu país e criando um som contemporâneo distinto. Para o conseguirem, eles servem-se de um conjunto eclético de instrumentos, não muito para além dos habitualmente presentes na música celta, mas também de outras referências que vão dos coros do Médio Oriente aos sons africanos. Uma espiral em que dão novas direcções e territórios a uma música ancestral, e no entanto enérgica, a qual parece vir não do passado mas antes de uma Irlanda imaginária.

"Andaina Kau Sudi", Malek Ridzuan (Malásia) - asli, malaysian folk, pop
A viagem prossegue com Malek Ridzuan e o tema “Andainya Kau Sudi”, extraído do álbum “10 Best of The Best”. Veterano da actual cena musical malaia, Malek Ridzuan canta uma mistura de pop e melodias tradicionais da Malásia, tendo na década de 80 enveredado pelo asli, um conhecido género de dança. Um país asiático onde se combinam as influências das vizinhas Indonésia e Tailândia e também do Ocidente, criando uma mistura de culturas e estilos musicais. A existência de quatro grandes etnias na Malásia – malaia, árabe, indiana, chinesa e ocidental – fez igualmente com que a música local se diversificasse em géneros tradicionais e modernos, servindo estes de caminho a muita da pop e música comercial daquele país. Do ghazal (“poema de amor” em árabe) tocado nos casamentos, ao masri, ritmo do Médio Oriente, passando pelos cinco tipos de ritmo de dança: tarian melayu, asli, inang, joget e zapin. Uma mistura incrementada com a chegada a Malaca dos portugueses no início do século XVI, que para aí levaram o violino, o acordeão e a rebana (um membrafone cónico de grandes dimensões), e com a colonização britânica no final do século XIX. Por volta de 1920 aparece então a bangsawan (ópera malaia), cujos músicos começam a modernizar os estilos tradicionais de dança da Malásia.

"Purim Dnigun", Djamo (França) - gypsy music
Atrás no programa Djamo com “Purin Dnigun”, tema extraído do álbum “Chants Tziganes Métissés”. Um ensemble françês que tem como repertório principal os cantos e a música cigana mestiça. Este jovem grupo originário da região de Poitou-Charentes, localizada no centro-oeste de França, leva-nos à descoberta das músicas ciganas e magrebinas. Neste álbum, eles são acompanhados por outros embaixadores dos sons mestiços, entre eles os Dikès e os Opa Tsupa, quinteto acústico que cruza igualmente diferentes influências como o gypsy swing, o jazz, a musette, o rock, o funk, a bossa nova e a chanson française.

"Sauver", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
A jornada prossegue com Tiken Jah Fakoly e o tema “Sauver”, extraído do seu sétimo álbum “Coup de Gueule”, lançado em 2004. Um disco em que Tiken Jah Fakoly segue os caminhos do reggae africano de Alpha Blondy, fazendo uma ponte com a Jamaica, e mergulhando na tradição mandingo sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Neste álbum, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim, exilado entre Bamako e Paris, ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem no continente, bem como a hipocrisia das religiões monoteístas. Fakoly apresenta temas em francês e em dioula, a língua da sua etnia e que é falada no norte da Costa do Marfim, na Guiné, no Mali e no Burkina Faso. Um trabalho de novo realizado por Tyrone Downie, e que conta com os ritmos de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, que nos trazem os inconfundíveis sons do balafon, da kora e do ngoni. Outros artistas do mundo ajudam o rebelde tranquilo a alargar a sua música a outros horizontes. Entre eles estão Didier Awadi, dos Positive Black Soul e um dos fundadores do hip-hop senegalês, e os irmãos Amokrane de Zebda e Magyd Cherfi.

"African Convention", Miriam Makeba (África do Sul) - soul jazz, afro-pop
Para já segue-se a sul-africana Miriam Makeba, que nos traz o tema “African Convention”, extraído do álbum “Hits & Highlights”. Ela foi a primeira mulher negra exilada por causa do apartheid e a primeira artista a colocar a música africana no mapa internacional. Miriam, que já gravou mais de 40 discos, cresceu a ouvir Duke Ellington, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, sendo hoje capaz de cantar em nove línguas (francês, inglês, arábico, xhosa, kikongo, maninka, fula, nyanja e shona). Exilada por ter aparecido no filme “Come Back Africa”, a imperatriz da música africana passou 31 anos longe do seu país, lutando pelos direitos civis dos negros.
A sua carreira começa na década de 50 nos Cuban Brothers. Miriam torna-se conhecida como vocalista da formação de jazz Manhattan Brothers, juntando-se mais tarde ao grupo vocal feminino Skylarks. Em 1959 o realizador americano Lionel Togosin convida Miriam a apresentar um documentário sobre a África do Sul no festival de Veneza, o que enfureceria as autoridades sul-africanas. Miriam Makeba exila-se então nos Estados Unidos, criando sucessos como “Pata Pata", "The Clique Song" ou "Malaika". O seu casamento com Stokely Carmichael, o líder radical dos Panteras Negras, traz-lhe problemas com as autoridades americanas. Exila-se então na Guiné-Conacri, até que em 1990 Nelson Mandela a convence a regressar ao seu país.

"El Wejda", Mariem Hassan & Leyoad (Saara Ocidental) - haul, sahrawi music
A jornada musical prossegue com o tema “El Wedja”, extraído do álbum “Mariem Hassan com Leyoad”, editado em 2002. Mariem Hassan é uma das figuras máximas da música sarauí e símbolo da luta deste povo pela independência. Compositora, letrista e dona de uma voz excepcional, Mariem canta com uma intensidade dilacerante o amor, a fé e o sofrimento da população do Saara Ocidental, antiga colónia espanhola que em 1975 Marrocos e a Mauritânia dividiram entre si. À semelhança de dezenas de milhares de sarauís, a jovem Mariem Hassan foi então obrigada ao exílio, refugiando-se com a família durante 27 anos na parte mais inóspita do deserto do Saara, no sul da Argélia. A criação de
grupos musicais foi uma forma encontrada por muitos para amenizar a vida dura dos acampamentos. Mariem Hassan, que actualmente vive em Sabadell (Barcelona), colabora há quase três décadas com diversos grupos de música sarauí, cantando na Europa, América e África. Tudo para que o mundo conheça a situação de um povo exilado e de uma artista que anseia poder regressar algum dia em liberdade a Smara, a cidade em que nasceu. Evocando os exilados e os mártires da guerra contra Marrocos, Mariem Hassan canta o haul, um blues do deserto, carregado de electricidade e hipnotismo, acompanhada pela percurssão seca do tebal (tambor grande, tocado com as mãos pelas mulheres) e pelo tidinit (um alaúde rústico de quatro cordas, gradualmente substituído pela guitarra eléctrica), e esculpido pelas guitarras eléctricas.

"Hininga", Mercan Dede (Turquia) - sufi music, electronic
Mercan Dede, um dos mais importantes artistas turcos, traz-nos o tema “Hininga”, extraído do álbum “Nefes”, editado no passado mês de Junho. Radicado em Montreal, no Canadá,
Mercan Dede mistura a música tradicional com batidas electrónicas. Ele desenvolve duas carreiras paralelas: como Arkin Allen é um DJ especializado em hard techno; como Mercan Dele mistura a tradição do sufismo com estilos contemporâneos. Com o seu ensemble de músicos turcos e canadianos, fundado em 1998 e formado pelos músicos Mohammad, Farokh Shams e Ben Grossman e pela dançarina Isaiah Sala, Mercan Dede funde as tradições espirituais da música sufi com sons actuais, criando uma mistura única entre o Oriente e o Ocidente. Nas suas actuações, ele utiliza instrumentos de origem turca como a ney (flauta de cana) e a kanun (cítara), e mistura as percussões do Médio Oriente com sons electrónicos, tudo isso enquanto que um dervish dança em palco. No álbum “Nefes” (Respiração), o terceiro de uma série de quatro que começou com Nar (Fogo) e continuou com Su (Água), Mercan Dede cria uma fusão que captura a magia do Oriente, os elementos místicos, a instrumentação tradicional e os sons electrónicos.

"El Duende Orgánico", Solar Sides (Espanha) - flamenco nuevo
A fechar o programa os espanhóis Solar Sides e o tema “El Duende Orgánico”, extraído do álbum “Ibiza Chill & Deep Collection”. Formados por Tomi del Castillo e Esteban Lucci, os Solar Sides provam que em Ibiza também há lugar para o flamenco, um género que materializa a alma cigana na Andaluzia. Mas nas últimas décadas este tem vindo a regenerar-se. É que hoje é habitual fundir-se a estrutura básica do flamenco com o rock e a música electrónica, algo a que se convencionou chamar de nuevo flamenco. E é precisamente isso que os Solar Side fazem, já que mantêm uma inteligente mistura de elementos jazz e funky no seu groove electroacústico, apelando tanto aos fãs do acid jazz como aos aficionados do deep-house dance.

Jorge Costa

01 Setembro 2006

Emissão #24 - 2 Setembro 2006

A 24ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 2 de Setembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 4 de Setembro, entre as 19 e as 20 horas.

Uma edição em que mais uma vez se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas árabes e orientais que até agora passaram neste programa. Eis a listagem:

"Mahli [Remix]", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï

Lemen, Cheb Khaled (Argélia) - raï, chaâbi

"Leiley [Transglobal Underground Remix]", Dania (Líbano) - arabic music

"Ne Me Jugez Pas [Volodia Remix]", Sawt el Atlas (Marrocos) - raï funky


"Mani", Cheba Fadela & Cheb Sahraoui (Argélia) - raï-pop

"L'Histoire", Cheb Tarik (Argélia) - raï hip hop, reggae

"N'Kodo", Djamel Laroussi (Argélia) - rap, raï


"Paisa", Manak-E (Reino Unido) - bhangra, punjabi music

"Rail Gaddi", Four For a Kind (Reino Unido) - bhangra

"Red Sun", Anoushka Shankar (Índia) - indian music

"Jumpin'Jack Flash", Ananda Shankar (Índia) - indian funk, chill-out

"Shiva's Daughter", Arling & Cameron (Holanda) - pop, drum'n'bass, bossa nova

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

31 Agosto 2006

World Music Charts Europe - Setembro 2006

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Setembro dos 192 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, as oito entradas novas para os primeiros vinte lugares do WMCE e a manutenção no topo das preferências do painel dos cinco álbuns que em Agosto lideravam a tabela:

1º- SAVANE, Ali Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 3ºlugar

2º- GOLD & WAX, Gigi (Etiópia, EUA) - Palm Pictures
mês passado: 1ºlugar
3º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 2ºlugar
4º- THE ROUGH GUIDE TO WEST AFRICAN GOLD, vários - World Music Network

estreia na tabela
5º- NIGER, Afel Bocoum & Alkibar (Mali) - Contre-Jour
mês passado: 4ºlugar

6º- IDJAGIEDAS, Mari Boine (Noruega) - Emarcy (Universal)
estreia na tabela
7º- NE UZ VIENU DIENU, Ilgi (Letónia) - UPE
mês passado: 5ºlugar
8º- MUSIQUES METISSES, vários - Marabi

estreia na tabela
9º- GRAND BAZAAR, Istambul Oriental Ensemble (Turquia) - Network Medien
estreia na tabela
10º- LA GHRIBA - LA KAHENA REMIXED, Cheb i Sabbah (EUA, Argélia) - Six Degrees
mês passado: 18ºlugar

11º- EL VIAJE, Gabriela (Argentina) - Intuition
estreia na tabela
12º- TRAGARE, Druzina (Eslováquia) - Indies
estreia na tabela
13º- POPLOR, Thomas Kocko & Orchestr (República Checa) - Indies
estreia na tabela
14º- MISH MAOUL, Natacha Atlas (Reino Unido) - Mantra
mês passado: 10ºlugar
15º- ELYSIUM FOR THE BRAVE, Azam Ali (EUA, Irão) - Six Degrees

estreia na tabela
16º- THE SEEGER SESSIONS, Bruce Springsteen (EUA) - Sony
mês passado: 12ºlugar

17º- REPUBLICAFROBEAT 2, vários - Lovemonk
mês passado: 23ºlugar
18º- AY AY LOLO, Menwar (Maurícias) - Marabi
mês passado: 11ºlugar
19º- ZANDISILE, Simphiwe Dana (África do Sul) - Skip
mês passado: 7ºlugar
20º- TRAVESIAS, Susana Baca (Peru) - Luaka Bop/Virgin
mês passado: 6ºlugar

24 Agosto 2006

Emissão #23 - 26 Agosto 2006

A 23ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 26 de Agosto, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 28 de Agosto, entre as 19 e as 20 horas.

Uma edição em que mais uma vez se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas africanos que até agora passaram neste programa. Eis a listagem:

"Madan", Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo

"Mama", Mori Kanté (Guiné) - afropop, kora music


"One For Senegal", Touré Kunda (Senegal) & The Pleb (Itália) - afro-rock, m'balax

"Plus Rien M'Étonne", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae

"Tounga", Issa Bagayogo (Mali) - mandig, wassoulou

"Sina Mali, Sina Deni", Khadja Nin (Burundi) - afropop, swahili music

"Mosquito Song", Seun Kuti & Egypt 80 (Nigéria) - afrobeat

"Laax", Omar Pène (Senegal) - m'bala


"Tsy Zanaka Mpanarivo", Jaojoby (Madagáscar) - salegy

"Wadatshulwa", Amadodana Asempumaze (África do Sul) - south african gospel

"Andesy Moramora", Koezy (Madagáscar) - madagascar traditional music

"Senegal Fast Food", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

22 Agosto 2006

Bons Sons em Cem Soldos

A música tradicional e não convencional esteve à solta nas ruelas de Cem Soldos, no concelho de Tomar. Na estreia do Festival Bons Sons naquela aldeia houve ainda lugar aos ateliês de dança e percussão, às artes plásticas e ao artesanato.


O folclore alegre e arejado da serra com os Toques do Caramulo

(foto: Jorge Costa/Multipistas)

Entre 18 e 20 de Agosto, o MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO rumou até à aldeia de Cem Soldos, no concelho de Tomar, para acompanhar a primeira edição do Festival Bons Sons. Um evento dedicado à música tradicional e não convencional, e que, de acordo com a organização, pretende “funcionar como uma plataforma de divulgação de novos grupos de música nacional de qualidade” e “promover o intercâmbio cultural”, levando o público a “viver a aldeia”.

O festival arrancou na sexta-feira, dia 18, com os efeitos visuais dos tomarenses
ULTIMAcTO, grupo integrado no Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) e que apresenta peças de teatro para todas as idades. Anualmente, eles promovem na aldeia uma mostra com grupos nacionais e internacionais. A abrir a noite no centro da povoação estiveram também os GARAC com o espectáculo “Restos”. Um grupo de animação de rua da associação tomarense Canto Firme, que começou por animar ceias renascentistas, e que hoje apresenta cenas imaginadas e concebidas a partir de matérias e objectos comuns.


O festival arrancou com o jazz tradicional dos Desbundixie
(foto: Jorge Costa/Multipistas)


Na música, a estreia do palco situado no largo principal fez-se com os Desbundixie, banda de Leiria que se socorre da linguagem e do improviso, recuando até aos anos de 1920 ao enveredar por um estilo musical conhecido por dixieland, o jazz tradicional de New Orleans. Eles arrancaram os primeiros passos de dança a um público heterogéneo ainda morno, onde se podiam ver não só as caras de gentes da aldeia e arredores, mas também muitos jovens festivaleiros, alguns deles vindos do estrangeiro. Entre outros, desfilaram os temas “Mardi Grass” e “Royal Garden Blues”, um must jazzístico com que encerraram a actuação.

A animação prosseguiu com a música tradicional dos Toques do Caramulo, grupo da D’Orfeu – Associação Cultural de Águeda que procura reinventar livremente os temas populares daquela serra. Uma formação de sete a oito músicos que começou em 2000 com a oficina de dança, no ‘Andanças’, e que apresenta um folclore alegre, enérgico e arejado, fazendo uma ligação entre a folk rude de outrora e as novas músicas de hoje. Sempre com coreografias engraçadas em palco e muita comunicação com o auditório.


Os Bácoto com os ritmos eléctricos das percussões africanas

(foto: Jorge Costa/Multipistas)

Os Bácoto, que se estrearam em Cacilhas, foram a última banda da noite. E valeu a pena a espera, porque o ambiente de festa e dança electrizante contagiou completamente o público. Eles apresentaram um espectáculo baseado nos ritmos tradicionais afro-mandingues – cultura oriunda de uma zona que compreende a Guiné, o Mali, o Burkina Faso, a Libéria, o Senegal, a Gambia e a Costa do Marfim –, concentrando-se na sonoridade do djembê, símbolo supremo das percussões africanas.

A fechar o serão DJ Popkorn, uma das residentes no Barcode, em Braga, cujo portefólio sonoro vai do chill out ao electro, passando pela música alternativa nacional e internacional.

Sábado, dia 19, arrancou em Cem Soldos com o Canal 0, um projecto de animação de cinema, da autoria de João Cabaço e João Bento, e que tem como base a musicalização electroacústica de filmes de animação do século XX e de vídeos contemporâneos.

De regresso ao palco principal e a abrir a noite esteve a Orquestrinha do Terror, grupo que se serve de influências artísticas que vão da música ao cinema, dança, artes plásticas, circo, teatro ou literatura para recriar música cinematográfica. Eles fundem vários estilos musicais, desde a música portuguesa ao jazz manouche (cigano) e à música tradicional de Leste, o que culmina numa improvisação jazzística com base oriental. Cada tema é uma curta-metragem musical que retrata viagens a outros mundos e uma janela aberta para momentos introspectivos e eufóricos.


As Tucanas testaram a sonoridade dos materias e das vozes

(foto: Jorge Costa/Multipistas)

Seguiram-se as Tucanas, quatro jovens mulheres influenciadas também pelo teatro e dança, e que interpretam os seus temas, inspirados nas tradições portuguesas, africanas e brasileiras, tocando bidões, cabaças, pandeiros, surdos, djembês ou dumbas. Cantando em português e em dialectos imaginários como o “tucanês”, e percutindo instrumentos construídos por elas próprias, as Tucanas brincam e jogam com o ritmo e a harmonia, conjugando a sensibilidade feminina com a rudeza da percussão. Apesar da falha inesperada no gerador eléctrico, o concerto seguiu com a sua acústica quase inalterada. Regressada a corrente, o público não se poupou a aplausos.


O ritmo e a boa disposição dos Skareta a fechar o festival

(foto: Jorge Costa/Multipistas)

O fenómeno da noite veio mesmo do Entroncamento. Os Skareta, grupo que venceu o último concurso de bandas daquela localidade, fecharam em grande o festival. Sempre com boa disposição e ritmo, estes fizeram a plateia dançar euforicamente graças a uma palete sonora que vai do ska (estilo musical jamaicano, percursor do rocksteady e do reggae) de Leste ao afropunk latino, misturando bateria, baixo, guitarra, sopros e voz.

A fechar a longa sessão sonora, que se prolongou até ao nascer do sol, estiveram as DJ’s Kitchenette. Influenciadas pela música dos anos 70 e 80, elas seleccionam géneros actuais como o rock, punk, electro ou happy-hardcore, criando actuações intimistas com o público.

Para além dos concertos e das DJ sessions, o Bons Sons envolveu outras iniciativas como ateliês de dança contemporânea, dança oriental, rumba sevilhana e percussão em bidões. Houve também lugar a desportos radicais e actividades aeróbicas, bem como a uma mostra de artes plásticas e a uma feira de marroquinarias e artesanato pelas ruelas da aldeia de Cem Soldos.

O festival surge integrado no projecto “Acontece Cem Soldos”, iniciativa realizada a propósito das comemorações dos 25 anos da legalização do SCOCS. Esta associação, que organiza o Bons Sons, surgiu na década de 1960, movimentando sobretudo jovens que ocasionalmente regressam à terra. O plano integra também o programa “Avós e Netos”, cuja particularidade foi a de colocar duas gerações distantes a produzir a lagartixa em tecido que serviu de mascote ao festival.

Jorge Costa

EXTRA ...↓
VIDEOCLIP Desbundixie, Toques do Caramulo, Bácoto, Tucanas e Skareta ao vivo em Cem Soldos

17 Agosto 2006

Emissão #22 - 19 Agosto 2006

A 22ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 19 de Agosto, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 21 de Agosto, entre as 19 e as 20 horas.

Uma edição em que mais uma vez se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas em língua portuguesa que até agora passaram neste programa. Eis a listagem:

"Pão Prá Multidão", Donna Maria (Portugal) - electronic folk


"O Fim da Picada", Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk

Dona Tresa, Galandum Galundaina (Portugal) - celtic folk


"Nangbar", Dazkarieh (Portugal) - folk rock, world fusion


"Santiago - Lisboa", Xosé Manuel Budiño (Espanha) - folk, celtic music

"Bossa Nova, Né?", Luiz Macedo (Brasil) - MPB


"Samba do Gringo Paulista [Zero dB reconstruction]", Suba (ex-Jugoslávia) - brasilian electronica

"Dimokransa", Mayra Andrade (Cabo Verde) - morna, funaná, coladera, batuque

"Sodade", Cesária Évora (Cabo Verde) e Eleftheria Arvanitaki (Grécia) - morna, coladera

"Balancê", Sara Tavares (Portugal) - afropop

"Rodopiou", Nazaré Pereira (Brasil) - carimbó, forró, capoeira, maracatu

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

10 Agosto 2006

Emissão #21 - 12 Agosto 2006

A 21ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 12 de Agosto, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 14 de Agosto, entre as 19 e as 20 horas.

Uma edição em que se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas últimas dez emissões deste programa. Eis a listagem do melhor dos melhores temas do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Jani El Hob", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music

"Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi

"We Were Gonna", Dengue Fever (Cambodja, EUA) - pop, cambodian folk, rock

"Nafiya", Mori Kanté (Guiné) - afropop, kora music

"La Realité", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues

"Domingo Ferreiro", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk

"Galicia", Urban Trad (Bélgica) - techno folk

"Kamppi", Maria Kalaniemi & Aldargaz (Finlândia) - finnish folk, jazz, rock, pop

"Tuulilta Tuleva", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock

"Pena", Šaban Bajramović (Sérvia) - gypsy music

"Listopad", Haydamaky (Ucrânia) - carpathian ska, ukranian dub machine, hutzul punk

"Venus Nabalera", Mau Mau (Itália) - folk-rock, latin rock

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

04 Agosto 2006

Emissão #20 - 5 Agosto 2006

A 20ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, um especial dedicado à edição deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines, é difundida no sábado, 5 de Agosto, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), indo de novo para o ar na segunda-feira, 7 de Agosto, entre as 19 e as 20 horas.

