Emissão #35 - 20 Janeiro 2006
A 35ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 20 de Janeiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira,22 de Janeiro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (10 e 14 de Fevereiro) já nos novos horários (sábados, entre as 17 e as 18 horas, e quartas-feiras, entre as 21 e as 22 horas).
"Westindie", Schäl Sick Brass Band (Alemanha) - brass band, jazz, folk
Os Schäl Sick Brass Band a abrirem a emissão com o tema
"Westindie", um hipnótico instrumental indiano extraído do álbum “Tschupun”,
editado em 1999. O grupo surgiu em Colónia, capital cultural da província da
Renânia e fortaleza mediterrânica da Alemanha. Um dos muito emigrantes e
visitantes de todo o mundo que a encheram de sons coloridos foi Raimund Kroboth,
que em 1977 se instalou na margem direita do Reno. No dialecto local, aquela
parte da cidade é conhecida precisamente por "Schäl Sick" (lado errado). Isto
porque está do lado contrário à catedral e ao centro de Colónia, e porque é um
enclave protestante na católica Renânia. Partindo de uma secção de ritmo que tem
por base a tuba, a cítara popular e as percussões, os Schäl Sick Brass Band
utilizam o som das fanfarras da região alemã da Bavaria e da Boémia checa para
explorarem com inovação e versatilidade a música de outras culturas. Eles
combinam elementos de jazz com o rock, o funk, o
hip-hop o rap ou a folk. Um universo sonoro
influenciado pela Europa central e de Leste e pelo norte de África, onde
convivem ritmos cubanos, gregos, latinos, africanos e orientais, e instrumentos
de todo o mundo - tavil, kanjira, dhol,
dolki, omele, sekere, gangan,
thereminvox, entre muitos outros. Um ambiente festivo em que se celebra
a música de todo o planeta e onde o lema é "pensar global, soprar
local"..."Teu Nome, Amarante", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
A
jornada musical prossegue com os embaixadores da folk celta
contemporânea. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trazem-nos o tema “Teu
Nome, Amarante”, extraído do álbum “Saudade”, editado no ano passado. Amarante é
o nome de várias aldeias galegas, muitas delas abandonadas por causa do
envelhecimento e da emigração. Uma música onde este nome representa também o
idioma galego, uma das ligações mais importantes da Galiza a Portugal e ao
Brasil. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a
tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O
grupo aposta agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu
último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os
quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos
depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike
Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre apresentam a
vocalista que os acompanha há cerca de dois anos, a portuguesa Sara Vidal (que
já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Um
disco onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de
García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam
de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à
América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto
deixar de parte as suas raízes celtas."Terra de Ninguém", Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As
músicas do mundo continuam com os Gaiteiros de Lisboa, que nos trazem o tema
“Terra de Ninguém”, retirado do álbum “Macaréu”, compilação editada em 2000. Uma
música escrita e cantada por Carlos Guerreiro, a quem se junta Pacman, dos Da
Weasel, fundindo o hip-hop com a folk. Neste álbum, o grupo
traz-nos ladaínhas populares ou os poemas de Fernando Pessoa, Alexandre O'Neill
e Amélia Muge. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora
música tradicional portuguesa, baseando-se nas tradições vocais, nos ritmos do
tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar
medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a
tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de
rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho,
Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O
seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como
os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a
“cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado”
(aerofone de palheta simples). Juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões
(aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Criando um
ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares, os
Gaiteiros de Lisboa ressuscitaram o gosto por uma certa música portuguesa de
raiz tradicional, arrastando para os seus concertos verdadeiras multidões de
pessoas a quem estas músicas pouco ou nada diziam."Justice", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
De regresso, mais uma vez, ao programa, Tiken Jah Fakoly
apresenta-nos agora o tema "Justice", extraído do álbum “Françafrique”, gravado
em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002. Trabalho em que se destacam as
colaborações de Anthony B, U-Roy (cuja voz acompanha Fakoly neste tema) e Yaniss
Odua, e onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a
situação sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste
africano, Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição
mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De
etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba
Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos
como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a
viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim
ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a
corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly
canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no
norte da Costa do Marfim, Guiné, Mali e Burkina Faso."Riongere", Oliver 'Tuku' Mtukudzi (Zimbabué) - tuku
A
viagem prossegue com Oliver 'Tuku' Mtukudzi e o tema "Riongere", retirado do
álbum "Tuku Music", lançado em 1999. Figura emblemática da música urbana
africana e uma das maiores estrelas do Zimbabué, o cantautor e guitarrista
Oliver Mtukudzi criou um género único chamado tuku. Uma aliança dos
ritmos da África austral, com influências da mbira, do
mbaqanga sul-africano, da zimbabueana jit music, do
katekwe, do urban zulu, das percussões dos Korekore, o seu
clã, e dos temas tradicionais shona, etnia que corresponde a três
quartos da população do Zimbabué. Oliver Mtukudzi começou a sua carreira em 1977
ao juntar-se aos Wagon Wheels, grupo lendário de que também fazia parte o poeta
revolucionário Thomas Mapfumo. Foi com músicos desta banda que ele formaria os
Black Spirits. Com a independência do seu país, Oliver torna-se produtor e
consegue editar dois álbuns por ano – a lista já vai nos 35 trabalhos de
originais. Pelo seu carácter inovador e pela voz generosa, a música de Oliver
Mtukudzi distingue-se facilmente dos outros estilos do Zimbabué. Um artista
popular pela capacidade de abordar os problemas económicos e sociais do seu
povo, e de seduzir o público com um humor contagioso e
optimista."Jhullay Lal", Sajjad Ali (Paquistão) - sufi music, ethno pop
Seguimos agora
até ao Paquistão, país cuja herança musical é partilhada com o norte da Índia.
Sajjad Ali traz-nos então o tema “Jhullay Lal”, retirado do álbum “Aik Aur Love
Story”, lançado em 1998. Um hino sufi de exaltação, a que foram
adicionadas as batidas pop e os ritmos de dança. Uma música incluída no
álbum produzido pelo cantor e actor, trabalho que foi também a banda sonora do
filme do mesmo nome, o primeiro realizado por Sajjad Ali. Pioneiro da música
pop no Paquistão, Sajjad Ali alcançou a fama no final da década de 80,
destacando-se como um dos poucos cantores do género com um passado ligado ao
canto clássico, uma experiência que dá às suas canções populares uma
inconfundível profundidade e textura. Na sua aprendizagem, Sajjad tocou músicas
de lendários artistas clássicos como Ustad Bade Ghulam Ali Khan e Ustaad Barkat
Husain, familiarizando-se com instrumentos e estilos musicais como a
raga, o que lhe permitiu construir uma carreira sólida e ser hoje um
cantor aclamado. Para além do cinema, este tem vindo a participar em séries
dramáticas. Uma ligação à indústria que já vem da família, isto porque o seu pai
era um reconhecido actor e os irmãos Lucky Ali e Waqar Ali também têm carreiras
musicais. Numa altura em que os ritmos da bhangra estavam na ordem do dia na
música pop paquistanesa, Sajjad Ali teve a ousadia de se aventurar na
criação de baladas e temas menos ritmados. Hoje retorna mais ao ambiente
clássico, fazendo-se no entanto acompanhar de amostras de jazz e de batidas
sufi."Khalouni", Cheb Mami (Argélia) - pop-raï, hip-hop, rock, funk
Cheb
Mami traz-nos uma versão do tema “Khalouni” (Deixa-me), retirada do álbum
“Dellali” (A Amada), o qual foi editado em 2001. Trabalho onde este mistura uma
série de linguagens e influências sonoras, que vão da música africana ao
house, flamenco e reggae, e em que são convidados,
entre outros, Charles Aznavour, Ziggy (filho de Bob Marley), o famoso
guitarrista Chet Atkins ou o London Community Gospel Choir. Um álbum sofisticado
e expansivo, onde os registos vocais de Cheb Mami e dos restantes músicos são
acompanhados por instrumentos como o acordeão, as guitarras acústica e
eléctrica, o baixo, o violino, o violoncelo, o alaúde ou a debourka.
Paralelamente às origens de géneros ocidentais como o rock & roll,
o punk e o hip-hop, o raï surgiu na Argélia como uma
forma de arte recreativa e minoritária. No entanto, depressa ganhou contornos
políticos, destacando-se cada vez mais não só pela popularidade, ma sobretudo
pela sua controvérsia. Um dos renovadores deste estilo musical, marcado pela
atitude provocativa e pela expressão rebeliosa da juventude argelina, foi
precisamente Cheb Mami. Refugiado em Paris durante duas décadas, foi aí que este
foi construindo a sua carreira, misturando o raï com a dança, o
hip-hop, o funk e o rock. Conhecido em grande parte
devido à colaboração de Sting no seu tema “Desert Rose”, que se tornou um
sucesso em todo o mundo, Cheb Mami pretende então universalizar este género
tradicional, abrindo-o às influências ocidentais, sem no entanto perder a suas
raízes argelinas."Saudade", Elisete (Brasil) - world electro, bossa nova, samba, forró, baião
A fechar o programa, despedimo-nos com Elisete e o tema
“Saudade”, remisturado por Alon Ohana e extraído do álbum “Elisete – Remixes”,
editado no passado mês de Dezembro. A compositora, que diz cantar para alegrar
as pessoas do mundo, nasceu no Brasil mas desde 1991 que vive em Israel.
Enquanto que no primeiro disco enveredava pela bossa nova,
samba, forró, baião e por outros ritmos ecléticos, no
seu segundo trabalho as suas raízes brasileiras abriram-se finalmente ao mundo.
Dois temas seus foram mesmo incluídos na banda sonora do filme israelita “Há
Bua” (A Bolha). Agora é a vez das canções em português, acompanhadas por sons
electrónicos. Neste seu terceiro álbum, ela apresenta-nos uma colectânea das
canções presentes em “Luar e Café” e “Saudade”, desta feita remisturadas por
DJ’s e produtores de música electrónica israelitas. Apesar da maioria das suas
letras serem em hebraico, o ritmo brasileiro está sempre presente, razão pela
qual a música de Elisete tem uma grande aceitação. Nas canções, grande parte da
sua autoria, Elisete tenta conciliar o espírito alegre e descontraído do Brasil
com a difícil e dura realidade de Israel.Jorge Costa
Os sevilhanos Rarefolk a inaugurarem a emissão com o tema
“Natural Fractals”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2006. Quarto e
último trabalho dos pioneiros do freestyle folk, uma mistura criativa
de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do
funk e da electrónica. O resultado é um raro estilo folk,
carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta,
oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação
original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e
Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial da violinista Elo
Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata
Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos
acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a
breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os
Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e
começaram a ter uma formação estável.
As músicas do
mundo prosseguem com Kepa Junkera que nos traz “Ataun”, tema retirado do seu
último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais
intimista e elaborado, Kepa Junkera leva-nos numa viagem por algumas das cidades
e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da
trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é
conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento
de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone
tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa
Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a
folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma
palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à
folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo,
das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de
Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon
Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o
Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy
Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile
& I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri
Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas
se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar
ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris
Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali,
Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck,
Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses
Júlio Pereira e Dulce Pontes.
Os escoceses
Capercaillie de novo no programa, desta feita com o tema “Homer's Reel”,
extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais
popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo
com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o
violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os
Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida
reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands.
Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que
mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes
poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às
composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande
parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald
Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson,
Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael
McGoldrick.
Avançamos agora até à Etiópia com o tema “Semena-Wrock”, extraído do
álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é
uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as
formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos
acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina
melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o
jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente
nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill
Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram
introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o
célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas
com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e
moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura.
São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes.
Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do
sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista
Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota,
Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.
A jornada musical prossegue com Natacha Atlas, que nos apresenta o tema
“Shubra”, retirado do álbum “Ayeshteni” (Tu Dás-me Vida), editado em 2001.
Trabalho produzido e gravado na cidade do Cairo, no Egipto, e em que também
participou o anglo-indiano Nitin Sawhney. A diva do ethno pop mistura
as sonoridades tradicionais do Médio Oriente e do norte de África com a
pop e a música electrónica. São sons onde não falta a influência do
clássico chaâbi mas, como ela própria diz, menos entediante e mais mal
comportado. Dona de uma voz poderosa e sedutora, Natacha Atlas cria um sinuoso e
hipnótico canto, acompanhado por batidas trip hop e incursões pelo
house ou o drum ‘n’ bass. A maior parte do seu repertório é
interpretado em árabe, mas ela também canta em inglês, francês e castelhano.
Filha de mãe inglesa e pai egípcio, Natacha Atlas nasceu na capital belga, mas
as suas raízes estendem-se ainda à Palestina e a Marrocos. Até aos oito anos,
ela viveu no bairro muçulmano de Bruxelas, altura em que a sua mãe, depois de se
ter divorciado, decidiu mudar-se com os filhos para Northampton, na Inglaterra.
A partir dos dezasseis anos, Natacha começa a envolver-se em pequenos projectos
musicais e a viajar pela Turquia e Grécia, países onde trabalharia como
dançarina do ventre. No início dos anos 90 integra como solista os Transglobal
Underground, grupo inglês pioneiro em fundir elementos da música tradicional
árabe, africana e hindu com elementos da música electrónica, ocupando o lugar de
vocalista e dançarina. Da sua carreira faz também parte a passagem pelos
Invaders of the Earth, grupo de Jah Wobble. Em 2001, Natacha Atlas foi nomeada
pelas Nações Unidas Embaixadora para a Boa Vontade no âmbito da Conferência
Internacional contra o Racismo. O público brasileiro e português certamente se
lembrará da sua participação num capítulo da novela da Globo "O Clone", em que a
cantora se interpreta a si mesma, cantando e
dançando.
De
regresso ao programa, Souad Massi apresenta-nos “Khalouni" (Deixa-me), uma
mistura ibérica e norte-africana onde se evocam as raízes do raï e onde
a jovem canta lado a lado com Rabah Kaifa. Considerada a Tracy Chapman do
Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina.
Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma
activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto,
mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música
andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os
temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado em 2005.
Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar
mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez
lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na
adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco
Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a
vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música
country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os
tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do
Ocidente.
A
fechar o programa, despedimo-nos com os Yat-Kha, que nos trazem o tema "Amdy
Bayp", extraído do álbum "Tuva Rock", editado em 2005. Esta banda originária da
república russa de Tuva (região situada a sudoeste da Sibéria) foi fundada em
Moscovo em 1991 pelo vocalista e guitarrista Albert Kuvezin e pelo compositor
electrónico russo Ivan Sokolovsky. Farto de cantar temas xamânicos em grupos
típicos como os Huun-Huur-Tu, Kuvezin decidiu então juntar a música moderna do
Ocidente com a tradicional do seu país. O duo adoptou o nome de Yat-Kha (lê-se
iát-rá), em alusão a uma espécie de pequena cítara da Ásia central semelhante à
guzheng chinesa. Aos instrumentos tradicionais juntam-se então as
guitarras eléctricas, os instrumentos electrónicos e outros inventados pelo
grupo. Com a energia do rock, a banda rejuvenesceu uma das mais
extraordinárias tradições vocais do mundo, criando distorções e dissonâncias que
se aproximam do punk e do metal. As melodias e ritmos são
acompanhados pelas três vocalizações básicas do canto polifónico da Tuva: o
khoomei, o kargyraa e o sygyt. Técnica outrora muito
utilizada pelos povos da Ásia central para imitar os sons da natureza, e em que
uma única voz consegue emitir várias notas em simultâneo.
As vozes búlgaras das Angelite estreiam esta emissão especial
com três canções de amor – “Devoiche Belo, Tsurveno”, “Povdigni Si Milo Libe” e
“Vasilke, Mlada Nevesto” –, um medley que faz parte do álbum “Balkan
Passions”, editado em 2001. À semelhança dos restantes países dos Balcãs, a
Bulgária é um território habitado por turcos, ciganos, macedónios, judeus,
arménios e romenos, grupos étnicos que ao longo do tempo foram moldando a música
desta região. Prova dessa convivência cultural é a lista de músicos que
participam neste trabalho: Orchestre Pirin, da Bulgária; Okay Temiz e Sezen
Aksu, da Turquia; Fanfare Ciocărlia, da Roménia; e Maria Farantouri, da Grécia.
Fundadas em 1952, as Angelite são um grupo de canto vocal composto por duas
dezenas de mulheres, e que combina elementos tradicionais da folk
búlgara com intervalos microtonais e a justaposição de escalas. São melodias
seculares que fazem alusão a elementos da vida diária, incorporando muitas das
vezes participações instrumentais e arranjos de compositores clássicos
contemporâneos. Dirigido pelo compositor búlgaro Georgy Petkov, o coro
colaborou, entre outros, com o saxofonista Jan Gabarek e com o Moscow Arts Trio.
O canto vocal é uma importante tradição búlgara, particularmente no Natal, em
que se destacam as melodias sacras ortodoxas, outrora cantadas apenas pelos
homens, ou os cânticos alusivos à quadra. Um estilo único, de grande riqueza
melódica e rítmica, possível graças a um desenvolvido controlo da respiração, e
que terá surgido no Médio Oriente na era pré-cristã.
As
músicas do mundo prosseguem com Susana Seivane, que nos traz “Rumba Para Susi”,
um tema tradicional que aqui se apresenta numa versão adaptada para gaita e
pequena orquestra. Esta gaiteira é neta de Xosé Manuel Seivane, um dos mais
conceituados artesãos galegos. Diz a tradição que a madeira de buxo ou buxeiro,
utilizada na construção das gaitas de foles galegas, deve ficar mais de cem anos
à espera de um artesão que lhe consiga descobrir a alma e transformá-la no
instrumento musical. O buxo com que os Seivane fazem gaitas desde 1939 serviu
precisamente de inspiração para o nome deste disco "Alma de Buxo". No seu
segundo álbum, editado em 2002, a jovem segue a tradição musical da Galiza com
várias xotas, muiñeiras, marchas e outras composições
típicas daquela região, adicionando-lhes no entanto a bateria, o baixo e algumas
amostras de música pop. E não é de espantar a sua mestria no manejo da
gaita-de-foles, até porque começou a tocar este instrumento aos quatro anos.
Neste álbum, Susana Seivane é acompanhada pela sua banda e por músicos como o
ex-Milladoiro Rodrígo Romani, Kepa Junkera, Uxía Senlle, Guadi Galego dos
Berrogüetto ou Uxía Pedreira dos Chouteira. Um trabalho em que esta presta
homenagem aos gaiteiros da sua terra, como é o caso de Pepe Vaamonde e do
próprio avô, que gravou duas composições do seu repertório. São duas gerações
reunidas num só disco.
Os
portuenses Mu, uma jovem banda folk cuja alegria não deixa ninguém
indiferente, com “Vinavata”, um dos temas gravados em Espanha no Festival Danzas
Sin Fronteras, e que faz parte do seu primeiro álbum “Mundanças”, editado no ano
passado. O título deste trabalho, em que também participam os Dazkarieh, mais
não é do que um trocadilho de palavras que descreve na perfeição o mundo em
mutação e recheado de dança em que os Mu estão mergulhados. Eles nasceram no
Porto em 2003 e foram procurar inspiração nas culturas europeias e nos
instrumentos de todo o mundo. Os ritmos e vozes tradicionais servem então de
referência a este grupo que reinventa sobretudo danças balcânicas e eslavas, mas
em cuja palete sonora não faltam também os sons ciganos, bretões, irlandeses ou
mesmo africanos. Uma banda jovial, de estilo "roufenho, nómada e circense",
conforme já lhes chamaram, que tem feito sucesso em festivais como o Andanças,
em S. Pedro do Sul, o Intercéltico de Sendim, ou o Danzas sin Fronteras, em
Espanha. Na sua quarta formação, os Mu integram os músicos Hugo Osga, Nuno
Encarnação, Diana Azevedo, Sophie Kaliasz, Sérgio Calisto e Sara
Barbosa.