"Momelukki & Mosto Leski",
Alamaailman Vasarat (Finlândia) - chamber-rock, ethnic brass punk, kosher-kebab jazz
Os filandeses Alamaailman Vasarat (o nome significa Martelos do Submundo) a abrirem a emissão com os ritmos acelerados e frenéticos de “Momelukki & Mosto Leski”, tema extraído do álbum “Vasaraasia”, editado em 2000. Eles, que foram uma das presenças mais vibrantes no Festival de Músicas do Mundo de Sines, incendiaram a noite na Avenida da Praia com uma mistura de estilos, sempre com criatividade e um bom jogo entre melodia, harmonia e rítmo. Criados em 1997 em Helsínquia a partir do núcleo do grupo de rock progressivo Höyry-Kone, os Vasarat são um projecto acústico cheio de humor e energia. A banda apresenta-se como uma combinação de world music ficcional com elementos de heavy metal, jazz e música klezmer. Uma sonoridade caracterizável algures entre o chamber rock, o ethnic brass punk e o kosher-kebab jazz. São climas sombrios e texturas densas numa original mistura de timbres baseada em instrumentos de sopro (trombone e sax soprano), no violoncelo, no piano e no órgão, mas também em instrumentos como o didgeridoo e o shenhai (espécie de oboé indiano). E ritmos acelerados e frenéticos como este “Mamelukki & Musta Leski” provam que no rock não são precisas guitarras eléctricas.

"Breizh Positive", Jac
ques Pellen & Celtic Procession (França) - jazz rock, celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Jacques Pellen, um dos melhores guitarristas bretões e um talentoso músico de jazz, e o colectivo Celtic Procession. Eles trazem-nos o tema “Breizh Positive”, extraído do álbum “Celtic Procession Live – Les Tombées de la Nuit”. Um trabalho gravado em Rennes por doze músicos a propósito do décimo aniversário daquela big band de geometria variável, criada em 1988. Um colectivo que reúne uma dezena de músicos tradicionais bretões e de jazz com a mesma paixão de Jacques Pellen pelo improviso. Com referências tão diferentes quanto o pianista de jazz Keith Jarrett, o compositor clássico Schönberg ou o o guitarrista bretão Dan Ar Braz, eles tentam misturar o jazz com temas e instrumentações de inspiração celta bretã, adicionando-lhes mesmo o rock e sons africanos. O cantor e clarinetista Erik Marchand, o
violinista Jacky Molard ou o baterista argelino Karim Ziad são alguns dos músicos que aceitaram o desafio de acompanhar Jacques Pellen na edição deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines.

"Nangbar", Dazkarieh (Portugal) - folk rock, world fusion
Neste Festival de Músicas do Mundo de Sines, mudamos de palco e vamos até Porto Covo para escutar os portugueses Dazkarieh. Eles trouxeram-nos o tema “Nangbar”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2004. Conhecidos por navegarem entre os sons da Irlanda, Índia, África, Andes, Espanha e Balcãs, os Dazkarieh propõem-nos uma viagem pela diversidade musical do planeta. Um projecto genuinamente português que, à semelhança deste festival, procura a sua alma sonora nas culturas mais díspares. A formação dos instrumentistas dos Dazkarieh vai da música tradicional, experimental e erudita ao rock, o que contribui para o enriquecimento do processo criativo do grupo. Quanto à instrumentação, eles servem-se, entre outros, do bouzouki e da flauta transversal, da nyckelharpa (harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas) e do cavaquinho, da gaita transmontana e do bandolim. Formados em 1999 por Filipe Duarte, José Oliveira e Vasco Ribeiro Casais, os Dazkarieh começaram por ser conotados com o som celta e a folk gótica. Posteriormente, devido à fusão de materiais musicais tão diferenciados, e já assumidamente ligados à chamada world music, o grupo integrou então cinco novos elementos, passando a conceber canções em língua portuguesa. Recorde-se que até então o “dazkariano” era a base linguística de todas as suas músicas.

"Fairground", Ivo Papasov & his Wedding Band (Bulgária) - wedding band music
Para já, seguem-se o búlgaro Ivo Papasov e a sua Wedding Band. Eles trazem-nos o tema “Fairground”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2004. O rei da frenética e festiva stambolovo (a chamada música cigana de casamentos) encerrou, junto à praia, o festival de Sines. Nascido na fronteira da Bulgária com a Grécia e a Turquia, Papasov cresceu numa família cigana onde o clarinete é tocado há gerações. Em 1974 forma a Trakija Band, a qual se tornaria a melhor e mais solicitada orquestra de casamentos da região. Ao misturar a folk búlgara e dos Balcãs com elementos contemporâneos, Papasov criou um género a que se chamaria de wedding band music. Mas os problemas com a ditadura levam-no à prisão nos anos 80, o que atraiu a atenção internacional e fez crescer a sua popularidade. Considerado um dos maiores clarinetistas do mundo, Ivo Papasov é também um grande criador de jazz. Em homenagem ao seu talento, os búlgaros chamam-no de Aga (mestre). Papasov toca com a sua mulher, a cantora Maria Karafizieva, e com outros cinco músicos, que em palco surgem com instrumentos como a guitarra, o acordeão, a kaval (flauta tradicional da Bulgária) ou a gadulka (espécie de viola de arco búlgara). Uma mistura exuberante de sons e melodias com improvisações de jazz numa visão contemporânea das danças tradicionais da folk búlgara.

"Tcherno", Vaguement La Jungle (França) - klezmer, gypsy music, jazz, rock'n'roll
Atrás os franceses Vaguement La Jungle com “Tcherno”, tema extraído do seu segundo e último trabalho “Aie Aie Aie”, editado em 2003. Mesmo a propósito, eles são um grupo orientado para a animação de festivais, criando concertos cheios de energia e bom humor onde a festa e a interacção com o público são parte essencial do espectáculo. Nas suas performances, os Vaguement La Jungle misturam música e teatro de rua. Com o seu cocktail fusionista, este quarteto propõe-nos um universo sonoro selvagem e estimulante. Um caldeirão mestiço onde borbulham a música cigana, árabe e judaica, o jazz e o rock‘n’roll, e que é servido com muita improvisação, espírito cáustico e letras libertárias. Uma aventura a escutar também com os olhos, já que a sua música arrasa fronteiras e cada concerto é um verdadeiro remédio contra o marasmo. Os Vaguement La Jungle conheceram-se nas ruas de Nantes e estão juntos desde 2000. Eles fazem parte da nova vaga de artistas franceses que representam as várias comunidades estrangeiras existentes em França e que lutam por uma integração na indústria musical francófona.

"Ya Fama", Toumani Diabaté & Symmetric Orchestra (Mali) - kora music, m'balax
A jornada prossegue com Toumani Diabaté e a Symmetric Orchestra, uma das presenças mais marcantes na última edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “Ya Fama”, tema extraído do álbum “Boulevard de l’Indépendance”, editado este ano. Segundo a tradição mandinga, chama-se Diabaté ao griot do seu séquito que pela primeira vez toca kora, espécie de harpa africana em que a caixa de ressonância é uma cabaça. Hoje os Diabaté continuam no topo da aristocracia da harpa de 21 cordas e Toumani é o seu expoente máximo. Este começou a tocar kora aos cinco anos de idade e desenvolveu sozinho a sua técnica. Desde o final dos anos 80 que o mestre maliano tem procurado abrir uma nova janela para este instrumento. Foi o que aconteceu com o britânico Danny Thompson, os espanhóis Ketama, os norte-americanos Taj Mahal e Roswell Judd, que lhe permitiram explorar territórios desconhecidos que vão da folk britânica ao flamenco, blues e jazz. Toumani Diabaté tem colaborado com artistas de todo o mundo, mas foi com o conterrâneo Ali Farka Touré que gravou o disco “In the Heart of the Moon”, premiado no ano passado com um Grammy. Desde 1992 que tem o apoio da Symmetric Orchestra, formada por músicos de países do antigo império mandinga (Mali, Burkina, Guiné ou Senegal) e que une a a música tradicional com guitarras eléctricas, bateria e teclados, interpretando repertório que vai da música de kora da Gambia, passando pelo m’balax senegalês e pelos ritmos dançáveis de influência latino-americana.

"Mosquito Song", Seun Kuti & Egypt 80 (Nigéria) - afrobeat
Atrás o saxofonista nigeriano Seun Anikulapo Kuti, filho mais novo de Fela Kuti, a figura régia da afrobeat, com o tema “Mosquito Song”, gravado ao vivo este ano em Dakar, no Senegal, no “Africa Live: The Roll Back Malária Concert”. Aos 9 anos, Seun já cantava coros nos concertos de Fela, tendo vivido junto do pai os últimos da vida dele, absorvendo tudo quanto este lhe ensinava. Depois da morte de Fela em 1997, Seun Kuti foi naturalmente aceite como sucessor na liderança da Egypt 80, a última banda do pai, e começa a assumir a renovação do legado. Com uma voz cada vez mais própria, ele mantém no entanto viva a mais original encarnação da afrobeat, usando uma sólida secção de baixo e o groove incomparável das vozes e percurssões africanas. Um etno-funk circular e hipnótico, com muito jazz à mistura. Seun lidera com tremenda energia a sua banda em palco, tocando reportório do pai e as suas próprias composições. Mantendo o tom político e social nas letras, refinando-se no saxofone e enriquecendo a afrobeat com outras músicas da sua formação, como o hip-hop, Seun é o mesmo dínamo em palco. Magia semelhante viveu-se no castelo de Sines na semana passada num concerto que, para além da orquestra Egypt 80, contou ainda com o baterista Tony Allen, companheiro de Fella Kuti na invenção da afrobeat, uma combinação de
ritmos africanos, funk e jazz que colocou a Nigéria no mapa musical do século XX.

"Dimokransa", Mayra Andrade (Cabo Verde) - morna, funaná, coladera, batuque
Entretanto seguimos até Cabo-Verde com “Dimokransa”, de Mayra Andrade, um dos temas incluídos no álbum “Navega”, seu disco de estreia a solo, editado este ano. Um trabalho gravado de forma expontânea, com poucos arranjos pré-definidos, mas que levou tempo a amadurecer e atravessou diferentes mares. A mais jovem diva da música cabo-verdiana nasceu em Cuba e viveu em Cabo Verde, no Senegal, em Angola e na Alemanha. No entanto, foi em França, país onde hoje reside, que Mayra encontrou os seus ouvintes mais entusiasmados, um dos quais Charles Aznavour, que no ano passado a convidou para cantar com ele um dueto. Uma colaboração que cimentou o perfume de uma voz crioula quente e com grande sentido cénico no território da língua francesa. Mayra Andrade interpreta com destreza, sentido pop e maturidade todos os estilos clássicos da música do arquipélago, da morna ao funaná, da coladera ao batuque, mas a sua abordagem é a de uma nativa da ilha de Santiago, alegre e com fortes afinidades com a música negra do Brasil.

"Toada Velha Cansada",
Cordel do Fogo Encantado (Brasil) - forró, axe, rock
Os brasileiros Cordel do Fogo Encantado, uma das maiores surpresas deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines, trazem-nos um tema do álbum do mesmo nome, extraído do primeiro trabalho discográfico da banda. Em 1997 um grupo fazia nascer o Cordel do Fogo Encantado. Dois anos depois, a peça teatral transforma-se num espectáculo musical. O jovem quinteto pernambucano fala então de histórias de reis e dragões, de santos e bandidos, do princípio e do fim do mundo. Um projecto que reinventa várias tradições musicais e narrativas do sertão nordestino brasileiro – dos cantadores aos emboladores, passando pelos repentistas e autores de cordéis, folhetos de histórias vendidos nas feiras, – trazendo a sua força mitológica para o século XXI. A música dos Cordel de Fogo Encantado, um dos mais premiados projectos da nova música brasileira, parte de Pernambuco para se fundir noutras latitudes, destacando-se a pujança percurssiva, com o forró e o axe em fúria constante. A essa fusão juntam-se tradições índias, o folclore e a força demolidora dos tambores de culto africano, a par do rock, das texturas do violão e do carisma do poeta e vocalista psicadélico Lira Pães, claramente influenciado pelas cantigas de escárnio e maldizer.

"Galandún",
Eliseo Parra (Espanha) - folk-rock, rap, hip-hop
O programa encerra com Eliseo Parra, um dos maiores conhecedores e reinventores do folclore espanhol e outra das revelações do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Ele traz-nos agora o tema “Galandún”, extraído do álbum “De Ayer Mañana”, editado no ano passado. Uma expressão coloquial castelhana dá o título ao mais recente disco deste músico, resumindo na perfeição a sua identidade musical. Trabalho que integra uma ampla variedade de música tradicional espanhola, acrescentando-lhe estilos modernos como o rap, o hip-pop ou o chill out. Fazendo conviver como poucos o ontem e o amanhã, Eliseo Parra é hoje um dos mais estimulantes músicos de raiz tradicional da Europa. Iniciando-se como músico de rock, de jazz e até como membro de várias orquestras de salsa, ele começou em 1983 a investigar as músicas tradicionais das “tribos hispânicas”, registando as suas recolhas em vários discos e livros. Eliseo Parra acredita que a única forma de fazer com que o folclore sobreviva é retirá-lo do ambiente fechado dos museus e levá-lo para o palco. No seu repertório, onde dominam os ritmos de dança, as velhas músicas das Espanhas tornam-se sons do presente e do futuro. É esse folclore pujante e lúdico que se ouviu no encerramento em Porto Covo do programa de concertos do Festival de Musicas do Mundo de Sines. Uma fonte inesgotável de recursos que é apenas um ponto de partida para outras viagens musicais.

Jorge Costa

03 Agosto 2006

Sines: ninguém pára as músicas do mundo

Com a crescente apetência do público pela world music, esta começa finalmente a ganhar terreno em Portugal. Falta combater o interesse fortuito dos media pelo género, reforçar a sua presença nas rádios nacionais e criar mesmo um programa de televisão ou um canal no cabo. Que se tirem as devidas elações do sucesso da edição deste ano do FMM. O rastilho acendeu-se em Sines. Agora já ninguém pára as músicas do mundo.


Interior do castelo de Sines na última noite do FMM
(foto:
Jorge Costa/Multipistas)

Durante nove dias, uma imensidão de gente invadiu as pequenas e estreitas ruas de Sines para participar na oitava edição do Festival Músicas do Mundo (FMM). Um evento a que, pelo segundo ano consecutivo, o público soube corresponder, esgotando mais uma vez a lotação do castelo, preparado para acomodar 6500 pessoas. Artistas e bandas animaram a festa que este ano se distribuiu por quatro palcos, num total de quase três dezenas de concertos, 160 músicos em representação de 23 países e uma enorme variedade de géneros musicais.

Organizado pela Câmara Municipal daquela localidade, e fruto da dinâmica do autarca Manuel Coelho (director do evento) e de Carlos Seixas (director criativo e de produção), o FMM teve então de se expandir para fora das muralhas. Desta forma, os concertos também decorreram na Avenida da Praia, em Sines, e junto ao Porto de Pesca, em Porto Covo. Juntou-se-lhe ainda o Centro de Artes de Sines, que acolheu iniciativas paralelas como exposições de fotografia, workshops, uma feira do livro e do disco, um ciclo de cinema documental, jam sessions, conversas sobre arte e música, encontros com os artistas, animação de rua e ateliers para as crianças.

E são cada vez mais os visitantes que acorrem a esta cidade do litoral alentejano. Desde a primeira edição do FMM, em 1999, que já foram contabilizados cerca de 115 mil espectadores, mais de 40 mil deles só este ano. Uma cifra que quase duplicou em relação a 2005, quando Sines acolheu cerca de 25 mil pessoas. Para acompanhar o aumento de espectadores, o festival foi sofrendo diversas modificações, sem contudo enveredar por um lógica mais comercial. Ao escolher fugir a uma programação de pop formatada ou rock convencional, o FMM captou e criou novos públicos, tornando-se uma referência nacional.


O público encheu o recinto para assistir aos concertos
(foto:
Jorge Costa/Multipistas)

De porto voltado para o mundo, Sines transformou-se num ancoradouro das rotas musicais dos cinco continentes. O FMM tem vindo precisamente a apostar num mosaico de músicos e grupos de grande qualidade, apresentando lado a lado raízes muito diversas. O sucesso dos últimos anos tem demonstrado aliás a existência de público para o alternativo caldeirão musical que fervilha aqui e além-fronteiras.

São diferentes culturas em contacto naquele que é considerado o maior festival do género no país. “É uma forma de dar a volta ao mundo sem ter que pagar o bilhete”, referiu em entrevista à Som Digital a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, lembrando que desta forma o planeta se vem dar a conhecer ao público português. E com a crescente apetência pela world music, esta começa finalmente a ganhar terreno em Portugal. Falta agora combater o interesse fortuito dos media pelo género, reforçar a sua presença nas rádios nacionais e, ouse-se dizer, criar mesmo um programa de televisão ou um canal no cabo. Altos voos? Que se tirem as devidas elações do sucesso da edição deste ano do FMM. O rastilho acendeu-se em Sines. Agora já ninguém pára as músicas do mundo.

Jorge Costa



Os blues do Saara Ocidental, na voz de Mariem Hassan

(fotos: Jorge Costa/Multipistas)


A folk electrizante das filandesas Värttinä, num dos pontos altos do festival
(fotos:
Jorge Costa/Multipistas)

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VIDEOCLIP Värttinä ao vivo em Sines

Venham mais músicas do mundo!



Tendo em conta o seu público-alvo, é de louvar que pela primeira vez, ainda que de forma modesta, a Antena 3 tenha feito o devido acompanhamento de um acontecimento de escala como o Festival de Músicas do Mundo de Sines. Apesar das limitações, o “Planeta 3”, apresentado semanalmente pela Raquel Bulha, vale pelo gesto pioneiro, pela atitude de resistência e pela oportunidade que dá ao país em respirar algum oxigénio sonoro étnico, coisa ainda rara na telefonia portuguesa, à excepção do “Raízes”, da Antena 2, e de um ou outro programa nas estações locais e regionais, como é o caso do MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO.

Convém aliás lembrar que as rádios públicas tanto têm sido parte da solução como do problema. O exemplo vem da emissora estatal mais orientada para o público tendencialmente atento ao universo das músicas
do mundo: nas 168 horas de emissão semanal da Antena 3, apenas uma é dedicada na totalidade e sem complexos à world music. Precisamente o “Planeta 3”.

É certo que a estação, que em 1994 veio ocupar o lugar vago deixado anos antes pela defunta Rádio Comercial, então emissora juvenil da RDP, construiu a sua personalidade a partir de um modelo programático mais baseado na cultura anglo-saxónica. Razão pela qual, passada pouco mais de uma década, não será fácil sensibilizar para este ambiente musical um auditório cronicamente habituado à linguagem da pop e do rock e com dificuldade em abrir-se a outras referências. Um processo necessariamente lento num país que insiste em esquecer as suas raízes musicais e em fazer orelhas moucas do seu imenso património etno-musical. Quando aqui ao lado, na Galiza, a música celta é considerada o rock dos jovens, porque terão de ser os distantes Estados Unidos a construir isoladamente o mapa sonoro de toda uma geração de portugueses?

Ainda que a música do mundo, vista numa perspectiva de Portugal para fora, não se esgote na melódica latinidade e no vibrante afropop, tão na moda nos dias que correm, a abordagem mais calorosa do “Planeta 3” não esconde antes revela os grandes trunfos da música dos povos: a alegria e o ritmo, que no fundo não são mais do que os impulsos básicos da vida. Seguindo essa mesma fórmula, o MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO procura modestamente furar o cinzentismo e a homogeneidade musical do dial. Um formato musical que acompanha a linha de evolução do conceito de música do mundo, hoje um imenso e intenso tabuleiro de fusões sonoras onde género e géneros se esfumam diariamente.

Admito que despertei para este tipo de música ao ouvir anos a fio a homóloga espanhola Radio 3 – coisa fácil junto à fronteira, mas que com o web streaming deixou de ser um exclusivo de quem vive na raia –, porque na rádio portuguesa nunca houve grande abertura para um universo musical que, acertadamente, preenche quase por completo de manhã à noite a grelha de programação daquela emissora e de outras equivalentes europeias. Afortunadamente (para eles e para alguns de nós), do lado de lá os microfones da Rádio Nacional de Espanha continuam à disposição dos "mundialescos dinosauros radialistas", que nos seus programas de autor – outra raridade cada vez maior por cá – partilham connosco a sua bagagem musical étnica, nos alimentam a curiosidade pela história e cultura dos povos distantes e nos ajudam a encontrar referências e a construir a partir daí uma palete diversificada. Que ninguém duvide que será tudo isto que iremos lembrar daqui a uns anos ao perspectivarmos o nosso passado.

A rádio pública, à luz do modelo europeu de radiodifusão e seja ela feita para jovens ou adultos, é isto mesmo: uma porta aberta para o mundo. Às rádios ditas comerciais caberá seguir, se assim o entenderem, outro caminho mais "genérico" e "asséptico". E é por este custo acrescido e para garantir o direito à diferença que todos nós pagamos juntamente com a factura da luz a chamada “Contribuição Audiovisual”. Caso contrário, perante o incumprimento do compromisso do Estado com os cidadãos que representa, de que forma se poderia legitimar esta taxa “voluntária”?

E ainda que a "imagem sonora" da espanhola Radio 3 fique alguns pontos atrás do que se faz na Antena 3, aquela estação acaba por levar a melhor no que toca a conteúdos e a diversidade. Seja pelos comentários contextualizados e bem argumentados ou pelas críticas sempre reflectidas destes senhores, quase todos eles com alguma bibliografia publicada sobre a rádio musical da área da pop, do rock ou da world, coisa que por cá parece desde já ser uma matéria irrelevante junto de todos, generalizada que está a ideia da música em rádio como o único suporte linguístico e mero conteúdo de entretenimento.

Cada vez mais a palavra (não confundir com o palavreado sem nexo) será a salvação da rádio, mesmo que para já não saibamos o que irá acontecer à oitava arte e que transformações poderão ocorrer à telefonia, passem elas ou não pelos podcasts ou pela rádio digital, interactiva e com integração de serviços. Cada um de nós terá isso sim de fazer um esforço para que as coisas mudem pouco a pouco. A música do mundo precisa de um airplay condigno e regular em Portugal!

Proponho desde já a partilha de experiências entre todos os agentes de divulgação musical, sobretudo aqueles de nós que, na blogosfera ou no éter local e regional, com poucos meios e muito amor à camisola, insistem em ousar quebrar os pressupostos da estandardização musical que diariamente nos vai digerindo as referências. Associemo-nos então para que as músicas do mundo possam ser apreciadas por todos, sem embaraços, tal como em tempos remotos. Este universo não pode ser visto como uma cultura alternativa, desligada do seu contexto social, e cada vez mais apenas sujeito à apreciação insípida de uma crítica distante. No nosso democrático país, falta fazer-se essa revolução cultural. E para contrariar o lado negativo da tradição, não deleguemos de novo a tarefa noutra geração.

Jorge Costa

02 Agosto 2006

World Music Charts Europe - Agosto 2006

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Agosto dos 183 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de):

1º- GOLD & WAX, Gigi (Etiópia, EUA) - Palm Pictures
mês passado: 3ºlugar

2º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 1ºlugar
3º- SAVANE, Ali Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 35ºlugar
4º- NIGER, Afel Bocoum & Alkibar (Mali) - Contre-Jour
mês passado: 7ºlugar
5º- NE UZ VIENU DIENU, Ilgi (Letónia) - UPE
mês passado: 2ºlugar
6º- TRAVESIAS, Susana Baca (Peru) - Luaka Bop/Virgin
mês passado: 11ºlugar

7º- ZANDISILE, Simphiwe Dana (África do Sul) - Skip
mês passado: 13ºlugar
8º- LA CANTINA, Lila Downs (EUA) - Peregrina/Narada
mês passado: 4ºlugar

9º- WONAI, Oliver Tuku Mtukudzi (Zimbabwe) - Sheer Sound
mês passado: 18ºlugar
10º- MISH MAOUL, Natacha Atlas (Reino Unido) - Mantra
mês passado: 5ºlugar
11º- AY AY LOLO, Menwar (Maurícias) - Marabi

mês passado: 174ºlugar
12º- THE SEEGER SESSIONS, Bruce Springsteen (EUA) - Sony
estreia na tabela
13º- MHM A-HA OH YEAH DA-DA, Darko Rundek & Cargo Orkestar (Croácia) - Piranha
mês passado: 16ºlugar
14º- YELLOW FEVER, Senor Coconut (Alemanha, Chile) - Essay Recordings
mês passado: 10ºlugar

15º-QUE LINDA ES MI CUBA, Saborit (Cuba) - Tumi Music
estreia na tabela
16º- LUNGHORN TWIST, Accordion Tribe (vários) - Intuition
mês passado: 8ºlugar

17º- TIMELESS, Sérgio Mendes (Brasil, EUA) - Concord/Universal
mês passado: 19ºlugar
18º- LA GHRIBA - LA KAHENA REMIXED, Cheb i Sabbah (EUA, Argélia) - Six Degrees

estreia na tabela
19º- LUNATICO, Gotan Project (França, Argentina) - Ya Basta
mês passado: 6ºlugar

20º- THE ROUGH GUIDE TO THE MUSIC OF IRAN, vários (Irão) - World Music Network
mês passado: 32ºlugar

28 Julho 2006

Emissão #19 - 29 Julho 2006

A 19ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 29 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 31 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Vihma",
Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
As Värttinä, que mais logo (sábado) vão estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, a abrirem a emissão com “Vihma” (Granizo), tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1998. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário, traz-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia, reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. Alguns temas deste sétimo disco das Värttinä incluem também cantos da república russa de Tuva. O grupo, que nasceu em Raakkylaa, é hoje formado pelas vozes enérgicas e harmónicas de Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida e o mesmo vigor e calor vocal de sempre.

"O Fim da Picada",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo prosseguem com os Gaiteiros de Lisboa, que esta semana também estiveram no Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “O Fim da Picada”, tema extraído do seu último trabalho “Sátiro”, editado em Junho. Cada vez mais voltados para o Mediterrâneo, neste seu quarto trabalho de originais os Gaiteiros de Lisboa abarcam desde os sons de Trás-os-Montes às polifonias alentejanas, passando pelo fado. São convidados Mafalda Arnauth, que canta um poema de Florbela Espanca, e o violinista Manuel Rocha, da Brigada Vítor Jara. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se para isso nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Neste trabalho juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares.

"Montañés",
Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os Rarefolk trazem-nos o tema “Montañés”, extraído de “Unimaverse” (um jogo de palavras entre os conceitos de unidade e universo), terceiro trabalho dos sevilhanos mais audazes do freestyle folk, onde a banda mistura de forma criativa o universo do rock e da electrónica com a música africana, celta, oriental e até mesmo o jazz. Os Rarefolk começaram por fazer folk num estilo puro, mas pouco a pouco foram renovando não só a banda mas também a sua visão, fundindo influências do norte da Europa e do norte de África e submergindo-se num novo universo de estilos e ritmos. Depois de se terem dado a conhecer como Os Carallos na exposição mundial de Sevilha, em 1992, uma editora recém-criada oferece-se para editar o seu primeiro disco. Mais tarde criavam a “Fusión Art”, gravando eles próprios e de forma artesanal o álbum “Unimaverse”. Um trabalho ousado e experimental em que recuperam muita da frescura e simplicidade inicial. Nele participam a violinista escocesa Michelle McGregor e o percursionista senegalês Sidi Samb – este último responsável pelas letras do grupo, interpretadas em castelhano, francês e wolof (dialecto do Senegal) –, e músicos como DJ Abogado del Diablo (Narco), Andreas Lutz (O’Funkillo) e a senegalesa Fátuo Diou.

"Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
Segue-se Souad Massi com “Ilham” (Inspiração), tema onde esta evoca as suas raízes berberes e a música tuaregue. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado no ano passado. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"N'Ta Goudami", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
A argelina Cheikha Rimitti (falecida no passado mês de Maio, aos 83 anos) com o tema “N’Ta Goudami”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Órfã e rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa, harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul argelina.

"M'Be Ddemi", Cheikh Lô (Senegal, Burkina Faso) - afropop, m'balax
A jornada prossegue com Cheik Lô e o tema “N’Jariñu Garab” (A Árvore). Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas nasceu e cresceu no Burkina Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos m’balax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, que produziu o seu primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses, bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. No album “Bambay Gueej” (Bamba, Oceano de Paz), editado em 1999, Cheikh Lô adorna estes elementos com o funk e a soul. De novo uma floresta de percussões, guitarra acústica e sons afro-cubanos.

"Nafiya", Mori Kanté (Guiné) - afropop, kora music
Atrás Mori Kanté, um dos mais conhecidos cantores e multi-instrumentistas africanos. Ele trouxe-nos “Nafiya” (Pessoas Más), um tema sarcástico contra a falta de entreajuda entre o povo africano, extraído do álbum “Sabou” (Causa). Um trabalho lançado em 2004 e que mistura sons contemporâneos e tradicionais, fundindo melodias griot e batidas funk. Sem abandonar a guitarra acústica e o estilo eléctrico, Mori Kanté regressa às suas raízes guienenses com um álbum acústico dominado por instrumentos tradicionais africanos como a kora (espécie de harpa) e o balafon (espécie de xilofone africano), quase sempre tocados por ele. Ao fazê-lo, segue o exemplo de Youssou N’Dour e Salif Keita que, para fazerem álbuns mais tradicionais, abandonaram estilos orientados para a pop. Neste trabalho, o músico é acompanhado por coros femininos, onde se apresentam vozes como Mariamagbe Mama Keita, e por um painel de luxo de instrumentistas como o flautista africano Babagalle Kante. Natural da Guiné e herdeiro da tradição dos griots, Mori Kanté tornou-se conhecido ao juntar-se na década de 70 à Rail Band, de Bamako, no Mali, grupo cujo som combinava o funk e a música tradicional. O estrelato viria nos anos 80 quando o músico se mudou para Paris. Em 1987, com a edição em França do seu terceiro álbum, o funk mandingo de Kanté triunfava finalmente. Graças à música “Yéké Yéké”, ele foi o primeiro artista africano a vender um milhão de singles. Para além de música, actualmente Mori Kanté é também embaixador das Nações Unidas na luta contra a fome.

"Galicia", Urban Trad (Bélgica) -
techno folk
Entretanto seguimos pelos caminhos da folk urbana com os belgas Urban Trad, que nos trazem o tema “Galicia”, extraído do álbum “Kerua”, editado em 2003. Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. No Festival Eurovisão da Canção realizado na Letónia em 2003, os oito elementos do grupo conquistam o segundo lugar e o grande público. Com “Sanomi”, uma canção interpretada num idioma imaginário, levaram pela primeira vez o característico timbre da gaita-de-foles ao palco da Eurovisão. Um grupo de música de inspiração tradicional, mas ancorado no presente, já que instrumentos acústicos como o acordeão, o violino e a flauta são acompanhados pelo canto e por uma secção rítmica cheia de energia e musicalidade. Volvidos três álbuns, o repertório dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a França, a Espanha e os países de Leste. É assim a música tradicional europeia do século XXI.

"Se Escaparon",
Bombon (Hunduras) - ragamuffin, son, funk
O programa encerra com o tema "Se Escaparon", uma história de rebelião juvenil que fala de raparigas que fogem de casa às escondidas e são surpreendidas na pista de dança pelo pai, que pensava que elas estavam a dormir. A narrativa musical pertence aos hondurenhos Bombon, radicados em Miami e que criam um estilo musical moderno, feito da mistura de ragamuffin jamaicano, son cubano e funk. A crescente influência da música latina a nível internacional tem contribuído para que esta se desenvolva fora do seu território geográfico natural. Um interesse explicado pelos ritmos e melodias apelativas, embora actualmente a sua fluência sonora cada vez mais se deva à sucessiva mistura com o universo da dança e com estilos urbanos contemporâneos afro-americanos. E ainda que a música latina vá retendo elementos da tradição, esta está em constante mudança e evolução. Uma equação onde entram, entre outros, o funk, o hip-hop, a soul, o rhythm & blues ou o rock, mas onde o resultado continua a ser sempre a fórmula perfeita para um ambiente de “fiesta”.

Jorge Costa

21 Julho 2006

Emissão #18 - 22 Julho 2006

A 18ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 22 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 24 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Battle Of The Species",
Antibalas Afrobeat Orchestra (EUA) - afrobeat
Os Antibalas Afrobeat Orchestra inauguram a emissão desta semana com “Battle Of The Species”, tema extraído do seu trabalho de estreia “Liberation Afrobeat Volume I”, lançado em 2001. Este colectivo multiracial (eles são latinos, afro-americanos, africanos e americanos asiáticos que vivem em Nova Iorque nos bairros de Brooklyn, Manhattan e Bronx, e em Bayonne, na Nova Jérsia), formado em 1998 pelo saxofonista Martin Perna, inspirou-se no saxofonista e activista nigeriano Fela Anikulapo Kuti, fazendo renascer a herança musical do fundador da afrobeat. Um género em que os Antibalas Afrobeat Orchestra puderam enquadrar os diferentes interesses musicais e preocupações políticas de cada um dos seus membros. O som desta banda nova-iorquina, cuja formação varia entre os 14 e os 20 elementos, combina highlife, jazz, soul, funk, dub, ritmos e percussões africanas e cubanas. Eles têm tocado não só com outros criadores do legado da afrobeat, entre eles o percussionista Tony Allen ou o trompetista Babatunde Williams, mas também aberto as fronteiras a James Brown, No Doubt, Wyclef Jean ou Trey Anastasio. O cariz político das letras e as posições provocadoras dos Antibalas são outro dos aspectos da herança de Kuti. Estas incitam à insurreição e à “desfranchização” do mundo, atacando o sistema capitalista em inglês, castelhano e yoruba. Consciência social e mensagens políticas à mistura com muito ritmo e percurssão…

"Sina Mali, Sina Deni"
, Khadja Nin (Burundi) - afropop, swahili music
As músicas do mundo prosseguem com Khadja Nin e o tema “Sina Mali, Sina Deni” (Livre), extraído do álbum “Sambolera”, editado em 1996. Desde o início da sua carreira que Khadja, natural do Burundi, tem procurado criar fusões musicais capazes de cruzar fronteiras geográficas e culturais. É por isso que uma vez afirmou que a sua música não deveria ser classificada como “branca” ou “negra”, mas antes como “café com leite”. Ela mistura ritmos tradicionais africanos, afro-cubanos e brasileiros com modernas melodias pop e rock. Nas suas letras fala sobre as crianças da rua, a guerra e a sua luta contra todas as desigualdades. Aos sete anos, Khadja Nin torna-se uma das vocalistas principais do coro Bujumbura. Tal era a sua paixão pela música, que mais tarde formava o seu próprio grupo. Depois de ter ido estudar para Kinshasa, capital do Zaire, Khadja Nin casa e emigra para a Bélgica com o seu filho de dois anos. Conhece então o músico Nicolas Fiszman que, impresionado pela sua voz, a convida a escrever com ele alguns temas. Depois do primeiro trabalho, em 1996 lança o disco “Sambolera”, que a catapultou para a fama. Um álbum onde canta em swahili, kirundi (idioma oficial do Burundi) e francês. Uma destas músicas ocuparia mesmo o topo das tabelas francesas, depois de o canal de televisão TF1 ter feito dela um sucesso de verão. Entretanto, Khadja Nin actuou por várias vezes com Sting e a estrela do raï Cheb Mami. Khadja, que actualmente vive no Mónaco, mantém a esperança de um dia poder regressar ao Burundi.

"Laax", Omar Pène (Senegal) - m'balax
Ao contrário de Youssou N’Dour, cuja música é refinada e um pouco aristocrática, Omar Pène, que nos apresenta o tema "Laax", está mais enraízado na vida do dia a dia, retratando a realidade dos jovens, dos desempregados e dos camponeses senegaleses. Ao misturar as sonoridades do m'balax, os ritmos do blues, do jazz, do reggae e da salsa, Omar Pène tornou-se uma das lendas de sucesso do Senegal. O talento vocal e o afro-feeling de Omar Pène foram descobertos por Balla Diagne, músico da Kadd Orchestra, que o conheceu em Dakar, cidade onde este cresceu cantando e fazendo música com latas de óleo. Encorajado a seguir uma carreira musical, Omar Pène abandona então o futebol, a sua grande paixão. Mais tarde integra os Super Diamono, banda de que se tornaria líder. Com estes representantes da nova geração senegalesa (em wolof, Diamono significa geração), foi explorando uma variedade de estilos, do jazz aos blues e do reggae ao m’balax (som característico do Senegal, que se generalizou nos anos 80, inicialmente representado por Youssou N’Dour e Super Etoile). Neste álbum “25 Ans”, editado em 2001, Omar Pène volta-se para o mercado internacional. Gravado em Dakar e misturado em Paris, este trabalho explora temas antigos e actuais do seu repertório. A voz quente, profunda e expressiva de Omar é acompanhada pelo baixo, pela guitarra acústica e por toques de percurssão. As suas músicas reflectem a preocupação com os problemas do dia a dia, o exílio, os relacionamentos ou os assuntos económicos e sociais. Canções que incentivam os jovens senegaleses a procurarem o seu futuro em África.

"N'Kodo", Djamel Laroussi (Argélia) - rap, raï
Segue-se Djamel Laroussi com o tema “N’Kodo”, extraído do álbum “Djamel Laroussi Live”, gravado ao vivo em Colónia, na Alemanha. Um trabalho que arranca na aldeia dos três Marabouts (Marabout é um santo com um papel crucial nos países sub-sarianos e do Magrebe), solo nativo dos antecessores deste músico argelino. Autor, compositor, cantor e multi-instrumentista, o antigo guitarrista de Cheb Mami é também um exímio tocador de baixo, derbouka (instrumento de percussão magrebino), gumbri (baixo de três cordas do Saara) e t'bel (espécie de timbale marroquino). Num reencontro de instrumentos tradicionais e modernos, Djamel Laroussi apresenta uma mistura global de ritmos, harmonias e melodias. Provavelmente é por esta razão que tem sido muito requisitado para tocar lado a lado com músicos e bandas como Cheb Mami, a Orchestre National des Barbès ou o jazzman Graham Haynes. Longe dos estereótipos habituais do raï, Djamel Laroussi navega num extenso universo que vai do Egipto a Marrocos. Tendo como ponto de partida as raízes norte africanas do chaâbi e do gnawa, a sua música inspira-se nos sons ocidentais do jazz, dos blues, do reggae, da pop, do hip-hop, do funk e do rock, e nos ritmos latinos da salsa, do samba e do merengue. Uma extensa mistura da qual resultam baladas em francês, árabe e berbere, misturadas com parábolas e poemas de amor.

"L'Histoire", Cheb Tarik (Argélia) - raï hip hop, reggae
A viagem musical continua com Cheb Tarik e o tema “L’Histoire”, extraído do álbum “Metisstyle”, editado em 2001. O intérprete e compositor argelino, cujo verdadeiro nome é Mohammed Tarik, mistura o raï com influências do rap, funk, salsa e rhythm & blues. No final da década de 80, quando Cheb Tarik se mudou para Paris, o compositor Maghni propôs-lhe o desafio de rejuvenescer o raï. Em 1994, ano em que Cheb Hasni, o rei do raï sentimental, foi assassinado, Tarik presta homenagem a este último com um álbum que na Argélia venderia mais de cem mil exemplares. Graças a esse sucesso, Cheb Tarik produziu mais dois álbuns de raï tradicional, não deixando de neles integrar géneros que o marcaram na adolescência como o funk e o reggae, e de colaborar com nomes como Saïan Supa Crew, Bouba, Gipsy Kings e Tonton David. Três anos depois decide aliar o rap ao raï, transformando com CC Raïder o clássico “Reggae Night” no novo “Reggae Raï”. Depois do sucesso deste single em toda a comunidade magrebina, Tarik começa a produzir o álbum “Metisstyle”. Um projecto com que finalmente vai poder modernizar o raï, juntando-se a músicos como Khaled. Um álbum marcado por inovações como a talk box e as amostras de som, e pela diversidade de influências e de géneros musicais. A prová-lo estão as vendas, que ultrapassaram seis milhões de unidades.

"Torch Of Freedom", Matthias Vogt Trio (Alemanha) - world, contemporary jazz

A jornada prossegue com “Torch Of Freedom”, tema extraído do álbum “Changing Colours”, editado este ano pelo Matthias Vogt Trio. Precisamente o primeiro trabalho de composições próprias deste núcleo do projecto [re:jazz], formado por Matthias Vogt, pelo baixista Andreas Manns e pelo percussionista Volker Schmidt. Matthias Vogt é pianista de jazz, DJ, autor e produtor de música electrónica. Os seus três pólos musicais são a Motorcitysoul, filial electrónica do seu trabalho; o [re:jazz], ligação musical que procura pontos de contacto entre o mundo da electrónica e o jazz acústico; e o Matthias Vogt Trio, a célula principal do [re:jazz] e seu campo de experimentação musical. A música deste trio, que leva o jazz para outras direcções por explorar, é auto-contida, contemplativa e emocional. Neste trabalho, eles dão provas da sua qualidade artística, apresentando um som moderno e intimista, que se aproxima à pop e ao novo jazz electrónico.

"Guitarlandia", Rubin Steiner (França) - latin jazz, electronic
Rubin Steiner, nome dado ao projecto electrónico de Fred Landier, apresenta-nos o tema “Guitarlandia”, extraído do álbum “Wunderbar Drei”, editado em 2001. No trabalho de produção deste jovem francês sobressaem um gosto pronunciado pelo jazz e uma cultura musical desenvolvida à volta do hip-hop, trip-hop, drum’n’bass, house e break-beat. Rubin Steiner é natural de Tours, uma pequena cidade no Vale do Loire, onde até há poucos anos a música electrónica era praticamente desconhecida. Ainda que à distância de uma hora de comboio de Paris, as guitarras e o típico e entusiasmo provincial quase punk da cidade luz entusiasmaram o jovem músico. Landier tocou em várias bandas locais, a última delas de nome Merz, tornando-se conhecido por algum tempo na região. Mas as coisas mudaram de figura quando todos os membros do grupo decidiram comprar computadores e começar a compor sozinhos. Depois de em 1999 ter lançado “Lo-Fi Nu Jazz Vol.2”, álbum divertido e indisciplinado que avança pelos caminhos do jazz electrónico, Rubin Steiner edita então “Wunderbar Drei”, um trabalho já profissional que irá agradar e confundir ainda mais o público. No entanto, a música de Rubin Steiner permanece enérgica e caótica como sempre. São atmosferas distorcidas, influências desproporcionais e toques humorísticos que não o levam a mudar de direcção e a deixar de ter um som inovador e iconoclasta.

"Soy Callejero", Los Mocosos (EUA) - latin rock, pop, ska, salsa
Segue-se o tema “Soy Callejero”, dos Los Mocosos (traduzindo à letra, “Os Ranhosos” é um termo algo desconcertante, mas eles precisavam de um nome absurdo e espontâneo que designasse a banda). Esta banda de rock de bairro, nascida no distrito missionário de São Francisco, segue a tradição de músicos como Santana ou Malo em cruzar fronteiras culturais. Um híbrido musical da costa oeste americana que mistura soul e pop latina com ska, salsa, funk, swing, reggae e rock, acrescentando-lhe letras que falam da vida diária do seu bairro. “Shades of Brown”, o seu álbum de estreia, editado em 1998, combina elementos latinos, criando um género único. Uma mistura de influências num album eclético e poderoso que reflecte a realidade multicultural e multiracial de um país que Los Mocosos já percorreram por diversas vezes com Santana e Los Lobos, trazendo ao de cima as culturas hispânica e americana. No entanto, Los Mocosos não tiveram de criar esta selvagem mistura de culturas, até porque o crescente interesse pela world music tem vindo a mudar a paisagem musical americana, povoando-a de estilos latinos como o reggae e a dub jamaicana ou o son afro-cubano.

"Flor de Huevo", Los Lobos (EUA) - tex-mex, latin-ska-funk-rock
Los Lobos, um dos mais representativos e originais grupos dos anos 80, trazem-nos o tema “Flor de Huevo”, extraído do álbum “Del Este de Los Angeles (Just Another Band From East LA)”. Uma fusão de rock, blues, country, folk e rhythm & blues com música tradicional do México e da América Latina. Desde o seu modesto arranque nos bairos pobres na zona este de Los Angeles aos grandes palcos internacionais, Los Lobos têm destilado as suas vidas em canções. Em 1978, altura em que ganhavam a vida a tocar em casamentos e restaurantes mexicanos, decidiram gravar um álbum com as suas canções tex-mex, dando-lhes um cheirinho a rock & roll. O album “Del Este de Los Angeles” estabeleceu a identidade própria do grupo e serviu de rampa para que David Hidalgo e Louie Perez começassem a escrever os seus próprios temas. Sem se desviarem das tradições musicais do grupo, Los Lobos extraem as suas influências de múltiplos géneros, transformando-as num som que se foi refinando e expandindo em cada novo disco.