Avançamos agora até ao norte da Europa com a norueguesa Mari
Boine Persen, que nos traz o tema “Diamantta Spaillit” (Rena de Diamantes),
extraído do álbum do mesmo nome, lançado em Abril deste ano. Com mais de vinte
anos de carreira, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo
reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, povo que habita
a chamada Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine
cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas
escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada
herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi
durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica da qual Mari
Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo e a espiritualidade, lembrando os tempos
em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos
sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os
blues, o jazz, o rock e mesmo a música electrónica. São sons
mais entoados que cantados, onde se evoca a beleza da terra e das montanhas, o
sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições
pré-cristãs.
A
viagem prossegue com as Värttinä e o tema “Kokko”, extraído do álbum do mesmo
nome, editado em 1996. De regresso ao programa, a mais conhecida banda da
folk contemporânea finlandesa trouxe-nos uma apelativa mistura de
pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica,
naquele que foi o primeiro trabalho onde o grupo tentou juntar a música
tradicional com sons modernos. As Värttinä são conhecidas por terem inventado
uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da
Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia –
reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do
finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa.
Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas
folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither,
instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram
o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer
arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente
fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes
enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a
instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino,
acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base
rítmica sólida em que se mantém o vigor e o calor vocal de
sempre.
A abrir a emissão, o compositor francês e produtor de música
electrónica Olaf Hund com a remistura “Are You Gypsified?”, extraída da
colectânea “Electric Gypsyland”, editada no ano passado. Uma série de
reinterpretações e de reinvenções poéticas de músicos europeus e americanos, em
que o ponto de partida é a música cigana. Neste megamix, Olaf Hund
mistura temas de três das mais conhecidas bandas dos Balcãs: os Koçani Orkestar,
os Taraf de Haïdouks e os Ursari de Clejani. Originários da cidade macedónia do
mesmo nome e liderados pelo trompetista Naat Veliov, os Koçani Orkestar combinam
o som das fanfarras com ritmos de dança turcos e búlgaros e melodias ciganas dos
Balcãs. O resultado é uma frenética festa sonora, localmente apelidada de
Romska Orientalna Musika (música cigana oriental). Já os Taraf de
Haïdouks ("banda de bandidos") são originários da cidade romena de Clejani,
situada a sudoeste de Bucareste. Uma dezena de instrumentistas e cantores, com
idades entre os 20 e os 78 anos, descobertos em 1990 por dois jovens músicos
belgas que se apaixonaram pela sua sonoridade e decidiram levá-los até à Bélgica
para os darem a conhecer ao mundo. A sua música, que varia entre as baladas e as
danças, é uma mistura de estilos locais, representando na perfeição a riqueza
das folk romena. Finalmente, e ainda na mesma cidade, encontramos os
Ursari de Clejani, representantes do estilo vocal ursari e descendentes
de uma família de domadores de ursos, e que no passado colaboraram num dos
álbuns dos Taraf de Haïdouks.
As
músicas do mundo prosseguem com os Alboka e o tema “Urrutiko Polkak”, extraído
do álbum “Lau Anaiak” (Os Quatro Irmãos), lançado em 2004. Quarto trabalho do
grupo que, para além das danças e melodias populares, retiradas dos cancioneiros
bascos, integra temas instrumentais – então uma novidade no folk basco,
mais habituado a trabalhos vocais – e novas canções, compostas por Allan Grifing
e traduzidas para euskera pelo escritor basco Juan Garcia. O agora duo,
formado pelo acordeonista Joxan Goikoetxea e pelo multi-instrumentista irlandês
Alan Griffin (que há mais de vinte anos vive no País Basco), foi criado em 1994
juntamente com mais dois músicos daquela região autónoma espanhola: Txomin
Artola e Josean Martín Zarko. Da sua história fazem também parte as vozes de
Benito Lertxundi e Xabi San Sebastián, o violinista Juan Arriola e a cantora
húngara Marta Sebestyén, que colaborou num dos álbuns do grupo. Um ensemble cujo
objectivo é o de interpretar música tradicional exclusivamente de forma
acústica, sua imagem de marca, e que foi buscar o nome à alboka, um
aerofone pastoril basco, construído com dois chifres de vaca, e cuja sonoridade,
parecida com a da gaita, se situa entre a sanfona e a bombarda francesa.
Juntam-se-lhe o acordeão, o bouzuki, o bandolim, o ttun-ttun
(tamboril basco, da família do saltério), a guitarra acústica, o violino, a
harpa, a gaita, a flauta e as percussões. Uma ponte entre a música tradicional e
a folk contemporânea, em que a energia basca se une à pureza
irlandesa.
Avançamos agora até à África do Sul com Busi Mhlongo, que nos traz o
tema "Yehlisan'Umoya Ma-Afrika", extraído do álbum "Urbanzulu", lançado em 2000.
Disco em que colaboraram vários músicos, entre eles, dois da banda Phuzekhemisi,
que com ela compuseram este álbum simultaneamente africano e ocidental. A diva
da afropop foi a primeira mulher a internacionalizar a
maskanda, género tradicional zulu que expressa a alegria e o
lamento presentes na moderna vida da urbana África do Sul, e outrora
característico dos trabalhadores e migrantes rurais. No entanto, Busi Mhlongo
percorre outros estilos sul-africanos, fundindo-os com o jazz, o funk,
o rock, o gospel, o rap e o reggae, e usando
coros e instrumentos não tradicionais. Ao longo da sua carreira, actuou com
alguns dos melhores nomes do jazz e estrelas da mbaqanga (género vocal,
desenvolvido a partir de um estilo negro urbano, em que se destacam as vozes
graves masculinas, e que se transformou no mqashiyo, um popular género
de dança). Impedida de regressar à África do Sul, o que só aconteceria nos anos
90, Busi Mhlongo passou vários anos em Portugal, cantando temas populares e
canções africanas em casinos. Durante o exílio, ela viveu ainda em Londres, no
Canadá e em Amesterdão, cidade onde trabalhou com músicos africanos e
desenvolveu o seu estilo único. Não é por acaso que, nas suas letras, Busi
Mhlongo fala da necessária reconciliação entre sul-africanos com diferentes
aspirações políticas.
A
dupla Amadou & Mariam de volta ao programa, desta feita com o tema “Les
Temps Ont Changé”, extraído do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara),
editado em 2002. Uma música onde o casal critica o individualismo das novas
gerações, utilizando a mais roqueira pop africana. Um afropop
blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e
riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas
como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. E como é habitual, não
faltam as alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao
amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música
tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por
convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o
marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e
Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais
tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs,
banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e
conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A
partir de então tornaram-se inseparáveis na vida e na carreira. Cantando em
francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia
maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a
pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o
funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual
recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis
que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando
universal a música daquele país.
A viagem
prossegue com Richard Hagopian e Omar Faruk Tekbilek, que nos trazem "Kadife",
tema extraído do álbum "Gypsy Fire", lançado em 1995. Uma recriação do ambiente
underground multiétnico da Oitava Avenida em Nova Iorque na década de
1950, onde ciganos, arménios, turcos, judeus, gregos e árabes tocavam juntos.
Álbum que reúne alguns dos melhores músicos do Médio Oriente, Europa de Leste e
Estados Unidos da América, e em que participam ainda o lendário saxofonista
turco Yuri Yunakov; Hasan Iskut, tocador de kanun, o "piano" da música
turca; o violinista Harold Hagopian, filho de Richard Hagopian; o percussionista
Arto Tunçboyaciyan; o guitarrista Ara Dinkjian e o baixista Chris Marashlian.
Considerado um dos melhores tocadores de alaúde do planeta, Richard Hagopian é
também um dos mais reconhecidos músicos e etnomusicologistas de ascendência
arménia. Ele nasceu na Califórnia, nos Estados Unidos, e aprendeu a tocar
violino e clarinete aos oito anos. Mais tarde, estudou com o famoso artista
arménio Garbis Bakirgian. Hoje diz tocar mais de cinquenta instrumentos. Omar
Faruk Tekbilek é também um virtuoso multinstrumentista. Ele iniciou a sua
carreira musical aos oito anos com a kaval (uma pequena flauta
diatónica), tendo aprendido a tocar instrumentos como a ney (flauta de
bambú), a zurna (tipo de oboé), a baglama (alaúde de braço
comprido) ou o oud (alaúde árabe). A sua música, enraizada na tradição
turca, foi influenciada por múltiplos estilos e instrumentações árabes e
orientais, emanando misticismo, romance e imaginação. Radicado em Nova Iorque,
ele colabora sobretudo com o produtor e guitarrista norte-americano Brian Keane,
a cujas bases electrónicas acrescenta os sons da flauta e da
percussão.
Os
Les Boukakes apresentam-se com o tema "Sidi H’Bidi", extraído do seu último
álbum "Bledi", editado em 2004. Um trabalho onde o raï argelino e o
gnawa marroquino surgem à mistura com o rock e a música
electrónica, provando ser possível e agradável a combinação entre ocidente e
oriente. Esta banda masculina de sete elementos, formada em 1998, é liderada
pelo cantor argelino Bachir Mokhtare e inclui músicos tunisinos e franceses. Os
Boukakes, que no passado mês de Novembro foram nomeados para os BBC Radio 3
Music Awards, foram buscar o seu nome à mistura fonética de dois típicos
insultos racistas. Uma reacção - pouco chocante, no entender deles - às
referências menos abonatórias que costumavam receber quando se estrearam nas
ruas. Sem fazerem comentários políticos ostensivos nas suas canções, os Boukakes
apelam deliberadamente à resistência ao status quo e à ignorância
generalizada. Letras que são combinadas com melodias orientais e instrumentos
diversos, como o karkabou/qarqabou (grandes castanholas metálicas
marroquinas), a derbouka (instrumento de percussão magrebino), o
bendir (outro instrumento de percussão), o tar (alaúde
iraniano), o duf (espécie de pandeireta), a tabla, o
banjo, a guitarra ou o baixo. Anos depois, eles passaram das ruas para
os bares e dos pequenos concertos para os festivais, encontrando finalmente o
seu público. Desde então, têm partilhado o palco com músicos e bandas famosas
como os Zebda, The Wailers, Manu Chao, Natacha Atlas, Taraf De Haïdouks, Cheikha
Rimitti e Rachi Taha. Em 2004, o seu raï n'rock conquistou finalmente
grande projecção, ao ganharem diversos prémios
profissionais.
Seguem-se os Djamo, que mais uma vez regressam ao programa,
trazendo-nos agora o tema "Rumelàj", extraído do álbum "Chants Tziganes
Métissés". Um ensemble françês que tem como repertório principal os cantos e a
música cigana mestiça. Este jovem grupo originário da região de
Poitou-Charentes, localizada no centro-oeste de França, leva-nos à descoberta
das músicas ciganas e magrebinas. Neste álbum, eles são acompanhados por outros
embaixadores dos sons mestiços, entre eles os Dikès e, precisamente, os Opa
Tsupa.
A fechar o programa, despedimo-nos com Badi Assad e o tema
"1000 Mirrors", extraído do seu último trabalho "Wonderland", editado este ano.
Este foi produzido por Jacques Morenlenbaum, e conta com a participação especial
de Seu Jorge, entre outros músicos. Um álbum onde Badi Assad desmonta uma série
de espelhos humanos, falando com a voz e com a percussão do próprio corpo sobre
a violência doméstica, o alcoolismo ou a prostituição. Badi, cujo verdadeiro
nome é Mariângela, foi baptizada em pequena pela mãe com parte do apelido
Os
valencianos L’Ham de Foc (Anzol de Fogo) regressam mais uma vez ao programa,
desta feita com “Tristos Ulls”, tema extraído do seu terceiro e último álbum
“Cor de Porc” (Coração de Porco), editado no ano passado. Desde 1998 que os
L’Ham de Foc se servem de mais de trinta instrumentos acústicos mediterrânicos –
darbuka, bendir, gaitas galega e búlgara, violino, sanfona,
saltério, bouzouki, alaúde e cítara são alguns deles – para criarem
atmosferas intensas e mágicas. Utilizando uma orquestração tradicional, mas
socorrendo-se de uma linguagem actualizada, os L’Ham de Foc entrelaçam a música
medieval ocidental, do Médio Oriente ou do Mediterrâneo oriental, num universo
de sons africanos, europeus e orientais, criando um conglomerado sonoro que se
concentra em redor do Mediterrâneo. As percussões são a base para os textos e
melodias modais tecidas pela voz de Mara Aranda, que é acompanhada por
instrumentos de corda e sopro, tocados por Efrén López. Contrariando a tendência
crescente da folk actual pelos ritmos electrónicos, os L’Ham de Foc
confiam na simplicidade do som acústico e na pureza da música medieval. Algo que
os tornou uma referência em todo o mundo no que toca à música
tradicional.
O galego Xosé Manuel Budiño com "Eixe Elástico", mais um tema
extraído do seu segundo álbum "Arredor", lançado em 2000. Um trabalho eclético e
vanguardista, em que este jovem de Moaña - localidade com grande tradição
gaiteira, situada junto a Pontevedra - pretendeu dar um salto definitivo na sua
carreira artística. O álbum aproxima-se de géneros como o funky, o
drum'n'bass, o rock, a new age e a folk,
numa panóplia de ritmos e timbres que fazem dele um dos mais ousados tendo como
protagonista um instrumento tradicional. Xosé Manuel Budiño procura então
adaptar a gaita-de-foles à era da música electrónica, servindo-se da técnica
para extrair dela e de outros instrumentos um universo infinito de harmonias,
melodias e ritmos. Outro objectivo de Budiño é o de dar a conhecer a música
criada na Galiza, numa viagem em redor de territórios físicos e sonoros. Entre
outros instrumentos, nos doze temas deste disco fazem-se ouvir as gaitas galega
e irlandesa, o low whistle, o bouzouki, o baixo, o acordeão e
o clarinete. Um trabalho onde participam os músicos Leandro Deltell, Xan
Hernández, Pedro Pascual, Xavier Díaz e Pablo Alonso, e em que são convidados
especiais José Climent, o bretão Jacky Molard, as galegas Leilía e Mercedes
Peón, os escoceses Donald Shaw e Tony McManus, bem como Ove Larsson, Paco Ibáñez
e William Gibbs.
Avançamos agora até à África do Sul com o tema "Yekanini" (Tudo Está
Perdido), extraído do álbum "Introducing Shiyani Ngcobo", lançado em 2004. O
mestre da maskanda nasceu em Umzinto, na costa sul de KwaZulu-Natal,
região marcada pela pobreza e pelo êxodo urbano. Na infância, foi com o irmão
mais velho que Shiyani Ngcobo construiu a sua primeira igogogo, uma
guitarra feita a partir de uma lata de óleo. Fiel à estética inicial da
maskanda, há mais de três décadas que o músico se dedica a este género,
associando-lhe no entanto uma variedade de ritmos provenientes de outros estilos
musicais. Com uma precisão elástica e um repertório diversificado, Shiyani
Ngcobo dá voz aos dilemas e sonhos de uma geração de sul-africanos dos tempos do
apartheid, sem no entanto cair nos seus estereótipos. A
maskanda é um estilo tradicional zulu, surgido no início do
século XX e associado aos trabalhadores e migrantes rurais, os quais cantavam
sobre a sua nova vida na cidade e lembravam com nostalgia o passado no campo.
Originalmente consistia numa técnica musical, conhecida por ukupika,
que mais não era senão uma forma de adaptar ritmos tradicionais à guitarra
acústica. Um género identificável pelas secções rápidas faladas ao estilo da
izibongo, a poesia religiosa zulu. Na maskanda, em
que subsistem reminescências dos tempos pré-coloniais, cada variante surge
associada a uma comunidade regional sul-africana, diferenciando-se de acordo com
os ritmos ou diferentes padrões de dança.
Uma viagem até ao Mali com Issa Bagayogo e o tema “Saye Mogo Bana”,
extraído do álbum “Timbuktu”, o segundo deste cantautor e editado em 2002. Issa
Bagayogo cresceu numa pequena aldeia isolada, tendo então aprendido a tocar a
kamele n’goni (uma harpa de caçador, equipada com seis cordas). Nos
anos 90 foi até à capital, Bamako, onde conheceu o produtor Yves Wernert e o
guitarrista Moussa Kone. Juntos decidiram fundir dois géneros tradicionais da
música do Mali – o mandig e o wassoulou – com o
techno (no seu país, Bagayogo é mesmo conhecido por “Techno-Issa”). O
resultado é um género chamado de afro-electro. As sonoridades
griot e as velhas melodias do deserto cruzam-se então com a
dub e com a música electrónica de dança. Um híbrido entre sons
tradicionais e electrónicos que abre novas fronteiras às centenárias raízes
Wassulu do sudoeste do Mali. O nome escolhido para este trabalho presta
homenagem à cidade maliana que outrora integrou a rota de caravanas que
atravessava o Saára e que foi um importante centro de expansão do Islão. Nas
letras deste disco, Issa Bagayogo deixa mesmo clara a esperança de que Timbuktu,
capital intelectual e espiritual no final da dinastia Mandingo Askia (século
XVI) seja uma cidade multi-étnica, onde muçulmanos, cristãos e vários grupos
étnicos do Mali consigam viver em tranquilidade. Acompanhado por um coro
feminino, Issa Bagayogo aborda assuntos como a comunidade, o casamento, a
tolerância racial, a globalização e a toxicodependência. No tema que escutámos,
a morte é a principal referência. Uma canção antiga, à mistura com percussão e
cordas eléctricas, onde se recorda que "a morte leva-nos a carne mas não o
nome”…
A
abrir a emissão os Tuatara com o tema "Breaking The Ethers/Serengeti", extraído
do seu primeiro álbum "Breaking The Ethers", lançado em 1997. Um trabalho
instrumental que foi bem acolhido pela crítica devido à sua originalidade e
expressão musical. Nele são reunidas várias jam sessions em que o
quarteto utiliza instrumentos exóticos como o didgeridoo, os tambores
de aço, as percussões africanas, o bandolim e o alaúde. O disco abre com sons
étnicos que rapidamente ganham ritmo e percussão. Esta banda experimental
mistura referências como o rock, o bebop, o jazz, o
funky ou o lounge, criando um som em que extravasa a diversão
e que se tornou conhecido sobretudo pela sua utilização em bandas sonoras para
cinema e televisão. Entretanto os Tuatara têm vindo a cruzar a instrumentação ao
vivo com as misturas electrónicas de vários DJ's. Este colectivo de compositores
norte-americanos nasceu em Seatle, em 1997. Integram o grupo Barrett Martin
(ex-percussionista dos Screaming Trees), Mad Season, Steve Berlin (dos Los
Lobos), Justin Harwood (antigo baixista dos Luna), Scott McCaugghey, Peter Buck
(ambos dos REM) e Skerik (lendário saxofonista de Seatle). A título de
curiosidade, a tuatara - nome que em maori significa "dorso espinhoso"
- é um réptil da Nova Zelândia, praticamente extinto, e que pouco mudou nos
últimos 220 milhões de anos.
As músicas do mundo prosseguem com os belgas Urban Trad e o tema
"Baline", extraído do seu trabalho de estreia "One O Four", editado em 2001.
Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional
com ritmos modernos, criando uma folk urbana, influenciada por um
ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux,
compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena
tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente
se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a
juntar outros músicos aos Urban Trad. O momento alto da carreira da banda
aconteceria no Festival Eurovisão da Canção de 2003, na Letónia. Os oito
elementos do grupo conquistaram então um segundo lugar e o grande público com
uma canção interpretada num idioma imaginário e que levou pela primeira vez o
timbre da gaita-de-foles para a Eurovisão. Volvidos três álbuns, o repertório
dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a
França, a Espanha e os países de Leste. Um grupo de inspiração tradicional, mas
ancorado no presente, já que acompanha instrumentos acústicos como o acordeão, o
violino e a flauta com o canto e uma secção rítmica cheia de energia e
musicalidade.
A viagem prossegue com o finlandês Kimmo Pohjonen e o tema
“Kova”, retirado do álbum “Kielo”, lançado em 1999. Uma série de peças a solo,
algumas delas acústicas, outras manipuladas, que estabeleceram um novo parâmetro
para a nova avant garde. Com uma carreira de vinte anos, repartida
entre a folk, a música clássica e o rock, o músico e
compositor Kimmo Pohjonen mistura de forma única o acordeão com amostras de som
e percussões, levando-o para universos como a dança contemporânea ou o teatro
musical. Pohjonen, que nasceu na aldeia de Viiala, começou a tocar acordeão aos
oito anos por influência do pai. Na Academia Sibelius, em Helsínquia, foi
encorajado a absorver a folk e a misturá-la com outros estilos. Para
expandir a sonoridade do fole diatónico, em 1996 Kimmo apresentou-se em palco
com um acordeão cromático e com composições originais que integravam
samples e loops do islandês Samuli Kosminen, com quem viria a
formar o duo Kluster. Mais tarde, a eles juntaram-se Pat Mastrelotto e Trey Jun,
dando lugar ao quarteto Kluster TU. Entretanto, Pohjonen tem vindo a colaborar
com músicos finlandeses como Heikki Leitinen, Maria Kalaniemi, Alanko Saatio ou
Arto Järvellä, integrando ainda os grupos de new folk Pinnin Pojat e
Ottopasuuna. Apesar dos mais de 13 quilos do acordeão, em palco Pohjonen
movimenta-se de forma enérgica, extraindo de forma electrónica camadas de som a
que por vezes adiciona a própria voz. Actualmente mais voltado para o formato
acústico, Kimmo Pohjonen mantém no entanto como base as raízes e os cantos
populares da Finlândia, tocando com primazia outros tipos de acordeão, harmónica
e ainda a marimba. Tradição e improviso estão assim unidos, numa busca de novos
sons através da música experimental e electrónica.
Segue-se Rokia Traoré com o tema “M’Bifo”, extraído do álbum
“Bowmboï”, editado em 2003. Neste seu terceiro álbum, a mais jovem diva do Mali
dá uma expressão moderna aos instrumentos tradicionais africanos que
habitualmente não surgem juntos, combinando o n’goni com a
balaba (grande balafon da região de Beledougou, a terra natal
de Rokia) e inovando nas estruturas rítmicas e melódicas da música de raízes
étnicas da África Ocidental. Filha de um diplomata maliano, Rokia Traoré
construiu a sua carreira em França antes de regressar ao seu país. Mesmo não
sendo uma griot – ela pertence ao grupo étnico Bamana, a maioria dos Bambara –
ela decidiu escolher o canto como carreira. Durante a adolescência integraria
várias bandas, até que em 1996, aos 22 anos, resolveu encarar a música de forma
profissional. A voz de Rokia Traoré não possui a força de Oumou Sangare ou a
profundidade de Kandia Kouyate, mas é delicada e intensa, apresentando-se cheia
de nostalgia e de esperança. Co-produzido por Rokia e Thomas Weill, este disco
escapa aos estereótipos com que por vezes o ocidente olha para a música
africana. Os dez temas foram compostos em bamana, a língua nativa de
Rokia Traoré. Nas músicas, onde esta canta a solo ou lado a lado com Ousmane
Sacko e Charlotte Dipanda, Rokia Traoré fala sobre a infância, as fragilidades
dos relacionamentos, os direitos das mulheres, a pobreza, a discriminação racial
ou a vida diária no Mali. Grande parte do trabalho foi gravado naquele país, à
excepção dos dois temas em que participa o grupo de cordas Kronos Quartet, os
quais foram registados em São Francisco.
A
fechar o programa, despedimo-nos com Res, Tony Allen, Ray Lema, Baaba Maa,
Positive Black Soul e Archie Shepp. Todos eles se juntam no tema “No Agreement”,
parte integrante do álbum "Red Hot +: The Music and Spirit of Fela Kuti”, um
tributo gravado em 2002 pela Red Hot com o objectivo de angariar dinheiro para
os 25 milhões de africanos infectados com o HIV. São novas versões das músicas
de Fela Kuti, aqui interpretadas por quase quarenta grupos e artistas, que as
resgataram do passado e remisturaram de acordo com o seu estilo. Praticamente
irreconhecíveis em relação aos originais, estes temas cobrem um vasto especto
musical que passa pelo hip-hop, jazz, soul, afrobeat,
world music, electronic e rock. Percursor da
afrobeat e considerado o maior nome da música africana, Fela Kuti
transformou-se num ícone da luta contra a sida em África ao ter morrido em 1997
devido a complicações relacionadas com a doença. Algo irónico tendo em conta que
o músico nigeriano acreditara durante muito tempo que a sida não
existia.
As músicas do mundo continuam com os Gaiteiros de Lisboa, que nos
trazem o tema "Nós Daqui Vós Dali", extraído do álbum "Dança Chamas", gravado ao
vivo em Outubro de 2000 no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém. São
novos arranjos das versões registadas em estúdio, numa viagem pelo romanceiro
tradicional e pela história da música popular portuguesa que tem por convidados
José Mário Branco, Danças Ocultas, Vozes da Rádio e Tocá Rufar. Desde 1991 que
os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa,
baseando-se nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das
gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. O experimentalismo deste
grupo, que utiliza ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e
o clarinete, leva-o a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de
Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone”
(aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta
simples). Juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas)
e o sanfonocello (sanfona baixo). Criando um ambiente de festa,
recheado de sons desconhecidos e de percussões populares, os Gaiteiros de Lisboa
ressuscitaram o gosto por uma certa música portuguesa de raiz tradicional,
arrastando para os seus concertos verdadeiras multidões de pessoas a quem estas
músicas pouco ou nada diziam.
Os portugueses Dazkarieh trazem-nos "Olhos de Maré", tema
extraído do seu último álbum "Incógnita Alquimia". Neste trabalho, apresentado
no final de Setembro no Mosteiro dos Jerónimos, o grupo demonstra uma sonoridade
mais coesa, mantendo no entanto a busca incessante de sons acústicos que se
fundam na música tradicional. Conhecida por navegar entre os sons da Irlanda,
Índia, África, Andes, Espanha e Balcãs, esta banda lisboeta propõe-nos uma
viagem pela diversidade musical do planeta. Um projecto que procura a sua alma
sonora nas culturas mais díspares. Os instrumentistas dos Dazkarieh, cuja
formação vai da música tradicional, experimental e erudita ao rock, servem-se,
entre outros, do bouzouki e da flauta transversal, da
nyckelharpa (harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas) e
do cavaquinho, da gaita transmontana e do bandolim. Formados em 1999 por Filipe
Duarte, José Oliveira e Vasco Ribeiro Casais, os Dazkarieh começaram por ser
conotados com o som celta e a folk gótica. Mais tarde, com a fusão de
materiais musicais tão diferenciados, e já assumidamente ligados à chamada
world music, o grupo integrou então cinco novos elementos, passando a
conceber canções em língua portuguesa. Recorde-se que até então o "dazkariano"
era a base linguística de todas as suas
músicas.
A jornada prossegue com Trilok Gurtu e o tema “Tuhe”, extraído
do álbum "The Beat of Love", editado em 2001. Gurtu, cujo avô era um conhecido
tocador de cítara e a mãe uma estrela do canto clássico, tornou-se conhecido
como membro dos Oregon, uma banda de fusão world/jazz. Cinco vezes
eleito o melhor percussionista do planeta pela revista “Downbeat”, título ganho
pela ponte que criou entre a música do Oriente e Ocidente, Trilok Gurtu mistura
ritmos indianos, executados com a tabla, com elementos do jazz, da
música de dança, do rock, da música clássica e da música étnica de todo
o planeta. Este ano, ele regressou à tradição indiana, apoiado pelos cantores
Rajan e Sajan Misra, e apresentando o khylal, espécie de cântico
hipnótico. O virtuosismo deste indiano, natural de Bombaim, transformou-o num
dos grandes vultos do post-jazz, do jazz de fusão e do
avant-garde. Ele tem colaborado com génios da música como Jan Garbarek,
Ravi Shankar ou David Gilmour, destacando-se na comunidade jazzística por surgir
ao lado de nomes como Don Cherry, John McLaughlin, Joe Zawinul ou Pat
Metheny.
A fechar o programa os Zuco 103 e o tema "Peregrino", numa
remistura de David Walters, artista e produtor estabelecido em Marselha e que
fez parte do colectivo Zimpala. Um tema recheado de breakbeat e
extraído do álbum "One Down, One Up", duplo CD editado em 2003 e que se divide
entre temas acústicos, actuações ao vivo e remisturas. Os Zuco 103 misturam
house com maracatu e drum'n'bass com samba,
entre outros ritmos brasileiros e electrónicos. Pioneiros na fusão de ritmos de
dança naquele país, eles são formados pela vocalista brasileira Lilian Vieira,
pelo baterista holandês Stefan Kruger e pelo teclista alemão Stefan Schmid. Os
dois músicos, que formavam já um dueto de jazz, decidiram dar alguma frescura à
banda, convidando uma cantora do Rio de Janeiro que haviam conhecido no
Conservatório de Roterdão.
As músicas
do mundo prosseguem com os Lúnasa e o tema "Morning Nightcap", extraído do álbum
"The Merry Sisters of Fate", lançado em 2001. Na Irlanda, ainda hoje o mês de
Agosto é conhecido por Lúnasa - o termo original era Lughnasadh -, uma alusão ao
antigo festival celta outrora realizado no primeiro dia de Outono em honra do
deus irlandês Lugh, patrono das artes. Este quinteto instrumental, criado em
1997, contraria a tendência de fundir a música tradicional com o rock,
a pop ou a música electrónica. No enteder dos Lúnasa, a renovação da
música celta passa pela tradição, embora eles não fechem portas a novas
sonoridades. O grupo transporta a música acústica do seu país para novos
territórios, acudindo directamente ao coração dos ritmos. Inspirados pela The
Bothy Band, referência dos anos de 1970, os novos deuses da música irlandesa
juntam de maneira singular o violino, a flauta, o whistle, o baixo e a
guitarra acústica, explorando também as raízes bretãs e galegas. Ao baixista
Trevor Hutchinson (ex-Waterboys) e ao guitarrista Paul Meehan (que veio
substituir Donogh Hennessy, antigo membro da Sharon Shannon Band) juntam-se
então o violinista Seán Smyth e as flautas e gaitas irlandesas de Kevin Krawford
e Cillian Vallely. Graças aos seus arranjos inventivos e ao som enérgico com
influências do jazz, blues, rock, country e outras
formas de improviso, os Lúnasa definiram um novo standard para a música
irlandesa de raízes tradicionais.
A
viagem prossegue com os African Rhythm Travellers e o tema "Khululuma", extraído
do album "Putumayo Presents African Groove", editado em 2003. Os African Rythm
Travellers nasceram em Joanesburgo, na África do Sul, em 2001, fruto da
colaboração entre os membros dos Colorfields, uma banda performativa da Cidade
do Cabo, e os The Branch, um grupo local de afro-reggae. Eles juntam o
kwaito com o funk, o reggae, a dub, a
house e a música electrónica, criando uma mistura única de ritmos e
melodias africanas a que chamaram de african dance. São sons tribais
que se cruzam com géneros urbanos. Os African Rhythm Travellers são formados por
Ben Amato (teclados, guitarra, saxofone e flauta), Eric Michot (baixo), Ash Read
(tambores), Lennox Olivier (percussões), Danial "Dials" Gous (guitarra), Judah
(vozes) e Kirsten Olivier (teclados), incorporando no seu repertório a
sonoridade do bongo, do saxofone e mesmo da flauta. As letras são apimentadas
com comentários sociais e espiritualidade rastafari. O objectivo da sua
música é dar algo positivo ao mundo e abrir o seu universo musical a toda a
gente, numa mensagem que apela à consciencialização.
A
jornada musical prossegue com Hasna El Becharia e o tema “Hakmet Lakdar”,
extraído do álbum “Djazaïr Johara”, editado em 2001. Os ritmos e melodias dos
escravos negros africanos e dos imigrantes e seus descendentes são parte da
cultura musical do norte de África. Uma herança que em Marrocos tem o nome de
gnawa, e na Argélia é chamada de diwan de Bechar. É
precisamente em Bechar, cidade situada no sul da Argélia, junto ao deserto do
Sáara, que vive Hasna El Becharia, a rainha do diwan e da vibrante
música de casamentos. Em 1972 ela formou um grupo com três amigos, começando por
tocar na guitarra acústica os ritmos tradicionais do deserto. O sucesso nas
festas não se faz esperar, e para se destacar das vozes do público, que cantava
em coro as suas canções, Hasna El Becharia decide enveredar pela guitarra
eléctrica. A fama estende-se então a todo o sul da Argélia. Apesar de dominar a
utilização de instrumentos afro-magrebinos como o gumbri (baixo de três
cordas do Sáara) ou a krakesh (espécie de castanholas de metal), e de
tocar também oud, derbouka, bendir e banjo,
a guitarra é a sua vida. Em mais de cinquenta anos de carreira, Hasna El
Becharia gravou apenas um trabalho. Tudo porque os produtores argelinos nunca
lhe inspiraram confiança. Neste disco, em que participam músicos da Argélia,
Marrocos, Tunísia e Níger, Hasna El Becharia explora o som das guitarras e dos
timbres vocais, deixando transparecer o seu profundo sentido de improviso e
composição.
O percusionista Gamal Goma traz-nos o tema “Sahra Saidi”, extraído do
álbum “Shake Me Ya Gamal”, lançado em 2003. Gamal Goma nasceu em Giza, no
Egipto, e graduou-se na Academia de Música do Cairo, acumulando duas décadas de
experiência com os mais famosos ensembles do Médio Oriente e América. Na capa
deste disco, uma colecção de solos de percussão, cada um baseado num ritmo
particular – saidi, malfoof, maqsum,
ayyoub, khaliji ou fallahi –, ele surge ao lado da
dançarina Fifi Abdou. Especialista na tabla (tambor indiano), Gamal
Goma toca também doholla (tabla grave), mazhar (pandeireta
gigante), riqq (pandeireta árabe), sagat (timbales de dedo) e
dufs (espécie de pandeireta). Neste trabalho podemos conhecer algumas
composições para raqs sharki, termo árabe para dança do ventre, e que
traduzido literalmente equivale a “dança do Oriente”. Um género enraizado numa
dança levada a cabo em celebrações comunitárias e dançada por todos os membros
da comunidade. Com o crescimento do Islão veio a segregação entre homens e
mulheres, mas no século XX o desenvolvimento dos media precipitou a sua
dissolução. Com a introdução da dança do ventre nos Estados Unidos pelo
vaudeville e pelos espectáculos burlescos, esta popularizou-se em todo
o mundo. Se no Egipto e Líbano a dança do ventre é acompanhada pelo oud
(alaúde), a kanoun (cítara arménia), o kaman (violino árabe),
a nay (flauta egípcia de bambu), a rababa (cordofone de arco,
principal instrumento da música afegã), o mizmar (clarinete árabe), o
dumbek (tambor egípcio), a tabla ou a riqq, nas
danças turcas têm lugar o saz (instrumento de cordas), o
azoukie (alaúde comprido), a kanoun, o dumbek e a
zurna (flauta de montanha).
Os suecos
Garmarna trazem-nos o tema "Min Man" (O Meu Marido), extraído do álbum “Live”,
editado em 2002. Esta banda de rock, formada em 1990, canta velhas
lendas da música tradicional do seu país, falando de bruxas más, madrastas
tenebrosas e de princesas indefesas. Convém explicar que na mitologia sueca os
Garmarna eram os cães que guardavam a porta do inferno. Uma imagem metafórica
que se transpõe facilmente para os cenários sonoros criados por este quinteto,
que oscila entre as estéticas anglo-saxónicas e os ambientes da música
tradicional sueca. No entanto, os Garmarna não fazem questão de perpetuar
tradições. O que eles querem é tocar com a vontade do momento, com tudo o que
isso tenha de eterno ou de efémero. Um som único, influenciado pelo
rock, e que remistura a instrumentação antiga com amostras de batidas,
harpas, violinos e guitarras distorcidas.
acid jazz, latin lounge

As músicas
do mundo prosseguem com os Gaiteiros de Lisboa, que nos trazem “Sátiro”, tema
que dá nome ao seu último álbum, editado em Junho. Cada vez mais voltados para o
Mediterrâneo, neste seu quarto trabalho de originais os Gaiteiros de Lisboa
abarcam desde os sons de Trás-os-Montes às polifonias alentejanas, passando pelo
fado. Nele são convidados Mafalda Arnauth e o violinista Manuel Rocha, da
Brigada Vítor Jara. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma
inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se nas tradições vocais, nos
ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um
ar medieval. O experimentalismo deste grupo, que utiliza ainda a sanfona, a
trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, leva-o a reinventar ou
criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas
simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete
acabaçado” (aerofone de palheta simples). Neste trabalho juntam-se-lhes ainda os
cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo).
Um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões
populares.
Seguem-se os The Soul Brothers e o tema “Thandaza”, extraído
do álbum “Amanikiniki”, lançado em 1999. Grupo que é o exemplo supremo das
típicas harmonias mbaqanga, próximas do gospel, que durante
três décadas dominaram a música urbana sul-africana. Na luta dos jovens
africanos contra o Apartheid, a pop tradicional e o mbaqanga
deram espaço à música modelada pela soul americana e mais tarde pela
disco. O som dos Soul Brothers, banda que melhor encarnou o conceito da
soul sul-africana, cativou sobretudo os trabalhadores que então foram
obrigados a deixar o campo para procurar trabalho na cidade. Desde a sua
formação, em 1974, que eles já gravaram mais de trinta álbuns. A banda foi
construída com o baixista Zenzele "Zakes" Mchunu, o percusionista David Masondo
e o guitarrista Tuza Mthethwa, que tocaram pela primeira vez juntos nos Groovy
Boys em Kwazulu Natal, e mais tarde nos Young Brothers. Em Joanesburgo
junta-se-lhes o teclista Moses Ngwenya, enquanto que David Masondo troca as
percussões pela voz, surgindo então os Soul Brothers. Da formação original
restam apenas Masondo e Ngwenya. Hoje são cinco cantores e três saxofones
liderados por Thomas Phale, sendo os Soul Brothers a única banda jive
que sobreviveu ao nascimento da disco, a antiga bubblegum que
hoje se designa por música kwaito.
A jornada musical prossegue com Mercan Dede, um dos mais
importantes artistas turcos, e o tema “Huo”, extraído do álbum “Nefes”, editado
em Junho. Radicado em Montreal, no Canadá, Mercan Dede mistura a música
tradicional com batidas electrónicas. Ele desenvolve duas carreiras paralelas:
como Arkin Allen é um DJ especializado em hard techno; como Mercan Dele
mistura a tradição do sufismo com estilos contemporâneos. Com o seu ensemble de
músicos turcos e canadianos, fundado em 1998 e formado pelos músicos Mohammad,
Farokh Shams e Ben Grossman e pela dançarina Isaiah Sala, Mercan Dede funde as
tradições espirituais da música sufi com sons actuais, criando uma
mistura única entre o Oriente e o Ocidente. Nas suas actuações, ele utiliza
instrumentos de origem turca como a ney (flauta de cana) e a
kanun (cítara), e mistura as percussões do Médio Oriente com sons
electrónicos, tudo isso enquanto que um dervish dança em palco. No
álbum “Nefes” (Respiração), o terceiro de uma série de quatro que começou com
Nar (Fogo) e continuou com Su (Água), Mercan Dede cria uma fusão que captura a
magia do Oriente, os elementos místicos, a instrumentação tradicional e os sons
electrónicos.