"Getting Happy", Ralph Robles (EUA) - latin soul, boogaloo
O programa encerra com o tema “Getting Happy” do trompetista Ralph Robles, extraído do álbum “Taking Over/Conquistando”, editado em 1999. Quando o boogaloo, uma dança latina com sabor a Nova Iorque, apareceu na década de 60 nos bairros de Harlem, Brooklyn e Bronx, Tito Puente, o rei do mambo, achou que era apenas uma coisa de miúdos. No entanto, este ritmo irresistível, de uma estética próxima do punk, com muito espaço para grandes solos instrumentais e arranjos quase matemáticos, era imparável. Em pouco tempo, o boogaloo distanciou-se do mambo e do cha cha cha, misturando a salsa cubana e outros ritmos latinos com a soul, o funky, o rock, a motown e o rhythm & blues. Influências musicais que marcaram os jovens cubanos e porto-riquenhos que então viviam em Nova Iorque. Uma geração que queria cantar em inglês, mas que acabou por o fazer em “espanholês”. São percussões cubanas, baseadas nas congas, bongos e timbales, e arranjos com trompetes e trombones, à companhia do piano, do saxofone barítono e dos coros. Apesar da euforia, o boogaloo foi um dos géneros latinos com uma vida mais curta, isto porque no espaço de uma década acabou por ser assimilado pela salsa.

Jorge Costa

15 Julho 2006

Emissão #17 - 15 Julho 2006

A 17ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 15 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 17 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Muiñeiras", Cristina Pato (Espanha) -
celtic folk, folk-pop
A espontaneidade, frescura e energia de Cristina Pato está bem patente no tema “Muiñeiras”, original de Raquel Rodriguez, violinista dos Muntenrohi, banda que a diva da gaita-de-foles galega integrou na adolescência. Natural de Ourense, a jovem Cristina Pato tem tocado a solo e com grupos como os The Chieftains, Hevia, Vargas Blues Band ou as orquestras sinfónicas da Galiza e de Tenerife. Colaboraram também com ela, entre outros, José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, e a portuguesa Marta Dias. Para além de gaiteira, Cristina Pato é pianista e compositora, aliando a perfeição técnica da música clássica com a espontaneidade da música popular. Uma carreira que começou aos quatro anos, altura em que quis seguir o exemplo da irmã mais velha, que já tocava gaita-de-foles. Foi na Real Banda de Gaitas de Ourense que esta ofereceu os seus primeiros recitais. Ao acabar o curso de piano em Barcelona, cumpriu a promessa feita à mãe de pintar o cabelo de verde, hoje sua imagem de marca. Cristina Pato, cujo sonho é ser directora de orquestra, foi a primeira gaiteira espanhola a editar um álbum a solo. Em 1999, com apenas 17 anos, lança “Tolemia” (palavra que em galego significa loucura), disco que vendeu quase 50 mil cópias e foi uma autêntica loucura, já que juntou 28 músicos e foi gravado em apenas 10 dias. São sons tradicionais à mistura com ritmos latinos e africanos, funky, pop, reggae ou blues, numa folk mestiça e divertida. Um trabalho em que colaboraram Carlos Castro, dos Fía Na Roca; Paco Juncal, ex-violinista dos Berrogüeto, os Blanco e os Beladona. Como quem toca guitarra eléctrica, Cristina Pato procura demonstrar de forma enérgica que a gaita-de-foles é um instrumento tradicional que extravasa as fronteiras da música celta.

"Raincheck"
, Kathryn Tickell (Reino Unido) - celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Kathryn Tickell e o tema “Raincheck”, alusivo à tournée que esta tocadora de violino e de gaita-de-foles da Nortúmbria realizou na Turquia. Uma música extraída do seu sexto álbum “The Gathering”, editado em 1997. Juntamente com Ian Carr e Neil Harland, Kathryn mistura as suas composições com as melodias tradicionais daquele condado do nordeste de Inglaterra, criando uma folk ágil, profunda e ritmicamente complexa. Kathryn Tickell, que tem tocado em todo o mundo e gravado com nomes como os The Chieftains, Boys Of The Lough, Penguin Café Orchestra e Sting, conquistou os fãs de música celta experimental e de fusão, mantendo no entanto a veia tradicional. Ela começou a tocar gaita aos nove anos, inspirada pelo pai e por músicos como Willie Taylor, Will Atkinson, Joe Hutton, Richard Moscrop e Tom Hunter. Aos 16 anos lançava o seu primeiro álbum. Em 1990 forma a Kathryn Tickell Band, ano em que cria o Fundo dos Jovens Músicos para ajudar os jovens da região a desenvolverem o seu potencial musical. Entretanto, tem colaborado com os saxofonistas Andy Sheppard e John Surman, e desenvolvido programas para a rádio com jovens músicos da Grã-Bretanha. Em 2000 criava o Ensemble Mystical, projecto que reune músicos provenientes do mundo da música clássica, do jazz e da folk.

"Texiendo Suaños", Tejedor (Espanha) - asturian folk, celtic music
Os Tejedor trazem-nos o tema "Texiendo Suaños", extraído do álbum “Texedores de Suaños”. Este grupo asturiano, nascido em Avilés e formado pelos irmãos José Manuel, Javier e Eva Tejedor, é um dos grandes embaixadores da nova folk asturiana. Um potencial criativo e interpretativo comandado por José Manuel Tejedor, considerado o melhor gaiteiro asturiano da segunda metade do século XX. Nas melodias dos Tejedor reconhece-se a paixão destes professores pelo cancioneiro tradicional asturiano, que o ligam à influência celta, criando um som fresco, acústico e festivo. Considerado o melhor disco de folk em 1999, “Texedores de Suaños” reúne composições próprias e temas tradicionais das Astúrias, misturando as gaitas asturianas com a percussão, as flautas, o acordeão diatónico e o bodhrán. Mais tarde, os Tejedor adicionaram ao seu repertório novos elementos musicais que vão dos arranjos de cordas às programações electrónicas, tendo readaptado alguns temas tradicionais asturianos. O disco de estreia, produzido pela "vaca sagrada" da folk internacional Phil Cunningham (que participa também com o acordeão em algumas faixas), reuniu músicos privilegiados como Duncan Chishom (Wolfstone), Michael McGoldrick (Lúnasa, Capercaillie), James McKintosh (Shooglenifty, Afro Celt Sound System), Kepa Junkera e Chus Pedro (Nuberu).

"Malaisha", Miriam Makeba (África do Sul) - soul jazz, afro-pop
Para já segue-se a sul-africana Miriam Makeba, que nos traz o tema “Malaisha”, extraído do álbum “Hits & Highlights”. Ela foi a primeira mulher negra exilada por causa do apartheid e a primeira artista a colocar a música africana no mapa internacional. Miriam, que já gravou mais de 40 discos, cresceu a ouvir Duke Ellington, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, sendo hoje capaz de cantar em nove línguas (francês, inglês, arábico, xhosa, kikongo, maninka, fula, nyanja e shona). Exilada por ter aparecido no filme “Come Back Africa”, a imperatriz da música africana passou 31 anos longe do seu país, lutando pelos direitos civis dos negros.
A sua carreira começa na década de 50 nos Cuban Brothers. Miriam torna-se conhecida como vocalista da formação de jazz Manhattan Brothers, juntando-se mais tarde ao grupo vocal feminino Skylarks. Em 1959 o realizador americano Lionel Togosin convida Miriam a apresentar um documentário sobre a África do Sul no festival de Veneza, o que enfureceria as autoridades sul-africanas. Miriam Makeba exila-se então nos Estados Unidos, criando sucessos como “Pata Pata", "The Clique Song" ou "Malaika". O seu casamento com Stokely Carmichael, o líder radical dos Panteras Negras, traz-lhe problemas com as autoridades americanas. Exila-se então na Guiné-Conacri, até que em 1990 Nelson Mandela a convence a regressar ao seu país.

"Plus Rien M'Étonne", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
A viagem musical continua com Tiken Jah Fakoly e o tema “Plus Rien Me M’Etonne” (Já nada me mete surpreende), extraído do seu sétimo álbum “Coup de Gueule”, lançado em 2004. Um disco em que Tiken Jah Fakoly segue os caminhos do reggae africano de Alpha Blondy, fazendo uma ponte com a Jamaica, e mergulhando na tradição mandingo sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Neste álbum, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim, exilado entre Bamako e Paris, ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem no continente, bem como a hipocrisia das religiões monoteístas. Fakoly apresenta temas em francês e em dioula, a língua da sua etnia e que é falada no norte da Costa do Marfim, na Guiné, no Mali e no Burkina Faso. Um trabalho de novo realizado por Tyrone Downie, e que conta com os ritmos de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, que nos trazem os inconfundíveis sons do balafon, da kora e do ngoni. Outros artistas do mundo ajudam o rebelde tranquilo a alargar a sua música a outros horizontes. Entre eles estão Didier Awadi, dos Positive Black Soul e um dos fundadores do hip-hop senegalês, e os irmãos Amokrane de Zebda e Magyd Cherfi.

"Yasar Geidu", Mariam Hassan & Leyoad (Saara Ocidental) - haul, sahrawi music

A jornada prossegue com o tema “Yasar Geidu”, extraído do álbum “Mariem Hassan com Leyoad”, editado em 2002. Mariem Hassan, que a 29 de Julho vai estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, é uma das figuras máximas da música sarauí e símbolo da luta deste povo pela independência. Compositora, letrista e dona de uma voz excepcional, Mariem canta com uma intensidade dilacerante o amor, a fé e o sofrimento da população do Saara Ocidental, antiga colónia espanhola que em 1975 Marrocos e a Mauritânia dividiram entre si. À semelhança de dezenas de milhares de sarauís, a jovem Mariem Hassan foi então obrigada ao exílio, refugiando-se com a família durante 27 anos na parte mais inóspita do deserto do Saara, no sul da Argélia. A criação de grupos musicais foi uma forma encontrada por muitos para amenizar a vida dura dos acampamentos. Mariem Hassan, que actualmente vive em Sabadell (Barcelona), colabora há quase três décadas com diversos grupos de música sarauí, cantando na Europa, América e África. Tudo para que o mundo conheça a situação de um povo exilado e de uma artista que anseia poder regressar algum dia em liberdade a Smara, a cidade em que nasceu. Evocando os exilados e os mártires da guerra contra Marrocos, Mariem Hassan canta o haul, um blues do deserto, carregado de electricidade e hipnotismo, acompanhada pela percurssão seca do tebal (tambor grande, tocado com as mãos pelas mulheres) e pelo tidinit (um alaúde rústico de quatro cordas, gradualmente substituído pela guitarra eléctrica), e esculpido pelas guitarras eléctricas.

"Ya Raya [Sonar Remix]", Dahmane El Harrachi (Argélia) - raï, chaâbi
“Ya Raya” (O Exilado), um dos clássicos da música árabe, apresenta-se-nos agora num remix electrónico que os Sonar fizeram do tema do argelino Dahamane El Harrachi, uma melodia cuja letra invoca a alienação sentida na pele pelos
emigrantes. Abderahmane Amrani, tragicamente desaparecido em 1980 num acidente de viação, adoptou o nome artístico de Dahamane El Harrachi. Fê-lo não só para homenagear o bairro de El Harrach onde cresceu, mas também para não incomodar os princípios religiosos do pai, que era muezin na grande mesquita de Alger. Foi nestes bairros populosos que El Harrachi desenvolveu o seu sentido de observação e descobriu que queria cantar um chaâbi diferente do de El Anka ou Hadji M’rizek, ajustando-se a sua voz na perfeição a esse anseio. Em jovem trabalha com os mestres El Hadj Menouar e Khlifa Belkacem. Em 1949 parte para França, estabelecendo-se mais tarde em Paris. É nos cafés da emigração argelina que desenvolve a sua carreira de autor e intérprete. A sua música ganha maior notoriedade quando passa a compor temas mais sarcásticos, dissecando os males da sociedade utilizando para isso os ditados populares da época. Uma carreira que atinge o ponto máximo quando Rachid Taha pega no tema “Ya Errayeh Ouine M’Safer ?” (Para onde partes, para onde viajas tu?). Um clássico do raï, o género musical mais popular nas ruas da Argélia, com percussão bem vincada, e que foi redescoberto anos mais tarde por Rachid Taha, músico que o apresentou a uma audiência internacional.

"Venus Nabalera", Mau Mau (Itália) - folk-rock, latin rock
Seguem-se os italianos Mau Mau com o tema “Venus Nabalera”, extraído do álbum “Safari Beach”, editado em 2000. O nome desta banda de rock e folk, formada em Turim em 1991, baseia-se no grupo de libertação do Quénia da colonização inglesa. Esta tribo de seis elementos, cuja música expressa uma paixão pelos sons acústicos e secos, foi pioneira na mestiçagem da música italiana, combinando uma variedade de estilos para assim gerar uma linguagem feita de atmosferas do norte e do sul do Mediterrâneo. Com a percussão e o ritmo sempre presentes, as canções dos Mau Mau falam sobre a emigração, a pobreza, a fome, os subúrbios, as expectativas, o divertimento e mesmo de computadores. Para além do italiano e do dialecto piemontês, eles cantam em castelhano, inglês e francês. Entretanto, receberam vários prémios como o de Revelação Interncional no BAM Festival em Barcelona. Neste seu quinto trabalho, o ensemble da região de Piemonte conta com a colaboração de Sargento García, mas no currículo trazem outros músicos como Inti Illimani, Ivano Fossati e Manu Chao.

"Vänner Och Fränder", Garmarna (Suécia) - folk-rock
Os suecos Garmarna trazem-nos um tema extraído do álbum “Live”, editado em 2002. Esta banda de rock, formada em 1990, canta velhas lendas da música tradicional do seu país, falando de bruxas más, madrastas tenebrosas e de princesas indefesas. Convém explicar que na mitologia sueca os Garmarna eram os cães que guardavam a porta do inferno. Uma imagem metafórica que se transpõe facilmente para os cenários sonoros criados por este quinteto, que oscila entre as estéticas anglo-saxónicas e os ambientes da música tradicional sueca. No entanto, os Garmarna não fazem questão de perpetuar tradições. O que eles querem é tocar com a vontade do momento, com tudo o que isso tenha de eterno ou de efémero. Um som único, influenciado pelo rock, e que remistura a instrumentação antiga com amostras de batidas, harpas, violinos e guitarras distorcidas.

"Jackie ", Bossa Nostra (Itália) - latin lounge, bossa nova
Os italianos Bossa Nostra (grupo formado por Adriano Molinari, Luca Savazzi, Luigi Storchi, Mássimo Mussini e Stefano Carrara) fecham o programa com o tema “Jackie”, uma das várias versões, a maioria delas dançáveis, incluídas no álbum “Chico Desperado/Jackie”, editado em 1999. No total são cinco temas antigos e quatro remixes novos elaborados pelos Pasta Boys, Atjazz, East West Connection, Street Vibes e Pedro Van Der Volt, a maioria entre o deep house e o acid jazz. O universo sonoro dos Bossa Nostra, como o nome indica, é altamente influenciado pela música brasileira, baseando-se em instrumentos acustico-elétricos tocados com muita criatividade.

Jorge Costa

07 Julho 2006

Emissão #16 - 8 Julho 2006

A 16ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 8 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 10 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Galileo",
Claire Pelletier (Canadá) - celtic music
A canadiana Claire Pelletier abre o programa desta semana com o tema "Galileo", gravado ao vivo em Outubro de 2002 no teatro Saint-Denis, em Montreal, no Canadá. Desde muito pequena que a rapariga da voz azul-marinho, baptizada de Claire La Sirène (a sereia) se deixou fascinar pelos contos, lendas e canções tradicionais do Quebeque, província onde 80 por cento da população é de descendência francesa. Aos 24 anos, a jovem trocava o curso de oceanografia pela música, surgindo inicialmente ao lado do grupo Tracadièche. Depois de ter dado a conhecer “Galileo” no Quebeque e na Europa francófona, neste álbum Claire Pelletier, o músico e seu marido Pierre Duchesne e o compositor Marc Caboz misturam as músicas dos álbuns “Murmures d'Histoire” (1996) e “Galileo” (2000), ligando a inspiração medieval, a alma céltica, as melodias tradicionais e as lendas da antiguidade. Um espectáculo em que o duo harmónico combina o piano, o violino, a viola e o contrabaixo com sons électrónicos. Como a vela de um barco, a voz envolvente e suave de Claire Pelletier (ou melhor, de Claire La Sirène) iça-se, estica-se e apoia-se sobre o vento.

"Granny: Granny In The Attic/Blue Ball/The False Proof"
, Flook (Reino Unido, Irlanda) - celtic music, folk-rock
A jornada musical prossegue com os Flook, quarteto anglo-irlandês de Manchester, conhecido pela sua espontaneidade e energia em palco, e que este ano conquistou o prémio de Melhor Grupo nos BBC Folk Awards. Um ensemble instrumental formado pelos flautistas Brian Finnegan e Sarah Allene, pelo guitarrista Ed Boyd e por John Joe Kelly no bodhrán. Os Flook combinam a música celta de raízes inglesas e irlandesas e as melodias suecas e gregas com elementos do jazz, do rock e da música sul-europeia, indiana e árabe. Para isso utilizam outros instrumentos como o violino, o bandolim, o bouzouki, o trombone, o acordeão e as percussões africanas. No álbum “Rubai” (palavra que se refere a um poema persa), editado em 2002, os Flook apresentam um resumo das suas aventuras pelo mundo, tendo convidado os músicos Rory McLeod, Martin Cradick, Seckou Keita e Colin Farrell. Eles trazem-nos uma sequência de três temas, cada qual com a sua história: “Granny in the Attic” foi escrito por Sarah quando os seus vizinhos de baixo decidiram remodelar o apartamento. Já “Blue Ball” é o nome da velha casa de campo em que viviam os seus avós e onde Sarah passou muitos verões na sua infância. Finalmente, “The False Proof” é um jig do flautista belga Jowan Merckx, que os Flook conheceram na Holanda.

"Medraína", Xéliba (Espanha) - asturian folk, celtic music
Os Xéliba, pioneiros da folk asturiana, trazem-nos “Medraína”, um tema extraído do álbum “Ferruñu”, editado em 1998. Eles levam-nos pelos caminhos da folk acústica com reminescências celtas e arranjos influenciados por bandas escocesas. Xéliba é um anagrama de Avilés, cidade a que pertenciam os primeiros elementos deste grupo de cinco rapazes. Foi em 1993 que músicos de várias bandas se juntaram com o objectivo de preservar a herança cultural asturiana. Grande parte das melodias e canções dos Xéliba são versões de temas tradicionais, que o grupo adapta ao estilo musical daquela comunidade autónoma espanhola. A banda, entretanto extinta, faz-se acompanhar de instrumentos acústicos e tradicionais como a gaita-de-foles asturiana, o acordeão diatónico, a flauta ou o violino, seguindo uma linha de folk acústico baseada na força rítmica do bouzouki e da guitarra acústica, instrumentos habitualmente presentes na folk de todo o globo.

"Jánoska", Transsylvanians (Alemanha) - folk-rock, hungarian speed folk
Para já viajamos até ao universo sonoro dos Transsylvanians, com o tema “Jánoska”, extraído do álbum “Igen!”, editado em 2004. Uma banda sedeada em Berlim, na Alemanha, mas que toca música húngara. Algo estranho num grupo maioritariamente formado por músicos russos e alemães (são eles Szilvana, András Tiborcz, Isabel Nagy, Thomas Leisner, Andreas Hirche e Hendrik Maaß). Em alusão ao país imaginário que é a Transilvânia, a banda escolheu este nome por ele reflectir uma música feita por gente de diferentes países e vivências culturais. Ao criarem a sua própria tradição, os Transsylvanians misturam a enérgica folk de dança húngara com o punk-rock, o techno, o rap, a pop, o ska, o chill out e a música cigana, produzindo um som que se apresenta como novo modelo do speed-folk húngaro. Aos temas que falam do do seu país, do amor, da inveja, da guerra e da paz, juntam-se-lhes a guitarra, o violino e uma explosão de percussões que convidam à dança e fazem com que os concertos dos Transsylvanians sejam um sucesso em toda a Europa. Tradicional ou não, apenas fica a certeza de que se trata de música húngara, ou melhor, de música da Transilvânia.

"Pena", Šaban Bajramović (Sérvia) - gypsy music
A viagem musical continua com uma passagem pela Sérvia através do tema “Pena”, estraído do álbum “Šaban Bajramović – A Gypsy Legend”, lançado em 2001. Šaban Bajramović é um dos expoentes máximos da cultura romani e da música cigana em todo o mundo. Natural de Nis, na antiga Jugoslávia, aos 19 anos ele foge do exército e é preso na ilha Goli Otok, situada no mar Adriático. Naquela que seria a sua universidade, Bajramović torna-se guarda-redes na equipa de futebol, passando a ser chamado de "Pantera Negra" devido à sua agilidade e velocidade. Junta-se então à orquestra da prisão, onde toca sobretudo jazz de Armstrong, Sinatra e John Coltrane e peças espanholas e mexicanas. De regresso à liberdade, Bajramović inaugura uma intensa carreira musical. Em 1964 grava o primeiro disco, tendo desde então lançado cerca de 20 LP’s e 50 singles e feito mais de 650 composições. Com a sua primeira fortuna comprou um Mercedes e contratou dois guarda-costas, mas depressa o vício do jogo lhe levou toda a riqueza. Durante 20 anos teve o seu próprio grupo, os “Black Mamba”, entretanto foram convidados por Indira Ghandi para irem até à Índia, onde Bajramović seria proclamado rei absoluto da música cigana. Uma espécie de mistura entre Tito e Elvis, mas com sapatos toscos e uma garrafa no bolso. Com o passar dos anos, Šaban Bajramović muda de estilo, de grupo e de mulher, perdendo parte do glamour, mas a sua voz permanece inalterada. Ele participou em filmes de Paskaljevic e Kusturica e colaborou com músicos inspirados por ele como o famoso Goran Bregovic, que adaptou o génio de Saban aos gostos do mercado.

"Shiva's Daughter", Arling & Cameron (Holanda) - pop, drum'n'bass, bossa nova
A jornada prossegue com os holandeses Arling & Cameron e o tema “Shiva’s Daughters”, extraído do álbum “Music For Imaginary Films”, editado em 2000. Depois de anos de obscuridade a desenvolverem temas para as pistas de dança, as músicas destes jovens de Amsterdão, tão ecléticos que nem chegam a ser uma banda, entraram finalmente nos ouvidos do mundo. O DJ Richard Cameron e o músico Gerry Arling fundem então passado e presente numa visão do futuro em harmonia com o ambiente clubpop que emergiu em Tóquio na década de 90. O seu arranque como duo acontece em 1997, num álbum em que absorviam mais géneros e ritmos. Entre outros, chegam a colaborar com o músico brasileiro Bebel Gilberto ou os japoneses Pizzicato Five e Cornelius. O momento alto das suas carreiras surge quando Cameron grava com os Fantastic Plastic Machine uma música para o filme “Austin Powers, The Spy Who Shagged Me”. Um potencial melódico que seria aproveitado por Hollywood e pelos publicitários de todo o mundo, acabando por ser utilizado em filmes como 'Gun Shy' (com Sandra Bullock e Liam Neeson) ou em séries de televisão como “Popular” (Warner Channel) e “Sopranos” (HBO). No seu álbum conceptual “Music for Imaginary Films”, recheado de pop, drum'n'bass, bossa nova, funk e lounge exótica, Arling & Cameron procuram reinventar as tradicionais bandas sonoras, associando cada música a um filme imaginário de um género específico – neste caso o universo de Bollywood –, levando a cabo uma aventura musical séria e com humor. Um projecto que lhes permitiu ganhar o prémio holandês “Big Pop” e serem convidados pelo canal americano SciFi para participarem no documentário “Sciography”.

"Limbe", S-Tone Inc. (Itália) - bossa nova, soul, latin jazz
Os S-Tone Inc apresentam-nos o tema “Limbe”, extraído do álbum “Sobrenatural”. Este projecto musical, criado em 1992 pelo milanês Stefano Tirone, foi um dos pioneiros no universo do acid jazz. As primeiras experiências musicais deste músico italiano, que para trás deixou a arquitectura e o design interior, remontam à new wave da década de 80 com grupos como “State of the Art” ou “Modo”. As suas referências vão da soul de Isaac Hayes ao jazz de Miles Davis. Stefano Tirone, que está presente em compilações lançadas pelo magazine Rockerilla, começou a produzir música nos anos 90, alternando entre o smooth house e o acid jazz. Uma actividade que lhe permitiu colaborar com muitos DJ’s italianos e ingleses, realizando trabalhos que antecipariam o uso de amostras de som de discos dos anos 70 na house music. Neste seu terceiro álbum, editado em 2002, os S-Tone Inc. refinam o seu estilo feito de melodias e harmonias com um sabor francês e ritmos enraizados no Brasil. Uma atmosfera boémia capturada entre Paris e o Rio de Janeiro e carregada de guitarras, flautas e acordeão, que nos leva pelos caminhos da bossa nova, da soul, do jazz latino, do smooth house ou do electro funk. Este disco contou ainda com a participação de Marion Marioni, cujo saxofone soprano nos leva de volta aos anos 70, e com a voz de Laura Fedele.

"El Carretero", Barrio Cubano de Ronald Rubinel (Cuba, França) - salsa, fusion rap, hip-pop salsa
Continuamos estrada fora com a melhor música do mundo, desta feita ao ritmo da música popular cubana. Barrio Cubano é um apanhado dos grandes clássicos da música daquele país, regravados pelos melhores rappers cubanos e remixados por Ronald Rubinel, um produtor parisiense cuja obcessão mais recente consiste em misturar a salsa latina e a folk franco-caribenha com os sons da pop, do hip-hop e do rap. No tema "El Carretero" (o condutor de carroças) são também visíveis elementos da guitarra classica utilizada na guajira, um estilo acústico cubano que surgiu no início do século XX.

"O Beta O Siba", Richard Bona (Camarões) - afropop
Richard Bona fecha o programa com o tema “O Beta O Siba”, extraído do álbum “Tiki”, editado em 2005. O multi-instrumentista e compositor, nascido nos Camarões, cedo despertou para a música. Como na sua vila natal não havia uma loja de instrumentos, este teve de utilizar cabos de travões de bicicleta para fazer as cordas da sua primeira guitarra artesanal. Mais tarde, na década de 80, Richard Bona despertava para o mundo do jazz e começava a tocar baixo. Vai então para Paris, onde aperfeiçoa as suas capacidades de escrever e tocar música, até que em 1995 tenta a sua sorte em Nova Iorque. Este contador de histórias mistura as suas raízes musicais africanas com a sensibilidade do jazz, os ritmos afro-cubanos e a pop anglo-saxónica. Um aglomerado de influências que Richard Bona combina neste trabalho com uma voz suave e expressiva, de onde escapa doçura e nostalgia.

Jorge Costa

02 Julho 2006

World Music Charts Europe - Julho 2006

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Julho dos 188 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de):

1º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 80ºlugar

2º- NE UZ VIENU DIENU, Ilgi (Letónia) - UPE
mês passado: 9ºlugar
3º- GOLD & WAX, Gigi (Etiópia, EUA) - Palm Pictures
estreia na tabela
4º- LA CANTINA, Lila Downs (EUA) - Peregrina/Narada
mês passado: 1ºlugar
5º- MISH MAOUL, Natacha Atlas (Reino Unido) - Mantra
mês passado: 3ºlugar
6º- LUNATICO, Gotan Project (França, Argentina) - Ya Basta

mês passado: 2ºlugar
7º- NIGER, Afel Bocoum (Mali) - Contre-Jour
mês passado: 66ºlugar
8º- LUNGHORN TWIST, Accordion Tribe (vários) - Intuition
mês passado: 23ºlugar
9º- PALY UP, vários - Kontextrecords
mês passado: 31ºlugar
10º- YELLOW FEVER, Senor Coconut (Alemanha, Chile) - Essay Recordings
mês passado: 21ºlugar
11º- TRAVESIAS, Susana Baca (Peru) - Luaka Bop/Virgin
estreia na tabela
12º- TECHARI, Ojos de Brujo (Espanha) - Diquela Records
mês passado: 6ºlugar
13º- ZANDISILE, Simphiwe Dana (África do Sul) - Skip
mês passado: 4ºlugar

14º- PRASTI MUSIC, Sick Brass Band (Alemanha) - Westpark Music
mês passado: 12ºlugar

15º- INTRODUCING ETRAN FINATAWA, Etran Finatawa (Níger) - World Music Network
mês passado: 19ºlugar

16º- MHM A-HA OH YEAH DA-DA, Darko Rundek & Cargo Orkestar (Croácia) - Piranha
mês passado: 22ºlugar
17º- REPUBLICAFROBEAT 2, vários - Lovemonk
estreia na tabela
18º- WONAI, Oliver Tuku Mtukudzi (Zimbabwe) - Sheer Sound
estreia na tabela
19º- TIMELESS, Sérgio Mendes (Brasil, EUA) - Concord/Universal
mês passado: 26ºlugar
20º- BOULEVARD DE L'INDEPENDANCE, Toumani Diabate & Symmetric Orchestra (Mali) - World Circuit
mês passado: 5ºlugar

30 Junho 2006

Emissão #15 - 1 Julho 2006

A 15ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 1 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 3 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Here"
, Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo
Salif Keita abre o programa desta semana com o tema “Here”, uma versão remisturada pelo francês Frédéric Galliano, extraída do álbum “Remixes From Moffou”. Exímio guitarrista, Salif Keita começou a sua carreira nos anos 60 na Rail Band e nos Ambassadeurs. Com a sua aproximação ao rock, ao jazz e à soul, o músico do Mali inaugurava o conceito de afropop. Em 2002 lança o álbum “Moffou” e inicia uma nova carreira, antecipando o renascimento da música tradicional mandingo e dos seus principais instrumentos, como a ngoni (espécie de guitarra mourisca), o balafon (xilofone ancestral) ou o calabash (instrumento de percussão). Mais tarde, neste “Remixes From Moffou”, DJ’s e produtores como Gekko, Ark, Cabanne, Tim Paris, The Boldz, Luciano, La Funk Mob, Charles Webster, Doctor L, Cyril K e Paul St Hilaire adaptam a música de Salif Keita aos cânones da electrónica, acrescentando-lhes novos instrumentos e atmosferas sonoras influenciadas pelo funk, house, dub e drum’n bass. Foi precisamente isso o que o francês Frédéric Galliano fez neste tema. Pioneiro na mistura da música africana com a electrónica, em 1998 Galliano faz a sua primeira viagem a África, criando dois anos mais tarde a editora Frikyiwa, na qual viria a juntar artistas africanos que conhecera ao longo das suas jornadas. Desde então que participa em diferentes projectos com diversas bandas como o Frédéric Galliano Electronic Sextet (que mistura o jazz com a música electrónica), Nahawa Doumbia (cantora e banda do Mali com quem começou por explorar a relação entre a música electrónica e africana), Néba Solo, a Orchestre Maquisard International e The African Divas.

"Leiley [Transglobal Underground Remix]", Dania (Líbano) - arabic music
A jornada musical prossegue com a libanesa Dania, que nos traz o tema “Leily”, uma poderosa canção remisturada pelos Transglobal Underground (mais conhecidos pelo seu trabalho com lendas do rock como Jimmy Page e Robert Plant) e que varreu as pistas de dança do Dubai a Bogotá. Dania começou por trabalhar como apresentadora numa televisão local libanesa. O seu talento foi então descoberto por um canal de música difundido por satélite para a Ásia e Médio Oriente. Junta-se então ao Channel V em 1995, tornando-se a primeira VJ árabe num canal internacional de televisão. Mais tarde muda-se para a Abu Dhabi TV, onde apresenta o mais conhecido programa árabe de entretenimento. Com o álbum de estreia, que foi um enorme sucesso na região, consolida a sua jovem carreira na cena musical árabe. Neste segundo trabalho ”Dania II”, lançado em 1999, a cantora ilustra as suas habilidades e versatilidade vocal. Uma mistura única e eclética de influências árabes, inglesas, espanholas e gregas, que apela a todas as nacionalidades, tendo aparecido numa série de compilações em todo o mundo e em vários canais como a MTV.

"Azara Alhai", Rasha (Sudão) - jazz fusion, sudan folk
Incursão até ao Sudão com o tema “Azara Alhai”, interpretado por Rasha, uma voz que encarna na perfeição todo o mistério e sensualidade do oriente. O seu talento revelou-se muito cedo, já que na sua família não faltam pintores, actores e músicos. A dureza do regime islâmico militar do Sudão obriga Rasha a abandonar Ondurman, a sua terra natal, localizada junto a Jartum, a capital do Sudão. Depois de uma breve passagem pelo Cairo, em 1991 muda-se para Espanha, país onde residem os seus irmãos Omaima e Wafir, este último membro dos Radio Tarifa. Nos primeiros anos, Rasha estuda e trabalha, mas pouco a pouco, pela mão de Wafir, vai-se introduzindo nos circuitos musicais. Em 1994 grava o álbum “Sudaniyat”, carta de apresentação como cantora, onde mostra uma visão muito pessoal da tradição das correntes mais actuais da música do país imenso que é o Sudão. Um disco que recebe grandes elogios da crítica europeia e chega mesmo ao mercado norte-americano. Entretanto, Rasha tem vindo a tocar com outros artistas africanos, todos eles radicados em Madrid. Na sua música, que nos arranjos vocais se aproxima à árabe e nos metais ao jazz, expressa as suas ilusões e nostalgias, denunciando também a situação actual do povo sudanês e os problemas que milhares de emigrantes enfrentam.

"Yann Derrien", Carlos Núñez (Espanha) - celtic music
A viagem musical continua com o tema “Yann Derrien”, de Carlos Nuñez, provavelmente o mais conhecido gaiteiro galego de sempre, que encabeça uma lista tradicionalmente reservada a escoceses, irlandeses ou bretões. Considerado o Jimi Hendrix da gaita e exímio tocador de flauta, whistle e ocarina, este produtor e compositor, natural de Vigo e apaixonado pelos poemas de Rosalía de Castro, começou a tocar gaita aos oito anos. O sucesso estrondoso do seu primeiro disco “A Irmandade das Estrelas”, gravado em 1996 e que vendeu mais de cem mil cópias em Espanha, chamou a atenção para a música tradicional galega. Carlos Núñez adiciona-lhe então uma visão mais aberta, aproveitando a ligação histórica desta à música latina vinda da América através da imigração, à medieval europeia recebida pelo caminho de Santiago e aos sons orientais do sul. Em todo o mundo, Carlos Núñez e a sua banda já venderam mais de um milhão de discos, algo reforçado depois do êxito da banda sonora de Mar Adentro. Em "Un Galicien en Bretagne" este conta de novo com a colaboração de alguns dos mais importantes nomes da folk europeia, caminho aberto em 1989 depois do convite dos The Chieftains para participar na banda sonora do filme "A Ilha do Tesouro", que o nomearam sétimo elemento do grupo. Com as suas participações nos festivais celtas em França, Carlos Núñez tornou-se no mais bretão dos galegos. Neste álbum, editado em 2003, reencontra-se com o bretão Alan Stivell e o catalão Jordi Savall, mobilizando outros artistas galegos devido ao Prestige, tragédia ambiental que um ano antes afectou as costas espanhola e francesa.

"Danza dos Esqueletes", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
Regresso à Galiza com os embaixadores da folk celta contemporânea, que a 22 de Julho vão estar no festival Tom de Festa, em Tondela. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trouxeram-nos o tema “Danza dos Esqueletes”, extraído do álbum “Saudade”, editado este ano. Uma música que presta homenagem aos gaiteiros que tiveram de deixar a sua terra e com eles levaram a sua música, como são os casos de Manuel Dopazo, Castor Cachafeiro e Antonio Mosquera. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo é uma presença constante em muitos festivais em Espanha e na Europa, mas a sua aposta centra-se agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente.

"Les Yeux Noirs", Coco Briaval (França) - gypsy swing, jazz, blues
A jornada prossegue com o guitarrista Coco Briaval, que nos traz o tema “Les Yeux Noirs”, extraído do álbum “Musique Manouche – Gypsy Music”, editado em 1996. Nos anos 60 e antes de se instalar no sul de França, Coco Briaval foi um dos maiores nomes do jazz parisiense, tendo tocado lado a lado com músicos reputados como o saxofonista americano Dexter Gordon ou o soul singer Otis Redding. Com a gravação de um primeiro disco, revelava-se o talento precoce dos irmãos Briaval, três adolescentes que então formaram Coco Briaval Gypsy Swing Quintet, homenageando grandes compositores e intérpretes de jazz como Charli Christian e Wes Montgomery. O desafio era tornar a tradição do jazz acessível a todos os públicos, mostrando o carácter familiar do gypsy swing, tal como Django Reinhardt o fez com o seu génio instrumental e talentosa composição. Um sonho que acabou por ser realizado por estes rapazes de origem piemontesa do lado da mãe (ciganos de etnia sinti) e anglo-húngaro do lado do pai (ciganos alemães). Com os seus dois irmãos René e Gilbert na guitarra e na bateria, o seu filho Zézé no saxofone e ainda Guitou no contrabaixo, Coco Briaval propõe uma visão de Django sem clichés. Eles mergulham na música cigana de etnia sinti, transmitida de geração em geração, mas resgatada para o presente numa orquestração original, deixando-se influenciar também pelo swing e pela música contemporânea.

"Sempre Di Domenica", Daniele Silvestri (Itália) - pop, rock, funky
Na sua estreia no programa, Daniele Silvestri apresentou-nos o tema “Sempre Di Domenica”, extraído do seu álbum “Unò Dué”, editado em 2002. Este cantor italiano, autor de conhecidos temas de música ligeira, mergulha no imaginário contemporâneo linguístico e musical daquele país para emergir com canções refinadas. Natural da cidade de Roma, onde nasceu em 1968, o cantautor italiano mais apreciado do panorama actual fez parte de numerosos grupos musicais. Em 1994 lança o primeiro álbum a solo, conquistando a atenção do público. Um dos temas permite-lhe então participar no Festival de Sanremo, onde conquistaria vários prémios da crítica. Nos temas incluídos neste trabalho, o sexto da sua carreira, Daniele Silvestri confirma a sua qualidade enquanto autor, servindo-se de ironia quanto baste e cruzando a música pop com o rock e o funky.

"One For Senegal", Touré Kunda (Senegal) & The Pleb (Itália) - afro-rock, m'balax
O italiano The Pleb propõe-nos agora uma ponte com o Senegal na sua remistura de “One For Senegal”, um tema dos Touré Kunda, dueto formado pelos irmãos Ismaïla Touré e Sixu Tidiane. Na sua adolescência, este DJ estabelecido em Nova Iorque fez parte do universo musical londrino, tendo passado no início dos anos 90 pela banda The Indians. Já os senegaleses Touré Kunda, banda fundada nos anos 70 pelos irmãos Amadou, Ismaila, Sixu e Ousamane Touré, inspiraram-se inicialmente nos ritmos tradicionais africanos, usando instrumentos como a kora, o balafon e o sabar, os quais no entanto viriam a ser substituidos por guitarras e sintetizadores. No final dos anos 70 eles mudam-se para Paris, tocando uma forma particular de m'balax, inspirada no afro-rock a que chamaram de djambaadong. Percussões africanas tradicionais e cantos tribais senegaleses coexistem então com amostras de som, batidas programadas e manipulação de vozes, retratando um universo geográfico onde se fala em soninké, ouolof, mandingo, diola e criolo português.

"Sou", Cheikh Lô (Senegal, Burkina Faso) - afropop, m'balax
Entretanto continuamos estrada fora ao ritmo da melhor música do mundo. Cheikh Lô traz-nos o tema “Sou”, extraído do álbum “Lamp Fall”, editado em 2005. Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas cresceu no Burkina Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos m'balax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, com quem gravou o primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. A 6 de Julho ele vai estar em Lisboa para participar no Africa Festival.

"Hit The Road Jack [Album Version]", Mo' Horizons (Alemanha) - bossanova, nujazz, soul
Os Mo'Horizons, dupla de Hannover formada pelos produtores, músicos e DJ’s Ralf Droesemeyer e Mark ‘Foh’ Wetzler, encerram esta edição do MULTIPISTAS. No seu primeiro trabalho, estes misturam influências da soul dos anos 50 e 60 e temas funky dos anos 70 à década de 90. Eles integram técnicas modernas de produção com uma mão cheia de músicos talentosos e vocalistas que criam ao vivo um som variável no estilo mas homogéneo e identificável como sendo dos Mo’Horizons. Ao fundirem soul, funk, nujazz, afro, bigbeat, boogaloo, dub, bossanova e salsa com a downbeat, o drum‘n’bass e o triphop, eles quebram todas as fronteiras e barreiras musicais. Neste tema “Hit the Road Jack (Pé na Estrada), extraído do álbum “Some More Horizons”, editado em 2005, os Mo’Horizons pegam num clássico dos anos 60 de Ray Charles, adicionando-lhe um cheirinho a português do Brasil.

Jorge Costa

23 Junho 2006

Emissão #14 - 24 Junho 2006

A 14ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 24 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 26 de Junho, entre as 19 e as 20 horas.

"Joint Venture In The Village (I Had a Lover)", Warsaw Village Band (Polónia) - new folk

Na abertura do programa, os Warsaw Village Band trazem-nos uma versão electrónica do tema “Joint Venture In The Village (I Had a Lover)”, extraído do álbum “People’s Spring”. Fundada em 1997 por seis jovens polacos, a Warsaw Village Band procura adaptar a música tradicional do seu país à modernidade. Para isso, misturam melodias de dança, baladas e canções rurais com géneros como a dub, a trance e o reggae. Os Warsaw Village Band baseiam-se na tradição musical da Masóvia, retratando a dureza e o isolamento daquela que é uma das mais pobres regiões da Polónia. Uma herança que vai buscar a sonoridade à suka (violino polaco do século XVI) e à percussão (já que estes eram os instrumentos mais baratos e de ritmo mais simples), bem como à “white voice”, forma habitual de cantar nas montanhas daquele país. Outra das paixões dos Warsaw Village Band é a de visitar velhos músicos nas pequenas aldeias para os ouvirem falar sobre as suas tradições e costumes, principal inspiração para o seu trabalho, que pretende apresentar-se aos jovens como uma alternativa à cultura de massas.

"Katariina",
Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
A jornada musical prossegue com as Värttinä, uma presença já habitual no programa, que desta vez nos trazem o tema “Katariina”, extraído do álbum “Aitara”, editado em 1994. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário e estará a 29 de Julho no Festival de Músicas do Mundo de Sines, traz-nos uma apelativa mistura de pop ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia, reforçando as letras emocionais com os ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O coração do grupo é hoje formado pelas vozes harmónicas com timbres impressionantes de Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que misturam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) com ritmos complexos e arranjos modernos.

"Ful-Valsen", Hedningarna (Suécia) - swedish folk, ethno-punk
Incursão até à Escandinávia com os Hedningarna e “Ful-Valsen”, tema recheado de ritmo e groove, com especial destaque para os efeitos sonoros eléctricos, e que foi retirado do álbum “Kaksi!” (palavra finlandesa que quer dizer “dois”). Neste trabalho,
lançado em 1992, as vocalistas finlandesas Sanna Kurki-Suonio e Tellu Paulasto juntaram-se ao então trio sueco, dando mais intensidade às suas músicas. Ao longo dos anos 90, os Hedningarna foram pioneiros na renovação da folk sueca, tendo mudado a imagem das raízes musicais nórdicas. Os quatro elementos deste grupo, formado em 1987 e que até agora editou seis álbuns mais um compilatório, misturam sueco e filandês, vozes e instrumentais, bem como folk e rock contemporâneo.

"Iluminando", Amparanoia (Espanha) - rumba, reggae, son, bolero, ska
A viagem continua com os Amparanoia, que nos apresentam o tema “Iluminando”, extraído do álbum “Enchilao”, lançado em 2003. O grupo foi buscar o seu nome à vocalista Amparo Sánchez, uma das vozes femininas mais típicas do sul de Espanha. Em 1996, a jovem andaluza criou este projecto musical, que acabaria por nascer no bairro de Lavapies, em Madrid, e viria a crescer e desenvolver-se em Barcelona. Apadrinhados por Manu Chao, os Amparanoia têm por lema a expressão “rebeldia com alegria”. Eles viajam pela tradição espanhola, música balcã e cigana, passando também pelo rock, cumbia, funk, reggae, rumba, son, bolero e ska, sem esquecer o jazz latino com toques electrónicos e toda uma gama de sons latinos alternativos onde sobressaem a inspiração e a improvisação. O auge do seu reconhecimento internacional foi o BBC World Music Awards 2005, que os distinguiu como melhor grupo europeu. Expressando a realidade e lutando por um mundo mais justo, os Amparanoia continuam em tournée pelos mais importantes festivais de música do mundo. A 30 de Junho eles vão estar no Festival MED de Loulé.