Smadar
Levi traz-nos “Ghali Ya Bouy”, tema extraído do álbum “Smadar”, editado em 2004.
Uma visão diferente da raqs sharki, tradução literal do termo árabe
para dança do ventre, que quer dizer “dança do Oriente”. Um género que se
popularizou em todo o mundo depois da sua introdução nos Estados Unidos pelas
mãos do vaudeville e dos espectáculos burlescos. Filha de pais
marroquinos, Smadar Levi cresceu em Israel a ouvir música egípcia e tunisina. A
sua música, que combina temas originais e tradicionais, reflecte a diversidade
do povo judaico, incorporando tradições israelitas, espanholas, africanas e
gregas. Ela canta em hebreu, árabe, grego e ladino, a língua medieval
dos judeus em Espanha. Entretanto, depois de ter tocado com músicos ciganos na
Roménia, Espanha e Turquia, ela decidiu também misturar a sua música com sons
ciganos. Foi em 2000, depois de se ter mudado para os Estados Unidos, que Smadar
Levi conheceu o cantor e violinista marroquino Rashid Halihal, com quem formaria
um trio. Quatro anos depois formava a sua própria banda, juntando músicos de
Israel, Líbano, Turquia, Marrocos e Palestina. Actualmente, Smadar Levi vive em
Nova Iorque, onde trabalha com músicos como Uri Sharlin, Emmanuel Mann, um dos
melhores baixistas israelitas, e o português Pedro da Silva, que a acompanha com
a cítara e a guitarra clássica.
french
pop, rock
O
finlandês Kimmo Pohjonen a abrir a emissão com o tema “Keko”, extraído do álbum
“Kluster”, editado em 2002. Com uma carreira de vinte anos, repartida entre a
folk, a música clássica e o rock, Kimmo Pohjonen mistura de
forma única o acordeão com amostras de som e percussões, levando-o para
universos como a dança contemporânea ou o teatro musical. Pohjonen, que nasceu
na aldeia de Viiala, começou a tocar acordeão aos oito anos por influência do
pai. Na Academia Sibelius, em Helsínquia, foi encorajado a absorver a
folk e a misturá-la com outros estilos. Para expandir a sonoridade do
fole diatónico, em 1996 Kimmo apresentou-se em palco com um acordeão cromático e
com composições originais que integravam samples e loops do
islandês Samuli Kosminen, com quem formou o duo Kluster. Mais tarde, a eles
juntaram-se Pat Mastrelotto e Trey Jun, dando lugar ao quarteto Kluster TU.
Entretanto, Pohjonen tem vindo a colaborar com músicos finlandeses como Heikki
Leitinen, Maria Kalaniemi, Pinnin Pojat, Alanko Saatio ou Arto Järvellä. Os sons
que este extrai do acordeão, a sua voz, misturam harmonia e ruído. Actualmente
mais voltado para o formato acústico, Kimmo Pohjonen mantém no entanto como base
as raízes e os cantos populares da Finlândia. Tradição e improviso estão assim
unidos, numa busca de novos sons através da música experimental e
electrónica.
As músicas do mundo prosseguem com Jacques Pellen, um dos melhores
guitarristas bretões e um talentoso músico de jazz, e o colectivo Celtic
Procession. Eles trazem-nos o tema “Feunteun Wenn”, extraído do álbum “Celtic
Procession Live – Les Tombées de la Nuit”. Um trabalho gravado em Rennes por
doze músicos a propósito do décimo aniversário daquela big band de
geometria variável, criada em 1988. Um colectivo que reúne uma dezena de músicos
tradicionais bretões e de jazz com a mesma paixão de Jacques Pellen pelo
improviso. Com referências tão diferentes quanto o pianista de jazz Keith
Jarrett, o compositor clássico Schönberg ou o o guitarrista bretão Dan Ar Braz,
eles tentam misturar o jazz com temas e instrumentações de inspiração celta
bretã, adicionando-lhes mesmo o rock e sons africanos.
A viagem prossegue com Malek Ridzuan e o tema “Andainya Kau
Sudi”, extraído do álbum “10 Best of The Best”. Veterano da actual cena musical
malaia, Malek Ridzuan canta uma mistura de pop e melodias tradicionais
da Malásia, tendo na década de 80 enveredado pelo asli, um conhecido
género de dança. Um país asiático onde se combinam as influências das vizinhas
Indonésia e Tailândia e também do Ocidente, criando uma mistura de culturas e
estilos musicais. A existência de quatro grandes etnias na Malásia – malaia,
árabe, indiana, chinesa e ocidental – fez igualmente com que a música local se
diversificasse em géneros tradicionais e modernos, servindo estes de caminho a
muita da pop e música comercial daquele país. Do ghazal
(“poema de amor” em árabe) tocado nos casamentos, ao masri, ritmo do
Médio Oriente, passando pelos cinco tipos de ritmo de dança: tarian
melayu, asli, inang, joget e zapin. Uma
mistura incrementada com a chegada a Malaca dos portugueses no início do século
XVI, que para aí levaram o violino, o acordeão e a rebana (um
membrafone cónico de grandes dimensões), e com a colonização britânica no final
do século XIX. Por volta de 1920 aparece então a bangsawan (ópera
malaia), cujos músicos começam a modernizar os estilos tradicionais de dança da
Malásia.
A jornada prossegue com Tiken Jah Fakoly e o tema “Sauver”,
extraído do seu sétimo álbum “Coup de Gueule”, lançado em 2004. Um disco em que
Tiken Jah Fakoly segue os caminhos do reggae africano de Alpha Blondy,
fazendo uma ponte com a Jamaica, e mergulhando na tradição mandingo sem
no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké,
Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de
uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da
tradição oral de uma família, povo ou país. Neste álbum, o porta-voz da jovem
geração da Costa do Marfim, exilado entre Bamako e Paris, ataca os regimes de
alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as
desigualidades que todavia subsistem no continente, bem como a hipocrisia das
religiões monoteístas. Fakoly apresenta temas em francês e em dioula, a
língua da sua etnia e que é falada no norte da Costa do Marfim, na Guiné, no
Mali e no Burkina Faso. Um trabalho de novo realizado por Tyrone Downie, e que
conta com os ritmos de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, que nos trazem os
inconfundíveis sons do balafon, da kora e do ngoni.
Outros artistas do mundo ajudam o rebelde tranquilo a alargar a sua música a
outros horizontes. Entre eles estão Didier Awadi, dos Positive Black Soul e um
dos fundadores do hip-hop senegalês, e os irmãos Amokrane de Zebda e
Magyd Cherfi.
soul jazz, afro-pop
A fechar o programa os espanhóis Solar Sides e o tema “El
Duende Orgánico”, extraído do álbum “Ibiza Chill & Deep Collection”.
Formados por Tomi del Castillo e Esteban Lucci, os Solar Sides provam que em
Ibiza também há lugar para o flamenco, um género que materializa a alma
cigana na Andaluzia. Mas nas últimas décadas este tem vindo a regenerar-se. É
que hoje é habitual fundir-se a estrutura básica do flamenco com o
rock e a música electrónica, algo a que se convencionou chamar de
nuevo flamenco. E é precisamente isso que os Solar Side fazem, já que
mantêm uma inteligente mistura de elementos jazz e funky no
seu groove electroacústico, apelando tanto aos fãs do acid
jazz como aos aficionados do deep-house
dance.








Atrás o saxofonista nigeriano Seun Anikulapo Kuti, filho mais
novo de Fela Kuti, a figura régia da afrobeat, com o tema “Mosquito
Song”, gravado ao vivo este ano em Dakar, no Senegal, no “Africa Live: The Roll
Back Malária Concert”. Aos 9 anos, Seun já cantava coros nos concertos de Fela,
tendo vivido junto do pai os últimos da vida dele, absorvendo tudo quanto este
lhe ensinava. Depois da morte de Fela em 1997, Seun Kuti foi naturalmente aceite
como sucessor na liderança da Egypt 80, a última banda do pai, e começa a
assumir a renovação do legado. Com uma voz cada vez mais própria, ele mantém no
entanto viva a mais original encarnação da afrobeat, usando uma sólida
secção de baixo e o groove incomparável das vozes e percurssões
africanas. Um etno-funk circular e hipnótico, com muito jazz à mistura.
Seun lidera com tremenda energia a sua banda em palco, tocando reportório do pai
e as suas próprias composições. Mantendo o tom político e social nas letras,
refinando-se no saxofone e enriquecendo a afrobeat com outras músicas
da sua formação, como o hip-hop, Seun é o mesmo dínamo em palco. Magia
semelhante viveu-se no castelo de Sines na semana passada num concerto que, para
além da orquestra Egypt 80, contou ainda com o baterista Tony Allen, companheiro
de Fella Kuti na invenção da afrobeat, uma combinação de
Entretanto seguimos até Cabo-Verde com “Dimokransa”, de Mayra
Andrade, um dos temas incluídos no álbum “Navega”, seu disco de estreia a solo,
editado este ano. Um trabalho gravado de forma expontânea, com poucos arranjos
pré-definidos, mas que levou tempo a amadurecer e atravessou diferentes mares. A
mais jovem diva da música cabo-verdiana nasceu em Cuba e viveu em Cabo Verde, no
Senegal, em Angola e na Alemanha. No entanto, foi em França, país onde hoje
reside, que Mayra encontrou os seus ouvintes mais entusiasmados, um dos quais
Charles Aznavour, que no ano passado a convidou para cantar com ele um dueto.
Uma colaboração que cimentou o perfume de uma voz crioula quente e com
grande sentido cénico no território da língua francesa. Mayra Andrade interpreta
com destreza, sentido pop e maturidade todos os estilos clássicos da
música do arquipélago, da morna ao funaná, da
coladera ao batuque, mas a sua abordagem é a de uma nativa da
ilha de Santiago, alegre e com fortes afinidades com a música negra do
Brasil.
Os brasileiros Cordel do Fogo Encantado, uma das maiores
surpresas deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines, trazem-nos um tema
do álbum do mesmo nome, extraído do primeiro trabalho discográfico da banda. Em
1997 um grupo fazia nascer o Cordel do Fogo Encantado. Dois anos depois, a peça
teatral transforma-se num espectáculo musical. O jovem quinteto pernambucano
fala então de histórias de reis e dragões, de santos e bandidos, do princípio e
do fim do mundo. Um projecto que reinventa várias tradições musicais e
narrativas do sertão nordestino brasileiro – dos cantadores aos emboladores,
passando pelos repentistas e autores de cordéis, folhetos de histórias vendidos
nas feiras, – trazendo a sua força mitológica para o século XXI. A música dos
Cordel de Fogo Encantado, um dos mais premiados projectos da nova música
brasileira, parte de Pernambuco para se fundir noutras latitudes, destacando-se
a pujança percurssiva, com o forró e o axe em fúria constante.
A essa fusão juntam-se tradições índias, o folclore e a força demolidora dos
tambores de culto africano, a par do rock, das texturas do violão e do
carisma do poeta e vocalista psicadélico Lira Pães, claramente influenciado
pelas cantigas de escárnio e maldizer.
O programa encerra com Eliseo Parra, um dos maiores
conhecedores e reinventores do folclore espanhol e outra das revelações do
Festival de Músicas do Mundo de Sines. Ele traz-nos agora o tema “Galandún”,
extraído do álbum “De Ayer Mañana”, editado no ano passado. Uma expressão
coloquial castelhana dá o título ao mais recente disco deste músico, resumindo
na perfeição a sua identidade musical. Trabalho que integra uma ampla variedade
de música tradicional espanhola, acrescentando-lhe estilos modernos como o
rap, o hip-pop ou o chill out. Fazendo conviver como
poucos o ontem e o amanhã, Eliseo Parra é hoje um dos mais estimulantes músicos
de raiz tradicional da Europa. Iniciando-se como músico de rock, de
jazz e até como membro de várias orquestras de salsa, ele começou em
1983 a investigar as músicas tradicionais das “tribos hispânicas”, registando as
suas recolhas em vários discos e livros. Eliseo Parra acredita que a única forma
de fazer com que o folclore sobreviva é retirá-lo do ambiente fechado dos museus
e levá-lo para o palco. No seu repertório, onde dominam os ritmos de dança, as
velhas músicas das Espanhas tornam-se sons do presente e do futuro. É esse
folclore pujante e lúdico que se ouviu no encerramento em Porto Covo do programa
de concertos do Festival de Musicas do Mundo de Sines. Uma fonte inesgotável de
recursos que é apenas um ponto de partida para outras viagens
musicais.






As Värttinä, que mais logo (sábado) vão estar no Festival de
Músicas do Mundo de Sines, a abrirem a emissão com “Vihma” (Granizo), tema
extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1998. A mais conhecida banda da
folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu
23ºaniversário, traz-nos uma apelativa mistura de pop e rock
ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por
terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia
popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a
Rússia, reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma
antecessor do finlandês. Alguns temas deste sétimo disco das Värttinä incluem
também cantos da república russa de Tuva. O grupo, que nasceu em Raakkylaa, é
hoje formado pelas vozes enérgicas e harmónicas de Mari Kaasine, Johanna
Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que aliam a
instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino,
acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base
rítmica sólida e o mesmo vigor e calor vocal de sempre.
Os Rarefolk trazem-nos o tema “Montañés”, extraído de
“Unimaverse” (um jogo de palavras entre os conceitos de unidade e universo),
terceiro trabalho dos sevilhanos mais audazes do freestyle folk, onde a
banda mistura de forma criativa o universo do rock e da electrónica com
a música africana, celta, oriental e até mesmo o jazz. Os Rarefolk começaram por
fazer folk num estilo puro, mas pouco a pouco foram renovando não só a
banda mas também a sua visão, fundindo influências do norte da Europa e do norte
de África e submergindo-se num novo universo de estilos e ritmos. Depois de se
terem dado a conhecer como Os Carallos na exposição mundial de Sevilha, em 1992,
uma editora recém-criada oferece-se para editar o seu primeiro disco. Mais tarde
criavam a “Fusión Art”, gravando eles próprios e de forma artesanal o álbum
“Unimaverse”. Um trabalho ousado e experimental em que recuperam muita da
frescura e simplicidade inicial. Nele participam a violinista escocesa Michelle
McGregor e o percursionista senegalês Sidi Samb – este último responsável pelas
letras do grupo, interpretadas em castelhano, francês e wolof (dialecto
do Senegal) –, e músicos como DJ Abogado del Diablo (Narco), Andreas Lutz
(O’Funkillo) e a senegalesa Fátuo Diou.
A
argelina Cheikha Rimitti (falecida no passado mês de Maio, aos 83 anos) com o
tema “N’Ta Goudami”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Órfã e
rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes
Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu
fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como
a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia
feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um
novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o
rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou
concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha
Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma
referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de
expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por
lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último
album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela
cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de
Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o
bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a
gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de
pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa,
harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul
argelina.

Entretanto seguimos pelos caminhos da folk urbana com
os belgas Urban Trad, que nos trazem o tema “Galicia”, extraído do álbum
“Kerua”, editado em 2003. Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a
melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk
influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000,
quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma
vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com
sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito
alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. No Festival
Eurovisão da Canção realizado na Letónia em 2003, os oito elementos do grupo
conquistam o segundo lugar e o grande público. Com “Sanomi”, uma canção
interpretada num idioma imaginário, levaram pela primeira vez o característico
timbre da gaita-de-foles ao palco da Eurovisão. Um grupo de música de inspiração
tradicional, mas ancorado no presente, já que instrumentos acústicos como o
acordeão, o violino e a flauta são acompanhados pelo canto e por uma secção
rítmica cheia de energia e musicalidade. Volvidos três álbuns, o repertório dos
Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a
França, a Espanha e os países de Leste. É assim a música tradicional europeia do
século XXI.
O programa encerra com o tema "Se Escaparon", uma história de
rebelião juvenil que fala de raparigas que fogem de casa às escondidas e são
surpreendidas na pista de dança pelo pai, que pensava que elas estavam a dormir.
A narrativa musical pertence aos hondurenhos Bombon, radicados em Miami e que
criam um estilo musical moderno, feito da mistura de ragamuffin
jamaicano, son cubano e funk. A crescente influência da música
latina a nível internacional tem contribuído para que esta se desenvolva fora do
seu território geográfico natural. Um interesse explicado pelos ritmos e
melodias apelativas, embora actualmente a sua fluência sonora cada vez mais se
deva à sucessiva mistura com o universo da dança e com estilos urbanos
contemporâneos afro-americanos. E ainda que a música latina vá retendo elementos
da tradição, esta está em constante mudança e evolução. Uma equação onde entram,
entre outros, o funk, o hip-hop, a soul, o rhythm
& blues ou o rock, mas onde o resultado continua a ser sempre
a fórmula perfeita para um ambiente de “fiesta”.
Os Antibalas Afrobeat Orchestra inauguram a emissão desta semana com
“Battle Of The Species”, tema extraído do seu trabalho de estreia “Liberation
Afrobeat Volume I”, lançado em 2001. Este colectivo multiracial (eles são
latinos, afro-americanos, africanos e americanos asiáticos que vivem em Nova
Iorque nos bairros de Brooklyn, Manhattan e Bronx, e em Bayonne, na Nova
Jérsia), formado em 1998 pelo saxofonista Martin Perna, inspirou-se no
saxofonista e activista nigeriano Fela Anikulapo Kuti, fazendo renascer a
herança musical do fundador da afrobeat. Um género em que os Antibalas
Afrobeat Orchestra puderam enquadrar os diferentes interesses musicais e
preocupações políticas de cada um dos seus membros. O som desta banda
nova-iorquina, cuja formação varia entre os 14 e os 20 elementos, combina
highlife, jazz, soul, funk, dub, ritmos e
percussões africanas e cubanas. Eles têm tocado não só com outros criadores do
legado da afrobeat, entre eles o percussionista Tony Allen ou o
trompetista Babatunde Williams, mas também aberto as fronteiras a James Brown,
No Doubt, Wyclef Jean ou Trey Anastasio. O cariz político das letras e as
posições provocadoras dos Antibalas são outro dos aspectos da herança de Kuti.
Estas incitam à insurreição e à “desfranchização” do mundo, atacando o sistema
capitalista em inglês, castelhano e yoruba. Consciência social e
mensagens políticas à mistura com muito ritmo e percurssão…
As
músicas do mundo prosseguem com Khadja Nin e o tema “Sina Mali, Sina Deni”
(Livre), extraído do álbum “Sambolera”, editado em 1996. Desde o início da sua
carreira que Khadja, natural do Burundi, tem procurado criar fusões musicais
capazes de cruzar fronteiras geográficas e culturais. É por isso que uma vez
afirmou que a sua música não deveria ser classificada como “branca” ou “negra”,
mas antes como “café com leite”. Ela mistura ritmos tradicionais africanos,
afro-cubanos e brasileiros com modernas melodias pop e rock.
Nas suas letras fala sobre as crianças da rua, a guerra e a sua luta contra
todas as desigualdades. Aos sete anos, Khadja Nin torna-se uma das vocalistas
principais do coro Bujumbura. Tal era a sua paixão pela música, que mais tarde
formava o seu próprio grupo. Depois de ter ido estudar para Kinshasa, capital do
Zaire, Khadja Nin casa e emigra para a Bélgica com o seu filho de dois anos.