"Pão Prá Multidão", Donna Maria (Portugal) - electronic folk
Os portugueses Donna Maria apresentam-nos o tema “Pão Prá Multidão”, extraído do seu álbum de estreia “Tudo É Para Sempre”. Um trabalho editado em 2004 e em que participam músicos portugueses e brasileiros como Paulo de Carvalho, Vitorino, Letícia Vasconcelos, Ciro Cruz, Paulinho Moska e Gil do Carmo. O álbum já vendeu mais de três mil exemplares no estrangeiro e mais de 10 mil em Portugal. O novo disco do grupo deverá ser editado no final deste ano. Os Donna Maria são um trio lisboeta, formado por Marisa Pinto, Miguel Ângelo Majer e Ricardo Santos, cuja visão electrónica contemporânea da música portuguesa os leva a misturar elementos tradicionais como a guitarra portuguesa ou o acordeão. XL Femme foi o nome inicial escolhido para esta banda, que surgiu num bar da capital. Eles começaram por reinventar canções, mas aos poucos a música portuguesa foi tomando conta do seu reportório. Um grupo com o coração no passado, os pés no presente e os olhos no futuro. Este mês, os Donna Maria estiveram em Proença-a-Nova e em Vila de Rei. A 5 de Agosto vão até ao Casino da Figueira da Foz e no dia 20 estarão nos Açores no Festival "Maré de Agosto".

"Senegal Fast Food", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues
A dupla Amadou & Mariam traz-nos agora o tema “Senegal Fast Food”, extraído do álbum “Dimanche a Bamako”. Bem ao género do afro pop blues, e com muita guitarra à mistura, este trabalho, produzido por Manu Chao, está recheado de ritmos africanos, batidas funky, harmonias suaves e pedaços de reggae, jazz, blues e rock. Se nos anos 90 foram os Buena Vista Social Club a trazerem para a ribalta a vibrante música do mundo, agora é a vez deste casal africano. Mariam começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou era guitarrista nos Les Ambassadeurs, uma das mais lendárias bandas africanas. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 num instituto de cegos em Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se um casal inseparável na vida e na música. Ele, o "irmão funky”, na voz e na guitarra eléctrica, e ela, “a irmã soul”, na voz, formam a dupla mais explosiva da música africana actual.

"Dodosya", Yela (La Réunion) - maloya, séga, salégy, kadrille, jazz, gospel
Yela estreou-se no MULTIPISTAS com o tema “Dodosya”, extraído do álbum “Mã Kalou”. Yela, cujo verdadeiro nome é Marie-Christine Daffon, nasceu em St-Pierre, na parte sul de La Réunion, uma região de administração francesa, situada a leste do Madagáscar. Yela faz parte de uma geração de artistas apostados em defender e reinventar o património cultural daquela ilha, recorrendo para isso ao génio poético da língua creoula e dos ritmos tradicionais. A sua música mistura o património local (maloya, séga, salégy, kadrille) com o jazz, o gospel, as músicas caribenhas e africanas. Yela possui uma voz calorosa e carregada de emoções, que reflecte o quotidiano, as esperanças, as batalhas ou as ambições pessoais e colectivas. Um percurso musical onde se contam colaborações como Manu Dibango, Mario Canonge, Etienne Mbappe, Peter Ntollo Sagona ou Amadou François Corea. O álbum “Mã Kalou”, editado em 2003, é um mosaico cultural a través do qual Yela nos faz entrar no seu universo generoso e optimista.

"Superbol", Alms For Shanti (Índia) - indian music
A melhor música do mundo vem agora da Índia. Os Alms For Shanti trazem-nos o tema “Superbol”, extraído do álbum Kashmakash, editado em 2004. Eles foram criados em Bombaim por Uday Benegal e Jayesh Ganhdi, este último mais conhecido como ex-vocalista e guitarrista da famosa banda de rock Indus Creed, que chegou a tocar no festival WOMAD. Eles actuaram lado a lado com John Bom Jovi para um público de 40 mil pessoas em Bombaim, e em 1996 com Slash, o guitarrista dos Guns N’Roses, em Bangalore. Os Alms For Shanti, que entretanto se mudaram para Nova Iorque, são um projecto indiano alinhado com estilos contemporâneos, criado para explorar a amálgama de texturas, ritmos e melodias tradicionais indianas, com sons ocidentais. Para isso, juntaram velhos amigos, tendo vindo a colaborar com alguns dos melhores músicos clássicos indianos como Taufiq e Fazal Qureshi (irmãos de Zakir Hussain), Ustad Sultan Khan ou Rakesh Chaurasia.

"Daouni", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
A argelina Cheikha Rimitti, natural de Tessala e que faleceu no passado mês de Maio, aos 83 anos, trouxe-nos o tema “Daouni”, extraído do álbum “N’Ta Goudami”, trabalho que pudemos conhecer na semana passada no programa. Órfã e rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa, harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul argelina.

"Na Liña da Maré", Xosé Manuel Budiño (Espanha) e Sara Tavares (Portugal) - folk, celtic music
Entretanto, no MULTIPISTAS continuamos estrada fora ao ritmo da melhor música do mundo. Para já seguimos “Na Liña da Maré”, um tema de Xosé Manuel Budiño, extraído do seu terceiro álbum “Zume de Terra”, editado em 2004, onde o gaiteiro surge lado a lado com Sara Tavares. Um disco de originais, feito com sumo de terra e mel de tradição, onde Budiño tem também como convidados especiais os escoceses Capercaillie e Michael McGoldrick e ainda a brasileira Lilian Vieira, vocalista dos Zuco 103.


"Lo Lovo Horo", Boukovo (França) - balkan music
Os Boukovo encerram o programa com o tema “Lo Lovo Horo”, extraído do álbum “Rencontres”, lançado em 2002 e que pudemos conhecer na edição anterior do MULTIPISTAS. O grupo foi criado em 1996 pelo clarinetista George Mas, que juntou outros músicos franceses apaixonados pelos sons dos Balcãs. Estes foram buscar a designação ao boukovo, um pimento forte produzido numa aldeia macedónia com o mesmo nome, concentrando-se na procura de um som sem qualquer formatação ocidental. Seguindo o exemplo das fanfarras ciganas populares na Macedónia, os Boukovo apresentam uma música enérgica e festiva, carregada de várias influências. Estes nativos da região da Provença decidiram centrar-se então nos bailes populares da Grécia, Bulgária e ex-Jugoslávia, em particular no repertório da Macedónia grega onde o clarinete se pode juntar livremente à dança. E foi numa viagem aos Balcãs que eles encontraram o acordeonista búlgaro Neno Koytchev, cuja matriz de repertório búlgaro, macedónio e sérvio dá novas cores à já rica palete sonora dos Boukovo, que têm participado em inúmeros festivais e concertos em França, Espanha e Bélgica. Os Boukovo animam numerosas festas das comunidades balcânicas residentes no sul de França, marcando a diferença pelas suas coreografias espontâneas, encorajadas pelos musicos que não hesitam em saltar para a pista de dança.

Jorge Costa

18 Junho 2006

MULTIPISTAS com emissões on-line

Os ouvintes que não podem acompanhar a emissão do MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO no horário habitual ou se encontram fora da área de cobertura da estação que difunde o programa já o podem escutar em qualquer altura e onde quer que estejam.

Para o fazerem só precisam de aceder ao blog oficial do MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO (disponível neste mesmo endereço), que passou a disponibilizar gratuitamente as suas emissões, para além dos dados sobre cada uma delas (informações bibliográficas sobre os músicos, atalhos para páginas com eles relacionadas, capas dos discos em destaque e alinhamentos dos programas) e de diversos conteúdos acerca da música do mundo.

Há já várias semanas que os ficheiros de áudio vinham sendo disponibilizados em web streaming, embora com uma compressão considerável que limitava claramente a sua qualidade. Dadas as limitações de armazenamento do sistema actual, a partir de agora o arquivo sonoro do MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO (ver topo da barra lateral direita) passará a abranger apenas as últimas cinco edições do programa, que estarão disponíveis para escuta durante um mês, em formato mp3, embora com uma qualidade superior, praticamente igual à da versão radiofónica.

A emitir desde Março deste ano, o MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO tem como esfera sonora a música de raízes étnicas, em particular a que se funde com géneros mais actuais e urbanos, combinando tradição e modernidade. Todas as semanas este propõe ao auditório uma hora de viagem, estrada fora, ao ritmo da melhor música do mundo. Apresentado, produzido e realizado por Jorge Costa, o programa é emitido aos sábados, às 17 horas, na Rádio Urbana (97.5 MHz - Castelo Branco, 100.8 MHz – Fundão, Covilhã e Guarda), repetindo às segundas-feiras, a partir das 19 horas.

17 Junho 2006

Emissão #13 - 17 Junho 2006

A 13ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 17 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 19 de Junho, entre as 19 e as 20 horas.

"Jani El Hob", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
Cheikha Rimitti, que abriu o programa com o tema “Jani el Hob”, extraído do álbum “N’Ta Goudami”, editado em 2005, nasceu em Tessala, na Argélia, tendo falecido no passado mês de Maio, aos 83 anos. Órfã e rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa, harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul argelina.

"Cupurtlika", Boukovo (França) - balkan music
Os Boukovo trazem-nos o tema “Cupurtlika”, extraído do álbum “Rencontres”, lançado em 2002. O grupo foi criado em 1996 pelo clarinetista George Mas, que juntou outros músicos franceses apaixonados pelos sons dos Balcãs. Estes foram buscar a designação ao boukovo, um pimento forte produzido numa aldeia macedónia com o mesmo nome, concentrando-se na procura de um som autêntico, sem qualquer formatação ocidental. Seguindo o exemplo das fanfarras ciganas, orquestras muito populares na Macedónia, os Boukovo apresentam uma música enérgica e festiva, carregada de várias influências. O grupo interpreta repertório de dança da cultura macedónia, a qual é partilhada por três países dos Balcãs: a República da Macedónia (antiga Jugoslávia), a Grécia e a Bulgária. Estes nativos da região da Provença decidiram centrar-se então nos bailes populares da Grécia, Bulgária e ex-Jugoslávia, em particular no repertório da Macedónia grega onde o clarinete se pode juntar livremente à dança. E foi numa viagem aos Balcãs que eles encontraram o acordeonista búlgaro Neno Koytchev, cuja matriz de repertório búlgaro, macedónio e sérvio dá novas cores à já rica palete sonora dos Boukovo, que têm participado em inúmeros festivais e concertos em França, Espanha e Bélgica. Os Boukovo animam numerosas festas das comunidades balcânicas residentes no sul de França, marcando a diferença pelas suas coreografias espontâneas, encorajadas pelos musicos que não hesitam em saltar para a pista de dança.

"Roomal", Musafir (Índia) - rajasthan music
Jornada musical pelo deserto do Rajastão com os Musafir e o tema “Roomal”, extraído do álbum “Dhola Maru”, editado em 1999. Os Musafir (expressão que em farsi quer dizer “vagabundo” e se pode traduzir por “peregrinação" ou “jornada espiritual") são um ensemble de onze elementos proveniente desta região, situada no noroeste da Índia. Em pleno oriente islâmico, os ciganos, muçulmanos e hindus do Rajastão têm coexistido ao longo de dez séculos, dando azo a uma tradição musical simultaneamente sensual e sagrada. Os Musafir apresentam uma música diversificada e alegre, numa combinação colorida de músicos pertencentes a comunidades como os Langa (poetas, cantores e músicos islâmicos, tocadores do sindhi sarangi, um instrumento de percussão, e da algoza, uma flauta do Rajastão), os Manghaniyar (músicos muçulmanos que cantam em diferentes dialectos e estilos) ou os Sapera (comunidade nómada que se dedica à captura de serpentes e à venda do seu veneno). O grupo mistura ritmos e polifonias poderosas como os cantos muçulmanos qawwali, a raga do norte da Índia ou as canções da cultura cigana, criando versões híbridas da folk indiana e da música clássica hindustani. E em alguns dos seus espectáculos ao vivo não faltam mesmo as danças, as acrobacias e o conturcionismo. A palete sonora dos Musafir inclui instrumentos indianos de cordas como o sarod (antepassado da guitarra, de tonalidades ragga) e a cítara, de percussão como o dholak, o pakhawaj, a tabla, o dhol ou os kartals, e de sopro como a pungi ou a aloogoza.

"Retany", Tarika (Madagáscar) - madagascar music
No MULTIPISTAS seguem-se os Tarika com o tema “Retany”. Liderados pelo cantor e compositor Hanitra Rasoanaivo, os Tarika são um dos grupos do Madagáscar com maior sucesso internacional. A forma única como interpretam as raízes musicais da sua ilha encaixada no oceano Índico granjeou-lhes fãs em todo o mundo. No final dos anos 70 um conjunto de bandas pioneiras no uso de sons electrizantes actualizou ritmos da ilha como o salegy, o watcha watcha, o tsapika, o sega ou o sigaoma, fazendo rejuvenescer canções de outros tempos. Neste trabalho editado em 1998, álbum a que chamaram “D” (palavra que se refere a dihy, o que no Madagáscar quer dizer “dança”), os Tarika prestam tributo à variedade de estilos de dança do Madagáscar – recorde-se que cada uma das dezoito tribos deste país tem as suas danças especiais. As raízes malaio-polinésias misturam-se então de forma moderna com influências do vizinho continente africano, criando harmonias justas, grooves flutuantes, melodias contagiosas e danças enérgicas, o que fez com que os trabalhos dos Tarika conquistassem o topo das tabelas de música do mundo na Europa e na América do Norte. O álbum integra também danças mais recentes e algumas composições, incluindo a dança bakabaká, criada pelos Tarika.

"Monsieur le Maire de Niafunké", Ali Farka Touré & Toumani Diabaté (Mali) - african blues, kora music
O tema “Monsieur le Maire de Niafunké” é extraído do álbum “In The Heart Of The Moon”, editado em 2005. Um trabalho que juntou pela primeira vez dois gigantes da música do Mali: o guitarrista Ali Farka Touré e o maestro da kora Toumani Diabaté. Ali Farka Touré, o pai dos blues africanos desapareceu no passado mês de Março, aos 66 anos. Este passou as suas últimas semanas de vida a concluir “Savane”, um disco póstumo que será lançado em todo o mundo a 17 de Julho. O trabalho, que contou com as participações do saxofonista Pee Wee Ellis, antigo colaborador de James Brown e Van Morrison; das percussões de Faín Dueñas, dos Radio Tarifa; ou de Mama Sissoko, intérprete do ngoni, um alaúde ancestral, predecessor do banjo, foi gravado no hotel Mande, o mesmo lugar onde Touré registou com Toumani Diabaté o álbum “In The Heart Of The Moon”, vencedor de um grammy este ano. Único sobrevivente de uma família de dez irmãos, razão pela qual os pais lhe terão dado a alcunha de Farka – que apesar de querer dizer “burro”, na tradição do povo Arma significa “um animal forte e tenaz” –, Ali Farka Touré fez parte de várias bandas e foi artista residente na Rádio Mali. Cantava em songhai, peul, bambara, fula, tamaschek e outras línguas da região, abertura que lhe permitiu contribuir para a reconciliação nacional no Mali após a mais recente revolta dos tuaregues. O amor à terra levou-o a viver durante muitos anos na aldeia de Niafunké, situada na ponta do deserto do Sara e ao redor do Rio Níger. Como não existia electricidade nem água canalizada, aí investiu em máquinas agrícolas utilizando todo o dinheiro ganho com a música. Nos últimos anos, tal como retrata este tema, chegou mesmo a ser presidente da câmara de Niafunké. O bluesman africano misturava os sons do Mali, carregados de influências árabes, com reminescências dos blues americanos, lembrando ao mundo que foi nesta região do globo que nasceram os blues.

"Tuulilta Tuleva", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
A jornada musical prossegue com os Värttinä e o tema “Tuulilta Tuleva”, extraído do seu sexto álbum “Kokko”, editado em 1996. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário, traz-nos uma apelativa mistura de pop ocidental com folk europeia e nórdica. Os Värttinä são conhecidos por terem inventado um estilo baseado nas raízes da região da Carélia, em particular nas tradições vocais femininas e nos antigos poemas rúnicos. Da imagem do grupo, constituído por três estridentes vocalistas femininas e seis músicos acústicos, fazem parte a instrumentação acústica tradicional e contemporânea (guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões), os ritmos complexos e as composições e arranjos modernos. As letras emocionais da banda são reforçadas pelos insistentes ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. Tudo começou numa pequena cidade na Carélia filandesa, junto à fronteira com a Rússia. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios.

"Get Reel",
Urban Trad (Bélgica) - techno folk
Viagem pelos caminhos da folk urbana com os belgas Urban Trad, que nos trouxeram o tema “Get Reel”, extraído do álbum “Kerua”, editado em 2003. E como diz o próprio nome, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. No Festival Eurovisão da Canção realizado na Letónia em 2003, os oito elementos do grupo conquistam o segundo lugar e o grande público. Com “Sanomi”, uma canção interpretada num idioma imaginário, levaram pela primeira vez o característico timbre da gaita-de-foles ao palco da Eurovisão. Um grupo de música de inspiração tradicional, mas ancorado no presente, já que instrumentos acústicos como o acordeão, o violino e a flauta são acompanhados pelo canto e por uma secção rítmica cheia de energia e musicalidade. Volvidos três álbuns, o repertório dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a França, a Espanha e os países de Leste. É assim a música tradicional europeia do século XXI.

"Te Veel", Think Of One (Bélgica) - brass band music, folk, funk, reggae
A melhor música do mundo vem agora da Bélgica com os Think Of One, a primeira banda sobre rodas. Este grupo multicultural traz-nos o tema “The Veel”, extraído do álbum “Naft”, editado em 2000. Um repertório que foi gravado em apenas três dias em De Werf, junto à cidade de Bruges. Os Think Of One misturam de forma única a música das fanfarras belgas com a folk, o jazz, o funk, a dub, o reggae, o punk rock ou o calypso, tendo vindo a aproximar-se de outros universos como o gnawa marroquino e as sonoridades do nordeste brasileiro. Para alimentarem o sonho de poderem tocar em qualquer parte do mundo, desde que o tempo assim o permitisse, em 1999 os Think Of One transformaram uma carinha, baptizada de Naftmobyl, num palco ambulante com três níveis, amplificação sonora e iluminação, acrescentando-lhe mais tarde uma roulotte. A tournée de estreia dos seis elementos do grupo começou em França, com uma paragem no festival de rua de Avignon para uma festa sonora que se prolongou por quatro dias, provando que com a sua música alegre é sempre possível dançar do início ao fim. Os Think Of One, que em 2004 conquistaram um World Music Award da BBC, vão estar em Loulé a 29 de Junho para participar na 3ªedição do Festival MED.

"Kike On The Mic", Hip Hop Hoodios (EUA) - latin funk, klezmer music, cumbia, hip-hop
Os Hip Hop Hoodios apresentam-nos o tema “Kike On The Mic”, extraído do álbum “Água Pá La Gente”, uma intrigante mistura de instrumentos clássicos e modernos. Eles são um famoso colectivo latino-judaico de música urbana, liderado por Josh Norek e Abraham Velez, que conta com a participação de nomes notáveis da cena latina e judaica como Santana, Jaguares, The Klezmatics, Orixa, Los Mocosos, Midnight Minyan e Los Abandoned. Sedeada em Los Angeles e Nova Iorque, a banda das duas costas americanas foi buscar o seu nome “hoodio” a uma mistura feita a partir da palavra castelhana judio (que em português equivale a “judeu”). Produzido por Happy Sanchez, este álbum é o segundo trabalho dos Hip Hop Hoodios, combinando letras provocadoras, divertidas e inteligentes com funk latino, música klezmer, cumbia e hip-hop.

"Su Dilu Est Goi", Tazenda (Itália) - italian folk, pop-rock
O programa despede-se com os italianos Tazenda e o tema “Su Dillu Est Goi”, extraído do álbum “Sardinia”. Este é um trio vocal da região da Sardenha que alcançou grande sucesso comercial no início dos anos 90 ao participar em duas edições do Festival de San Remo. O seu uso do dialecto local, juntamente com a leitura simplificada dos antigos cantos polifónicos – um estilo cujas origens permanecem incertas mas que constitui uma das principais formas musicais da Sardenha –, provou ser um passo importante na aproximação dos Tazenda ao auditório italiano. Um toque exótico com que o grupo se abriu ao mundo. A sua música possui uma estrutura pop-rock, misturando-se com instrumentos tradicionais como a launeddas (uma espécie de flauta) e com sons electrificados, fazendo do seu universo sonoro uma das mais bem sucedidas experiências de música do mundo que ocorreram em Itália na última década.

Jorge Costa

10 Junho 2006

Emissão #12 - 10 Junho 2006

A 12ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 10 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 12 de Junho, entre as 19 e as 20 horas.

"La Realité", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues
A dupla Amadou & Mariam traz-nos os sons do Mali com o tema “La Realité”, extraído do álbum “Dimanche a Bamako”. Este trabalho, lançado em França em Novembro de 2004, chegou no verão passado ao segundo lugar das tabelas de vendas, o mais alto posto alguma vez alcançado na Europa por um disco africano. Em todo o mundo “Dimanche a Bamako” já vendeu cerca de meio milhão de cópias. Bem ao género do afro pop blues, e com muita guitarra à mistura, este trabalho está recheado de ritmos africanos, batidas funky, harmonias suaves e pedaços de reggae, jazz, blues e rock. Se nos anos 90 foram os Buena Vista Social Club a trazerem para a ribalta a vibrante world music, agora é a vez deste casal africano. Mariam começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou era guitarrista nos Les Ambassadeurs, uma das mais lendárias bandas africanas. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 em Bamako, a capital do Mali, fundindo então as suas carreiras. Três anos depois casavam e davam o primeiro concerto juntos.

"M'Be Ddemi", Cheikh Lô (Senegal, Burkina Faso) - afropop, m'balax
Cheikh Lô apresenta-nos o tema “M’Be Ddemi” (A Rua), extraído do álbum “Bambay Gueej”, editado em 1999. Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas nasceu e cresceu no Burkina Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos m'balax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, que produziu o seu primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses, bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. No album “Bambay Gueej” (Bamba, Oceano de Paz), Cheikh Lô adorna estes elementos com o funk e a soul. De novo uma floresta de percussões, guitarra acústica e sons afro-cubanos.

"We Were Gonna", Dengue Fever (Cambodja, EUA) - pop, cambodian folk, rock
Os Dengue Fever com “We Were Gonna”, um tema extraído do álbum “Escape From Dragon House”, editado em 2005. Nos últimos sessenta anos o rock, com as suas notas de guitarra e percussões, influenciou profundamente numerosos géneros musicais e artistas que o misturaram com híbridos funky de todo o mundo. Foi o que aconteceu com os Dengue Fever, um sexteto de Los Angeles, liderado pela estrela da pop do Cambodja Ch’hom Nimol. Estes cantam em khmer, juntando os ritmos da pop cambodjana dos anos 60 – altamente influenciada pelo rock americano e pelas primeiras bandas de garagem psicadélicas do vizinho Vietname – com a sua própria panóplia eclética de estilos. A música dos Dengue Fever inclui ecos das bandas sonoras de Bollywood, soul etíope, rhythm & blues americano e folk do Cambodja. São sons locais misturados com rock de todo o planeta.

"Neem", Thierry 'Titi' Robin (França) - indian music, folk, rock
Thierry Robin, mais conhecido por Titi, traz-nos um tema extraído do álbum “Alezane”, editado em 2004. Uma antologia das gravações realizadas ao longo de doze anos por este músico, natural do sul de França, e que abrange 25 anos de composição. O arranjo do tema tradicional Neem remete-nos para o pungi, o instrumento do encantador de serpentes usado no Rajastão, que aqui é tocado por Banwari Baba, tendo como acompanhamento a voz de Saway Nath, um dos mais inventivos cantores da comunidade Kalbeliya daquele estado indiano. Em 1984, Thierry Robin, tocador de guitarra, alaúde árabe e bouzouki, produziu o seu primeiro trabalho com o indiano Hameed Khan. Mais tarde desenvolveria com o cantor bretão Erik Marchand um reportório de composições combinando o estilo de improvisação modal oriental taqsîm com o gwerz, um antigo lamento monofónico. A ligação à moderna folk ocidental surgiria com o Erik Marchand Trio, um mosaico de artistas que vai do norte da Índia à Andaluzia, passando pelos Balcãs. O resultado foi Kali Gadji, um novo grupo cuja orquestração incluía o saxofone, batidas e baixo. Titi Robin mistura então influências ciganas e orientais com rap francês e polirritmos sul-africanos, criando uma barreira entre a música étnica ocidental – feita de misturas de rock e jazz – e as restantes músicas do mundo. Um caminho encorajado por artistas como os cantores de flamenco Fosforito e Chano Lobato, ou o virtuoso tocador de alaúde árabe Munir Bachir.

"Iledeman",
Etran Finatawa (Níger) - wodaabe and touareg music
No tema “Iledeman”, extraído do álbum “Introducing Etran Finatawa”, editado este ano, os Etran Finatawa levam-nos por uma travessia no deserto. Uma música que faz referência a uma famosa duna situada junto à cidade de Tchin-Tabaradene, no noroeste do Níger. Poderosa e hipnótica, a música dos Etran Finatawa combina instrumentos tradicionais e canções polifónicas dos wodaabe e dos tuaregues com arranjos modernos e guitarras eléctricas, criando um som único e inovador que demonstra como nas suas culturas a música continua a ser um meio terapêutico. Em 2004, seis músicos wodaabes e quatro tuaregues juntaram-se para formar esta banda. Os tuaregues e os wodaabe são dois dos grupos étnicos nómadas que vivem na savana do Sahel, no sul do Sáara. Uma região que durante milhares de anos foi ponto de passagem entre os árabes do norte de África e as culturas sub-sarianas. Enquanto que os wodaabe são nómadas do deserto, conhecidos pelos seus rebanhos e gado; os tuaregues são famosos criadores de camelos, facilmente identificáveis pelas pinturas no rosto. E apesar das suas culturas e línguas serem muito distintas, os Etran Finatawa (As Estrelas da Tradição) ultrapassaram as fronteiras étnicas e o racismo, trabalhando juntos para construírem um futuro melhor para os seus povos. Entretanto, a banda tornou-se famosa no Níger e foi convidada para participar em festivais no Mali e em Marrocos, tendo no ano passado feito uma tournée pela Holanda, Alemanha e Suiça.

"Muiñeira de Chandada", Milladoiro (Espanha) - celtic folk
Os Milladoiro trazem-nos o tema “Muiñeira de Chandada”, extraído do álbum “Castellum Honesti”, editado em 1991. Um trabalho de temas tradicionais galegos, gravado dois anos antes em Dublin, na Irlanda. Em 2005 os oito membros do grupo festejaram os 25 anos de actividade. Durante este período de tempo eles editaram 17 discos, deram mais de mil concertos em todo o mundo e realizaram diversos trabalhos para o cinema, teatro e televisão, tendo tocado lado a lado com músicos como os The Cheiftains, Liam O'Flynn, Oskorri, Fuxan Os Ventos, Susana Seivane ou Emilio Cao. Os Milladoiro representam não só um género musical, mas também a língua e a forma de ser dos galegos (não é por acaso que eles são considerados a voz da terra, a voz que vem mais além da história). A paixão deste grupo pela música e pela Galiza tem como referência o caminho de Santiago, isto porque os milladoiros eram quem guiava os pasos dos peregrinos até Compostela. Os Milladoiro transformam os ritmos e melodias tradicionais da Galiza em música contemporânea sem fazerem concessões à pop ou fusões com géneros similares. A sua música baseia-se nas influências europeias deixadas na região, herança que tem sido transmitida ao longo de várias gerações anónimas de músicos tradicionais. Para além de evitar o cliché celta, a mítica banda galega reivindica os seus ingredientes provençais, centro-europeus e mesmo árabes. Depois de 25 anos a tirarem o pó a cancioneiros e melodias, os Milladoiro continuam a fazer com que as heranças musicais da Galiza não caiam no esquecimento.

"Domingo Ferreiro",
Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
De novo uma viagem até à Galiza com os embaixadores da folk celta contemporânea. Os Luar Na Lubre, naturais da Corunha, trouxeram-nos o tema “Domingo Ferreiro”, extraído do álbum “Saudade”, editado em 2005. Uma música que tem por base um poema do poeta Raúl González Tuñón, dedicado ao gaiteiro Domingo Ferreiro, o qual também era conhecido por “gaiteiro do Texas”. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo é uma presença constante em muitos festivais em Espanha e na Europa, mas a sua aposta centra-se agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste seu último trabalho, os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há ano e meio, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Está assim consolidada a intenção do grupo em sublinhar a influência portuguesa para melhor definir a sua identidade galega, neste Portugal além-Minho. Um álbum onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas. “Saudade” é uma homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto deixar de parte as suas raízes celtas. Divididos entre o território celta e a folk festiva, neste trabalho os Luar na Lubre resgatam poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade.

"Pitbull Terrier", Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra (Bósnia Herzegovina) - gypsy technorock
Emir Kusturica e a The No Smoking Orchestra apresentam-nos um tema extraído do álbum “Unza Unza Time”, lançado em 2000. Uma música onde predominam os instrumentos típicos do folclore cigano, mas onde há também espaço para o rock acompanhado da guitarra, do baixo, da balalaica, da tuba, do saxofone, do acordeão e do violino. Nascido em Sarajevo, hoje capital da Bósnia Herzegovina, Emir Kusturica pertence a uma família bósnia muçulmana, mas de origem eslava ortodoxa. Tal como a maioria dos jugoslavos, o seu pai trocou a fé pelo comunismo. Emir, por seu lado, trocou o comunismo pelo cinema, sendo hoje mundialmente conhecido pelas suas curtas e longas-metragens. Em 1986, ele juntava-se à Zabranjeno Pusenje, uma banda polémica, fundada por Nelle Karajic, que seria censurada pelas autoridades depois de Karajic ter feito piadas sobre Tito, o então ditador jugoslavo. Os arranjos do grupo iam do folk progressivo dos Jethro Tull ao punk dos Sex Pistols, mas com a entrada de novos membros e a mudança para Belgrado, a capital da Sérvia, a banda decidiu valorizar a diversificada música dos Balcãs. Em 1994, durante o conflito no país, junta-se ao grupo o jovem Stribor, filho de Emir Kusturica. É então que a formação se fragmenta em duas: uma que mantém o nome original, e outra que adopta a designação inglesa: The No Smoking Orchestra. Além do servo-croata, a orquestra, que em palco é barulhenta, electrizante e desordeira, também usa o alemão e o inglês nas suas canções. Um género de música que Emir Kusturica classifica de “unza unza”, definição tão impronunciável quanto esclarecedora…

"Listopad", Haydamaky (Ucrânia) - carpathian ska, ukranian dub machine, hutzul punk
Os ucranianos Haydamaky, que nos apresentaram o tema “Listopad”, levam-nos pelos caminhos do ska das montanhas dos Cárpatos, do reggae, do punk hutzul e do dub machine, misturando-os com a folk ucraniana. Após o colapso da União Soviética e a independência da Ucrânia, um grupo de estudantes criava a banda Aktus, que rapidamente conquistou um lugar de destaque no underground musical de Kiev. No início do novo século, em honra à rebelião histórica do século XVIII, mudaram o nome para Haydamaky. Para além dos espectáculos que têm feito em toda a Europa de Leste, em 2004 apoiaram a revolução laranja que mobilizou a Ucrânia, tendo um dos seus temas sido muito rodado nas estações de rádio alternativas. No seu terceiro álbum “Ukraine Calling”, editado este ano e em que se dão a conhecer ao ocidente, os Haydamaky combinam raízes ucranianas com standards europeus. E como podemos confirmar neste tema, a sua música é caracterizada por energia turbulenta e por uma montanha russa de melodias.

"Kamppi",
Maria Kalaniemi & Aldargaz (Finlândia) - finnish folk, jazz, rock, pop
A melhor música do mundo vem agora da Filândia com Maria Kalaniemi e os Aldargaz, que nos trazem um tema de dança extraído do álbum “Ahma”, editado em 1999. Esta maestrina do acordeão começou a tocar aos oito anos. Aos 19, depois de gravar um álbum de temas da música tradicional filandesa, junta-se ao programa de música folk da Academia Sibelius, em Helsínquia, onde, para além do acordeão, estuda violino, bandolim, composição e arranjo. No mesmo ano, Maria Kalaniemi apoia a formação do ensemble acústico Niekku, cuja síntese entre a folk e a contemporaneidade os levou para a linha da frente da nova folk filandesa. Já em 1995 funda os Aldargaz, um sexteto de músicos da mesma academia. Adepta da improvisação, Maria Kalaniemi é também membro do colectivo internacional de acordeonistas Accordion Tribe, do grupo de música sueco-filandesa Ramunder e da orquestra de tango UNTO. O seu reportório vai da música clássica às raízes da folk de dança filandesa, passando pelo jazz, rock e pop. Neste álbum, o acordeão de Kalaniemi, instrumento que ela diz ser em simultâneo dinâmico e dinamite, junta-se à guitarra acústica, ao bandolim, ao violino, ao piano, e ainda ao trompete, ao trombone e ao saxofone.

"Amelie On Ice", Lucien N Luciano (Chile) - electronic
Lucien N Luciano fecha o programa com o tema “Amelie On Ice”, uma reinterpretação da banda sonora criada por Yann Tiersen para o filme francês “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Lucien N Luciano, cujo verdadeiro nome é Lucien Nicotet, é DJ desde 1993 e produtor desde 1997, sendo um dos pioneiros da cena musical electrónica na América Latina. Para além das actuações ao vivo em rádios e clubes de Santiago do Chile, Luciano tem também marcado presença noutros países da América do Sul, bem como na Alemanha, em Espanha e na Holanda. O músico, que está representado em cinco editoras, vive desde 2000 em Genebra, na Suiça. Nos seus trabalhos, Lucien N Luciano mistura a identidade chilena e suiça, criando uma mística junção de techno profundo e música electrónica, integrando elementos do sul nos ritmos e padrões coloridos no som. Um estilo experimental e espaçoso, cuja marca assenta no groove e no minimalismo.

Jorge Costa

02 Junho 2006

Emissão #11 - 3 Junho 2006

A 11ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 3 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 5 de Junho, entre as 19 e as 20 horas.

Nesta edição estreamos a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas primeiras dez emissões deste programa. Eis a listagem do melhor da melhor música do mundo que passou no MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Riena (Anathema)", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock

"Olla Meu Irmau", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk

"Jota da Gheada", Berrogüetto (Espanha) - celtic music

"Gmbader", Kween Kahina (França, Argélia) - ragga-chaoui-oriental

Kelle Magni, Cheikh Lô (Senegal, Burkina Faso) - afropop, m'balax

"Amassakoul 'N' Ténéré", Tinariwen (Mali) - touareg music

"Madan", Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo

Lemen, Cheb Khaled (Argélia) - raï, chaâbi

"Mani", Cheba Fadela & Cheb Sahraoui (Argélia) - raï-pop

"Belibik", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï

"Paisa", Manak-E (Reino Unido) - bhangra, punjabi music

"Bul Bul Zaman", Edil Husainov (Casaquistão) - kazakh music/folk-rock

"Su Dilluru", Mario Rivera & Tenores Di Orosei (Itália) - folktronica

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

01 Junho 2006

World Music Charts Europe - Junho 2006

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Junho dos discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de):

1º- LA CANTINA, Lila Downs (EUA) - Peregrina/Narada
mês passado: 1ºlugar

2º- LUNATICO, Gotan Project (França, Argentina) - Ya Basta
mês passado: 42ºlugar
3º- MISH MAOUL, Natacha Atlas (Reino Unido) - Mantra

mês passado: 26ºlugar
4º- ZANDISILE, Simphiwe Dana (África do Sul) - Skip
estreia na tabela
5º- BOULEVARD DE L'INDEPENDANCE, Toumani Diabate & Symmetric Orchestra (Mali) - World Circuit
mês passado: 4ºlugar
6º- TECHARI, Ojos de Brujo (Espanha) - Diquela Records
mês passado: 5ºlugar
7º- KAL, Kal (Sérvia) - Asphalt Tango
mês passado: 3ºlugar

8º- ENTRE CADA PALABRA, Marta Gomez (Colômbia) - Chesky
mês passado: 9ºlugar

9º- NE UZ VIENU DIENU, Ilgi (Letónia) - UPE
estreia na tabela
10º- LAGOS STORI PLENTI, vários (Nigéria) - Out Here
mês passado: 20ºlugar

11º- TRAFICO, Think of One (Bélgica) - Crammed
mês passado: 82ºlugar
12º- PRASTI MUSIC, Sick Brass Band (Alemanha) - Westpark Music
mês passado: 146ºlugar
13º- GOREE, Pierre Akendengue (Gabão) - Lusafrica
mês passado: 10ºlugar

14º- MARA3OUTS, Djamel Laroussi (Argélia, Alemanha) - Dadoua
mês passado: 134ºlugar
15º- KINAVANA, Kekele (R. D. Congo) - Stern's
mês passado: 11ºlugar
16º- ROGAMAR, Cesária Évora (Cabo Verde) - BMG
mês passado: 8ºlugar

17º- KANTA HELELE, LIzaline Calister (Holanda) - Curacao Network
estreia na tabela
18º- DELA PAJI, Dela Dap (Áustria) - Chat Chapeau
estreia na tabela
19º- INTRODUCING ETRAN FINATAWA, Etran Finatawa (Níger) - World Music Network
mês passado: 163ºlugar
20º- N'TA GOUDAMI, Cheikha Rimitti (Argélia) - Because
mês passado: 28ºlugar

22 Maio 2006

Emissão #10 - 27 Maio 2006

A décima emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 27 de Maio, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 29 de Maio, entre as 19 e as 20 horas.

"Lovers Of Light", Afro Celt Sound System (Reino Unido) - afro-celt rock, world pop music
Os futuristas Afro-Celt Sound System trazem-nos um tema extraído do álbum “Release”, lançado em 1999. Neste seu segundo trabalho, a banda mistura a harpa, a kora, a tama, o bodhrán, o djembee, o tin whistle e a guitarra com vozes gaélicas e africanas, colocando-os num contexto pan-europeu. E é precisamente neste disco que os Afro Celt Sound System afirmam pela primeira vez o seu estilo único, enraizado em antigas tradições musicais mas às quais acrescentam sons e batidas futuristas. Exemplo disso, o tema “Lovers Of Light” actualiza o conceito do reel (o mais comum e rápido tipo de melodia celta) sem perder o espírito de pioneiros deste género musical como The Bothy Band e Moving Hearts. Os Afro Celt Sound System, que em 2003 encurtaram o nome para “Afro Celts” até acabarem por readquirir a anterior designação, criaram um mundo musical onde vozes africanas, irlandesas e escocesas se misturam com a estrutura da pop, a força do rock e a euforia da dança, combinando outros géneros modernos como o trip-hop e o techno com a energia e a alegria dos ritmos celtas, africanos, marroquinos e do leste da Europa. É desta forma que os nómadas Afro-Celt Sound System, um dos mais inovadores e ecléticos grupos dos anos 90, dão sentido à expressão world pop music.

"Olla Meu Irmau",
Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
Viagem até à Galiza com os embaixadores da folk celta contemporânea. Os galegos Luar Na Lubre, naturais da Corunha, trazem-nos um tema extraído do seu último álbum “Saudade”, editado em 2005. Este grupo, com nove trabalhos editados, defende a cultura, a tradição e a música galegas, sem deixar de integrar no seu processo criativo as influências externas. Os Luar Na Lubre são uma presença constante em muitos festivais em Espanha e na Europa, mas a sua aposta centra-se agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste seu último trabalho, os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há ano e meio, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Está assim consolidada a intenção do grupo em sublinhar a influência portuguesa para melhor definir a sua identidade galega, neste Portugal além-Minho. Um álbum onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas. “Saudade” é uma homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a sua cultura sem deixar de parte as suas raízes celtas. Divididos entre o território celta e a folk festiva, neste trabalho os Luar na Lubre resgatam poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade.

"Sodade", Cesária Évora (Cabo Verde) e Eleftheria Arvanitaki (Grécia) - morna, coladera
Cesária Évora em dueto com Eleftheria Arvanitaki, num tema extraído do álbum “Cesária Évora – Best Of”, editado em 1999. Esta versão da melodia escrita pelo poeta Teófilo Chantre foi gravada ao vivo em Atenas e adaptada para o grego por Mihalis Ganas. A famosa cantora cabo-verdiana, nascida no Mindelo e apelidada de diva dos pés descalços – visto que se apresenta assim em palco num gesto de solidariedade com os sem abrigo do seu país – mistura a melancólica morna, profunda em sentimentos e descendente do fado cantado em crioulo, com sons acústicos de violão, do cavaquinho, do violino, do acordeão e do clarinete. Uma espécie de blues cabo-verdiano, onde Cesária Évora fala da amarga história de isolamento do país, do comércio de escravos e da emigração – a maior parte dos cabo-verdianos vivem na diáspora. Algo que se combina na perfeição com os versos da grega Eleftheria Arvanitak, os quais falam de amor, da amizade e dos sonhos. Eleftheria (nome que em grego quer dizer liberdade), tenta aproximar-se às suas raízes, enveredando por novas experiências acústicas. À semelhança de muitos jovens que começaram a tocar guitarra, a sua entrada na música deu-se por casualidade quando a juventude grega começou a descobrir os sons tradicionais do seu país, juntamente com a influência ocidental do rock.

"Sabolan", Ba Cissoko (Guiné-Bissau) - kora music
Os Ba Cissoko trazem-nos um tema extraído do álbum do mesmo nome, um trabalho incandescente, produzido pelo músico eclético Malagasy Tao Ravao. Os Ba Cissoko são quatro jovens guineenses de ascenção griot - os conhecidos contadores de histórias que imemorialmente percorrem a savana africana para transmitirem ao povo a sua história. Eles treinaram em Conacri, na Guiné, com o mestre da kora M’bady Kouyate, e vivem actualmente na cidade francesa de Marselha, tendo tocado em inúmeros espectáculos e festivais. Comparada aos sucessos pioneiros de Mory Kanté, a sua música mistura bonitas canções da era de ouro da cultura mandingo com sons únicos urbanos, cáusticos e cheios de groove. A formação instrumental dos Ba Cissoko consiste em duas koras, um tocador de baixo e um percussionista.

"Ya Man", Balkan Beat Box (Israel) - gypsy-punk, contemporary folk
Atrás os Balkan Beat Box e o tema “Ya Man”, extraído do seu álbum de estreia, editado em 2005. Uma mistura enérgica e ousada de melodias folk do norte de África, Israel, Balcãs e Europa de Leste, de letras bizarras e de batidas electrónicas. A banda, que chega a ter 15 músicos – um terço deles oriundos da Europa – é formada pelos israelitas Tamir Muskat e Ori Kaplan, que têm trabalhado com músicos e compositores da Turquia, Israel, Palestina, Marrocos, Bulgária e Espanha. A filosofia dos Balkan Beat Box é a de acabar com as fronteiras políticas na música, fazendo folk de forma contemporânea. E assim eles juntam a música electrónica e os sons tradicionais dos Balcãs, bem como o hip-hop e as sonoridades do norte de África e do Médio Oriente. Tudo começou em Israel, onde assimilaram os standards folk, do klezmer às melodias búlgaras, passando pelos ritmos árabes. No final dos anos 80, Ori e Tamir partem para Nova Iorque, onde descobrem o gypsy-punk e acabam por misturar as suas raízes mediterrânicas com outras culturas.

"Behind De Mi House", Polvorosa (Chile, Alemanha) - elektrolatino, latin groove

Os Polvorosa apresentam-nos o tema “Behind de Mi House”, extraído do álbum “Radical Car Dance”. Para Daniel Puente o idioma nunca foi um obstáculo. E é por isso que desde que chegou à Alemanha que o músico chileno se encarregou de dar destaque às suas raízes latinas: primeiro com o grupo “Niños con Bombas”, o qual se dissolveu em 1999; e mais tarde, de novo em Hamburgo, com os “Polvorosa”, banda que formou juntamente com os alemães Trillian e Norman Jankowski. Este trio multicultural, residente em Barcelona, mistura a pop, o rock alternativo, a música electrónica e o latin groove para dar vida ao que chamam de elektrolatino. Para além dos ritmos baseados na tradição e nas raízes latinas, neste álbum eclético os Polvorosa não esquecem o funk, o hip hop e o pop-rock alternativo.