Conhece então o músico Nicolas Fiszman que, impresionado pela sua voz, a convida
a escrever com ele alguns temas. Depois do primeiro trabalho, em 1996 lança o
disco “Sambolera”, que a catapultou para a fama. Um álbum onde canta em
swahili, kirundi (idioma oficial do Burundi) e francês. Uma
destas músicas ocuparia mesmo o topo das tabelas francesas, depois de o canal de
televisão TF1 ter feito dela um sucesso de verão. Entretanto, Khadja Nin actuou
por várias vezes com Sting e a estrela do raï Cheb Mami. Khadja, que
actualmente vive no Mónaco, mantém a esperança de um dia poder regressar ao
Burundi.
Ao contrário de Youssou N’Dour, cuja música é refinada e um pouco
aristocrática, Omar Pène, que nos apresenta o tema "Laax", está mais enraízado
na vida do dia a dia, retratando a realidade dos jovens, dos desempregados e dos
camponeses senegaleses. Ao misturar as sonoridades do m'balax, os
ritmos do blues, do jazz, do reggae e da salsa, Omar
Pène tornou-se uma das lendas de sucesso do Senegal. O talento vocal e o
afro-feeling de Omar Pène foram descobertos por Balla Diagne, músico da
Kadd Orchestra, que o conheceu em Dakar, cidade onde este cresceu cantando e
fazendo música com latas de óleo. Encorajado a seguir uma carreira musical, Omar
Pène abandona então o futebol, a sua grande paixão. Mais tarde integra os Super
Diamono, banda de que se tornaria líder. Com estes representantes da nova
geração senegalesa (em wolof, Diamono significa geração), foi
explorando uma variedade de estilos, do jazz aos blues e do
reggae ao m’balax (som característico do Senegal, que se
generalizou nos anos 80, inicialmente representado por Youssou N’Dour e Super
Etoile). Neste álbum “25 Ans”, editado em 2001, Omar Pène volta-se para o
mercado internacional. Gravado em Dakar e misturado em Paris, este trabalho
explora temas antigos e actuais do seu repertório. A voz quente, profunda e
expressiva de Omar é acompanhada pelo baixo, pela guitarra acústica e por toques
de percurssão. As suas músicas reflectem a preocupação com os problemas do dia a
dia, o exílio, os relacionamentos ou os assuntos económicos e sociais. Canções
que incentivam os jovens senegaleses a procurarem o seu futuro em
África.
rap,
raï
A viagem musical continua com Cheb Tarik e o tema “L’Histoire”,
extraído do álbum “Metisstyle”, editado em 2001. O intérprete e compositor
argelino, cujo verdadeiro nome é Mohammed Tarik, mistura o raï com
influências do rap, funk, salsa e rhythm &
blues. No final da década de 80, quando Cheb Tarik se mudou para Paris, o
compositor Maghni propôs-lhe o desafio de rejuvenescer o raï. Em 1994,
ano em que Cheb Hasni, o rei do raï sentimental, foi assassinado, Tarik
presta homenagem a este último com um álbum que na Argélia venderia mais de cem
mil exemplares. Graças a esse sucesso, Cheb Tarik produziu mais dois álbuns de
raï tradicional, não deixando de neles integrar géneros que o marcaram
na adolescência como o funk e o reggae, e de colaborar com
nomes como Saïan Supa Crew, Bouba, Gipsy Kings e Tonton David. Três anos depois
decide aliar o rap ao raï, transformando com CC Raïder o
clássico “Reggae Night” no novo “Reggae Raï”. Depois do sucesso deste single em
toda a comunidade magrebina, Tarik começa a produzir o álbum “Metisstyle”. Um
projecto com que finalmente vai poder modernizar o raï, juntando-se a
músicos como Khaled. Um álbum marcado por inovações como a talk box e
as amostras de som, e pela diversidade de influências e de géneros musicais. A
prová-lo estão as vendas, que ultrapassaram seis milhões de
unidades.
A jornada prossegue com “Torch Of Freedom”, tema extraído do álbum
“Changing Colours”, editado este ano pelo Matthias Vogt Trio. Precisamente o
primeiro trabalho de composições próprias deste núcleo do projecto [re:jazz],
formado por Matthias Vogt, pelo baixista Andreas Manns e pelo percussionista
Volker Schmidt. Matthias Vogt é pianista de jazz, DJ, autor e produtor de música
electrónica. Os seus três pólos musicais são a Motorcitysoul, filial electrónica
do seu trabalho; o [re:jazz], ligação musical que procura pontos de contacto
entre o mundo da electrónica e o jazz acústico; e o Matthias Vogt Trio, a célula
principal do [re:jazz] e seu campo de experimentação musical. A música deste
trio, que leva o jazz para outras direcções por explorar, é auto-contida,
contemplativa e emocional. Neste trabalho, eles dão provas da sua qualidade
artística, apresentando um som moderno e intimista, que se aproxima à
pop e ao novo jazz electrónico.
Rubin Steiner, nome dado ao projecto electrónico de Fred Landier,
apresenta-nos o tema “Guitarlandia”, extraído do álbum “Wunderbar Drei”, editado
em 2001. No trabalho de produção deste jovem francês sobressaem um gosto
pronunciado pelo jazz e uma cultura musical desenvolvida à volta do
hip-hop, trip-hop, drum’n’bass, house e
break-beat. Rubin Steiner é natural de Tours, uma pequena cidade no
Vale do Loire, onde até há poucos anos a música electrónica era praticamente
desconhecida. Ainda que à distância de uma hora de comboio de Paris, as
guitarras e o típico e entusiasmo provincial quase punk da cidade luz
entusiasmaram o jovem músico. Landier tocou em várias bandas locais, a última
delas de nome Merz, tornando-se conhecido por algum tempo na região. Mas as
coisas mudaram de figura quando todos os membros do grupo decidiram comprar
computadores e começar a compor sozinhos. Depois de em 1999 ter lançado “Lo-Fi
Nu Jazz Vol.2”, álbum divertido e indisciplinado que avança pelos caminhos do
jazz electrónico, Rubin Steiner edita então “Wunderbar Drei”, um trabalho já
profissional que irá agradar e confundir ainda mais o público. No entanto, a
música de Rubin Steiner permanece enérgica e caótica como sempre. São atmosferas
distorcidas, influências desproporcionais e toques humorísticos que não o levam
a mudar de direcção e a deixar de ter um som inovador e iconoclasta.
Segue-se o tema “Soy Callejero”, dos Los Mocosos (traduzindo à
letra, “Os Ranhosos” é um termo algo desconcertante, mas eles precisavam de um
nome absurdo e espontâneo que designasse a banda). Esta banda de rock
de bairro, nascida no distrito missionário de São Francisco, segue a tradição de
músicos como Santana ou Malo em cruzar fronteiras culturais. Um híbrido musical
da costa oeste americana que mistura soul e pop latina com
ska, salsa, funk, swing, reggae e
rock, acrescentando-lhe letras que falam da vida diária do seu bairro.
“Shades of Brown”, o seu álbum de estreia, editado em 1998, combina elementos
latinos, criando um género único. Uma mistura de influências num album eclético
e poderoso que reflecte a realidade multicultural e multiracial de um país que
Los Mocosos já percorreram por diversas vezes com Santana e Los Lobos, trazendo
ao de cima as culturas hispânica e americana. No entanto, Los Mocosos não
tiveram de criar esta selvagem mistura de culturas, até porque o crescente
interesse pela world music tem vindo a mudar a paisagem musical
americana, povoando-a de estilos latinos como o reggae e a dub
jamaicana ou o son afro-cubano.
Los Lobos,
um dos mais representativos e originais grupos dos anos 80, trazem-nos o tema
“Flor de Huevo”, extraído do álbum “Del Este de Los Angeles (Just Another Band
From East LA)”. Uma fusão de rock, blues, country,
folk e rhythm & blues com música tradicional do México e
da América Latina. Desde o seu modesto arranque nos bairos pobres na zona este
de Los Angeles aos grandes palcos internacionais, Los Lobos têm destilado as
suas vidas em canções. Em 1978, altura em que ganhavam a vida a tocar em
casamentos e restaurantes mexicanos, decidiram gravar um álbum com as suas
canções tex-mex, dando-lhes um cheirinho a rock & roll. O
album “Del Este de Los Angeles” estabeleceu a identidade própria do grupo e
serviu de rampa para que David Hidalgo e Louie Perez começassem a escrever os
seus próprios temas. Sem se desviarem das tradições musicais do grupo, Los Lobos
extraem as suas influências de múltiplos géneros, transformando-as num som que
se foi refinando e expandindo em cada novo disco.
O
programa encerra com o tema “Getting Happy” do trompetista Ralph Robles,
extraído do álbum “Taking Over/Conquistando”, editado em 1999. Quando o
boogaloo, uma dança latina com sabor a Nova Iorque, apareceu na década
de 60 nos bairros de Harlem, Brooklyn e Bronx, Tito Puente, o rei do
mambo, achou que era apenas uma coisa de miúdos. No entanto, este ritmo
irresistível, de uma estética próxima do punk, com muito espaço para
grandes solos instrumentais e arranjos quase matemáticos, era imparável. Em
pouco tempo, o boogaloo distanciou-se do mambo e do cha
cha cha, misturando a salsa cubana e outros ritmos latinos com a
soul, o funky, o rock, a motown e o
rhythm & blues. Influências musicais que marcaram os jovens cubanos
e porto-riquenhos que então viviam em Nova Iorque. Uma geração que queria cantar
em inglês, mas que acabou por o fazer em “espanholês”. São percussões cubanas,
baseadas nas congas, bongos e timbales, e arranjos com trompetes e trombones, à
companhia do piano, do saxofone barítono e dos coros. Apesar da euforia, o
boogaloo foi um dos géneros latinos com uma vida mais curta, isto porque no
espaço de uma década acabou por ser assimilado pela salsa.
A espontaneidade, frescura e energia de Cristina Pato está bem patente
no tema “Muiñeiras”, original de Raquel Rodriguez, violinista dos Muntenrohi,
banda que a diva da gaita-de-foles galega integrou na adolescência. Natural de
Ourense, a jovem Cristina Pato tem tocado a solo e com grupos como os The
Chieftains, Hevia, Vargas Blues Band ou as orquestras sinfónicas da Galiza e de
Tenerife. Colaboraram também com ela, entre outros, José Peixoto, guitarrista
dos Madredeus, e a portuguesa Marta Dias. Para além de gaiteira, Cristina Pato é
pianista e compositora, aliando a perfeição técnica da música clássica com a
espontaneidade da música popular. Uma carreira que começou aos quatro anos,
altura em que quis seguir o exemplo da irmã mais velha, que já tocava
gaita-de-foles. Foi na Real Banda de Gaitas de Ourense que esta ofereceu os seus
primeiros recitais. Ao acabar o curso de piano em Barcelona, cumpriu a promessa
feita à mãe de pintar o cabelo de verde, hoje sua imagem de marca. Cristina
Pato, cujo sonho é ser directora de orquestra, foi a primeira gaiteira espanhola
a editar um álbum a solo. Em 1999, com apenas 17 anos, lança “Tolemia” (palavra
que em galego significa loucura), disco que vendeu quase 50 mil cópias e foi uma
autêntica loucura, já que juntou 28 músicos e foi gravado em apenas 10 dias. São
sons tradicionais à mistura com ritmos latinos e africanos, funky,
pop, reggae ou blues, numa folk mestiça e
divertida. Um trabalho em que colaboraram Carlos Castro, dos Fía Na Roca; Paco
Juncal, ex-violinista dos Berrogüeto, os Blanco e os Beladona. Como quem toca
guitarra eléctrica, Cristina Pato procura demonstrar de forma enérgica que a
gaita-de-foles é um instrumento tradicional que extravasa as fronteiras da
música celta.
As
músicas do mundo prosseguem com Kathryn Tickell e o tema “Raincheck”, alusivo à
tournée que esta tocadora de violino e de gaita-de-foles da Nortúmbria
realizou na Turquia. Uma música extraída do seu sexto álbum “The Gathering”,
editado em 1997. Juntamente com Ian Carr e Neil Harland, Kathryn mistura as suas
composições com as melodias tradicionais daquele condado do nordeste de
Inglaterra, criando uma folk ágil, profunda e ritmicamente complexa.
Kathryn Tickell, que tem tocado em todo o mundo e gravado com nomes como os The
Chieftains, Boys Of The Lough, Penguin Café Orchestra e Sting, conquistou os fãs
de música celta experimental e de fusão, mantendo no entanto a veia tradicional.
Ela começou a tocar gaita aos nove anos, inspirada pelo pai e por músicos como
Willie Taylor, Will Atkinson, Joe Hutton, Richard Moscrop e Tom Hunter. Aos 16
anos lançava o seu primeiro álbum. Em 1990 forma a Kathryn Tickell Band, ano em
que cria o Fundo dos Jovens Músicos para ajudar os jovens da região a
desenvolverem o seu potencial musical. Entretanto, tem colaborado com os
saxofonistas Andy Sheppard e John Surman, e desenvolvido programas para a rádio
com jovens músicos da Grã-Bretanha. Em 2000 criava o Ensemble Mystical, projecto
que reune músicos provenientes do mundo da música clássica, do jazz e da
folk.
Os
Tejedor trazem-nos o tema "Texiendo Suaños", extraído do álbum “Texedores de
Suaños”. Este grupo asturiano, nascido em Avilés e formado pelos irmãos José
Manuel, Javier e Eva Tejedor, é um dos grandes embaixadores da nova
folk asturiana. Um potencial criativo e interpretativo comandado por
José Manuel Tejedor, considerado o melhor gaiteiro asturiano da segunda metade
do século XX. Nas melodias dos Tejedor reconhece-se a paixão destes professores
pelo cancioneiro tradicional asturiano, que o ligam à influência celta, criando
um som fresco, acústico e festivo. Considerado o melhor disco de folk
em 1999, “Texedores de Suaños” reúne composições próprias e temas tradicionais
das Astúrias, misturando as gaitas asturianas com a percussão, as flautas, o
acordeão diatónico e o bodhrán. Mais tarde, os Tejedor adicionaram ao
seu repertório novos elementos musicais que vão dos arranjos de cordas às
programações electrónicas, tendo readaptado alguns temas tradicionais
asturianos. O disco de estreia, produzido pela "vaca sagrada" da folk
internacional Phil Cunningham (que participa também com o acordeão em algumas
faixas), reuniu músicos privilegiados como Duncan Chishom (Wolfstone), Michael
McGoldrick (Lúnasa, Capercaillie), James McKintosh (Shooglenifty, Afro Celt
Sound System), Kepa Junkera e Chus Pedro (Nuberu).
“Ya Raya”
(O Exilado), um dos clássicos da música árabe, apresenta-se-nos agora num
remix electrónico que os Sonar fizeram do tema do argelino Dahamane El
Harrachi, uma melodia cuja letra invoca a alienação sentida na pele
pelos
Seguem-se os italianos Mau Mau com o tema “Venus Nabalera”,
extraído do álbum “Safari Beach”, editado em 2000. O nome desta banda de
rock e folk, formada em Turim em 1991, baseia-se no grupo de
libertação do Quénia da colonização inglesa. Esta tribo de seis elementos, cuja
música expressa uma paixão pelos sons acústicos e secos, foi pioneira na
mestiçagem da música italiana, combinando uma variedade de estilos para assim
gerar uma linguagem feita de atmosferas do norte e do sul do Mediterrâneo. Com a
percussão e o ritmo sempre presentes, as canções dos Mau Mau falam sobre a
emigração, a pobreza, a fome, os subúrbios, as expectativas, o divertimento e
mesmo de computadores. Para além do italiano e do dialecto piemontês, eles
cantam em castelhano, inglês e francês. Entretanto, receberam vários prémios
como o de Revelação Interncional no BAM Festival em Barcelona. Neste seu quinto
trabalho, o ensemble da região de Piemonte conta com a colaboração de Sargento
García, mas no currículo trazem outros músicos como Inti Illimani, Ivano Fossati
e Manu Chao.
Os
italianos Bossa Nostra (grupo formado por Adriano Molinari, Luca Savazzi, Luigi
Storchi, Mássimo Mussini e Stefano Carrara) fecham o programa com o tema
“Jackie”, uma das várias versões, a maioria delas dançáveis, incluídas no álbum
“Chico Desperado/Jackie”, editado em 1999. No total são cinco temas antigos e
quatro remixes novos elaborados pelos Pasta Boys, Atjazz, East West
Connection, Street Vibes e Pedro Van Der Volt, a maioria entre o deep
house e o acid jazz. O universo sonoro dos Bossa Nostra, como o
nome indica, é altamente influenciado pela música brasileira, baseando-se em
instrumentos acustico-elétricos tocados com muita criatividade.
A canadiana Claire Pelletier abre o programa desta semana com o tema
"Galileo", gravado ao vivo em Outubro de 2002 no teatro Saint-Denis, em
Montreal, no Canadá. Desde muito pequena que a rapariga da voz azul-marinho,
baptizada de Claire La Sirène (a sereia) se deixou fascinar pelos contos, lendas
e canções tradicionais do Quebeque, província onde 80 por cento da população é
de descendência francesa. Aos 24 anos, a jovem trocava o curso de oceanografia
pela música, surgindo inicialmente ao lado do grupo Tracadièche. Depois de ter
dado a conhecer “Galileo” no Quebeque e na Europa francófona, neste álbum Claire
Pelletier, o músico e seu marido Pierre Duchesne e o compositor Marc Caboz
misturam as músicas dos álbuns “Murmures d'Histoire” (1996) e “Galileo” (2000),
ligando a inspiração medieval, a alma céltica, as melodias tradicionais e as
lendas da antiguidade. Um espectáculo em que o duo harmónico combina o piano, o
violino, a viola e o contrabaixo com sons électrónicos. Como a vela de um barco,
a voz envolvente e suave de Claire Pelletier (ou melhor, de Claire La Sirène)
iça-se, estica-se e apoia-se sobre o vento.
A jornada
musical prossegue com os Flook, quarteto anglo-irlandês de Manchester, conhecido
pela sua espontaneidade e energia em palco, e que este ano conquistou o prémio
de Melhor Grupo nos BBC Folk Awards.
Os
Xéliba, pioneiros da folk asturiana, trazem-nos “Medraína”, um tema
extraído do álbum “Ferruñu”, editado em 1998. Eles levam-nos pelos caminhos da
folk acústica com reminescências celtas e arranjos influenciados por
bandas escocesas. Xéliba é um anagrama de Avilés, cidade a que pertenciam os
primeiros elementos deste grupo de cinco rapazes. Foi em 1993 que músicos de
várias bandas se juntaram com o objectivo de preservar a herança cultural
asturiana. Grande parte das melodias e canções dos Xéliba são versões de temas
tradicionais, que o grupo adapta ao estilo musical daquela comunidade autónoma
espanhola. A banda, entretanto extinta, faz-se acompanhar de instrumentos
acústicos e tradicionais como a gaita-de-foles asturiana, o acordeão diatónico,
a flauta ou o violino, seguindo uma linha de folk acústico baseada na
força rítmica do bouzouki e da guitarra acústica, instrumentos
habitualmente presentes na folk de todo o
globo.
folk-rock, hungarian speed folk
A viagem
musical continua com uma passagem pela Sérvia através do tema “Pena”, estraído
do álbum “Šaban Bajramović – A Gypsy Legend”, lançado em 2001. Šaban Bajramović
é um dos expoentes máximos da cultura romani e da música cigana em todo
o mundo. Natural de Nis, na antiga Jugoslávia, aos 19 anos ele foge do exército
e é preso na ilha Goli Otok, situada no mar Adriático. Naquela que seria a sua
universidade, Bajramović torna-se guarda-redes na equipa de futebol, passando a
ser chamado de "Pantera Negra" devido à sua agilidade e velocidade. Junta-se
então à orquestra da prisão, onde toca sobretudo jazz de Armstrong, Sinatra e
John Coltrane e peças espanholas e mexicanas. De regresso à liberdade,
Bajramović inaugura uma intensa carreira musical. Em 1964 grava o primeiro
disco, tendo desde então lançado cerca de 20 LP’s e 50 singles e feito
mais de 650 composições. Com a sua primeira fortuna comprou um Mercedes e
contratou dois guarda-costas, mas depressa o vício do jogo lhe levou toda a
riqueza. Durante 20 anos teve o seu próprio grupo, os “Black Mamba”, entretanto
foram convidados por Indira Ghandi para irem até à Índia, onde Bajramović seria
proclamado rei absoluto da música cigana. Uma espécie de mistura entre Tito e
Elvis, mas com sapatos toscos e uma garrafa no bolso. Com o passar dos anos,
Šaban Bajramović muda de estilo, de grupo e de mulher, perdendo parte do
glamour, mas a sua voz permanece inalterada. Ele participou em filmes de
Paskaljevic e Kusturica e colaborou com músicos inspirados por ele como o famoso
Goran Bregovic, que adaptou o génio de Saban aos gostos do mercado.