"Latin Geisha", Illya Kuryaki & The Valderramas (México) - funk, kuryaki music
Os Illya Kuryaki & The Valderramas apresentaram-nos o tema “Latin Geisha”, extraído do álbum “Leche”, gravado em Buenos Aires. Em 1991, quando nenhum grupo latino-americano tinha pensado criar uma música e fazer um rap com ela, eis que surge o duo de rapper's Dante Spinetta e Emmanuel Horvilleur, uma carreira comum que se prolongaria por dez anos. Preocupados em romper tradições, eles começaram por embarcar no rap e no acid jazz, criando letras irónicas e melodias inesquecíveis. Posteriormente inclinar-se-iam também para a soul e para o funk. Em 1987, quando tinham 11 e 12 anos, Dante Spinetta e Emmanuel Horvilleur decidem formar com os seus três irmãos mais pequenos os Pechugo, uma versão roqueira dos Menudo. Mais tarde, afastam-se e formam então os Illya Kuryaki & The Valderramas. O álbum “Leche”, editado em 1999 e que vendeu 30 mil cópias no México, é um disco feito de música negra, calentura funk e baladas kuryaki. São canções transpiradas, com muito sexo e muita carne, num trabalho em que contaram com a colaboração do mítico Bootsie Collins, baixista dos Funkadelic, de Tom Russo e de Tom Tucker. Quando se pensa no rock sul-americano dos anos 90, há nomes que nunca se poderão esquecer. E um deles é o dos Illya Kuryaki & The Valderramas.

"W Boru Kalinka (In The Forest)", Warsaw Village Band (Polónia) - new folk
A melhor música do mundo vem agora da Polónia com os Warsaw Village Band, e o tema “W Boru Kalinka” (Na Floresta), extraído do álbum “Uprooting”, editado em 2004. Um exemplo da herança musical polaca, feita de vozes selvagens e de timbres crus, mas orientadas para a modernidade com o dub, a trance e o reggae. Aqui a experimentação não é uma restauração das componentes rítmicas e melódicas do passado, mas antes um itinerário estilístico a que alguns críticos chamaram de new folk. A Warsaw Village Band foi fundada em 1997 por seis jovens que tocavam violino, suka (violino polaco do século XVI), violoncelo e vários instrumentos de percussão. O seu reportório consiste em melodias de dança folk, baladas e canções rurais, dando-lhes uma estética mais moderna. O resultado é um novo estilo de música chamado de bio-techno ou mesmo hip-hopsasa (o que em polaco quer dizer “vamos dançar”). Algo que também pode ser descrito como hard'cora of obora (hard-core da vacaria). Os Warsaw Village Band foram já galardoados em muitos festivais folk na Polónia, tendo ganho em 2004 o BBC Radio 3 World Music Award na categoria de revelação. Para além da música, eles preocupam-se em rebuscar as raízes polacas condenadas ao esquecimento e que podem enriquecer a cultura contemporânea. A sua paixão é viajar até pequenas aldeias e visitar velhos músicos para os ouvirem falar sobre as suas tradições e costumes, principal inspiração para o seu trabalho, que pretende apresentar-se aos jovens como uma alternativa à cultura de massas.

"Køb Bananer", Kim Larsen
(Dinamarca) - danish rock, folk
Kim Larsen dá-nos a conhecer o divertido “Køb Bananer”, um tema extraído do álbum “Kim I Circus”, gravado ao vivo em 1985. Este músico dinamarquês nasceu em 1945 em Copenhaga, sendo um dos mais populares do seu país. Inspirado pelos Beatles e pelo rock’n’roll, Kim Larsen começou a compor e a tocar guitarra. Em 1969 conhece Franz Beckerlee e Willi Jønsson, com quem funda os Gasolin, agrupamento a que mais tarde se juntaria o percussionista Søren Berlev, tornando-se numa das mais conhecidas bandas de rock da Dinamarca, a qual desapareceria no final dos anos 70. Em 1986 o músico funda a banda Kim Larsen & Bellami, com a qual lança quatro trabalhos até esta desaparecer em 1992. Em 1995 muda-se para Odense, a terceira maior cidade dinamarquesa, alcançando novos sucessos com a sua nova banda Kim Larsen & Kjukken e o produtor sueco Max Lorentz. Nos anos 70, fruto das influências anglo-saxónicas, os géneros populares da música dinamarquesa começam a divergir. Muitos músicos de rock adoptam então composições que reflectem de forma mais realista os ideais e a realidade social da Dinamarca. Foi esse o caso dos Gasolin, que deram à música dinamarquesa um ritmo e lhe devolveram a sua língua nativa. Desde os anos 80 que Kim Larsen lançou vários álbuns a solo e que tiveram grande sucesso. Ao todo, estes representam cerca de 3 milhões de discos. Um feito extraordinário, já que a actual população dinamarquesa ronda os 5,4 milhões de habitantes.

"Herr Rossi Sucht Das Glück (Beach Barbecue Mix)", Die Moulinettes
(Alemanha) - pop
Despedimo-nos com os Moulinettes e a versão beach barbecue do tema “Herr Rossi Sucht Das Glück”, um dos singles mais conhecidos desta formação alemã. Claudia Kaiser, Barbara Streidl e Kiki Lorrig-Wossagk são três raparigas de Munique, cujo estilo sonoro sofisticado aconchega e acalma. O nome desta música, para a qual criaram três versões diferentes, pertence a um desenho animado famoso. Depois do seu álbum de estreia "20 Blumen" e do single "Herr Rossi Sucht Das Glück", que curiosamente foi um grande êxito no Japão, as três senhoras juntaram-se a Martin Lickleder. Nas letras, para além do alemão, atrevem-se ainda pelos caminhos linguísticos do inglês e do italiano. A sua música, divertida, dançável e repleta de vozes em coro, bebe influências da pop dos anos 60. Uma boa banda sonora para as tardes e noites de verão...

Jorge Costa

19 Maio 2006

Emissão #9 - 20 Maio 2006

A nona emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 20 de Maio, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 22 de Maio, entre as 19 e as 20 horas.

"Vargtimmen", Hedningarna (Suécia) - swedish folk, ethno-punk
Viagem até à Escandinávia com os Hedningarna e o tema “Vargtimmen”. Ao longo dos anos 90, os Hedningarna estiveram na linha da frente no que toca à renovação da folk sueca. Outro dos feitos dos quatro elementos deste
grupo, formado em 1987 e que até agora editou seis álbuns mais um compilatório, foi o de terem chegado às 150 mil cópias vendidas. O álbum Trä, lançado em 1994, continua a ser um dos que maior sucesso alcançou, como o comprova a força sonora deste tema.

"Synti",
Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
Nova incursão até ao norte da Europa, desta feita com os embaixadores do suomirock. Os Värttinä, a mais conhecida banda da folk filandesa, trouxeram-nos o tema “Synti” (O pecado), trabalho extraído do álbum “Miero”, editado este ano. Com mais de vinte anos de carreira, os Värttinä são conhecidos por terem inventado um estilo baseado nas raízes rúnicas e carélicas, nos cantos femininos de várias tribos ocidentais e na poesia antiga. Da imagem do grupo fazem parte a instrumentação acústica tradicional e contemporânea, os ritmos complexos, bem como as composições e os arranjos originais. Uma palete sonora que tem vindo a crescer. Neste seu último álbum, os Värttinä exploram melodias ciganas e a música klezmer, entre outras, deixando para trás os arranjos pop.

"Sideral", Macaco (Espanha) - pop-rock latino
Dani Macaco, traz-nos o tema “Sideral”, extraído do álbum “Ingravitto”, um dos grandes êxitos sonoros da actualidade em Espanha. Um álbum que junta catorze canções para serem escutadas com os pés no chão e as mãos bem levantadas, e onde o músico conta com as colaborações dos rappers B-Negao e Caparezza, da cantora LaMari de Chambao, de Muchachito Bombo Infierno ou de Juanlu 'el canijo', ex-baterista dos Ojos de Brujo. O ambiente dos bairros antigos de Barcelona levou Dani Carbonell, o vocalista da banda “El Mono Loco”, a criar a figura do macaco louco. Depois de ter colaborado com bandas e artistas como Suicidal Tendencies, Dr. No e Amparanoia, este cria o projecto Macaco, transformando o colectivo La Hermandad Chirusca num grupo que incorpora músicos de diversas procedências. Em 2006 reaparece com Ingravitto, um álbum potente, moderno e atemporal, onde o músico presta homenagem ao sul. E se com os três anteriores trabalhos Dani Carbonell viajou por toda Europa, América do Sul e Ásia, neste seu último disco cumpre o sonho de tocar pela primera vez em África. O músico Dani Macaco guia-se pelo instinto, cruzando fronteiras e aliando os meios técnicos à criatividade e à solidariedade, numa música crítica e reivindicativa, mas não panfletária, onde se destacam as influências das cadências sincopadas do reggae, do raggamuffin e do sound-system jamaicano. Uma mestiçagem onde também estão presentes o rap, a música latina e electrónica ou a rumba catalã. E fazendo fé nas suas palavras: se uma canção não pode mudar o mundo, muitas músicas podem fazer pensar as pessoas...

"Gmbader", Kween Kahina (França, Argélia) - ragga-chaoui-oriental
As Kween Kahina e o tema “Gmbader”, extraído do álbum do mesmo nome e que integra o célebre “Barcelona Raval Sessions”, editado em 2005. Uma selecção de temas levada a cabo por Alex Van Looy e Enric Pedascoll, alusiva aos muitos artistas musicais de diversas origens que marcaram as ruas de Raval, o antigo bairro chinês de Barcelona. As instrumentistas e cantoras das Kween Kahina, um trio trio feminino de Besançon, capital da região francesa da Franche Comté, fundiram o reggae ragga com os cantos chaoui de Auris, na Argélia, criando um estilo original chamado de ragga-chaoui-oriental. Neste trabalho contaram com as colaborações de Rafika Hakkar, cantora de origem argelina que lhes trouxe um cheirinho a jazz e funk, e dos Madioko, que lhe adicionou um toque de afro-funk oriental.

"Dor Biha", Orchestre National de Barbès (França, Argélia) - afro-arabo-berbère music
Agora chega-nos a nova corrente da world music magrebina com a Orchestre National de Barbès, e o tema “Dor Biha”, extraído do álbum “En Concert”, gravado ao vivo em 1996 no teatro de Agora, em Evry. Composta por cerca de vinte elementos, entre eles Youcef Boukella e Aziz Sehmaoui, a Orchestre National de Barbès faz uma síntese de diferentes idiomas musicais. E porquê este nome? Barbès é o nome de um bairro parisiense, maioritariamente de população árabe e africana, localizado junto ao Sacré-Cœur. Em palco, os músicos apresentam de forma festiva a sua herança musical, combinando dezenas de estilos – acústico, eléctrico ou traditional –, com o espírito pop. Por entre o raï, o jazz, a funk e os cantos tradicionais, os sons do Magrebe encontram-se com a afro-beat, as percursões árabes e a salsa, misturando ainda os balafons sul-africanos, as guitarras eléctricas, os acordeões e a voz abrasadora de Larbi Dida, lenda do raï.

"Minuit",
Khaled (Argélia) - raï, chaâbi
O célebre Cheb Khaled traz-nos o tema “Minuit”, extraído do álbum “Kutche”, editado em 1989. O músico estreou-se no primeiro festival de raï de Orán, em 1985, altura em que o regime argelino tentava suavizar-se, resgatando da clandestinidade este género do folclore nacional. Um ano depois, Khaled muda-se para França. Em “Kutche”, o seu primeiro álbum, evolui para o mundo do jazz e da pop. Neste tema, um infernal tango raï, o melodista de bigode dá uma amostra do que se seguiria nos anos seguintes: um universo festivo onde a pop se combina com as raízes do raï e do chaâbi. Às improvisações vocais de Khaled, que conta com o apoio do compositor argelino Safy Boutella e do produtor francês Martin Meisonnier, juntam-se instrumentos tradicionais como o alaúde árabe, o violino ou o acordeão, bem como diferentes tipos de percussão.

"Lap Mnie Bejbe", Blue Café (Polónia) - blue jazz, bluegrass
Os polacos Blue Café trazem-nos o tema “Łap Mnie Bejbe”. Precisamente o segundo single do grupo que é acompanhado pela voz de Tatiana Okupnik. A música seria integrada no álbum “Fanaberia”, editado em 2002. Do blue jazz ao bluegrass, os Blue Café misturam géneros e influências como o funky e o hip-hop. Em 2001 eles receberam o prémio Fryferyk de revelação do ano. Depressa o seu talente ultrapassaria as fronteiras polacas, país onde um dos seus discos vendeu mais de 70 mil cópias, algo que já não acontecia desde o sucesso de Kayah & Goran Bregovic. Já em 2003, lançam um álbum de temas em polaco, inglês, francês e castelhano, onde se inclui a "Love Song", canção que integrou a lista dos temas escolhidos para representar a Polónia no Festival da Eurovisão. Em Maio de 2004, o grupo esteve em Bruxelas e em Lille nos concertos de celebração da entrada da Polónia na União Europeia.

"Russian Sailor's Trip In Brazil", Igor Vdovin (Rússia) - future jazz, jazzdance, electro
Atrás Igor Vdovin com “Russian Sailor’s Trip In Brazil”, um tema extraído do álbum “Gamma”, editado em 2003. São sons que misturam o future jazz, a jazzdance e a música electrónica. Em 1997, Igor Vdovin fundou com Sergei Shnurov a lendária banda de ska e folk punk Leningrad. Decorrido apenas um album, o ex-vocalista abandona o projecto. Em 1999 foi então convidado pelo amigo Oleg Gitarkin para integrar como teclista a banda Messer Chups. Mas mais uma vez, este não é o rumo de Igor Vdovin, que se dedica então à música electrónica, gravando um primeiro álbum em 2001 com uma editora japonesa. Uma opção que viria a dar os seus frutos, isto porque na Rússia Igor Vdovin se tornaria um dos mais respeitados e solicitados músicos do campo da electrónica.

"Horra Hor Goiko",
Oskorri (Espanha) - folk
Rumamos agora até ao Pais Basco com os Oskorri e o tema “Horra Hor Goiko”, extraído do álbum “25 Kantu Urte” (25 anos de música), gravado ao vivo em 1996 no Festival Folk de Getxo. Um espectáculo em que participaram também músicos como Kepa Junkera (País Basco), Gabriel Yacoub (França), Martin Carthy (Inglaterra), Patrick Vaillant (Provença) ou Anton Reixa (Galiza). Os membros dos Oskorri, que começaram por ser um grupo universitário, são originários de universos sonoros tão distintos como o jazz, a pop ou a música brasileira. E mesmo sem conhecerem a língua euskera, aceitaram o desafio de fazer renascer o folclore basco. Nas suas letras e canções, o emblemático grupo de Bilbao baseia-se sobretudo em fórmulas rítmicas e métricas tradicionais.

"Ondulé",
Mathieu Boogaerts (França) - french pop
Mathieu Boogaerts, que nos traz o tema “Ondulé”, extraído do álbum do mesmo nome, o qual foi editado em 1995, é um jovem atípico no universo da música francesa. Ele cultiva um repertório intimista e minimalista, de certa forma ingénuo e quase infantil, mas recheado de poesia, ligeireza sonora e canções subtis. O jovem, que formou o seu primeiro grupo aos 13 anos e aos 18 abandonou a escola para fazer música na cave dos seus pais, partiu então em viagem pelo mundo, centrando-se no continente africano. Durante uma estadia de 6 meses no Quénia, acaba finalmente por escrever alguns temas. Entre eles está uma canção de ritmo simples e com balanço: "Ondulé". De regresso a Paris, concebe com alguns amigos um videoclip em redor deste título, onde lhe irão cortar o cabelo e a barba diante da câmara. O tema acaba por agitar a paisagem musical das rádios, e inúmeros festivais disputam então as atenções do cantor.

Jorge Costa

13 Maio 2006

Emissão #8 - 13 Maio 2006

A oitava emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 13 de Maio, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 15 de Maio, entre as 19 e as 20 horas.

" Citty of Walls",
Paul Mounsey (Escócia) - folktrónica
O escocês Paul Mounsey traz-nos o tema que serve de título ao álbum “City of Walls”, um dos quatro trabalhos que o músico editou enquanto esteve a viver no Brasil. O nome da faixa baseou-se no livro “Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo”, de Teresa Caldeira, obra onde a escritora reflecte sobre o estado da sociedade e da democracia brasileiras. Paul Mousey pega então em amostras da música tradicional escocesa, brasileira e nativa americana, combinando-as com o som da guitarra, dos teclados, da gaita de foles e das flautas, adicionando-lhes ainda uma amostra de precursão japonesa e de sonoridades electrónicas.

"Navicularia", Berrogüetto (Espanha) - celtic music
Este grupo galego traz-nos o tema que dá nome ao seu primeiro álbum “Navicularia”, editado em 1996. Este trabalho, em que os Berrogüetto trabalharam lado a lado com músicos como o arménio Jivan Gasparian, o sueco Markus Svensson ou o húngaro Kalman Balogh, foi aclamado pela crítica e ganhou vários prémios internacionais. Os “sete magníficos” dizem ser uma fábrica de ideias em que a música se funde com outras artes na busca de elementos sonoros inovadores.

"Kamoukie", Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo
Exímio guitarrista, Salif Keita iniciou a sua carreira nos anos 60 na Rail Band e nos Ambassadeurs. Um longo percurso que teve como pontos altos a passagem por Abdijan, Nova Iorque e Paris. Mas foram precisos trinta e cinco anos até que Salif Keita pudesse gravar um álbum no seu país, o Mali. No álbum “M’Bemba” (Antepassado), este conta com a colaboração de músicos como Mama Sissoko na luth ngoni, ou Toumani Diabaté na kora, duas guitarras tradicionais do Mali. Um trabalho onde Salif Keita invoca a memória do seu glorioso antecessor, o imperador Soundiata Keita, fundador do império Mandingue no século XII. Neste disco, Salif Keita regressa à música tradicional mandingo, cruzando sonoridades como o rock, a soul, a chanson française ou os ritmos afro-cubanos, influências acústicas com que o músico inaugurou o conceito de afro-pop.

"Amassakoul 'N' Ténéré",
Tinariwen (Mali) - touareg music
Este grupo traz-n
os um tema extraído do álbum “Amassakoul” (viajante), editado em 2004 e que pudemos conhecer na emissão anterior. O nascimento dos Tinariwen no final dos anos 70, o primeiro a surgir das areias do deserto do Saara, está ligado à vida errante dos tuaregues, povo nómada descendente dos berberes do norte de África. A música destes artistas, que vagueiam entre a Argélia, o Mali, o Níger e a Líbia, apela ao despertar político das consciências e aborda os problemas do exílio e da repressão. Os Taghreft Tinariwen (o grupo dos desertos) transformaram-se numa lenda viva, isto porque no início dos anos 90 Ibrahim e Keddu, dois dos seus elementos, integravam o grupo de gerrilheiros que atacou um posto militar em Menaka, na fronteira entre o Mali e o Níger, abrindo um novo conflito entre as tropas governamentais do Mali e os separatistas tuaregues do norte. A música deste povo, transposta para a modernidade neste álbum gravado em Bamako, é acompanhada pelo tindé – instrumento de percussão tocado por mulheres –, pela flauta t’zamârt e pela guitarra eléctrica. Na sonoridade rítmica e harmónica dos Tinariwen está também presente a asoüf, solidão característica da poesia cantada pelos tuaregues que, tal como os blues, demonstra um sentimento de desamparo universal.

"Surbajo", Etran Finatawa (Níger) - wodaabe and touareg music
Continuando nesta travessia musical pelo deserto, avançamos agora até ao Níger com os Etran Finatawa, e um tema extraído do álbum “Introducing Etran Finatawa”, editado este ano. Em 2004, seis músicos wodaabes e quatro tuaregues juntaram-se e formaram este grupo. Os tuaregues e os wodaabe são dois dos grupos étnicos nómadas que vivem na savana do Sahel, no sul do Sáara. Durante milhares de anos, aquela região foi um ponto de passagem entre os árabes do norte de África e as culturas sub-sarianas. Enquanto que os wodaabe são conhecidos pelos seus rebanhos e gado, os tuaregues são famosos criadores de camelos. E apesar das suas culturas e línguas serem muito distintas, os Etram Finatawa (As estrelas da tradição) ultrapassaram as fronteiras étnicas e o racismo, trabalhando juntos para construírem um futuro melhor para os seus povos. Eles fundaram o seu estilo, combinando instrumentos tradicionais e canções polifónicas com arranjos modernos e guitarras eléctricas. O resultado é um álbum de rara e poderosa beleza, que demonstra como nas suas culturas a música continua a ser um meio terapêutico. Entretanto, a banda tornou-se famosa no Níger e foi convidada para participar em festivais no Mali e em Marrocos, tendo no ano passado feito uma tournée pela Holanda, Alemanha e Suiça.

"Belibik", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï
Este tema é um extra extraído do álbum “Deb”, editado em 2003. Considerada a Tracy Chapman do Magreb, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Desde 1999 que a jovem vive em França. Com a sua guitarra, Souad Massi acompanhou o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.


"Bebe Yaourt", Kekele (RD Congo) - soukous, congolese rumba
Os Kekele trazem-nos um tema extraído do álbum “Congo Life”, editado em 2003. Este grupo de veteranos, liderado pelo guitarrista Papa Noel Nono Nedule, é formado por Syran Mbenza, Nyboma e Wuta Mayi, os quais nos anos 80 fizeram parte dos Les Quatre Étoiles, pioneiros do soukous. Juntam-se a eles Bumba Massa and Loko Massengo, intérpretes em várias bandas congoloesas e performers a solo, bem como o guitarrista Rigo Star e o produtor François Bréant. Os Kekele recriam a rumba congolesa dos anos 60, 70 e 80 com tecnologia moderna, dando uma aparência totalmente acústica ao som eléctrico do soukous dos anos 80 e 90. São sons bem ao estilo da cubana charanga, das orquestras de cordas da Martínica e do barroco europeu, que se encaixam nas delicadas e deliciosas melodias congoloesas.

"La Iguana", Lila Downs (México) - cumbia, ranchera, bolero
Lila Downs trouxe-nos um tema extraído do álbum “Tree of Life”, editado em 1999. A cantora nasceu nas montanhas de Sierra Madre, no sul do México, e passou a sua adolescência em Los Angeles, nos Estados Unidos. Começou por cantar canções mariachi aos oito anos de idade, e ainda pensou ser cantora de ópera, o que é fácil de perceber na sua voz. Ainda chegou a estudar voz e antropologia na universidade, mas abandonou tudo quando decidiu “juntar-se ao mundo”. Foi já nos anos 90, qu