A jornada
prossegue com os holandeses Arling & Cameron e o tema “Shiva’s Daughters”,
extraído do álbum “Music For Imaginary Films”, editado em 2000. Depois de anos
de obscuridade a desenvolverem temas para as pistas de dança, as músicas destes
jovens de Amsterdão, tão ecléticos que nem chegam a ser uma banda, entraram
finalmente nos ouvidos do mundo. O DJ Richard Cameron e o músico Gerry Arling
fundem então passado e presente numa visão do futuro em harmonia com o ambiente
clubpop que emergiu em Tóquio na década de 90. O seu arranque como duo
acontece em 1997, num álbum em que absorviam mais géneros e ritmos. Entre
outros, chegam a colaborar com o músico brasileiro Bebel Gilberto ou os
japoneses Pizzicato Five e Cornelius. O momento alto das suas carreiras surge
quando Cameron grava com os Fantastic Plastic Machine uma música para o filme
“Austin Powers, The Spy Who Shagged Me”. Um potencial melódico que seria
aproveitado por Hollywood e pelos publicitários de todo o mundo, acabando por
ser utilizado em filmes como 'Gun Shy' (com Sandra Bullock e Liam Neeson) ou em
séries de televisão como “Popular” (Warner Channel) e “Sopranos” (HBO). No seu
álbum conceptual “Music for Imaginary Films”, recheado de pop,
drum'n'bass, bossa nova, funk e lounge
exótica, Arling & Cameron procuram reinventar as tradicionais bandas
sonoras, associando cada música a um filme imaginário de um género específico –
neste caso o universo de Bollywood –, levando a cabo uma aventura musical séria
e com humor. Um projecto que lhes permitiu ganhar o prémio holandês “Big Pop” e
serem convidados pelo canal americano SciFi para participarem no documentário
“Sciography”.
Os
S-Tone Inc apresentam-nos o tema “Limbe”, extraído do álbum “Sobrenatural”. Este
projecto musical, criado em 1992 pelo milanês Stefano Tirone, foi um dos
pioneiros no universo do acid jazz. As primeiras experiências musicais
deste músico italiano, que para trás deixou a arquitectura e o design interior,
remontam à new wave da década de 80 com grupos como “State of the Art”
ou “Modo”. As suas referências vão da soul de Isaac Hayes ao jazz de
Miles Davis. Stefano Tirone, que está presente em compilações lançadas pelo
magazine Rockerilla, começou a produzir música nos anos 90, alternando entre o
smooth house e o acid jazz. Uma actividade que lhe permitiu
colaborar com muitos DJ’s italianos e ingleses, realizando trabalhos que
antecipariam o uso de amostras de som de discos dos anos 70 na house
music. Neste seu terceiro álbum, editado em 2002, os S-Tone Inc. refinam o
seu estilo feito de melodias e harmonias com um sabor francês e ritmos
enraizados no Brasil. Uma atmosfera boémia capturada entre Paris e o Rio de
Janeiro e carregada de guitarras, flautas e acordeão, que nos leva pelos
caminhos da bossa nova, da soul, do jazz latino, do smooth
house ou do electro funk. Este disco contou ainda com a
participação de Marion Marioni, cujo saxofone soprano nos leva de volta aos anos
70, e com a voz de Laura Fedele.
Continuamos estrada fora com a melhor música do mundo, desta
feita ao ritmo da música popular cubana. Barrio Cubano é um apanhado dos grandes
clássicos da música daquele país, regravados pelos melhores rappers
cubanos e remixados por Ronald Rubinel, um produtor parisiense cuja obcessão
mais recente consiste em misturar a salsa latina e a folk
franco-caribenha com os sons da pop, do hip-hop e do
rap. No tema "El Carretero" (o condutor de carroças) são também
visíveis elementos da guitarra classica utilizada na guajira, um estilo
acústico cubano que surgiu no início do século XX.
Richard Bona fecha o programa com o tema “O Beta O Siba”, extraído do
álbum “Tiki”, editado em 2005. O multi-instrumentista e compositor, nascido nos
Camarões, cedo despertou para a música. Como na sua vila natal não havia uma
loja de instrumentos, este teve de utilizar cabos de travões de bicicleta para
fazer as cordas da sua primeira guitarra artesanal. Mais tarde, na década de 80,
Richard Bona despertava para o mundo do jazz e começava a tocar baixo. Vai então
para Paris, onde aperfeiçoa as suas capacidades de escrever e tocar música, até
que em 1995 tenta a sua sorte em Nova Iorque. Este contador de histórias mistura
as suas raízes musicais africanas com a sensibilidade do jazz, os ritmos
afro-cubanos e a pop anglo-saxónica. Um aglomerado de influências que
Richard Bona combina neste trabalho com uma voz suave e expressiva, de onde
escapa doçura e nostalgia.
Salif
Keita abre o programa desta semana com o tema “Here”, uma versão remisturada
pelo francês Frédéric Galliano, extraída do álbum “Remixes From Moffou”. Exímio
guitarrista, Salif Keita começou a sua carreira nos anos 60 na Rail Band e nos
Ambassadeurs. Com a sua aproximação ao rock, ao jazz e à soul,
o músico do Mali inaugurava o conceito de afropop. Em 2002 lança o
álbum “Moffou” e inicia uma nova carreira, antecipando o renascimento da música
tradicional mandingo e dos seus principais instrumentos, como a
ngoni (espécie de guitarra mourisca), o balafon (xilofone
ancestral) ou o calabash (instrumento de percussão). Mais tarde, neste
“Remixes From Moffou”, DJ’s e produtores como Gekko, Ark, Cabanne, Tim Paris,
The Boldz, Luciano, La Funk Mob, Charles Webster, Doctor L, Cyril K e Paul St
Hilaire adaptam a música de Salif Keita aos cânones da electrónica,
acrescentando-lhes novos instrumentos e atmosferas sonoras influenciadas pelo
funk, house, dub e drum’n bass. Foi
precisamente isso o que o francês Frédéric Galliano fez neste tema. Pioneiro na
mistura da música africana com a electrónica, em 1998 Galliano faz a sua
primeira viagem a África, criando dois anos mais tarde a editora Frikyiwa, na
qual viria a juntar artistas africanos que conhecera ao longo das suas jornadas.
Desde então que participa em diferentes projectos com diversas bandas como o
Frédéric Galliano Electronic Sextet (que mistura o jazz com a música
electrónica), Nahawa Doumbia (cantora e banda do Mali com quem começou por
explorar a relação entre a música electrónica e africana), Néba Solo, a
Orchestre Maquisard International e The African Divas.
A
jornada musical prossegue com a libanesa Dania, que nos traz o tema “Leily”, uma
poderosa canção remisturada pelos Transglobal Underground (mais conhecidos pelo
seu trabalho com lendas do rock como Jimmy Page e Robert Plant) e que
varreu as pistas de dança do Dubai a Bogotá. Dania começou por trabalhar como
apresentadora numa televisão local libanesa. O seu talento foi então descoberto
por um canal de música difundido por satélite para a Ásia e Médio Oriente.
Junta-se então ao Channel V em 1995, tornando-se a primeira VJ árabe num canal
internacional de televisão. Mais tarde muda-se para a Abu Dhabi TV, onde
apresenta o mais conhecido programa árabe de entretenimento. Com o álbum de
estreia, que foi um enorme sucesso na região, consolida a sua jovem carreira na
cena musical árabe. Neste segundo trabalho ”Dania II”, lançado em 1999, a
cantora ilustra as suas habilidades e versatilidade vocal. Uma mistura única e
eclética de influências árabes, inglesas, espanholas e gregas, que apela a todas
as nacionalidades, tendo aparecido numa série de compilações em todo o mundo e
em vários canais como a MTV.
Incursão até ao Sudão com o tema “Azara Alhai”, interpretado por Rasha,
uma voz que encarna na perfeição todo o mistério e sensualidade do oriente. O
seu talento revelou-se muito cedo, já que na sua família não faltam pintores,
actores e músicos. A dureza do regime islâmico militar do Sudão obriga Rasha a
abandonar Ondurman, a sua terra natal, localizada junto a Jartum, a capital do
Sudão. Depois de uma breve passagem pelo Cairo, em 1991 muda-se para Espanha,
país onde residem os seus irmãos Omaima e Wafir, este último membro dos Radio
Tarifa. Nos primeiros anos, Rasha estuda e trabalha, mas pouco a pouco, pela mão
de Wafir, vai-se introduzindo nos circuitos musicais. Em 1994 grava o álbum
“Sudaniyat”, carta de apresentação como cantora, onde mostra uma visão muito
pessoal da tradição das correntes mais actuais da música do país imenso que é o
Sudão. Um disco que recebe grandes elogios da crítica europeia e chega mesmo ao
mercado norte-americano. Entretanto, Rasha tem vindo a tocar com outros artistas
africanos, todos eles radicados em Madrid. Na sua música, que nos arranjos
vocais se aproxima à árabe e nos metais ao jazz, expressa as suas ilusões e
nostalgias, denunciando também a situação actual do povo sudanês e os problemas
que milhares de emigrantes enfrentam.
A viagem
musical continua com o tema “Yann Derrien”, de Carlos Nuñez, provavelmente o
mais conhecido gaiteiro galego de sempre, que encabeça uma lista
tradicionalmente reservada a escoceses, irlandeses ou bretões. Considerado o
Jimi Hendrix da gaita e exímio tocador de flauta, whistle e ocarina,
este produtor e compositor, natural de Vigo e apaixonado pelos poemas de Rosalía
de Castro, começou a tocar gaita aos oito anos. O sucesso estrondoso do seu
primeiro disco “A Irmandade das Estrelas”, gravado em 1996 e que vendeu mais de
cem mil cópias em Espanha, chamou a atenção para a música tradicional galega.
Carlos Núñez adiciona-lhe então uma visão mais aberta, aproveitando a ligação
histórica desta à música latina vinda da América através da imigração, à
medieval europeia recebida pelo caminho de Santiago e aos sons orientais do sul.
Em todo o mundo, Carlos Núñez e a sua banda já venderam mais de um milhão de
discos, algo reforçado depois do êxito da banda sonora de Mar Adentro. Em "Un
Galicien en Bretagne" este conta de novo com a colaboração de alguns dos mais
importantes nomes da folk europeia, caminho aberto em 1989 depois do
convite dos The Chieftains para participar na banda sonora do filme "A Ilha do
Tesouro", que o nomearam sétimo elemento do grupo. Com as suas participações nos
festivais celtas em França, Carlos Núñez tornou-se no mais bretão dos galegos.
Neste álbum, editado em 2003, reencontra-se com o bretão Alan Stivell e o
catalão Jordi Savall, mobilizando outros artistas galegos devido ao Prestige,
tragédia ambiental que um ano antes afectou as costas espanhola e
francesa.
A jornada prossegue com o guitarrista Coco Briaval, que nos
traz o tema “Les Yeux Noirs”, extraído do álbum “Musique Manouche – Gypsy
Music”, editado em 1996. Nos anos 60 e antes de se instalar no sul de França,
Coco Briaval foi um dos maiores nomes do jazz parisiense, tendo tocado lado a
lado com músicos reputados como o saxofonista americano Dexter Gordon ou o
soul singer Otis Redding. Com a gravação de um primeiro disco,
revelava-se o talento precoce dos irmãos Briaval, três adolescentes que então
formaram Coco Briaval Gypsy Swing Quintet, homenageando grandes compositores e
intérpretes de jazz como Charli Christian e Wes Montgomery. O desafio era tornar
a tradição do jazz acessível a todos os públicos, mostrando o carácter familiar
do gypsy swing, tal como Django Reinhardt o fez com o seu génio
instrumental e talentosa composição. Um sonho que acabou por ser realizado por
estes rapazes de origem piemontesa do lado da mãe (ciganos de etnia sinti) e
anglo-húngaro do lado do pai (ciganos alemães). Com os seus dois irmãos René e
Gilbert na guitarra e na bateria, o seu filho Zézé no saxofone e ainda Guitou no
contrabaixo, Coco Briaval propõe uma visão de Django sem clichés. Eles mergulham
na música cigana de etnia sinti, transmitida de geração em geração, mas
resgatada para o presente numa orquestração original, deixando-se influenciar
também pelo swing e pela música contemporânea.
Na sua estreia no programa, Daniele Silvestri apresentou-nos o tema
“Sempre Di Domenica”, extraído do seu álbum “Unò Dué”, editado em 2002. Este
cantor italiano, autor de conhecidos temas de música ligeira, mergulha no
imaginário contemporâneo linguístico e musical daquele país para emergir com
canções refinadas. Natural da cidade de Roma, onde nasceu em 1968, o cantautor
italiano mais apreciado do panorama actual fez parte de numerosos grupos
musicais. Em 1994 lança o primeiro álbum a solo, conquistando a atenção do
público. Um dos temas permite-lhe então participar no Festival de Sanremo, onde
conquistaria vários prémios da crítica. Nos temas incluídos neste trabalho, o
sexto da sua carreira, Daniele Silvestri confirma a sua qualidade enquanto
autor, servindo-se de ironia quanto baste e cruzando a música pop com o
rock e o funky.
O italiano The Pleb propõe-nos agora uma ponte com o Senegal
na sua remistura de “One For Senegal”, um tema dos Touré Kunda, dueto formado
pelos irmãos Ismaïla Touré e Sixu Tidiane. Na sua adolescência, este DJ
estabelecido em Nova Iorque fez parte do universo musical londrino, tendo
passado no início dos anos 90 pela banda The Indians. Já os senegaleses Touré
Kunda, banda fundada nos anos 70 pelos irmãos Amadou, Ismaila, Sixu e Ousamane
Touré, inspiraram-se inicialmente nos ritmos tradicionais africanos, usando
instrumentos como a kora, o balafon e o sabar, os
quais no entanto viriam a ser substituidos por guitarras e sintetizadores. No
final dos anos 70 eles mudam-se para Paris, tocando uma forma particular de
m'balax, inspirada no afro-rock a que chamaram de
djambaadong. Percussões africanas tradicionais e cantos tribais
senegaleses coexistem então com amostras de som, batidas programadas e
manipulação de vozes, retratando um universo geográfico onde se fala em
soninké, ouolof, mandingo, diola e
criolo português.
Entretanto continuamos estrada fora ao ritmo da melhor música do mundo.
Cheikh Lô traz-nos o tema “Sou”, extraído do álbum “Lamp Fall”, editado em 2005.
Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas cresceu no Burkina Faso. A
sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e
dos ritmos m'balax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou
N'Dour, com quem gravou o primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da
Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses bem como
versões pop de músicas tradicionais do Burkina Faso. Em 1978 mudava-se
para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e
eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora
ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e
jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a
Brasil. A 6 de Julho ele vai estar em Lisboa para participar no Africa
Festival.
Os Mo'Horizons, dupla de Hannover formada pelos produtores, músicos e
DJ’s Ralf Droesemeyer e Mark ‘Foh’ Wetzler, encerram esta edição do MULTIPISTAS.
No seu primeiro trabalho, estes misturam influências da soul dos anos
50 e 60 e temas funky dos anos 70 à década de 90. Eles integram
técnicas modernas de produção com uma mão cheia de músicos talentosos e
vocalistas que criam ao vivo um som
Na
abertura do programa, os Warsaw Village Band trazem-nos uma versão electrónica
do tema “Joint Venture In The Village (I Had a Lover)”, extraído do álbum
“People’s Spring”. Fundada em 1997 por seis jovens polacos, a Warsaw Village
Band procura adaptar a música tradicional do seu país à modernidade. Para isso,
misturam melodias de dança, baladas e canções rurais com géneros como a
dub, a trance e o reggae. Os Warsaw Village Band
baseiam-se na tradição musical da Masóvia, retratando a dureza e o isolamento
daquela que é uma das mais pobres regiões da Polónia. Uma herança que vai buscar
a sonoridade à suka (violino polaco do século XVI) e à percussão (já
que estes eram os instrumentos mais baratos e de ritmo mais simples), bem como à
“white voice”, forma habitual de cantar nas montanhas daquele país. Outra das
paixões dos Warsaw Village Band é a de visitar velhos músicos nas pequenas
aldeias para os ouvirem falar sobre as suas tradições e costumes, principal
inspiração para o seu trabalho, que pretende apresentar-se aos jovens como uma
alternativa à cultura de massas.
A jornada musical prossegue com as Värttinä, uma presença já habitual
no programa, que desta vez nos trazem o tema “Katariina”, extraído do álbum
“Aitara”, editado em 1994. A mais conhecida banda da folk contemporânea
finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário e estará a 29 de Julho no
Festival de Músicas do Mundo de Sines, traz-nos uma apelativa mistura de
pop ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são
conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal
feminina e da poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a
Finlândia e a Rússia, reforçando as letras emocionais com os ritmos em
fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O coração do grupo é hoje formado
pelas vozes harmónicas com timbres impressionantes de Mari Kaasine, Johanna
Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que misturam a
instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino,
acordeão, baixo e percussões) com ritmos complexos e arranjos
modernos.
Incursão até à Escandinávia com os Hedningarna e “Ful-Valsen”, tema
recheado de ritmo e groove, com especial destaque para os efeitos
sonoros eléctricos, e que foi retirado do álbum “Kaksi!” (palavra finlandesa que
quer dizer “dois”). Neste trabalho,
A
viagem continua com os Amparanoia, que nos apresentam o tema “Iluminando”,
extraído do álbum “Enchilao”, lançado em 2003. O grupo foi buscar o seu nome à
vocalista Amparo Sánchez, uma das vozes femininas mais típicas do sul de
Espanha. Em 1996, a jovem andaluza criou este projecto musical, que acabaria por
nascer no bairro de Lavapies, em Madrid, e viria a crescer e desenvolver-se em
Barcelona. Apadrinhados por Manu Chao, os Amparanoia têm por lema a expressão
“rebeldia com alegria”. Eles viajam pela tradição espanhola, música balcã e
cigana, passando também pelo rock, cumbia, funk,
reggae, rumba, son, bolero e ska,
sem esquecer o jazz latino com toques electrónicos e toda uma gama de sons
latinos alternativos onde sobressaem a inspiração e a improvisação. O auge do
seu reconhecimento internacional foi o BBC World Music Awards 2005, que os
distinguiu como melhor grupo europeu. Expressando a realidade e lutando por um
mundo mais justo, os Amparanoia continuam em tournée pelos mais importantes
festivais de música do mundo. A 30 de Junho eles vão estar no Festival MED de
Loulé.
A dupla Amadou & Mariam traz-nos agora o tema “Senegal
Fast Food”, extraído do álbum “Dimanche a Bamako”. Bem ao género do afro pop
blues, e com muita guitarra à mistura, este trabalho, produzido por Manu
Chao, está recheado de ritmos africanos, batidas funky, harmonias
suaves e pedaços de reggae, jazz, blues e rock. Se
nos anos 90 foram os Buena Vista Social Club a trazerem para a ribalta a
vibrante música do mundo, agora é a vez deste casal africano. Mariam começou por
cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou era
guitarrista nos Les Ambassadeurs, uma das mais lendárias bandas africanas. Os
dois são invisuais e conheceram-se em 1977 num instituto de cegos em Bamako, a
capital do Mali. A partir de então tornaram-se um casal inseparável na vida e na
música. Ele, o "irmão funky”, na voz e na guitarra eléctrica, e ela, “a
irmã soul”, na voz, formam a dupla mais explosiva da música africana
actual.
Yela estreou-se no MULTIPISTAS com o tema “Dodosya”, extraído do álbum
“Mã Kalou”. Yela, cujo verdadeiro nome é Marie-Christine Daffon, nasceu em
St-Pierre, na parte sul de La Réunion, uma região de administração francesa,
situada a leste do Madagáscar. Yela faz parte de uma geração de artistas
apostados em defender e reinventar o património cultural daquela ilha,
recorrendo para isso ao génio poético da língua creoula e dos ritmos
tradicionais. A sua música mistura o património local (maloya,
séga, salégy, kadrille) com o jazz, o
gospel, as músicas caribenhas e africanas. Yela possui uma voz calorosa
e carregada de emoções, que reflecte o quotidiano, as esperanças, as batalhas ou
as ambições pessoais e colectivas. Um percurso musical onde se contam
colaborações como Manu Dibango, Mario Canonge, Etienne Mbappe, Peter Ntollo
Sagona ou Amadou François Corea. O álbum “Mã Kalou”, editado em 2003, é um
mosaico cultural a través do qual Yela nos faz entrar no seu universo generoso e
optimista.
A
melhor música do mundo vem agora da Índia. Os Alms For Shanti trazem-nos o tema
“Superbol”, extraído do álbum Kashmakash, editado em 2004. Eles foram criados em
Bombaim por Uday Benegal e Jayesh Ganhdi, este último mais conhecido como
ex-vocalista e guitarrista da famosa banda de rock Indus Creed, que
chegou a tocar no festival WOMAD. Eles actuaram lado a lado com John Bom Jovi
para um público de 40 mil pessoas em Bombaim, e em 1996 com Slash, o guitarrista
dos Guns N’Roses, em Bangalore. Os Alms For Shanti, que entretanto se mudaram
para Nova Iorque, são um projecto indiano alinhado com estilos contemporâneos,
criado para explorar a amálgama de texturas, ritmos e melodias tradicionais
indianas, com sons ocidentais. Para isso, juntaram velhos amigos, tendo vindo a
colaborar com alguns dos melhores músicos clássicos indianos como Taufiq e Fazal
Qureshi (irmãos de Zakir Hussain), Ustad Sultan Khan ou Rakesh
Chaurasia.
Entretanto, no MULTIPISTAS continuamos estrada fora ao ritmo da melhor
música do mundo. Para já seguimos “Na Liña da Maré”, um tema de Xosé Manuel
Budiño, extraído do seu terceiro álbum “Zume de Terra”, editado em 2004, onde o
gaiteiro surge lado a lado com Sara Tavares. Um disco de originais, feito com
sumo de terra e mel de tradição, onde Budiño tem também como convidados
especiais os escoceses Capercaillie e Michael McGoldrick e ainda a brasileira
Lilian Vieira, vocalista dos Zuco 103.
Os Boukovo
encerram o programa com o tema “Lo Lovo Horo”, extraído do álbum “Rencontres”,
lançado em 2002 e que pudemos conhecer na edição anterior do MULTIPISTAS. O
grupo foi criado em 1996 pelo clarinetista George Mas, que juntou outros músicos
franceses apaixonados pelos sons dos Balcãs. Estes foram buscar a designação ao
boukovo, um pimento forte produzido numa aldeia macedónia com o mesmo
nome, concentrando-se na procura de um som sem qualquer formatação ocidental.
Seguindo o exemplo das fanfarras ciganas populares na Macedónia, os Boukovo
apresentam uma música enérgica e festiva, carregada de várias influências. Estes
nativos da região da Provença decidiram centrar-se então nos bailes populares da
Grécia, Bulgária e ex-Jugoslávia, em particular no repertório da Macedónia grega
onde o clarinete se pode juntar livremente à dança. E foi numa viagem aos Balcãs
que eles encontraram o acordeonista búlgaro Neno Koytchev, cuja matriz de
repertório búlgaro, macedónio e sérvio dá novas cores à já rica palete sonora
dos Boukovo, que têm participado em inúmeros festivais e concertos em França,
Espanha e Bélgica. Os Boukovo animam numerosas festas das comunidades balcânicas
residentes no sul de França, marcando a diferença pelas suas coreografias
espontâneas, encorajadas pelos musicos que não hesitam em saltar para a pista de
dança.

No
MULTIPISTAS seguem-se os Tarika com o tema “Retany”. Liderados pelo cantor e
compositor Hanitra Rasoanaivo, os Tarika são um dos grupos do Madagáscar com
maior sucesso internacional. A forma única como interpretam as raízes musicais
da sua ilha encaixada no oceano Índico granjeou-lhes fãs em todo o mundo. No
final dos anos 70 um conjunto de bandas pioneiras no uso de sons electrizantes
actualizou ritmos da ilha como o salegy, o watcha watcha, o
tsapika, o sega ou o sigaoma, fazendo rejuvenescer
canções de outros tempos. Neste trabalho editado em 1998, álbum a que chamaram
“D” (palavra que se refere a dihy, o que no Madagáscar quer dizer
“dança”), os Tarika prestam tributo à variedade de estilos de dança do
Madagáscar – recorde-se que cada uma das dezoito tribos deste país tem as suas
danças especiais. As raízes malaio-polinésias misturam-se então de forma moderna
com influências do vizinho continente africano, criando harmonias justas,
grooves flutuantes, melodias contagiosas e danças enérgicas, o que fez
com que os trabalhos dos Tarika conquistassem o topo das tabelas de música do
mundo na Europa e na América do Norte. O álbum integra também danças mais
recentes e algumas composições, incluindo a dança bakabaká, criada
pelos Tarika.
O tema “Monsieur le Maire de Niafunké” é extraído do álbum “In The
Heart Of The Moon”, editado em 2005. Um trabalho que juntou pela primeira vez
dois gigantes da música do Mali: o guitarrista Ali Farka Touré e o maestro da
kora Toumani Diabaté. Ali Farka Touré, o pai dos blues
africanos desapareceu no passado mês de Março, aos 66 anos. Este passou as suas
últimas semanas de vida a concluir “Savane”, um disco póstumo que será lançado
em todo o mundo a 17 de Julho. O trabalho, que contou com as participações do
saxofonista Pee Wee Ellis, antigo colaborador de James Brown e Van Morrison; das
percussões de Faín Dueñas, dos Radio Tarifa; ou de Mama Sissoko, intérprete do
ngoni, um alaúde ancestral, predecessor do banjo, foi gravado no hotel
Mande, o mesmo lugar onde Touré registou com Toumani Diabaté o álbum “In The
Heart Of The Moon”, vencedor de um grammy este ano. Único sobrevivente
de uma família de dez irmãos, razão pela qual os pais lhe terão dado a alcunha
de Farka – que apesar de querer dizer “burro”, na tradição do povo Arma
significa “um animal forte e tenaz” –, Ali Farka Touré fez parte de várias
bandas e foi artista residente na Rádio Mali. Cantava em songhai,
peul, bambara, fula, tamaschek e outras
línguas da região, abertura que lhe permitiu contribuir para a reconciliação
nacional no Mali após a mais recente revolta dos tuaregues. O amor à terra
levou-o a viver durante muitos anos na aldeia de Niafunké, situada na ponta do
deserto do Sara e ao redor do Rio Níger. Como não existia electricidade nem água
canalizada, aí investiu em máquinas agrícolas utilizando todo o dinheiro ganho
com a música. Nos últimos anos, tal como retrata este tema, chegou mesmo a ser
presidente da câmara de Niafunké. O bluesman africano misturava os sons
do Mali, carregados de influências árabes, com reminescências dos blues
americanos, lembrando ao mundo que foi nesta região do globo que nasceram os
blues.
A
melhor música do mundo vem agora da Bélgica com os Think Of One, a primeira
banda sobre rodas. Este grupo multicultural traz-nos o tema “The Veel”, extraído
do álbum “Naft”, editado em 2000. Um repertório que foi gravado em apenas três
dias em De Werf, junto à cidade de Bruges. Os Think Of One misturam de forma
única a música das fanfarras belgas com a folk, o jazz, o
funk, a dub, o reggae, o punk rock ou o
calypso, tendo vindo a aproximar-se de outros universos como o
gnawa marroquino e as sonoridades do nordeste brasileiro. Para
alimentarem o sonho de poderem tocar em qualquer parte do mundo, desde que o
tempo assim o permitisse, em 1999 os Think Of One transformaram uma carinha,
baptizada de Naftmobyl, num palco ambulante com três níveis, amplificação sonora
e iluminação, acrescentando-lhe mais tarde uma roulotte. A
tournée de estreia dos seis elementos do grupo começou em França, com
uma paragem no festival de rua de Avignon para uma festa sonora que se prolongou
por quatro dias, provando que com a sua música alegre é sempre possível dançar
do início ao fim. Os Think Of One, que em 2004 conquistaram um World Music Award
da BBC, vão estar em Loulé a 29 de Junho para participar na 3ªedição do Festival
MED.
Os Hip Hop Hoodios apresentam-nos o tema “Kike On The Mic”, extraído do
álbum “Água Pá La Gente”, uma intrigante mistura de instrumentos clássicos e
modernos. Eles são um famoso colectivo latino-judaico de música urbana, liderado
por Josh Norek e Abraham Velez, que conta com a participação de nomes notáveis
da cena latina e judaica como Santana, Jaguares, The Klezmatics, Orixa, Los
Mocosos, Midnight Minyan e Los Abandoned. Sedeada em Los Angeles e Nova Iorque,
a banda das duas costas americanas foi buscar o seu nome “hoodio” a uma mistura
feita a partir da palavra castelhana judio (que em português equivale a
“judeu”). Produzido por Happy Sanchez, este álbum é o segundo trabalho dos Hip
Hop Hoodios, combinando letras provocadoras, divertidas e inteligentes com
funk latino, música klezmer, cumbia e
hip-hop.
O
programa despede-se com os italianos Tazenda e o tema “Su Dillu Est Goi”,
extraído do álbum “Sardinia”. Este é um trio vocal da região da Sardenha que
alcançou grande sucesso comercial no início dos anos 90 ao participar em duas
edições do Festival de San Remo. O seu uso do dialecto local, juntamente com a
leitura simplificada dos antigos cantos polifónicos – um estilo cujas origens
permanecem incertas mas que constitui uma das principais formas musicais da
Sardenha –, provou ser um passo importante na aproximação dos Tazenda ao
auditório italiano. Um toque exótico com que o grupo se abriu ao mundo. A sua
música possui uma estrutura pop-rock, misturando-se com instrumentos
tradicionais como a launeddas (uma espécie de flauta) e com sons
electrificados, fazendo do seu universo sonoro uma das mais bem sucedidas
experiências de música do mundo que ocorreram em Itália na última
década.
Os
Dengue Fever com “We Were Gonna”, um tema extraído do álbum “Escape From Dragon
House”, editado em 2005. Nos últimos sessenta anos o rock, com as suas
notas de guitarra e percussões, influenciou profundamente numerosos géneros
musicais e artistas que o misturaram com híbridos funky de todo o
mundo. Foi o que aconteceu com os Dengue Fever, um sexteto de Los Angeles,
liderado pela estrela da pop do Cambodja Ch’hom Nimol. Estes cantam em
khmer, juntando os ritmos da pop cambodjana dos anos 60 –
altamente influenciada pelo rock americano e pelas primeiras bandas de
garagem psicadélicas do vizinho Vietname – com a sua própria panóplia eclética
de estilos. A música dos Dengue Fever inclui ecos das bandas sonoras de
Bollywood, soul etíope, rhythm & blues americano e
folk do Cambodja. São sons locais misturados com rock de todo
o planeta.
Thierry
Robin, mais conhecido por Titi, traz-nos um tema extraído do álbum “Alezane”,
editado em 2004. Uma antologia das gravações realizadas ao longo de doze anos
por este músico, natural do sul de França, e que abrange 25 anos de composição.
O arranjo do tema tradicional Neem remete-nos para o pungi, o
instrumento do encantador de serpentes usado no Rajastão, que aqui é tocado por
Banwari Baba, tendo como acompanhamento a voz de Saway Nath, um dos mais
inventivos cantores da comunidade Kalbeliya daquele estado indiano.
No
tema “Iledeman”, extraído do álbum “Introducing Etran Finatawa”, editado este
ano, os Etran Finatawa levam-nos por uma travessia no deserto. Uma música que
faz referência a uma famosa duna situada junto à cidade de Tchin-Tabaradene, no
noroeste do Níger. Poderosa e hipnótica, a música dos Etran Finatawa combina
instrumentos tradicionais e canções polifónicas dos wodaabe e dos tuaregues com
arranjos modernos e guitarras eléctricas, criando um som único e inovador que
demonstra como nas suas culturas a música continua a ser um meio terapêutico. Em
2004, seis músicos wodaabes e quatro tuaregues juntaram-se para formar esta
banda. Os tuaregues e os wodaabe são dois dos grupos étnicos nómadas que vivem
na savana do Sahel, no sul do Sáara. Uma região que durante milhares de anos foi
ponto de passagem entre os árabes do norte de África e as culturas sub-sarianas.
Enquanto que os wodaabe são nómadas do deserto, conhecidos pelos seus rebanhos e
gado; os tuaregues são famosos criadores de camelos, facilmente identificáveis
pelas pinturas no rosto. E apesar das suas culturas e línguas serem muito
distintas, os Etran Finatawa (As Estrelas da Tradição) ultrapassaram as
fronteiras étnicas e o racismo, trabalhando juntos para construírem um futuro
melhor para os seus povos. Entretanto, a banda tornou-se famosa no Níger e foi
convidada para participar em festivais no Mali e em Marrocos, tendo no ano
passado feito uma tournée pela Holanda, Alemanha e Suiça.
Os Milladoiro trazem-nos o tema “Muiñeira de Chandada”, extraído do
álbum “Castellum Honesti”, editado em 1991. Um trabalho de temas tradicionais
galegos, gravado dois anos antes em Dublin, na Irlanda. Em 2005 os oito membros
do grupo festejaram os 25 anos de actividade. Durante este período de tempo eles
editaram 17 discos, deram mais de mil concertos em todo o mundo e realizaram
diversos trabalhos para o cinema, teatro e televisão, tendo tocado lado a lado
com músicos como os The Cheiftains, Liam O'Flynn, Oskorri, Fuxan Os Ventos,
Susana Seivane ou Emilio Cao. Os Milladoiro representam não só um género
musical, mas também a língua e a forma de ser dos galegos (não é por acaso que
eles são considerados a voz da terra, a voz que vem mais além da história). A
paixão deste grupo pela música e pela Galiza tem como referência o caminho de
Santiago, isto porque os milladoiros eram quem guiava os pasos dos
peregrinos até Compostela. Os Milladoiro transformam os ritmos e melodias
tradicionais da Galiza em música contemporânea sem fazerem concessões à
pop ou fusões com géneros similares. A sua música baseia-se nas
influências europeias deixadas na região, herança que tem sido transmitida ao
longo de várias gerações anónimas de músicos tradicionais. Para além de evitar o
cliché celta, a mítica banda galega reivindica os seus ingredientes provençais,
centro-europeus e mesmo árabes. Depois de 25 anos a tirarem o pó a cancioneiros
e melodias, os Milladoiro continuam a fazer com que as heranças musicais da
Galiza não caiam no esquecimento.
Emir
Kusturica e a The No Smoking Orchestra apresentam-nos um tema extraído do álbum
“Unza Unza Time”, lançado em 2000. Uma música onde predominam os instrumentos
típicos do folclore cigano, mas onde há também espaço para o rock
acompanhado da guitarra, do baixo, da balalaica, da tuba, do saxofone, do
acordeão e do violino. Nascido em Sarajevo, hoje capital da Bósnia Herzegovina,
Emir Kusturica pertence a uma família bósnia muçulmana, mas de origem eslava
ortodoxa. Tal como a maioria dos jugoslavos, o seu pai trocou a fé pelo
comunismo. Emir, por seu lado, trocou o comunismo pelo cinema, sendo hoje
mundialmente conhecido pelas suas curtas e longas-metragens. Em 1986, ele
juntava-se à Zabranjeno Pusenje, uma banda polémica, fundada por Nelle Karajic,
que seria censurada pelas autoridades depois de Karajic ter feito piadas sobre
Tito, o então ditador jugoslavo. Os arranjos do grupo iam do folk
progressivo dos Jethro Tull ao punk dos Sex Pistols, mas com a entrada
de novos membros e a mudança para Belgrado, a capital da Sérvia, a banda decidiu
valorizar a diversificada música dos Balcãs. Em 1994, durante o conflito no
país, junta-se ao grupo o jovem Stribor, filho de Emir Kusturica. É então que a
formação se fragmenta em duas: uma que mantém o nome original, e outra que
adopta a designação inglesa: The No Smoking Orchestra. Além do servo-croata, a
orquestra, que em palco é barulhenta, electrizante e desordeira, também usa o
alemão e o inglês nas suas canções. Um género de música que Emir Kusturica
classifica de “unza unza”, definição tão impronunciável quanto
esclarecedora…
Os
ucranianos Haydamaky, que nos apresentaram o tema “Listopad”, levam-nos pelos
caminhos do ska das montanhas dos Cárpatos, do reggae, do
punk hutzul e do dub machine, misturando-os com a
folk ucraniana. Após o colapso da União Soviética e a independência da
Ucrânia, um grupo de estudantes criava a banda Aktus, que rapidamente conquistou
um lugar de destaque no underground musical de Kiev. No início do novo
século, em honra à rebelião histórica do século XVIII, mudaram o nome para
Haydamaky. Para além dos espectáculos que têm feito em toda a Europa de Leste,
em 2004 apoiaram a revolução laranja que mobilizou a Ucrânia, tendo um dos seus
temas sido muito rodado nas estações de rádio alternativas. No seu terceiro
álbum “Ukraine Calling”, editado este ano e em que se dão a conhecer ao
ocidente, os Haydamaky combinam raízes ucranianas com standards
europeus. E como podemos confirmar neste tema, a sua música é caracterizada
por energia turbulenta e por uma montanha russa de
melodias.
A melhor
música do mundo vem agora da Filândia com Maria Kalaniemi e os Aldargaz, que nos
trazem um tema de dança extraído do álbum “Ahma”, editado em 1999. Esta
maestrina do acordeão começou a tocar aos oito anos. Aos 19, depois de gravar um
álbum de temas da música tradicional filandesa, junta-se ao programa de música
folk da Academia Sibelius, em Helsínquia, onde, para além do acordeão,
estuda violino, bandolim, composição e arranjo. No mesmo ano, Maria Kalaniemi
apoia a formação do ensemble acústico Niekku, cuja síntese entre a folk
e a contemporaneidade os levou para a linha da frente da nova folk
filandesa. Já em 1995 funda os Aldargaz, um sexteto de músicos da mesma
academia. Adepta da improvisação, Maria Kalaniemi é também membro do colectivo
internacional de acordeonistas Accordion Tribe, do grupo de música
sueco-filandesa Ramunder e da orquestra de tango UNTO. O seu reportório vai da
música clássica às raízes da folk de dança filandesa, passando pelo
jazz, rock e pop. Neste álbum, o acordeão de Kalaniemi,
instrumento que ela diz ser em simultâneo dinâmico e dinamite, junta-se à
guitarra acústica, ao bandolim, ao violino, ao piano, e ainda ao trompete, ao
trombone e ao saxofone.
Lucien N Luciano fecha o programa com o tema “Amelie On Ice”, uma
reinterpretação da banda sonora criada por Yann Tiersen para o filme francês “O
Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Lucien N Luciano, cujo verdadeiro nome é
Lucien Nicotet, é DJ desde 1993 e produtor desde 1997, sendo um dos pioneiros da
cena musical electrónica na América Latina. Para além das actuações ao vivo em
rádios e clubes de Santiago do Chile, Luciano tem também marcado presença
noutros países da América do Sul, bem como na Alemanha, em Espanha e na Holanda.
O músico, que está representado em cinco editoras, vive desde 2000 em Genebra,
na Suiça. Nos seus trabalhos, Lucien N Luciano mistura a identidade chilena e
suiça, criando uma mística junção de techno profundo e música
electrónica, integrando elementos do sul nos ritmos e padrões coloridos no som.
Um estilo experimental e espaçoso, cuja marca assenta no groove e no
minimalismo.
Os futuristas Afro-Celt Sound System trazem-nos um tema extraído do
álbum “Release”, lançado em 1999. Neste seu segundo trabalho, a banda mistura a
harpa, a kora, a tama, o bodhrán, o djembee,
o tin whistle e a guitarra com vozes gaélicas e africanas, colocando-os
num contexto pan-europeu. E é precisamente neste disco que os Afro Celt Sound
System afirmam pela primeira vez o seu estilo único, enraizado em antigas
tradições musicais mas às quais acrescentam sons e batidas futuristas. Exemplo
disso, o tema “Lovers Of Light” actualiza o conceito do reel (o mais
comum e rápido tipo de melodia celta) sem perder o espírito de pioneiros deste
género musical como The Bothy Band e Moving Hearts. Os Afro Celt Sound System,
que em 2003 encurtaram o nome para “Afro Celts” até acabarem por readquirir a
anterior designação, criaram um mundo musical onde vozes africanas, irlandesas e
escocesas se misturam com a estrutura da pop, a força do rock
e a euforia da dança, combinando outros géneros modernos como o
trip-hop e o techno com a energia e a alegria dos ritmos
celtas, africanos, marroquinos e do leste da Europa. É desta forma que os
nómadas Afro-Celt Sound System, um dos mais inovadores e ecléticos grupos dos
anos 90, dão sentido à expressão world pop music.
Os Ba
Cissoko trazem-nos um tema extraído do álbum do mesmo nome, um trabalho
incandescente, produzido pelo músico eclético Malagasy Tao Ravao. Os Ba Cissoko
são quatro jovens guineenses de ascenção griot - os conhecidos
contadores de histórias que imemorialmente percorrem a savana africana para
transmitirem ao povo a sua história. Eles treinaram em Conacri, na Guiné, com o
mestre da kora M’bady Kouyate, e vivem actualmente na cidade francesa
de Marselha, tendo tocado em inúmeros espectáculos e festivais. Comparada aos
sucessos pioneiros de Mory Kanté, a sua música mistura bonitas canções da era de
ouro da cultura mandingo com sons únicos urbanos, cáusticos e cheios de
groove. A formação instrumental dos Ba Cissoko consiste em duas
koras, um tocador de baixo e um
percussionista.
Atrás os
Balkan Beat Box e o tema “Ya Man”, extraído do seu álbum de estreia, editado em
2005. Uma mistura enérgica e ousada de melodias folk do norte de
África, Israel, Balcãs e Europa de Leste, de letras bizarras e de batidas
electrónicas. A banda, que chega a ter 15 músicos – um terço deles oriundos da
Europa – é formada pelos israelitas Tamir Muskat e Ori Kaplan, que têm
trabalhado com músicos e compositores da Turquia, Israel, Palestina, Marrocos,
Bulgária e Espanha. A filosofia dos Balkan Beat Box é a de acabar com as
fronteiras políticas na música, fazendo folk de forma contemporânea. E
assim eles juntam a música electrónica e os sons tradicionais dos Balcãs, bem
como o hip-hop e as sonoridades do norte de África e do Médio Oriente.
Tudo começou em Israel, onde assimilaram os standards folk, do
klezmer às melodias búlgaras, passando pelos ritmos árabes. No final
dos anos 80, Ori e Tamir partem para Nova Iorque, onde descobrem o
gypsy-punk e acabam por misturar as suas raízes mediterrânicas com
outras culturas.
Os
Polvorosa apresentam-nos o tema “Behind de Mi House”, extraído do álbum “Radical
Car Dance”. Para Daniel Puente o idioma nunca foi um obstáculo. E é por isso que
desde que chegou à Alemanha que o músico chileno se encarregou de dar destaque
às suas raízes latinas: primeiro com o grupo “Niños con Bombas”, o qual se
dissolveu em 1999; e mais tarde, de novo em Hamburgo, com os “Polvorosa”, banda
que formou juntamente com os alemães Trillian e Norman Jankowski. Este trio
multicultural, residente em Barcelona, mistura a pop, o rock
alternativo, a música electrónica e o latin groove para dar vida ao que
chamam de elektrolatino. Para além dos ritmos baseados na tradição e
nas raízes latinas, neste álbum eclético os Polvorosa não esquecem o
funk, o hip hop e o pop-rock
alternativo.
Os Illya Kuryaki & The Valderramas apresentaram-nos o tema “Latin
Geisha”, extraído do álbum “Leche”, gravado em Buenos Aires. Em 1991, quando
nenhum grupo latino-americano tinha pensado criar uma música e fazer um
rap com ela, eis que surge o duo de rapper's Dante Spinetta e
Emmanuel Horvilleur, uma carreira comum que se prolongaria por dez anos.
Preocupados em romper tradições, eles começaram por embarcar no rap e
no acid jazz, criando letras irónicas e melodias inesquecíveis.
Posteriormente inclinar-se-iam também para a soul e para o
funk. Em 1987, quando tinham 11 e 12 anos, Dante Spinetta e Emmanuel
Horvilleur decidem formar com os seus três irmãos mais pequenos os Pechugo, uma
versão roqueira dos Menudo. Mais tarde, afastam-se e formam então os Illya
Kuryaki & The Valderramas. O álbum “Leche”, editado em 1999 e que vendeu 30
mil cópias no México, é um disco feito de música negra, calentura funk
e baladas kuryaki. São canções transpiradas, com muito sexo e muita
carne, num trabalho em que contaram com a colaboração do mítico Bootsie Collins,
baixista dos Funkadelic, de Tom Russo e de Tom Tucker. Quando se pensa no
rock sul-americano dos anos 90, há nomes que nunca se poderão esquecer.
E um deles é o dos Illya Kuryaki & The
Valderramas.
A
melhor música do mundo vem agora da Polónia com os Warsaw Village Band, e o tema
“W Boru Kalinka” (Na Floresta), extraído do álbum “Uprooting”, editado em 2004.
Um exemplo da herança musical polaca, feita de vozes selvagens e de timbres
crus, mas orientadas para a modernidade com o dub, a trance e
o reggae. Aqui a experimentação não é uma restauração das componentes
rítmicas e melódicas do passado, mas antes um itinerário estilístico a que
alguns críticos chamaram de new folk. A Warsaw Village Band foi fundada
em 1997 por seis jovens que tocavam violino, suka (violino polaco do
século XVI), violoncelo e vários instrumentos de percussão. O seu reportório
consiste em melodias de dança folk, baladas e canções rurais,
dando-lhes uma estética mais moderna. O resultado é um novo estilo de música
chamado de bio-techno ou mesmo hip-hopsasa (o que em polaco
quer dizer “vamos dançar”). Algo que também pode ser descrito como hard'cora
of obora (hard-core da vacaria). Os Warsaw Village Band foram já
galardoados em muitos festivais folk na Polónia, tendo ganho em 2004 o
BBC Radio 3 World Music Award na categoria de revelação. Para além da música,
eles preocupam-se em rebuscar as raízes polacas condenadas ao esquecimento e que
podem enriquecer a cultura contemporânea. A sua paixão é viajar até pequenas
aldeias e visitar velhos músicos para os ouvirem falar sobre as suas tradições e
costumes, principal inspiração para o seu trabalho, que pretende apresentar-se
aos jovens como uma alternativa à cultura de massas.
Kim
Larsen dá-nos a conhecer o divertido “Køb Bananer”, um tema extraído do álbum
“Kim I Circus”, gravado ao vivo em 1985. Este músico dinamarquês nasceu em 1945
em Copenhaga, sendo um dos mais populares do seu país. Inspirado pelos Beatles e
pelo rock’n’roll, Kim Larsen começou a compor e a tocar guitarra. Em
1969 conhece Franz Beckerlee e Willi Jønsson, com quem funda os Gasolin,
agrupamento a que mais tarde se juntaria o percussionista Søren Berlev,
tornando-se numa das mais conhecidas bandas de rock da Dinamarca, a
qual desapareceria no final dos anos 70. Em 1986 o músico funda a banda Kim
Larsen & Bellami, com a qual lança quatro trabalhos até esta desaparecer em
1992. Em 1995 muda-se para Odense, a terceira maior cidade dinamarquesa,
alcançando novos sucessos com a sua nova banda Kim Larsen & Kjukken e o
produtor sueco Max Lorentz. Nos anos 70, fruto das influências anglo-saxónicas,
os géneros populares da música dinamarquesa começam a divergir. Muitos músicos
de rock adoptam então composições que reflectem de forma mais realista
os ideais e a realidade social da Dinamarca. Foi esse o caso dos Gasolin, que
deram à música dinamarquesa um ritmo e lhe devolveram a sua língua nativa. Desde
os anos 80 que Kim Larsen lançou vários álbuns a solo e que tiveram grande
sucesso. Ao todo, estes representam cerca de 3 milhões de discos. Um feito
extraordinário, já que a actual população dinamarquesa ronda os 5,4 milhões de
habitantes.
Despedimo-nos com os Moulinettes e a versão beach barbecue do
tema “Herr Rossi Sucht Das Glück”, um dos singles mais conhecidos desta formação
alemã. Claudia Kaiser, Barbara Streidl e Kiki Lorrig-Wossagk são três raparigas
de Munique, cujo estilo sonoro sofisticado aconchega e acalma. O nome desta
música, para a qual criaram três versões diferentes, pertence a um desenho
animado famoso. Depois do seu álbum de estreia "20 Blumen" e do single "Herr
Rossi Sucht Das Glück", que curiosamente foi um grande êxito no Japão, as três
senhoras juntaram-se a Martin Lickleder. Nas letras, para além do alemão,
atrevem-se ainda pelos caminhos linguísticos do inglês e do italiano. A sua
música, divertida, dançável e repleta de vozes em coro, bebe influências da
pop dos anos 60. Uma boa banda sonora para as tardes e noites de
verão...
Viagem até à Escandinávia com os Hedningarna e o tema “Vargtimmen”. Ao
longo dos anos 90, os Hedningarna estiveram na linha da frente no que toca à
renovação da folk sueca. Outro dos feitos dos quatro elementos
deste
Nova incursão até ao norte da Europa, desta feita com os
embaixadores do suomirock. Os Värttinä, a mais conhecida banda da
folk filandesa, trouxeram-nos o tema “Synti” (O pecado), trabalho
extraído do álbum “Miero”, editado este ano. Com mais de vinte anos de carreira,
os Värttinä são conhecidos por terem inventado um estilo baseado nas raízes
rúnicas e carélicas, nos cantos femininos de várias tribos ocidentais e na
poesia antiga. Da imagem do grupo fazem parte a instrumentação acústica
tradicional e contemporânea, os ritmos complexos, bem como as composições e os
arranjos originais. Uma palete sonora que tem vindo a crescer. Neste seu último
álbum, os Värttinä exploram melodias ciganas e a música klezmer, entre
outras, deixando para trás os arranjos pop.
Agora chega-nos a nova corrente da world music magrebina com a
Orchestre National de Barbès, e o tema “Dor Biha”, extraído do álbum “En
Concert”, gravado ao vivo em 1996 no teatro de Agora, em Evry. Composta por
cerca de vinte elementos, entre eles Youcef Boukella e Aziz Sehmaoui, a
Orchestre National de Barbès faz uma síntese de diferentes idiomas musicais. E
porquê este nome? Barbès é o nome de um bairro parisiense, maioritariamente de
população árabe e africana, localizado junto ao Sacré-Cœur. Em palco, os músicos
apresentam de forma festiva a sua herança musical, combinando dezenas de estilos
– acústico, eléctrico ou traditional –, com o espírito pop. Por entre o
raï, o jazz, a funk e os cantos tradicionais, os sons do
Magrebe encontram-se com a afro-beat, as percursões árabes e a
salsa, misturando ainda os balafons sul-africanos, as
guitarras eléctricas, os acordeões e a voz abrasadora de Larbi Dida, lenda do
raï.
O
célebre Cheb Khaled traz-nos o tema “Minuit”, extraído do álbum “Kutche”,
editado em 1989. O músico estreou-se no primeiro festival de raï de
Orán, em 1985, altura em que o regime argelino tentava suavizar-se, resgatando
da clandestinidade este género do folclore nacional. Um ano depois, Khaled
muda-se para França. Em “Kutche”, o seu primeiro álbum, evolui para o mundo do
jazz e da pop. Neste tema, um infernal tango raï, o melodista
de bigode dá uma amostra do que se seguiria nos anos seguintes: um universo
festivo onde a pop se combina com as raízes do raï e do
chaâbi. Às improvisações vocais de Khaled, que conta com o apoio do
compositor argelino Safy Boutella e do produtor francês Martin Meisonnier,
juntam-se instrumentos tradicionais como o alaúde árabe, o violino ou o
acordeão, bem como diferentes tipos de percussão.
Os
polacos Blue Café trazem-nos o tema “Łap Mnie Bejbe”. Precisamente o segundo
single do grupo que é acompanhado pela voz de Tatiana Okupnik. A música seria
integrada no álbum “Fanaberia”, editado em 2002. Do blue jazz ao
bluegrass, os Blue Café misturam géneros e influências como o
funky e o hip-hop. Em 2001 eles receberam o prémio Fryferyk de
revelação do ano. Depressa o seu talente ultrapassaria as fronteiras polacas,
país onde um dos seus discos vendeu mais de 70 mil cópias, algo que já não
acontecia desde o sucesso de Kayah & Goran Bregovic. Já em 2003, lançam um
álbum de temas em polaco, inglês, francês e castelhano, onde se inclui a "Love
Song", canção que integrou a lista dos temas escolhidos para representar a
Polónia no Festival da Eurovisão. Em Maio de 2004, o grupo esteve em Bruxelas e
em Lille nos concertos de celebração da entrada da Polónia na União
Europeia.
Atrás Igor Vdovin com “Russian Sailor’s Trip In Brazil”, um tema
extraído do álbum “Gamma”, editado em 2003. São sons que misturam o future
jazz, a jazzdance e a música electrónica. Em 1997, Igor Vdovin
fundou com Sergei Shnurov a lendária banda de ska e folk punk
Leningrad. Decorrido apenas um album, o ex-vocalista abandona o projecto. Em
1999 foi então convidado pelo amigo Oleg Gitarkin para integrar como teclista a
banda Messer Chups. Mas mais uma vez, este não é o rumo de Igor Vdovin, que se
dedica então à música electrónica, gravando um primeiro álbum em 2001 com uma
editora japonesa. Uma opção que viria a dar os seus frutos, isto porque na
Rússia Igor Vdovin se tornaria um dos mais respeitados e solicitados músicos do
campo da electrónica.
Rumamos
agora até ao Pais Basco com os Oskorri e o tema “Horra Hor Goiko”, extraído do
álbum “25 Kantu Urte” (25 anos de música), gravado ao vivo em 1996 no Festival
Folk de Getxo. Um espectáculo em que participaram também músicos como Kepa
Junkera (País Basco), Gabriel Yacoub (França), Martin Carthy (Inglaterra),
Patrick Vaillant (Provença) ou Anton Reixa (Galiza). Os membros dos Oskorri, que
começaram por ser um grupo universitário, são originários de universos sonoros
tão distintos como o jazz, a pop ou a música brasileira. E mesmo sem
conhecerem a língua euskera, aceitaram o desafio de fazer renascer o folclore
basco. Nas suas letras e canções, o emblemático grupo de Bilbao baseia-se
sobretudo em fórmulas rítmicas e métricas tradicionais.
Mathieu
Boogaerts, que nos traz o tema “Ondulé”, extraído do álbum do mesmo nome, o qual
foi editado em 1995, é um jovem atípico no universo da música francesa. Ele
cultiva um repertório intimista e minimalista, de certa forma ingénuo e quase
infantil, mas recheado de poesia, ligeireza sonora e canções subtis. O jovem,
que formou o seu primeiro grupo aos 13 anos e aos 18 abandonou a escola para
fazer música na cave dos seus pais, partiu então em viagem pelo mundo,
centrando-se no continente africano. Durante uma estadia de 6 meses no Quénia,
acaba finalmente por escrever alguns temas. Entre eles está uma canção de ritmo
simples e com balanço: "Ondulé". De regresso a Paris, concebe com alguns amigos
um videoclip em redor deste título, onde lhe irão cortar o cabelo e a
barba diante da câmara. O tema acaba por agitar a paisagem musical das rádios, e
inúmeros festivais disputam então as atenções do
cantor.
Este grupo
galego traz-nos o tema que dá nome ao seu primeiro álbum “Navicularia”, editado
em 1996. Este trabalho, em que os Berrogüetto trabalharam lado a lado com
músicos como o arménio Jivan Gasparian, o sueco Markus Svensson ou o húngaro
Kalman Balogh, foi aclamado pela crítica e ganhou vários prémios internacionais.
Os “sete magníficos” dizem ser uma fábrica de ideias em que a música se funde
com outras artes na busca de elementos sonoros
inovadores.
Este grupo traz-n
Os Kekele trazem-nos um tema extraído do álbum “Congo Life”, editado em
2003. Este grupo de veteranos, liderado pelo guitarrista Papa Noel Nono Nedule,
é formado por Syran Mbenza, Nyboma e Wuta Mayi, os quais nos anos 80 fizeram
parte dos Les Quatre Étoiles, pioneiros do soukous. Juntam-se a eles
Bumba Massa and Loko Massengo, intérpretes em várias bandas congoloesas e
performers a solo, bem como o guitarrista Rigo Star e o produtor
François Bréant. Os Kekele recriam a rumba congolesa dos anos 60, 70 e
80 com tecnologia moderna, dando uma aparência totalmente acústica ao som
eléctrico do soukous dos anos 80 e 90. São sons bem ao estilo da cubana
charanga, das orquestras de cordas da Martínica e do barroco europeu,
que se encaixam nas delicadas e deliciosas melodias
congoloesas.
Lila Downs trouxe-nos um tema extraído do álbum “Tree of Life”, editado
em 1999. A cantora nasceu nas montanhas de Sierra Madre, no sul do México, e
passou a sua adolescência em Los Angeles, nos Estados Unidos. Começou por cantar
canções mariachi aos oito anos de idade, e ainda pensou ser cantora de ópera, o
que é fácil de perceber na sua voz. Ainda chegou a estudar voz e antropologia na
universidade, mas abandonou tudo quando decidiu “juntar-se ao mundo”. Foi já nos
anos 90, qu